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Mostrando postagens de Dezembro, 2020

A MULHER DA ÁRVORE - PARTE 06 >>> Nádia Coldebella

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DANTESCAMENTE Um pássaro preto surgiu com um chinelo azul no bico... - Mamãe! Mamãe! Não! Mamãe! A pequena Carolina acordara aos berros. Tudo bem, o pai já estava próximo a caminha. Elísio não dormia direito desde a partida de Vilma, então socorrer a filha não era um grande sacrifício. Na verdade, ele lutava para se manter acordado e ansiava pelos momentos dos pesadelos que se repetiam noite após noite, pois serviam para desviar, por algumas horas, os pensamentos que vinham abarrotando sua mente. Na primeira noite da partida de Vilma, ele dormira no quarto do casal. Os gritos de Carolina o trouxeram vagarosamente do asfixiante túnel que o havia engolido durante o sono - um túnel que ainda tentaria subjugá-lo cada vez que fechasse os olhos. A cabeça doía, ele estava nauseado e sentia uma convulsão aproximar-se e, se aos poucos não recobrasse a consciência, um observador atento pensaria que a causa daquele estado mental seria a inalação de algum tipo de gás tóxico.  No quarto ele se depa

NÃO QUERIA NARRAR TAL DESFECHO >> Carla Dias

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O que ficou para trás, que nem mesmo em lista de desapego entrará. Aquilo tudo que fez com que ele voltasse ao início, tantas vezes, quando estava claro que o caminho era aquele, só que ele não quis reconhecê-lo. Não importa o motivo, se era próprio ou forjado pela realidade. Ele não quis continuar. Ou talvez não soubesse como. Há muitos que não sabem como. Há tantos que não têm ideia de que não sabem como, e seguem como se soubessem de tudo. Sim, eu mesma. A narradora intrometida, que, pela primeira vez, se tivesse escolha, não narraria, tampouco se intrometeria em uma história. Nessa história. Fim de tarde. Ele sabe viver sem sol. Ele não faz tanta questão de que o tal se mostre sempre presente. Prefere o sol como visitante oportuno: secar as roupas, avivar as plantas, colorir o dia. No entanto, eventualmente gosta de sol em fim de tarde, quando ele apresenta a noite, e seu episódio de pôr-se dura mais do que um episódio de série de televisão. A questão é que ele anda cansado do quan

FELIZ ANO NOVO... OU NÃO >> Clara Braga

Quando chega o final do ano, é comum as pessoas começarem a famosa lista de resoluções de ano novo! Mais comum ainda é a lista só ser levada à sério durante o mês de janeiro, aí a pessoa passa o ano todo esperando chegar dezembro para fazer uma nova lista e "começar de novo"! Não julgo, eu sou quase assim! Mas, esse ano fiz algo bem diferente!  Já na primeira quinzena do mês, tinha em mente toda a minha lista! E essa foi a primeira diferença da lista desse ano: decidi não fazer lista no papel, vai ser só mental mesmo, não quero correr o risco de ficar novamente olhando uma lista cheia de coisas que não aconteceram e não vão acontecer por tempo indeterminado! A segunda diferença desse ano em relação aos outros é que a lista é curta, tem apenas o básico, assim, posso ir construindo e desconstruindo - por que não? - essa lista ao longo dos meses, e o que for feito vai ser lucro! E a terceira e mais importante mudança é: já comecei a colocar os itens da lista em prática! Agora vo

RETROSPECTIVA? >> Albir José Inácio da Silva

  Esta época costuma ser plena de festas e retrospectivas, mas as duas palavras parecem excludentes neste ano. Talvez haja alguma coisa a comemorar em termos pessoais, mas, como raça humana, é tempo de sacrifício e medo. Até as coisas positivas, como as vacinas, são tentativas ainda. E, por mais que tragam esperanças, ainda não temos resultados. Se forem ótimos, restará o desafio de vacinar todas as pessoas. A última vez em que ficamos nessa encruzilhada foi há oitenta anos com o avanço do fascismo no mundo.   Naquele momento não se sabia aonde as hostes nazistas ou a reação a elas poderiam levar o planeta. Agora o mundo outra vez se assombra: a vacina será eficaz? E as novas ondas? E as novas cepas e mutações? No ano passado as retrospectivas já eram deprimentes. Mostravam, por exemplo, o terraplanismo fretando navios para encontrar a borda da terra e o negacionismo tentando reescrever os livros de história. Mas tudo pode piorar quando a gente acha que chegou ao fundo. E neste

QUEBRADAS > > Sandra Modesto

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  A aula remota de história estava quase no fim, era a última aula de dezembro quando a professora Beatriz pediu que os alunos postassem fotos. Uma ideia que a professora inventou com o objetivo de levantar um pouco da autoestima de alunas e alunos da escola pública da periferia.    Pediu que enviassem uma foto do rosto. Mandou no grupo de estudos a frase: “Hoje eu estou feliz.”    Priscila do nono ano arrasou na selfie do sorriso. Gabriela, Lara e Lia também. Na turma, os meninos enviavam as tarefas no começo da noite. A professora Beatriz entendia. Muitos já eram arrimos de família. Aos 14 anos. Talvez menos. Talvez mais. Muitas meninas tinham que cuidar dos filhos ou dos irmãos até que o dia terminasse, o sossego chegasse e os deveres postados nas aulas eram enviados com pedidos de desculpas.    Depois de cada conteúdo enviado, a professora tinha que acessar o site da Secretária Estadual de Ensino e postar diariamente os PETS – Plano de estudos tutorados.    2020 não foi programado

O QUE NÃO CONSIGO VER? >> Cristiana Moura

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Hoje era dia de praia. Não por ser fim de semana, ou por fazer parte da rotina de quem mora no litoral. Mas porque foi esperado, planejado — desejo simples compartilhado. Amanheci com os olhos inchados. Posso supor que seja uma inflamação nas córneas pois já me é conhecida. Frustrei-me uma frustração tão desproporcional ao pequeno desvio de trajetória cotidiana que não me reconheci. Este ano de 2020, vem tentando ensinar a viver o presente, o instante , assim como os budistas nos falam. Mas por mais que eu medite, a formação judaico-cristã deixou gravado em minhas células um anseio pelo amanhã, pela vida por vir, pelo amor que já vivo sendo mais vivido ainda. Vai entender... Nos olhos, a sensação de como se um um grão de areia invasor estivesse estabelecido moradia entre a pupila e a pálpebra. Nos pulmões, a sensação da criança, que mesmo cansada, não se entrega ao sono, não sabe parar de brincar. No coração, o medo do sentimento oriundo ou do pensamento mágico, ou do cansaço, que à me

O NATAL DE 2020 DO VELHO PADRE E DO GATO PRETO >> Zoraya Cesar

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O Gato Preto andava de um lado para outro no recinto penumbroso e vazio. Pelo único vitral entrava a luz cinza azulada de um anoitecer nublado. Chovia muito. Se o Gato estivesse em seu estado de humor britânico natural teria pensado ‘it’s raining cats and dogs’. Mas, como não estava, registrou mentalmente, apenas, que chovia torrencialmente.  O tamborilar violento das gotas de chuva no teto, que sempre lhe alegraram, estavam irritando seus nervos felinos. Aconchegou-se junto a São Francisco, que, tirando uma escova da túnica, escovou-o carinhosamente. Depois de quase vinte minutos, o Gato, novamente impaciente, voltou a se esgueirar entre os bancos, a pular nos altares. Só tinha milagreiro peso-pesado naquela igreja, resmungava, cadê o milagre de Natal? Cadê o Velho Padre? Os Santos e Santas ‘milagreiros peso-pesados’ também inquietos, pelo tardar da hora sem notícias, cogitavam sobre o tempo de esperar e o tempo de agir. Foi então que a voz suave de Nossa Senhora levantou-se numa cant

PROMESSA >> Whisner Fraga

 a menina choraminga uma severidade, as gatas acuam meu embaraço reprimido, uma boceja, cúmplice, irônica, outra aperta as pálpebras, pilatos, verdade que não vamos viajar?, esta alfinetada debochava de diversos rituais: - a ave maria de mãos dadas, - os beijos quase inconvenientes, - a mesa reunindo desarmonias camufladas, - o silêncio e as trivialidades, - os escândalos de novas crianças, - o brinde a um morto de dois mil anos, qual a compensação por um natal sem avós?, a menina compreende os riscos, mas não aceita, seremos só nós três, sem as primas?, cinco, corrijo, as gatas contam, é só este ano, arrisco,  a menina se aproxima: você ainda posso abraçar, né?, sempre. 

PREENCHER SILÊNCIO >> Carla Dias

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  Enfiado debaixo da mesa, um misto de fuga e necessidade de se aquietar. Não que a alegria dos outros o incomode. Não que suas gargalhadas o entristeçam. É que sua mente trabalha desse jeito torto, de depender de um ponto onde possa recostar suas agonias, até que elas se acalmem, parem de gritar.  Ali, debaixo daquela mesa farta, enfeitada de festa e excessos, o menino tenta ganhar cadência, em busca de recuperar o fôlego. Os perfumes das comidas e bebidas impregnam o ambiente com os desejos mais secretos, sejam eles doces, salgados ou alcoólicos. O dele é de ralentar um pouco o ritmo do seu coração, desacostumado que o tal é de lidar com tanta gente, ao mesmo tempo. O falatório o deixa tonto, às vezes, parece lhe doer nos ouvidos. Prometeram que seria fácil, bastaria um pouco de esforço da parte dele. Ele tem se esforçado, observando a todos da casa, tentando atender as expectativas desses estranhos. Fácil não será, ele já entendeu, mas como seria bom alcançar aquele ponto, de quando

E O VALOR DA ARTE? >> Clara Braga

Já esconderam, queimaram e tentaram exterminar documentos. Assim que uma forma de facilitar o acesso à informação surge, buscam logo uma forma de dificultar de novo. Tem muita gente que não quer que as pessoas se informem. Eu sinto dizer, mas não adianta, a essa altura as pessoas já decoraram as letras das músicas de Caetano, Gil, Chico, Emicida e tantos outros. E para quem acha que pode controlar livro didático, eu digo que a literatura vai além. Seja livro de história propriamente dito, romance ou biografia, não importa, a história está ali. E se quiserem queimar os livros e proibir a música, não tem problema, atuamos a história. Seja no teatro ou no vídeo do youtube, seja no documentário ou no longa metragem, seja para fazer rir ou para fazer chorar. Quantas histórias caladas em vida já não ecoaram nos cinemas? A arte incomoda! Ela incomoda pois dá voz. E ela dá voz a quem questiona. Ela está na parede do museu e também na rodoviária. Na casa do ricaço e nos muros da favela. No ipho

PALOMITA >> Alfonsina Salomão

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  Escrever requer coragem. Foi o que Palomita pensou quando se assentou na frente do computador naquela noite. Já havia feito todas as tarefas domésticas do dia. Já havia assistido todos os seriados que a interessavam na televisão. Já havia lido mais livros do quê o necessário. Já não aguentava mais conversar com amigos e parentes no telefone. Já não gostava mais de beber. Já não podia mais sair para dançar. Só lhe restava escrever.  Escrever o quê, pensou, quando por fim ligou o computador. Deve ser por isso que as pessoas não escrevem, simplesmente por isso. Sobre política? Não, muito chato. Sobre minha vida? Não, muito entediante. Sobre os vizinhos? Não, muito óbvios. Posso escrever sobre pássaros, seus voos e viagens. Não, muito deprimente.  Trinta e quatro anos haviam passado desde o acidente que a colocara numa cadeira de rodas. Trinta e quatro anos... Parecia ontem. Parecia ontem que ela corria, pulava, saltava, trepava. Miss Adrenalina. Foi assim que uns jovens a chamaram, impr

UM ANO ESTRANHO >> Sergio Geia

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  Ano passado eu estava aqui reproduzindo um texto de um livro - “O irmão de Assis”, de Ignacio Larrañaga, que falava de paz. Utilizando o texto eu desejava a vocês um 2020 de paz, de alegrias, de conquistas e deu no que deu.    E agora? O que dizer?    Sinto-me árido, sem palavras pra dizer qualquer coisa.    Apenas para lhes dar uma satisfação — e acho que o escritor deve isso aos seus leitores —, vou me recolher um pouco, como faço todos os anos. Dar um tempo, recarregar a bateria.    Bom Natal, gente, se é que isso seja possível.    Grato pelo carinho, pelos comentários sempre gentis, pelo amor compartilhado.    Que venha 2021 trazendo esperanças.    Volto em 30/01/21.    Beijos e até!

VIRTUDE >> Paulo Meireles Barguil

Cada cabeça uma sentença. Há séculos, usufruímos desse direito, em importantes e vis situações, mesmo quando não verbalizamos. O  status  de uma característica, de um acontecimento não é absoluto, pois aquele varia de acordo com a pessoa que interpreta. O que para umas é um defeito, para outras é uma virtude. O que para umas é uma benção, para outras é uma desgraça. Vivemos, individual e coletivamente, entre certezas e hesitações. De modo geral, as primeiras são vistas como sinais de fortaleza. E as segundas como manifestações de fraqueza. É com elas que cavalgamos e vagamos. Não pense, contudo, que as primeiras aceleram a caminhada e as segundas a atrasam. A depender do destino, pode ser mais adequado demorar. Seria a dúvida, outrora um estorvo, uma dádiva? Em um mundo repleto de mistérios e paradoxos, talvez a gente precise de outro lema. Cada cabeça uma lambança.

A MULHER DA ÁRVORE - Parte 5 >>> Nádia Coldebella

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O PÁSSARO Naquele cenário etéreo, reconheceu a árvore com o qual sonhara. A chuva voltara a cair, em pingos grossos e violentos, desvanecendo a etérea visão da árvore que segundos antes impregnara a retina de Domênico. Esquecido da sensação de urgência que começava a se formar em seu peito, pôs-se a correr junto com os outros dois homens. Chegou ao hotel cansado, encharcado e sujo. Ideias aparentemente desconexas iam e voltavam, saracoteando, borboleteando, sapateando sobre toda a lógica com a qual ele estava acostumado. A luta era tanta que resolveu tomar um banho e deixar a água quente amortecer seu couro cabeludo. Depois de longos minutos, vestiu-se e permaneceu um pouco de pé, em meio ao quarto, sem saber direito o que fazer. Estava cansado, lembrou-se, indo até a cama e ajeitando os travesseiros contra a cabeceira. Sentou-se, pernas estendidas, mãos cruzadas sobre a barriga, tronco inclinado e cabeça pendendo para trás, apoiada na parede. Sentia-se num divã e assim ficou, de o

GRACIOSAMENTE VIL >> Carla Dias

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É dela me arrancar do macio sossego de não me importar e lançar-me ao abismo das ilusões esmagadas, dos retrocessos irrefutáveis. Quanto prazer em aumentar a temperatura das discórdias, contemplar o desespero dos outros. A beleza da crueldade a veste tão bem, com um requinte que consterna e encanta ao observador. Medianamente provida da capacidade de sentir pelo outro carinho mais encorpado. Prefere o enlevo temporizado, cada fase com período máximo de um tempo no qual caibam um breve esgar e um coreografado dar de ombros. Na boca, esconde palavras proferidas somente em momentos catárticos, de quando o prazer vem em extrações suaves, no mais agudo da dor do outro.  Usa a inteligência que lhe cabe para estagiar brevemente em desesperos alheios. Seu corpo se esgueira em total harmonia com o incrédulo. Ela parece uma remontagem colérica de medos e anseios ancestrais, que estreiam em espetáculos inéditos, como se já não tivessem praticado, com sucesso, os seus estragos. Imagem © Max Ernst

AUTO DA REPETIÇÃO >> Albir José Inácio da Silva

  Natimorto estaria mais certo, mas viveu, o embaraço. Escapou de outras mortes por fome, por sede e por decreto. Sem teto, sem água, sem pão nem pedra pra recostar a cabeça, foi pra Capital. Alimentou multidões com quase nada — cinco pães e dois peixes. Sem ter estudado, deu lições aos doutores e escolas aos gentios. Distribuiu milagres como não ousaram ou não puderam fazer os santos e sábios. Atraiu multidões, invejas e ódios. Abominou as ordálias, as fogueiras, as cruzadas. Combateu o quinto, o dízimo, a derrama e as capitanias hereditárias. Lutou contra a escravidão, os açoites, a compra de gente e a venda de carne humana. Brigou por salário-mínimo, carteira, férias. Condenou o trabalho das crianças. Confortou condenados nas câmaras de gás, fornos crematórios e limpou vômitos no pau-de-arara. Mas, para delírio da plateia, debaixo de vara, estampou as manchetes. Diverte-se agora o absoluto julgador: — Sabes que tenho poder para salvar-te ou condenar-te? — Todo p

CLARISSA >> Sandra Modesto

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O dia parecia um convite ao amor.    Era “domingo”. O domingo de Clarissa. O dia dela e de João.    Clarissa gostava muito de João. Do abraço apertado de João, do beijo louco!    Um amor nutrindo – os vigorosos que fazia-os chorar de dar risadas.    Por causa dele, os detalhes extasiariam o domingo. E isto estava bem estampado em olhares, sensações, vibrações.    Os domingos esperados sempre ficavam distantes de um dia normal, casual, certeiro. Ah! João e Clarissa viveriam o imaginado. Sonhado por eles desde que se conheceram. Clarissa sentia que o simples querer em ver João. Era um querer.    Um baita querer. Foi então, que se olhou no espelho. E percebeu...    “Deslumbrante” disse Clarissa à sua própria imagem. O vestido azul de domingo.   (Azul, dum azul do céu, do lápis de cor) feito à mão, destacando-lhe os seios empinados. O resto só João podia tão bem descrever!    Nos cabelos escuros, Clarissa prendia um rabo de cavalo só para João desprender, para antes de desprender roç

EU. MINHAS MARCAS. MEU GATO. E NOSSA REDENÇÃO. >> Zoraya Cesar

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Dizer que estou com 'os nervos à flor da pele" virou realmente figura de linguagem para mim. Os queloides que tenho pelo corpo dividem o espaço com a pele. A sorte é que tenho meus nervos sob controle. Como essas marcas surgiram é uma história que poucos acreditarão. Mas é tão verdadeira quanto eu. --------------------------- Para saber o que me aconteceu, diminuam as luzes, deixem o ceticismo numa gaveta, e embarquem comigo nessa viagem ao mundo dos sonhos reais. ---------------------------- Quem viveu na roça não se assusta à toa. Estamos acostumados à escuridão das noites sem lua, aos indistinguíveis sons que brotam do solo, aos vultos incorpóreos que passam sob nossas janelas. E, se por azar, você tivesse sido criado com um mago negro e perverso, estaria ainda mais acostumado ao inexplicável.  Não sou, portanto, impressionável, nem homem de superstições. Mas sei que há coisas que fogem ao nosso entendimento.  Os pesadelos começaram quando soube que meu avô morrera. E que e