sexta-feira, 30 de março de 2018

ESCOLHER É DESISTIR >> Paulo Meireles Barguil

 
 
"Pois que aproveitará ao Homem
ganhar o mundo inteiro,
se vier a perder a sua vida?
(Mc 8, 36)
 
Em um mundo repleto de atrações, é necessário que o Homem escolha, pois é impossível ele usufruir tudo o que almeja, a não ser que, sabiamente, deseje apenas o indispensável para viver.

Para cada sim, vários nãos!
 
O desafio de cada pessoa em selecionar não é somente em virtude da quantidade daquelas, mas ao fato de que elas, muitas vezes, são excludentes, o que poderia ser facilmente percebido se a embriaguez não comprometesse o seu discernimento. 
 
Cambaleando, então, seguimos cada vez mais gulosos, famintos e sedentos!
 
No teatro da vida, há poucos ventríloquos e muitos bonecos.

Bastante frequente, portanto, que seja nomeado de insano quem desiste do que é tido como valoroso aos olhos cegos e opte pelo que esses não conseguem contemplar.
 
Acredito que renunciar é abrir as mãos do que é efêmero para que elas possam tatear o sublime.

Rogo-lhe misericórdia, pois creio que estou sóbrio e sei o que estou fazendo...


[Igreja Colegiada de Santa Maria Assunta – Poggibonsi – Itália]

[Foto de minha autoria. 16 de março de 2013]


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quarta-feira, 28 de março de 2018

OCUPE-SE DE MIM >> Carla Dias >>


Pense na contradição: desejo vazio.

O que se deseja tão sem força que só oferece espaço impossível de se ocupar?

Há cansaço, daqueles que açoitam silêncio com minguados gritos ecoando por lugar nenhum. Gritos-espasmos. Alquebrado gestos interrompidos no primeiro fôlego retomado. 

Percebe o desalento?

Em meio a tanto silêncio obrigatório: há amor.

Haja amor para nos torturar, diariamente. Nós que somos funcionários que servem aos seus desmandos. Nós que o deixamos em carne viva, para que o sentimento reverbere, enquanto nos atiça o corpo. Invoca o frenesi da nossa alma.

O amor.

Esse despautério de eriçar sonhos, aveludar a violência da falta. Esse argumento ao qual jamais teremos a capacidade de adequar desfecho. Onde mora,  ao relento, a esperança a flertar com uma felicidade que nasceu para a efemeridade.

Dura nada.
Dura menos que nada.
Jamais durará o suficiente.

A nudez que desola, em vez de abrasar. É benquerença embriagada por medo de que se acabe o que nem mesmo começou.  É essa pintura em destaque na parede dos pudores que recitam tendências controladas e patrocinam romarias.

Sobre a qual se jogam panos e preces, escondendo as partes que lhes provocam, além do permitido, de jeito que não consigam esconder seus olhares alvoroçados.

Eriçados pecados.
Pontiagudos segredos.

Há amor.
Haja amor.

Desatado de esperas, que ando urgente. Ando de lá para cá, às vezes, deito-me. Chão.

Haja céu.
Haja voz calada, esse esconderijo perfeito para ressentimentos dedicados a si.

Porque deveria, mas não.
Poderia, mas nunca.
Seria capaz, mas quando?

Imagem © Arthur Boyd

carladias.com



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terça-feira, 27 de março de 2018

NÃO É QUESTÃO DE PONTO DE VISTA >> Clara Braga

Mais um ano que acompanho o festival Lollapalooza do sofá da minha casa, e esse vem sendo para mim o melhor lugar de todos. Todos os anos observo como os artistas ficam emocionados de estarem em um festival tão grande e acabam fazendo discursos sobre a paz, o respeito, o amor ao próximo e outros tópicos que seguem a mesma linha de raciocínio. Não sei se todos os artistas, principalmente os internacionais, acompanham a situação política do nosso país, mas esse ano não foi diferente, ouvimos muitos discursos de pessoas que estão só querendo um mundo melhor para se viver, será que é pedir muito? O interessante é a reação do público, até mesmo aqueles que nem estão no festival para ver aquele artista específico se emocionam com a fala e param o que estão fazendo para aplaudir e mostrar que concordam, o mundo precisa mesmo ser um lugar melhor, é o que todos desejam.

Alguns shows eu acabei não acompanhando, então, no dia seguinte, liguei no jornal para acompanhar as notícias relacionadas ao festival e acabei descobrindo um movimento que estão fazendo em um canal televisivo com o seguinte tema: o Brasil que eu quero! As pessoas gravam vídeos delas em algum ponto turístico de sua cidade e falam o que elas desejam para o Brasil, ou seja, basicamente se transformam nos artistas do Lollapalooza por alguns poucos minutos. Não fui atrás para entender melhor sobre esse movimento, mas achei interessante notar nos poucos depoimentos que acompanhei durante o jornal que o desejo das pessoas é quase unânime: um Brasil justo, honesto e com educação e saúde para todos.

Vendo esses discursos, tanto os do show quanto os vídeos do jornal, uma dúvida que parecia pertinente me ocorreu: se todas as pessoas querem um Brasil justo, honesto, apoiam os artistas que se mostram ativos na busca por um país melhor, que dizem estar fazendo sua parte, onde estamos errando que não conseguimos alcançar esse objetivo já que o objetivo é o mesmo para todo mundo?

Não precisou muito tempo, menos de um dia acompanhando uma rede social para ser mais exata, para eu entender tudo. As pessoas ainda acham que para alcançarem um mesmo objetivo todos devem seguir a estrada de tijolos amarelos. Não importa quantas cores de estrada existam, não importa se para uns é mais confortável pegar o caminho mais longo um pouco, ou se outros não gostam muito de amarelo e preferem azul, o que importa é que ou você escolhe vir comigo na estrada de tijolos amarelos e ser meu amigo ou então seremos inimigos para sempre, mesmo que no final a gente chegue juntos na honestidade desejada. Porque? Não sei, só sei que é assim, ou você está comigo ou está contra mim, mesmo que a gente de fato não discorde em nada.

Será tão difícil entender que não existe honestidade sem tolerância ou justiça sem respeito? Ou melhor, será que é difícil entender que tolerância e respeito não são questões de ponto de vista? Não adianta, o mundo inteiro pode desejar a mesma coisa, enquanto o egoísmo for a única palavra que todos entendem, continuaremos gravando vídeos só para termos nossos poucos minutos de fama.



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sábado, 24 de março de 2018

OLHOS PERDIDOS >> Sergio Geia





Encontrei aqueles olhos perdidos assim, do nada, raio cortando o céu, virei e pronto: estavam lá. Encontro doce, eu não desviava; nem ela. Parecia brincadeira de estátua, congelamos nossos olhares. Eu fiquei pensando no que ela estaria pensando. Ela, talvez, pensasse o mesmo, no que aquele sujeito de cabelos brancos estaria pensando; ou fazendo. Nesse mundo veloz, parar e olhar, apenas olhar, é perda de tempo. E, de repente, dois olhares se param, se encontram, se cruzam. Será que me viu velho?
Havia garoa; fina. Havia sons: passarinhos, latidas, carros, uma conversa longe, voz de criança. As pessoas na calçada caminhavam, seguindo seus rumos, suas vidas, alheias àquele encontro, àquele cruzamento de olhares.
Não. Deixe-me corrigir qualquer pensamento enviesado seu, assim ele não cresce, não ganha estatura, e você, não pensa mal de mim. Sim, porque as pessoas pensam mal, o tempo todo. O mundo pensa mal, e nem sei se é mal, no caso, mas há sempre uma tendência de se catar a verdadeira intenção escondida, como se houvesse algo escondido. Alimentam o desejo de que o outro deseje, de que a outra deseje. Não são desejos. Apenas um encontro: eu, olhando a chuva, a mangueira balançando de vento, ela, olhando o monstrengo de concreto que a olha de cima, e tcham, olhares se cruzam. Apenas isso.
São telhados, varandas, quintais, garagens. Vez em quando o homem chega de moto, a moça entra num rancho, crianças brincam, jogam futebol, mas olhos perdidos, docemente perdidos, que se acham em mim (é o que parece), me consumindo, derretidos, alheios, como se não estivessem aqui, mas longe, Paris, Nova York, Tóquio, alheios a tudo, presos em mim, alheamento feitiço, não, eu nunca vi. Me enfeiticem, olhos perdidos. Também viajo na sua, como numa história do Hatoun.  
Quatorze anos? Quinze? Por aí. Quatorze, quinze, alguns anos, talvez vinte e seis, trinta e oito, não sei, não lembro. Aliás, mais esqueço que lembro, ultimamente; troco nomes. Historinhas infantis, dos três porquinhos, conhece?, da casa de sapê, de pau a pique, de tijolos, do Bolinha, Bolota e Bolão. João Cláudio, ou Maria Alice tinham o disquinho. Nunca esqueci; não esqueço o sopro do Lobo Mau fazendo voar casinhas. Mas também não sei por que falo isso; talvez, a ideia me vem agora, porque o seu olhar perdido me evoca o ingênuo, o frescor, a leveza de outros tempos. Careço de oxigenação, preciso oxigenar a vida, necessito do seu olhar.
No seu tempo, eu estava lá, ouvindo os três porquinhos. Uma ingenuidade incrédula. Talvez você também possa estar, não? Vinil pequeno, árvore ao fundo (Lobo Mau à espreita), Bolinha e Bolota brincando, Bolão assentando tijolos. Tem uma vitrola aí? Talvez você ache no You Tube. Você nem quer saber, não é? História bobinha.
Você agora o desvia, olha para baixo, de lado, enxerga alguma coisa. Surge um cachorro (você tem um vira-lata), uma mulher (mãe?). Ela recolhe roupas do varal, conversa, você responde. Depois ela entra carregada de roupas, o cachorro dá umas voltinhas, vai para lá e para cá, você passa a mão nele, faz um carinho, ele entra balançando as orelhas, parece não gostar do aconchego, e então, você torna o olhar em mim.
Parece fazer perguntas, sim, é nítida a expressão interrogativa. Num canto de seus olhos, bem escondido, vejo, parece haver um pedaço de pena, uma piedade de mim. Ó, anjo meu, não careço de sua piedade. Sim, sou um homem sozinho, em termos. Mas a solidão, aprenda isso, pode ser uma ótima companheira. Um homem só nunca está sozinho, pois há a solidão, e a solidão, às vezes, é mais quente que qualquer companhia de carne e osso. Se é bom? Depende. Se você se entender com ela pode ser ótimo.
Ok, ok, satisfaço sua curiosidade, gracinha: é que vez em quando gosto de ficar assim, olhando, olhando. Como não fumo — e fumar deve ter seu lado divertido porque você acende um cigarro e fica em qualquer lugar, numa sacada, na calçada, na frente do bar, olhando, apenas olhando —, pego meu uísque e paro, bebo, olho, às vezes surgem coisas, do nada, de repente, um olhar.


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sexta-feira, 23 de março de 2018

OUTRA MALFADADA AVENTURA DO DR. MÁRCIO >> Zoraya Cesar


Se tinha uma nódoa no caráter do Dr. Márcio era a inveja. Inveja verde, musgosa e corrosiva, direcionada a um único alvo: o cunhado. 

Pouco mais velho que ele, o cunhado sempre vivera intensamente. Festas, viagens (você conhece alguém que já foi a Ulaanbaatar, capital da Mongólia? O cunhado foi. Pois é.), mulheres – ricas, pobres, de qualquer idade; se fossem desejáveis e interessantes, entravam no jogo. Jogo! Jogava, bebia, brigava, fumava e, Dr Márcio desconfiava fortemente, não apenas cigarros comuns.

Recém passado dos 60 (mas ainda trabalhando), Dr. Márcio era íntegro e confiável, quase um asceta, que nunca se embebedara, nunca se metera em ilícitos e levava uma vida extremamente rígida. E, até o humilhante episódio da boneca inflável, nunca se metera em confusões. 

"A vida é muito injusta. Por que esse inútil, sem emprego fixo, sem responsabilidade e sem noção tem uma vida tão mais interessante que a minha?", lastimava-se. Invejava o savoir vivre do cunhado e estava em crise. Chegara àquela idade em que o homem olha pra trás e se pergunta: e agora? 

Queria, de qualquer maneira, fazer algo diferente, condenável, aventureiro, que sacudisse sua vida modorrenta e previsível. Algo que o fizesse se olhar no espelho e dizer: “Márcio, você é um danadinho, hein?

A ocasião faz o ladrão, dizem. Sua esposa, cunhado, sogros passariam o final de semana fora da cidade. Ele, sob o pretexto de ter processos a estudar e um amigo a encontrar, não foi. 

Pretendia ir a um nightclub para homens, indicação de um amigo do escritório: “Pode ir que não tem erro. O Jeremy’s tem classe." Era, na verdade, quase um inferninho, um lugar para cavalheiros de fino trato, que estivessem a fim de uma noite agradável, com boa música, boa bebida, boa conversa com homens de negócios, e, se assim o quisessem, com mulheres bonitas.

Passou a semana que antecedia ao grande evento numa excitação comparável à da criança em véspera de Natal. Comprou roupas modernas; pediu ao barbeiro, Seu Moisés, um novo corte de cabelo; e deixou a barba por fazer. Tudo para aparentar jovialidade e despojamento. 

Dr. Márcio não pensara em nada muito radical; queria, tão somente – oh, quanto queria –, cometer um pecadilho, ter um segredo para chamar de seu. Nem que fosse apenas isso: mentir para a esposa; beijar uma mulher desconhecida.

A mais que ansiada noite chegou. 

O ambiente era elegante, sem dúvida. Homens bem vestidos circulavam com desenvoltura, conversando e rindo. As poucas mulheres eram lindas e glamorosas. Tímido, Dr. Márcio sentou-se, acoitado, a um canto mais escuro. 

Depois da primeira dose de whisky sua coragem voltou. Resolveu que beberia todas, até cair, faria escândalo, dançaria sobre a mesa, seria expulso!

Na segunda rodada já não sentia sabor de coisa alguma e a língua estava pastosa. Foi com olhos enevoados que percebeu a aproximação da jovem alta, forte, de cabelos amarrados em elegante coque no alto da nuca, envolta num vestido fúcsia. Dr. Márcio, que nunca tivera fetiches, passou a ter um ali mesmo, por mulheres grandes e bem torneadas. 

A moça era agradável e encantadora. Dr. Márcio, enlevado, congratulava-se por sua própria audácia. Bêbado, numa boate, conversando com uma linda mulher. Para completar sua fantasia, só faltava um inocente beijo, para guardar na lembrança...

Acordou no hospital, sem dinheiro, cartão e sem as roupas finas que comprara. Nu, a bem da verdade, não estava. A moça e seus comparsas tiveram a duvidosa caridade de colocar-lhe o vestido fúcsia. (E não é que coube direitinho?).

Ao seu lado, a esposa e o cunhado. Uma o olhava com mal contido desprezo. O outro chorava. Não de comoção, mas de rir.

Aquela criatura podia ser uma bisca, realmente. Pois como não sentir pena de um sessentão conservador que desejava apenas sentir o gostinho de andar um pouco on the wild side? E que fora enganado, drogado, roubado e abandonado na sarjeta em sua primeira aventura fora de casa? 

Depois de velho, deu pra tarado, mentiroso e besta, né? Sibilou a esposa por entre os dentes. Pois saiba que pra casa você não volta. 

Dr. Márcio quase teve uma síncope, sorte já estar hospitalizado. 

Passada a raiva inicial, porém, a esposa o perdoou. Afinal, ele era um bom marido, um homem digno. E em boa situação financeira. Ela entendia que Dr. Márcio passava pela crise da avançada-idade, mas aquilo não podia ficar assim, ele tinha de ser punido de alguma forma. Até porque fora flagrado usando um vestido lindo, como ela mesma sempre quisera, mas nunca tivera coragem de usar. 

A condição imposta para o retorno ao status quo ante seria simples, mas, para ele, extremamente dolorosa: durante o mês que a mulher passaria em um cruzeiro com as amigas ele deveria morar com os sogros... e o cunhado.

Dr. Márcio cumpriu sua pena sem reclamar. Só no íntimo, bem lá no fundo, lamentava não lembrar sequer se fora beijado ou não...



Take a walk on the wild side, Lou Reed







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quinta-feira, 22 de março de 2018

BARATA>>Analu Faria

No sétimo dia da criação, aquele em que Deus descansou, um anjo aproveitou-se da folga divina, tomou posse do maquinário celeste e resolveu também fazer sua própria criatura. Foi dessa forma que o mundo ganhou a barata. Como aquela era uma oportunidade única, afinal não é qualquer dia que Deus dorme, o anjo caprichou e fez um ser quase indestrutível. Orgulhoso do feito e querendo impressionar O Chefe, ainda deu asas ao bicho. "Rá!", pensou, "É hoje que eu sou promovido."

Gostou tanto da ideia de animais voadores (Deus provavelmente ainda não havia inventado os pássaros...) , que foi até o estoque e saiu pegando todos os seres já criados, colocando-os de volta na linha de produção, para a adição de um par de asas. Depois do "sucesso" da barata, os próximos seriam a aranha e a vaca, inclusive já estavam na esteira. Acordado pelo barulho de sua fábrica - que deveria estar silenciosa, por conta do decreto de descanso - Deus chegou e mandou parar a palhaçada. "Passa no RH, Lúcifer." Essa história toda está lá no livro do Gênesis, como vocês sabem.

Penso no papel do capeta na criação, justo hoje (escrevo no dia 21 de março), quando o Sol entra Áries. Acho que não é coincidência. Também não é mero acaso que eu tenha visto há poucas horas um monte de aranhas penduras em suas teias, entre duas árvores. Felizmente, essa cena pavorosa estava numa foto compartilhada no Facebook. Acho, ainda, que a sincronicidade pode explicar outro fato astrológico: mercúrio retrógrado, de novo, atrapalha as vidas dos terráqueos, começando exatamente neste dia. 

Decido meditar, dissipar a vibe ruim. Vou para um lugar onde posso ter contato com a natureza, sento-me em posição de lótus, na grama. Como boa pisciana, dou graças ao Universo pelo contato com o verde, pelo som do canto dos pássaros, pelo cheiro de mato. Já me sinto melhor...Entoo um mantra.  Não tem alma viva no parque. Estou prestes a fechar os olhos quando percebo vindo em minha direção a criação do demo. Talvez eu tenha mandado a Mãe Natureza à merda naquele momento, mas não me lembro muito bem. Por alguns segundos, hesito entre desfazer o complicado nó das pernas e correr ou ficar e fingir que a barata não está ali. Por fim, acabo fechando os olhos. Que se dane. Apenas agradeço a Deus por vacas e aranhas não terem asas. OOOOOmmmmmm.





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quarta-feira, 21 de março de 2018

DA INCAPACIDADE DE APRISIONAR O TEMPO ou “a morte detesta esperar” >> Carla Dias >>


O silêncio o domina.

Calaram a boca do mundo?

Observa a todos e ao tudo, assim: cinema mudo. Seu coração acelera, mas ele não escuta seu manifesto. Silenciosamente, o corpo grita urgência e ele ali, paralisado. Olhar desalinhado. Pernas incapazes de coreografar passos. Até seus pensamentos são rodados em silêncio.

Nada do som das palavras pronunciadas. Zero sonoplastia. Ah, essa silente taquicardia que o faz sentir como se o coração estivesse sendo expelido do peito. É quase como sentir a carne se rasgar, abrir caminho para o músculo e todo o simbolismo que ele carrega.

Das importâncias: reencontros.

Por que a saudade das vozes de seus afetos? E de uma das canções preferidas; das que acalmam tempestades interiores. Só que o silêncio, ah, esse silêncio que se coloca entre ele e o mundo, durante esse agora de coração ralentando, ralentando, ralentando.

Então, ele entende que o tempo não dura a duração das nossas buscas. Sempre acabamos antes, escolados que somos em nos perdermos em esperas.

Imagem: Ritual © Stella Snead



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terça-feira, 20 de março de 2018

COMPARTILHANDO O QUE É DE VERDADE >> Clara Braga

Aluguei um apartamento! Fui buscar a chave e a simpática moça da recepção disse: acredita que esse apartamento sofreu um golpe? Antes que eu pudesse dizer: e não sofremos todos? Ela foi logo dizendo: hoje de manhã recebi uma ligação, um rapaz estava embaixo do prédio e disse que estava esperando a chave como havíamos combinado. Ela disse que achou estranho, então foi perguntando informações sobre o que ele havia combinado com a pessoa que com certeza não era ela. Foi então que o rapaz disse ter feito um depósito para garantir a reserva do apartamento, resolveu tudo online pois estava vindo de outro estado e precisava logo da chave pois estava com a mudança embaixo do prédio. A moça, que trabalha com isso diariamente, percebeu logo: ele havia sido vítima de um golpe! Alguém usou as fotos do apartamento que estavam disponíveis no site da imobiliária para criar um anúncio falso e roubar dinheiro daqueles que não podem, por motivos de força maior, resolver as coisas pessoalmente.

Coincidentemente, mais tarde no mesmo dia, vi uma postagem de um colega sobre seu projeto social e nos comentários uma pessoa duvidando da veracidade do projeto, dizendo que o modelo apresentado parecia mais um golpe do que uma ajuda a quem necessitava. Eu e todos aqueles que conhecem o projeto ficaram com raiva do comentário e também da pessoa que tem tempo de entrar na rede social para fazer um comentário desnecessário, mas não é capaz de entrar no google e pesquisar rapidamente sobre o projeto e ver que é um projeto sério.

Passada a raiva, pensei no acontecimento do apartamento e imaginei que a pessoa que perdeu seu dinheiro procurando um lugar para morar com certeza se tornou uma pessoa que quando vê um projeto social sendo divulgado na internet duvida da sua veracidade, afinal, se os apartamentos estão sendo alvo de golpe, os projetos sociais com certeza também estão.

Não estou justificando o cara, como disse antes, com uma simples pesquisa ele poderia ter evitado um comentário desagradável, mas convenhamos, verdade seja dita: se a quantidade de usuários das redes sociais que fazem pesquisa sobre a veracidade daquilo que leem e compartilham fosse alta, Fake News não era moda!

De qualquer forma, gosto de me apegar à ideia de que, mesmo nesse mundo doido em que estamos vivendo, no qual confiamos desconfiando e ouvimos cada vez mais as pessoas dizerem que não confiam nem na própria sombra, ainda existem pessoas dispostas a fazerem a diferença, existem pessoas que tocam seus projetos independente de comentários sem noção, pessoas que ajudam independente de likes e compartilhamentos, e esses sim são os que realmente fazem a diferença.

Ah, e se você estiver se perguntando o nome do projeto em questão: Eu corro, você ajuda. Vale a pena “perder um tempo” conhecendo a iniciativa.



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sexta-feira, 16 de março de 2018

VOCÊ TEM VERGONHA DE QUÊ? >> Paulo Meireles Barguil


De seguir cegamente as regras ou de ignorá-las?

De não considerar os seus sentimentos ou de sequer dar atenção a eles?

De ter acabado um relacionamento duradouro por e-mail ou de não ter se despedido?

De não acreditar em Deus ou de se declarar ateu?

De ter sido sovina ou de ter sido esbanjador?

De não cuidar de você ou de não zelar pelos outros?

De ter sido conduzido pelos seus instintos ou de não tê-los escutado?

De não ter pedido desculpas ou de não ter aceitado as que lhe foram solicitadas?

De mentir para você ou de se esconder dos outros?

De não honrar as suas palavras ou de elas não serem suas?

De gozar muito ou de não atingir o ápice?

De não admirar seu corpo ou de venerá-lo?

De ter sido orgulhoso ou de ter sido honesto?

De não saber ou de fingir que sabe?

De ter terminado uma relação para começar outra ou de alguém ter feito isso com você?

De não se esforçar para alcançar seus sonhos ou de nem almejar?

De criar problemas ou de não propor soluções?

De não ter agradecido ou de ter reclamado?

De ser avarento ou de ser gastador?

De não partilhar as suas habilidades ou de usá-las para dominar o outro?

De ter se calado demais ou de ter falado em excesso?

De não se alimentar adequadamente ou de comer de forma austera?

De demorar a gozar ou de chegar rápido ao paraíso?

De não pedir algo emprestado ou de não ter devolvido o que foi cedido brevemente?

De ter ouvido demais os outros ou de ter desprezado o que eles expressaram?

De não ter acreditado em você ou de ainda não confiar?

De ter vergonha ou de não ter vergonha?


[Pantanal dos Marimbus – Andaraí – Bahia]

[Foto de minha autoria. 29 de novembro de 2015]

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quarta-feira, 14 de março de 2018

O QUE NÃO SAI DA CABEÇA >> Carla Dias >>


Um sonho recorrente: mergulha no rio, permanece submerso por tempo que não sabe definir. O silêncio pesado lhe acalma a mente, que vive inquieta a respeito de tudo, dos assuntos mais singelos aos grandes desafios que demandam reflexão apurada. Quando volta à superfície, chega a esse lugar que não é rio, não é terra. Bilhões de pontos luminosos sobre a sua cabeça. Os pés apoiados em algo que é nada. Flutua nessa caixa incandescente, que imita o infinito, mas tem paredes. Belas paredes, que não deixam de ser paredes por serem belas.

Sempre acorda quando a respiração parece lhe faltar. E grita, como se expulsasse de seu corpo o que o aprisiona. Um grito condoído, longo e perturbador.

O que eriça o espírito de uma pessoa pode nem mesmo comover outra. Na solidão das suas buscas, ele aprende de um tudo. O que muda é a profundidade, que de tudo, pouco está disponível para a sua compreensão. É assim que ele aceita, sem ressalvas, que é capaz de conviver com suas inquietações. Sente-se bem com essa aceitação, porque conhece poucas pessoas que aceitam que nunca terão as respostas que buscam. Admira aqueles que, sem melindres, assumem seu lugar de questionadores, ainda que jamais alcancem uma resposta. Já presenciou catarses e descobertas durante longas sessões de questionamentos. A maioria aconteceu sem que houvesse uma resposta. A maioria levou os inquiridores a novos caminhos.

Para ele, questionar é necessário.

Porém, nasceu questionador silente. Está sempre presente, é ótimo ouvinte, mas nunca se manifesta. Tem certeza de que, se tivesse coragem de verbalizar inquietações, responderia a algumas perguntas feitas por outros, aqueles amigos que não sabem o nome dele, mas apreciam sua companhia.

Não entende como veio parar nesse grupo. Seu tio o indicou a outro, não tão apurado nos questionamentos. Então, veio o convite de um dos integrantes daquele grupo para que conhecesse esse do qual participa há mais de vinte anos. A transição ainda lhe chega falha à memória. Não sabe se é esquecimento que se adquire com a idade ou dos escolhidos. Fato é que, toda vez que alguém lhe dirige a palavra para perguntar como chegou ali, ele consegue se tornar ainda mais calado. O outro sempre sorri e, distraído com seus próprios demônios, segue para a próxima expurgação.

Há dias em que a excitação toma conta de um e de outro e os questionamentos se tornam discussões acaloradas. Às vezes, as discussões se estendem por horas, sendo necessário que um dos integrantes do grupo, que tenha mais o que fazer do que reverberar suas crendices, dê fim ao desconforto e coloque o trem nos trilhos. Ele gosta desses momentos de descontrole. Aprecia observar os sempre tão diplomatas inquiridores perderem a compostura. Não há nada que o incomode mais do que inquietações no cabresto.

Homens e mulheres se reúnem toda semana nessa sala. Esse lugar que presencia o ser humano sendo humano, acertando apontamentos, errando comportamentos, revitalizando entendimentos. Onde pessoas conversam à exaustão sobre temas que lhes inquietam e fascinam. Onde as conversas são em benefício do conhecimento, que resultam em descobertas.

O grupo se reúne e ele se posiciona. Não se lembra sobre como veio parar aqui, mas foi seu tio que o indicou para o primeiro emprego. Depois, recebeu o convite para atender a esse grupo. Há mais de vinte anos, verifica as instalações, providencia o alimento, garante que não falte café. Durante horas, permanecesse em pé, ao lado da porta, vestido em seu impecável uniforme, um terno muito requintado, disponível para atender aos pedidos daquelas pessoas.

Soubessem como lhe encantam as inquietações. E que, talvez, se ele abrisse a boca e mencionasse as suas, pudesse responder alguns dos questionamentos abordados naquela sala. Há gênios ali e ele se sente lisonjeado por fazer parte dessas reuniões. Há também as mazelas humanas: ciúme, egocentrismo, desejo fervoroso pelo poder. São pessoas, para o bem, para o mal e para a genialidade. Às vezes, eles cometem a barbárie da tolice.

Se ele conseguisse abrir a boca e dizer. Se reverberasse suas inquietações, quem sabe? Eles o escutariam, discutiriam seus apontamentos, descobririam neles algumas respostas que, já decidiram, nunca encontrarão nessa vida. Porém, permanece ali, em pé, estático, o olhar apontado para a janela. As vozes deles a lhe confundirem os pensamentos. Os pensamentos deles a lhe fascinarem o espírito.

Imagem © Oskar Schlemmer

carladias.com



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sábado, 10 de março de 2018

PROCURA-SE >> Sergio Geia




Prédio da minha mãe.
Um papel colado no elevador diz, em linhas gerais, que um morador do bloco C (conclusão derivada da localização dos objetos), rotineiramente (duas a três vezes por semana), utiliza preservativo e descarta não só a embalagem, como o próprio, usado, pela sacada/janela do apartamento, nas áreas comuns. Que a situação está acontecendo há alguns meses e expondo não só os colaboradores da limpeza, mas também os moradores, crianças e visitantes, que são constrangidos e obrigados a conviver com tamanho desrespeito. Que tal atitude infringe diversas normas do condomínio e, para que sejam tomadas as medidas cabíveis, é indispensável identificar o infrator. Que por essas razões, a administração do condomínio solicita aos condôminos que caso alguém tenha visto o triste episódio, saiba ou desconfie de alguém, que denuncie.
Leio uma, duas, três vezes.
Instigo minha mãe a contar detalhes do babado. Diz que o sujeito está sendo procurado, como um criminoso, ela acrescenta; que há algumas desconfianças, mas certeza nenhuma; que os moradores estão indignados; que onde já se viu uma coisa dessas, num pacato prédio de moradores pacatos.
Histórias de condomínios.
Gostaria de ser um mosquitinho, sobrevoar alguns, colher coisas interessantes. Se você mora em condomínio deve ter lá suas histórias. Aqui, outro dia, apareceu um papel no elevador (sempre ele), pedindo aos moradores que evitassem fazer “barulhos desagradáveis” no interior de seus apartamentos; que esses barulhos estavam constrangendo a vizinhança, que estavam incomodando e coisa e tal. Já ouvi vizinho se incomodando com batuque de salto alto no andar de cima, com música, festas.
Aspirador de pó trabalhando não há igual. Liquidificador? O assovio da panela de pressão? Para mim, barulhos desagradabilíssimos. Música alta? Depende. Se for Maria Gadú, Caetano, Chico, ou mesmo Oasis cantando Wonderwall? Para mim, um enorme prazer. Condômino cantando no banheiro, tipo Dusek? (“Cantando no banheiro, berrando no chuveiro, ah, eu não abro”) Desagradável, a menos que seja um tenor, um Giancarlo em Para Roma com amor. Mas há tantos. Gritaria, briga de casal, choro de criança, obra, furadeira, latida de poodle. Viu como é difícil a vida de síndico?
Mas esses barulhos ditos “desagradáveis” eu via ainda muito no campo das abstrações, da subjetividade, nada tão concreto como uma camisinha usada voando pela janela. O mais interessante desses inconvenientes de condomínio talvez seja compreender o processo criativo na elaboração do aviso aos condôminos: como colocar no papel?
Encontrei pérolas:
“Diante das reclamações realizadas pela construtora responsável pelas obras em frente ao prédio, e dos moradores da coluna 8, solicito que evitem jogar pelas janelas quaisquer objetos, tais como: pontas de cigarro, bolas de miolo de pão, cabos de vassoura, dentre outros”.
“A vizinha da casa ao lado, em retaliação aos constantes aborrecimentos por encontrar fezes de cachorro em seu quintal que, segundo ela, são jogadas pelos moradores do nosso condomínio, jogou para o lado do condomínio uma sacola com o mesmo conteúdo (fezes) sendo de humanos. Não aprovo tal atitude, mas devemos reconhecer que paciência tem limite, portanto, peço mais uma vez aos senhores condôminos possuidores de animais domésticos, que depositem as fezes de seu pet em local adequado, ou seja, no lixo”.
“Caros, para que possamos ter uma convivência harmônica com todos, peço que na hora da relação sexual atentem-se à cama, ela pode estar batendo na parede (pensando nos vizinhos ao lado) ou no chão (pensando nos vizinhos de baixo), incomodando e acordando pessoas que não estão interessadas em saber de suas relações sexuais. Todos os moradores devem respeitar a lei do silêncio que começa a valer a partir das 22 horas.”
Não sei se é verdade, mas tiro o meu chapéu para este:
“Prezados condôminos. Sem qualquer caráter de sensacionalismo nem tampouco, alarmismo, terrorismo ou tumulto, mas sim, o cumprimento de informar a população pela qual sou responsável, divulgo a notícia com o teor abaixo: o vidente Juscelino Nóbrega da Luz registrou em cartório, cópia anexa, correspondência informando que no dia 26 de novembro próximo futuro, um avião irá chocar-se com um edifício (Avenida Paulista x Al. Campinas, próximo ao Maksoud Plaza). Fico com a gostosa sensação de dever cumprido. Deixo a decisão de tomadas de providências a cada um responsável pela suas equipes de trabalho e com o firme propósito de que o vidente tenha se equivocado em sua premonição.” 





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sexta-feira, 9 de março de 2018

A HORA DOS MORTOS 2a PARTE >> Zoraya Cesar

A hora dos mortos - parte 1 - Lucrécio Lucas foi acordado, às três horas da manhã, a hora dos mortos, pela alma torturada de sua primeira mestra, a feiticeira Kitsune Sra. Majo. Que lhe pedia ajuda para escapar de Waru, o Labirinto do Terror. Lucrécio Lucas jamais se negara a cumprir uma missão. Não seria aquela que ele negaria. Mesmo que lhe custasse a vida. E a alma.

Lucrécio não voltou a dormir. Precisava desvendar o quanto antes aquele tríplice mistério: como a alma da Sra. Majo fora aprisionada; como conseguira entrar em contato; e como ajudá-la a escapar de Waru, o Labirinto do Terror.

Em pouco tempo encontrou sua primeira resposta: o demônio aprisionava as almas das feiticeiras Kitsune assim que saíam de seus corpos. Ainda fracas pelo choque da desencarnação, não tinham como se defender. 

Waru é um demônio e, ao mesmo tempo, um lugar – o Labirinto do Terror. Ali, as almas sofrem tormentos tão dolorosos e cruéis, que é como se estivessem ainda presas ao corpo. As chances de escapar são ínfimas. Apenas a cada dois mil anos abre-se um portal por onde as almas prisioneiras saem para falar com os vivos - e voltar ao seu tormento. É também o único momento em que Waru materializa-se no mundo dos humanos. 

É isso!, exultou Lucrécio, é isso! A Sra. Majo, solerte como ela só, veio me avisar que o portal está aberto. Somente no mundo dos vivos Waru pode ser destruído. Essa é a minha Missão, desafiar o monstro e matá-lo. 

Voltou aos livros. Havia apenas um relato de quem desafiara o monstro e sobrevivera, o samurai-feiticeiro Majishan Senchi.

Depois de estudar cuidadosamente a estratégia usada por Majishan, ligou para a Ordem e pediu a entrega imediata de alguns artefatos: uma katana Masamune – cuja fantástica lâmina nunca errava o alvo e deixava uma ferida que jamais cicatrizava; um espelho Yata no Kagami, da deusa do Sol e do Universo, a doce Amaterasu; e um sino Kongo, cuja sonoridade destruía demônios.

18 horas. Fechou os livros, rezou uma Ave Maria e dormiu. Quando acordou, sua encomenda já estava à porta. Chegara a hora de começar o ritual.

Lucrécio Lucas combatia as Trevas há muito tempo. Corajoso. Experiente. E, no momento, apavorado. Havia uma grande probabilidade de ele morrer e ter sua alma aprisionada. Suas mãos tremiam levemente e ele não respirava direito. 

Parou tudo. Calma. Não é a primeira vez que desafio o Mal. Além disso, pensou, a morte é para os que estão vivos. Aceitei essa Missão e vou cumpri-la. 

Com as mãos e o coração firmes, a mente limpa, deu prosseguimento ao ritual - dessa vez, sem falhas ou hesitações. Invocou, finalmente, a presença de Waru.

À hora dos mortos, Waru surgiu em sua forma física, abjeta e fétida, voraz, formidável em sua força e malignidade. Lucrécio Lucas desferiu um golpe com a katana Masamune. O monstro rugiu e, de seu corpo, jorraram gotas ácidas que, caindo em Lucrécio, fizeram-no urrar e cambalear de dor, a carne queimada e corroída.

Ainda assim, feriu novamente o demônio, que, em fúria assassina, lançou uma violenta onda de energia que dobrou Lucrécio ao meio, torcendo-lhe os músculos de tal forma, que seu braço esquerdo quedou-se, inerte e fraturado. A luta só não terminou ali, a desfavor de Lucrécio, porque parte da energia foi refletida pelo espelho, atingindo Waru e enfraquecendo-o.  

Quase desmaiando de dor, Lucrécio concentrou-se em continuar acordado e desafiante; o plano ainda não chegara ao fim. 

Do monstro saíram afiadíssimos estiletes, que cortaram o corpo de Lucrécio como minúsculas giletes voadoras. O ritual de proteção e o espelho salvaram-no de um mal maior, mas ele  estava chegando ao fim de suas forças. 

Vacilou. Suas pernas dobraram. Ele caiu... 

Impaciente e ferido, Waru aproveitou esse momento para acabar de vez com o estúpido humano. Abandonando a forma física, seu espírito tentou entrar no corpo de Lucrécio e, assim, matá-lo e possuir sua alma.

Clac. Fechou-se a armadilha. A fiel katana destruiu a forma corpórea no demônio – que não teria para onde voltar. E as almas torturadas das feiticeiras Kitsune – a Sra. Majo entre elas –, escondidas em Lucrécio, impediram que ele ocupasse o corpo do humano.

À deriva, e cercado pelas almas daquelas mulheres - poderosas quando vivas e cheias de ira em sua morte – Waru não resistiu aos encantamentos de banimento tão possantes e ancestrais quanto o som da criação, nem à vibração do sino da destruição, percutido pela mão íntegra de um Lucrécio Lucas quase exangue, mas ainda lúcido. O demônio dissolveu-se no éter. (Naturalmente, em algum momento, um novo Waru seria criado; perseguiria feiticeiras Kitsune... e assim seria até que todos fossem chamados ao Último Fim. Mas isso é outra história).

A flor de ervilha doce.
Um símbolo do adeus. Uma mensagem de despedida.
A Sra. Majo deixou  um recado inequívoco
para seu aluno: 'deixe que os mortos
enterrem seus mortos'.
Lucrécio não conseguia se mover, mal respirava, tudo lhe doía. Sangrava profusa e ininterruptamente. Percebeu que as almas das Feiticeiras, livres, seguiam seus caminhos. Não, pensou, não quero morrer sozinho... Foi então que sentiu a presença da alma da Sra. Majo. Confortado, Lucrécio Lucas deixou-se cair na inconsciência do sono profundo, do qual não esperava despertar. 

Acordou alguns dias depois, no hospital especial da Ordem, às três da manhã, ainda agoniado. Lucrécio Lucas só teria sossego quando descobrisse que a Sra. Majo agora descansava em paz. 

Virou-se para levantar, e viu, ao lado da maca, uma delicada flor de ervilha doce. Sorriu. Sim. A Sra. Majo descansava em paz. Ele poderia ficar sossegado.


Outras aventuras de Lucrécio Lucas

Os Caçadores - um dia da caça, outro do caçador

I Maledetti - todos malditos: vítimas e algozes

O Gato - parte 1 - nem durante as férias ele descansa

O Gato - parte 2 - mas a vida e a morte são assim mesmo

Caçadas noite adentro - nem tudo é o que parece; aliás, nada é o que parece

Viúva Negra - nem sempre o mau se dá mal

A Amante - a origem do nome de Lucrécio Lucas

A hora dos mortos - parte 1 - quando uma Alma pede ajuda

'Deixe que os mortos enterrem seus mortos" - MT 8,22

Foto Under the sun seeds in Pinterest
https://br.pinterest.com/underthesunseed/


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quinta-feira, 8 de março de 2018

HOJE É DIA>>Analu Faria

Dia de ganhar presente. Dia de protestar. Dia de pegar os filhos e sair de casa correndo, de madruga, fugindo do marido violento. Dia de sair naquela viagem deliciosa com a família. Dia de ter um dia de princesa. Dia de chorar porque as contas estão atrasadas e você é a única da casa que trabalha. Dia de esbanjar. Dia de comemorar porque conseguiu economizar. Dia de ler. Dia de não fazer nada. Dia de decidir não casar. Dia de ficar ansiosa para a primeira prova do vestido de noiva. Dia de contar para a família que gosta de outra mulher. Dia de ficar vendo Netflix agarradinha com o namorado. Dia de gastar num espartilho. Dia de queimar sutiã. Dia de enterrar a lua. Dia de chorar de raiva porque o coletor menstrual não quer entrar. Dia de rir, porque é engraçado demais ficar dobrando aquele copinho de mil jeitos até ele entrar em você. Dia de rezar. Dia de transar até cansar. Dia de ser assassinada por um membro da família. Dia de nascer. Dia de perder um filho. Dia de ganhar um filho. Dia de adotar. Dia de ser adotada. Dia de aguentar ser importunada na rua, porque é perigoso responder. Dia de ouvir um elogio e se sentir a barra de chocolate premiada do Willy Wonka. Dia de ser condenada e abandonada na cadeia. Dia de visitar o companheiro, o filho, o pai, o irmão preso. Dia de perdoar. Dia de acordar. Dia de ir embora. Dia de chegar. Primeiro dia de faculdade, último dia antes da aposentadoria. Dia de primeiros cabelos brancos. Dia de primeiros pelos pubianos.  Dia de amor. Dia de admitir o ódio. Dia de estudar 10 horas. Dia de passear no shopping. Dia de ser promovida. Dia de ser assaltada. Dia de prender bandido.  Dia de adorar o salto alto. Dia de por o pé no chão. Dia de trilha. Dia de se mudar para a metrópole. Dia de dar uma aula sobre criptomoedas. Dia de ensinar sobre ervas medicinais. Dia de aprender os dois. Dia de gritar. Dia de mergulhar no silêncio da meditação. Dia de mulher.













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quarta-feira, 7 de março de 2018

DESVESTIR-SE >> Carla Dias >>


De vazio desolador mesmo. Não é no aeroporto, observando filas e aviões decolarem. Não é de fechar as malas, a porta. É de fechar os olhos e assim mantê-los, e durante tanto tempo, que parece que fomos esquecidos em lugar nenhum.

Não é de adormecer e acordar sem presença. Não é de recorrer aos álbuns de fotografias para matar saudade com a lembrança provocada. Nem mesmo das festas que precedem a agonia da despedida.

Despedida que você não reconhece como despedida, que traz, na sua definição frágil de cotidiana, a devastadora transformação provocada por um gesto, uma palavra, uma falta.

Tudo se inflama, lateja, grita.

Percebe-se, então, mais do que o percebido antes dela, essa despedida que não permite a ausência. É feito ter de exorcizar demônios, mas sem a possibilidade de se desfazer deles, que continuam ali, morando em você.

Silenciosos, graves.

É de cair de amores pela figura exposta no quadro. Por aquele personagem que nunca lhe tocou, até que você o observasse mais de perto. Mais de perto é sempre risco. Mais de perto traz mil armadilhas nos braços. Mais de perto reverbera a intimidade do olhar.

Vai-se, então? Não... Parte de vez? Não...

De falta, apesar da presença. De altibaixos indecorosos. E de pequenas aventuras estimuladas pelo apreço, combinando catarses homeopáticas com conclusões indisponíveis.

A despedida de quem dá adeus, mas permanece. Um remanso falsificado. Uma mentira fazendo a vez de uma verdade.

Há distância em tantas instâncias. Há pausas de variadas durações.

Há despedidas repetidas à exaustão.

Imagem © Jan Mankes



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terça-feira, 6 de março de 2018

PREPAREM-SE >> Clara Braga

Na minha vida estudantil passei pelo período do cursinho pré-vestibular, um período cansativo e competitivo, mas que tem sua graça. Os professores têm uma missão complicada: passar muito conteúdo em pouco tempo. E na tentativa de manter a atenção de alunos cansados, muitos usam seu lado piadista como estratégia. As vezes funciona, as vezes não. 

Lembro-me bem de um professor de física que era adorado por todos exatamente por, na maioria das vezes, saber usar muito bem esse tal lado piadista e fazer com que conteúdos complexos fossem um pouco mais fáceis de serem digeridos. Porém, um belo dia, não lembro o contexto, mas lembro que ele fez o seguinte comentário: as mulheres são muito poderosas, o problema é que não são unidas, elas só não dominam o mundo pois estão perdendo seu tempo falando mal umas das outras.

Confesso que lembro de pouca coisa da época do cursinho, de física então não lembro de absolutamente nada, mas lembro que não gostei do comentário, fiquei um tanto indignada e desde então, sempre que lembro da frase que ele disse, engulo seco.

Infelizmente não foram poucas as vezes que engoli seco, toda vez que eu via uma mulher sendo falsa, falando mal de outra, encrencando com outra sem motivo aparente, olhando outra mulher de cima a baixo, julgando, desejando o mal ou qualquer coisa do tipo, lembrava desse comentário dele e, mais uma vez, engolia seco.

Vi tantas situações com as quais discordei que cheguei inclusive a me questionar se o fato de eu ter ficado tão indignada com o comentário desse professor é porque no fundo me doía ter que admitir que o comentário parecia ter sua parcela de realidade.

Nunca cheguei a uma conclusão concreta, mas depois de muito engolir seco, observei que o ano passado foi um ano marcado pelo crescimento do movimento feminista, as mulheres se apoiaram nas denuncias de abuso, se empoderaram, se defenderam. Toda vez que abri minhas redes sociais e vi a hashtag “mexeu com uma, mexeu com todas” eu dava um sorrisinho de canto de boca e me imaginava dizendo: tá vendo isso professor?

Esse fim de semana, enquanto acompanhava a entrega do oscar, em vários momentos dei meu sorriso de canto de boca e disse: tá vendo isso professor? Principalmente quando vi as mulheres usando seus momentos no palco não só para agradecer, mas também para que pudessem falar de suas mobilizações e projetos contra o abuso e a favor da igualdade. Sem contar que é muito bonito ver que enquanto uma fala as outras aplaudem com força demonstrando seu apoio, não tem como não dizer: tá vendo isso professor?

E não tenho vergonha de dizer que na hora em que Francis Mcdormand fez seu discurso ao ganhar o oscar de melhor atriz quase não me contive. Ela falou de representatividade, de respeito, da importância dos projetos que as mulheres, juntas, estão lançando e, quando eu já estava bem emocionada, ela ainda pede que todas as outras mulheres também indicadas se levantem junto com ela. Ver aquelas mulheres em pé, juntas, me fez ter vontade de dizer muito mais do que só “tá vendo isso, professor?” Dessa vez eu tive a necessidade de falar para o professor e também para o mundo: preparem-se, estamos unidas e vamos dominar o mundo!



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sexta-feira, 2 de março de 2018

FÁCIL E RÁPIDO >> Paulo Meireles Barguil


“Entrem pela porta estreita,
pois larga é a porta e espaçoso o caminho
que conduzem à perdição.
São muitos os que entram por ela.
Estreita, porém, é a porta e apertado o caminho
que conduzem à vida.
São poucos os que a encontram.”
(Mt 7, 13-14)
 
O Mestre tem uma Didática inigualável, pois explica as suas ideias sobre a vida a partir do cotidiano dos seus ouvintes.
 
Pouca importa onde eles estejam e quando as escutem: eles sempre podem entender a mensagem enunciada com desconcertante profundidade.
 
O caminho, já dizia o poeta, é feito pelo andarilho.
 
De vez em quando, uma companhia ou uma carona pode ajudar.
 
Embora a sabedoria popular aconselhe não conversar com estranhos, muito menos com eles viajar, a solicitação de certidão negativa costuma ser inútil.
 
Seja porque ela pode ser fraudada, seja porque o emissor costuma ser desconhecido, seja porque a sua descrição revela-se desatualizada pouco tempo depois da lavratura...
 
No trajeto, várias portas e janelas – largas ou estreitas, abertas ou fechadas, novas ou velhas – compõem o cenário, tornando-o – ou não – atraente e, por vezes, enigmático.
 
A convivência permite a revelação, que nunca é definitiva: sempre haverá algo oculto, principalmente quando ignoramos que a jornada externa é o enredo para empreender o mergulho íntimo.
 
Nessa perspectiva, a velocidade empreendida costuma ser inversamente proporcional à qualidade do que é encontrado dentro e fora.

O que vem fácil e rápido costuma ir também no mesmo ritmo.
 
A alma se sabe eterna, por isso abriga o frenético corpo, que, ciente da sua transitoriedade, esgrime para alcançar o que ela é sem ter feito qualquer esforço.
 
Equilíbrio é quando acontece o fascinante encontro de ambos.


[Via Ápia – Roma – Itália]

[Foto de minha autoria. 23 de março de 2013]  


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