segunda-feira, 26 de outubro de 2015

EXCELÊNCIA E ÁGUA FRESCA >> André Ferrer

Nosso país é relativamente novo. A História de outras nações, no entanto, pouco tem servido de lição por aqui.  O que poderia ser encarado como um privilégio — todos aqueles anos de tentativas e erros cometidos mundo afora à disposição!  é, quando muito, subaproveitado no Brasil.

"Zé Carioca e o goleiro Gastão", Disney, 1961
Estuda-se pouco. Na maioria das vezes, o suficiente para o canudo. Trabalha-se muito. Sim, no Brasil, trabalha-se muito, porém com qualidade e frequência risíveis.

Em torno de alguns negócios bem sucedidos por aqui, alardeia-se a implantação da excelência estrangeira, principalmente a norte-americana. Oh, my gosh! Olhe mais de perto. Take a closer look! Assim, como o próprio Monument Valley numa fita de John Ford, descortina-se a realidade: I'm sorry, but you cheated. O homem do marketing te pegou! O único contato com a legítima excelência ianque, no mínimo, te custará a obtenção do green card e duas décadas, pelo menos, da mais honesta imersão num vilarejo cravado nos rincões de Utah.

Por falar nisso, Utah é o 45° Estado americano e foi levantado no meio do deserto. Seus fundadores foram os mórmons (quase 70% da população atual). Donos de um estoicismo admirável, os pioneiros enfrentaram uma terra bem mais árida do que, por exemplo, a caatinga brasileira. Utah, entretanto, só repete (e de maneira admirável) o processo de ocupação territorial que o cristão protestante realizou, a partir da independência, na maioria dos 50 Estados daquele país.

Nas escolas brasileiras, ensina-se essa História americana sob o viés do “coitadismo”. Enquanto se apresenta Borba Gato e Domingos Jorge Velho como heróis nacionais, o pioneiro norte-americano aparece como um matador de bisões (antiecológico quando o termo ecologia sequer existia) e de... índios (Domingos Jorge Velho, para quem não sabe, colecionava orelhas de nativos)! Sim, porque o foco não é contextualizar o bandeirante ou o colono ianque e ensinar o aluno a pensar, mas propagar a autocomiseração justificada pelo antiamericanismo. De fato, a pedagogia do oprimido a serviço da opressão. Muda-se apenas o opressor e a tal da revolução libertadora fica só no discurso.

Por que raios, no lugar desse palavrório maniqueísta, não se aprofundam os estudos em busca da verdade? Ora, porque a verdade sobre um povo guerreiro, que valoriza a excelência, o mérito e o suor do seu rosto (e olha torto para a indolência) não serve àqueles que, em vez de educar, desejam minar a inteligência com o intuito de multiplicar a submissão.

Abraçamos o cheeseburger, o For Sale, os rodeios, o Halloween e, de uns anos para cá, o Black Friday. Todas essas coisas, enfim, que já estão assimiladas e entranhadas no dia a dia do brasileiro ou, pelo menos, em vias de. OKAY? Mas não paramos no fast-food e nas confraternizações da nossa turma do inglês.

Um artigo que se importou muito por aqui, dos anos de 1950 para cá, foi o protestantismo à moda norte-americana, o neopentecostalismo. 


Domingos Jorge Velho num bilhete
da Loteria Federal durante a década de 1970
Na década de 1980, dizia-se que o Brasil se tornaria uma grande potência caso a maioria católica perdesse espaço para eles. Mentira. Seria verdade se, além de televangelistas como Jimmy Swaggart (e o know-how que, hoje em dia, é usado e abusado por um sem número de igrejinhas caça-níqueis), viesse para cá, por exemplo (sim, há muitos exemplos que caberiam perfeitamente aqui, como os já referidos mórmons, os batistas, etc.), a doutrina que John Wesley enviou aos EUA recém-independentes pelas mãos de alguns missionários. Em resumo, o protestantismo como um fenômeno que transformou os EUA numa grande potência, e que, infelizmente, não se reproduziu e jamais se reproduzirá aqui.

Por que é tão difícil, para muitos, observar o mundo e retirar dele boas lições independente se as lições venham do amigo ou inimigo? É viável ser capitalista e contemplar as questões sociais. É bem possível ser um antiamericano e aprofundar o tema sem patifarias doutrinadoras. Inúmeros elementos da cultura ianque fazem parte das nossas vidas. É lindo. Lindo mesmo. Seria muito, entretanto, acrescentar alguns itens a esse festivo abraço à sequoia gigante? Por exemplo: um pouco de pragmatismo. Que tal? Hein? E que tal, ainda, esquecer a divina providência política, o clientelismo, o “coitadismo”, arregaçar as mangas e fazer por onde?!

Nada melhor, no final do dia, do que olhar em cima da mesa e sentir orgulho do dinner, aquele T-bone steak besuntado de barbecue sauce... aquelas batatas fritas. Não é mesmo?!


Partilhar

3 comentários:

Analu Faria disse...

"É viável ser capitalista e contemplar as questões sociais." Excelente!

Zoraya disse...

"a pedagogia do oprimido a serviço da opressão. neopentecostalismo. É viável ser capitalista e contemplar as questões sociais." Analu, eu selecionei essa tb. O André, qdo tá de veia aberta, sai de baixo!
Vc devia abrir um 'soul wash", André.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Quem sabe até um pouco de NBA em nosso futebol... :)