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Mostrando postagens de Março, 2018

ESCOLHER É DESISTIR >> Paulo Meireles Barguil

"Pois que aproveitará ao Homem
ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua vida?” (Mc 8, 36) Em um mundo repleto de atrações, é necessário que o Homem escolha, pois é impossível ele usufruir tudo o que almeja, a não ser que, sabiamente, deseje apenas o indispensável para viver.
Para cada sim, vários nãos!
O desafio de cada pessoa em selecionar não é somente em virtude da quantidade daquelas, mas ao fato de que elas, muitas vezes, são excludentes, o que poderia ser facilmente percebido se a embriaguez não comprometesse o seu discernimento.  Cambaleando, então, seguimos cada vez mais gulosos, famintos e sedentos! No teatro da vida, há poucos ventríloquos e muitos bonecos.
Bastante frequente, portanto, que seja nomeado de insano quem desiste do que é tido como valoroso aos olhos cegos e opte pelo que esses não conseguem contemplar. Acredito que renunciar é abrir as mãos do que é efêmero para que elas possam tatear o sublime.

Rogo-lhe misericórdia, pois creio que estou sóbrio e …

OCUPE-SE DE MIM >> Carla Dias >>

Pense na contradição: desejo vazio.

O que se deseja tão sem força que só oferece espaço impossível de se ocupar?

Há cansaço, daqueles que açoitam silêncio com minguados gritos ecoando por lugar nenhum. Gritos-espasmos. Alquebrado gestos interrompidos no primeiro fôlego retomado. 

Percebe o desalento?

Em meio a tanto silêncio obrigatório: há amor.

Haja amor para nos torturar, diariamente. Nós que somos funcionários que servem aos seus desmandos. Nós que o deixamos em carne viva, para que o sentimento reverbere, enquanto nos atiça o corpo. Invoca o frenesi da nossa alma.

O amor.

Esse despautério de eriçar sonhos, aveludar a violência da falta. Esse argumento ao qual jamais teremos a capacidade de adequar desfecho. Onde mora,  ao relento, a esperança a flertar com uma felicidade que nasceu para a efemeridade.

Dura nada.
Dura menos que nada.
Jamais durará o suficiente.

A nudez que desola, em vez de abrasar. É benquerença embriagada por medo de que se acabe o que nem mesmo começou.  É ess…

NÃO É QUESTÃO DE PONTO DE VISTA >> Clara Braga

Mais um ano que acompanho o festival Lollapalooza do sofá da minha casa, e esse vem sendo para mim o melhor lugar de todos. Todos os anos observo como os artistas ficam emocionados de estarem em um festival tão grande e acabam fazendo discursos sobre a paz, o respeito, o amor ao próximo e outros tópicos que seguem a mesma linha de raciocínio. Não sei se todos os artistas, principalmente os internacionais, acompanham a situação política do nosso país, mas esse ano não foi diferente, ouvimos muitos discursos de pessoas que estão só querendo um mundo melhor para se viver, será que é pedir muito? O interessante é a reação do público, até mesmo aqueles que nem estão no festival para ver aquele artista específico se emocionam com a fala e param o que estão fazendo para aplaudir e mostrar que concordam, o mundo precisa mesmo ser um lugar melhor, é o que todos desejam.
Alguns shows eu acabei não acompanhando, então, no dia seguinte, liguei no jornal para acompanhar as notícias relacionadas a…

OLHOS PERDIDOS >> Sergio Geia

Encontrei aqueles olhos perdidos assim, do nada, raio cortando o céu, virei e pronto: estavam lá. Encontro doce, eu não desviava; nem ela. Parecia brincadeira de estátua, congelamos nossos olhares. Eu fiquei pensando no que ela estaria pensando. Ela, talvez, pensasse o mesmo, no que aquele sujeito de cabelos brancos estaria pensando; ou fazendo. Nesse mundo veloz, parar e olhar, apenas olhar, é perda de tempo. E, de repente, dois olhares se param, se encontram, se cruzam. Será que me viu velho? Havia garoa; fina. Havia sons: passarinhos, latidas, carros, uma conversa longe, voz de criança. As pessoas na calçada caminhavam, seguindo seus rumos, suas vidas, alheias àquele encontro, àquele cruzamento de olhares. Não. Deixe-me corrigir qualquer pensamento enviesado seu, assim ele não cresce, não ganha estatura, e você, não pensa mal de mim. Sim, porque as pessoas pensam mal, o tempo todo. O mundo pensa mal, e nem sei se é mal, no caso, mas há sempre uma tendência de se catar a verdadeira in…

OUTRA MALFADADA AVENTURA DO DR. MÁRCIO >> Zoraya Cesar

Leia a primeira aventura do Dr. Márcio, na qual uma boneca inflável causa mais problemas do que se poderia imaginar.
Se tinha uma nódoa no caráter do Dr. Márcio era a inveja. Inveja verde, musgosa e corrosiva, direcionada a um único alvo: o cunhado. 
Pouco mais velho que ele, o cunhado sempre vivera intensamente. Festas, viagens (você conhece alguém que já foi a Ulaanbaatar, capital da Mongólia? O cunhado foi. Pois é.), mulheres – ricas, pobres, de qualquer idade; se fossem desejáveis e interessantes, entravam no jogo. Jogo! Jogava, bebia, brigava, fumava e, Dr Márcio desconfiava fortemente, não apenas cigarros comuns.
Recém passado dos 60 (mas ainda trabalhando), Dr. Márcio era íntegro e confiável, quase um asceta, que nunca se embebedara, nunca se metera em ilícitos e levava uma vida extremamente rígida. E, até o humilhante episódio da boneca inflável, nunca se metera em confusões. 
"A vida é muito injusta. Por que esse inútil, sem emprego fixo, sem responsabilidade e sem noção tem…

BARATA>>Analu Faria

No sétimo dia da criação, aquele em que Deus descansou, um anjo aproveitou-se da folga divina, tomou posse do maquinário celeste e resolveu também fazer sua própria criatura. Foi dessa forma que o mundo ganhou a barata. Como aquela era uma oportunidade única, afinal não é qualquer dia que Deus dorme, o anjo caprichou e fez um ser quase indestrutível. Orgulhoso do feito e querendo impressionar O Chefe, ainda deu asas ao bicho. "Rá!", pensou, "É hoje que eu sou promovido."
Gostou tanto da ideia de animais voadores (Deus provavelmente ainda não havia inventado os pássaros...) , que foi até o estoque e saiu pegando todos os seres já criados, colocando-os de volta na linha de produção, para a adição de um par de asas. Depois do "sucesso" da barata, os próximos seriam a aranha e a vaca, inclusive já estavam na esteira. Acordado pelo barulho de sua fábrica - que deveria estar silenciosa, por conta do decreto de descanso - Deus chegou e mandou parar a palhaçada.…

DA INCAPACIDADE DE APRISIONAR O TEMPO ou “a morte detesta esperar” >> Carla Dias >>

O silêncio o domina.

Calaram a boca do mundo?

Observa a todos e ao tudo, assim: cinema mudo. Seu coração acelera, mas ele não escuta seu manifesto. Silenciosamente, o corpo grita urgência e ele ali, paralisado. Olhar desalinhado. Pernas incapazes de coreografar passos. Até seus pensamentos são rodados em silêncio.

Nada do som das palavras pronunciadas. Zero sonoplastia. Ah, essa silente taquicardia que o faz sentir como se o coração estivesse sendo expelido do peito. É quase como sentir a carne se rasgar, abrir caminho para o músculo e todo o simbolismo que ele carrega.

Das importâncias: reencontros.

Por que a saudade das vozes de seus afetos? E de uma das canções preferidas; das que acalmam tempestades interiores. Só que o silêncio, ah, esse silêncio que se coloca entre ele e o mundo, durante esse agora de coração ralentando, ralentando, ralentando.

Então, ele entende que o tempo não dura a duração das nossas buscas. Sempre acabamos antes, escolados que somos em nos perdermos em esp…

COMPARTILHANDO O QUE É DE VERDADE >> Clara Braga

Aluguei um apartamento! Fui buscar a chave e a simpática moça da recepção disse: acredita que esse apartamento sofreu um golpe? Antes que eu pudesse dizer: e não sofremos todos? Ela foi logo dizendo: hoje de manhã recebi uma ligação, um rapaz estava embaixo do prédio e disse que estava esperando a chave como havíamos combinado. Ela disse que achou estranho, então foi perguntando informações sobre o que ele havia combinado com a pessoa que com certeza não era ela. Foi então que o rapaz disse ter feito um depósito para garantir a reserva do apartamento, resolveu tudo online pois estava vindo de outro estado e precisava logo da chave pois estava com a mudança embaixo do prédio. A moça, que trabalha com isso diariamente, percebeu logo: ele havia sido vítima de um golpe! Alguém usou as fotos do apartamento que estavam disponíveis no site da imobiliária para criar um anúncio falso e roubar dinheiro daqueles que não podem, por motivos de força maior, resolver as coisas pessoalmente.
Coincid…

VOCÊ TEM VERGONHA DE QUÊ? >> Paulo Meireles Barguil

 De seguir cegamente as regras ou de ignorá-las?

De não considerar os seus sentimentos ou de sequer dar atenção a eles?

De ter acabado um relacionamento duradouro por e-mail ou de não ter se despedido?

De não acreditar em Deus ou de se declarar ateu?

De ter sido sovina ou de ter sido esbanjador?

De não cuidar de você ou de não zelar pelos outros?

De ter sido conduzido pelos seus instintos ou de não tê-los escutado?

De não ter pedido desculpas ou de não ter aceitado as que lhe foram solicitadas?

De mentir para você ou de se esconder dos outros?

De não honrar as suas palavras ou de elas não serem suas?

De gozar muito ou de não atingir o ápice?

De não admirar seu corpo ou de venerá-lo?

De ter sido orgulhoso ou de ter sido honesto?

De não saber ou de fingir que sabe?

De ter terminado uma relação para começar outra ou de alguém ter feito isso com você?

De não se esforçar para alcançar seus sonhos ou de nem almejar?

De criar problemas ou de não propor soluções?

De não ter agradecido ou de…

O QUE NÃO SAI DA CABEÇA >> Carla Dias >>

Um sonho recorrente: mergulha no rio, permanece submerso por tempo que não sabe definir. O silêncio pesado lhe acalma a mente, que vive inquieta a respeito de tudo, dos assuntos mais singelos aos grandes desafios que demandam reflexão apurada. Quando volta à superfície, chega a esse lugar que não é rio, não é terra. Bilhões de pontos luminosos sobre a sua cabeça. Os pés apoiados em algo que é nada. Flutua nessa caixa incandescente, que imita o infinito, mas tem paredes. Belas paredes, que não deixam de ser paredes por serem belas.

Sempre acorda quando a respiração parece lhe faltar. E grita, como se expulsasse de seu corpo o que o aprisiona. Um grito condoído, longo e perturbador.

O que eriça o espírito de uma pessoa pode nem mesmo comover outra. Na solidão das suas buscas, ele aprende de um tudo. O que muda é a profundidade, que de tudo, pouco está disponível para a sua compreensão. É assim que ele aceita, sem ressalvas, que é capaz de conviver com suas inquietações. Sente-se bem co…

PROCURA-SE >> Sergio Geia

Prédio da minha mãe.
Um papel colado no elevador diz, em linhas gerais, que um morador do bloco C (conclusão derivada da localização dos objetos), rotineiramente (duas a três vezes por semana), utiliza preservativo e descarta não só a embalagem, como o próprio, usado, pela sacada/janela do apartamento, nas áreas comuns. Que a situação está acontecendo há alguns meses e expondo não só os colaboradores da limpeza, mas também os moradores, crianças e visitantes, que são constrangidos e obrigados a conviver com tamanho desrespeito. Que tal atitude infringe diversas normas do condomínio e, para que sejam tomadas as medidas cabíveis, é indispensável identificar o infrator. Que por essas razões, a administração do condomínio solicita aos condôminos que caso alguém tenha visto o triste episódio, saiba ou desconfie de alguém, que denuncie. Leio uma, duas, três vezes. Instigo minha mãe a contar detalhes do babado. Diz que o sujeito está sendo procurado, como um criminoso, ela acrescenta; que há a…

A HORA DOS MORTOS 2a PARTE >> Zoraya Cesar

A hora dos mortos - parte 1 - Lucrécio Lucas foi acordado, às três horas da manhã, a hora dos mortos, pela alma torturada de sua primeira mestra, a feiticeira Kitsune Sra. Majo. Que lhe pedia ajuda para escapar de Waru, o Labirinto do Terror. Lucrécio Lucas jamais se negara a cumprir uma missão. Não seria aquela que ele negaria. Mesmo que lhe custasse a vida. E a alma.
Lucrécio não voltou a dormir. Precisava desvendar o quanto antes aquele tríplice mistério: como a alma da Sra. Majo fora aprisionada; como conseguira entrar em contato; e como ajudá-la a escapar de Waru, o Labirinto do Terror.
Em pouco tempo encontrou sua primeira resposta: o demônio aprisionava as almas das feiticeiras Kitsune assim que saíam de seus corpos. Ainda fracas pelo choque da desencarnação, não tinham como se defender. 
Waru é um demônio e, ao mesmo tempo, um lugar – o Labirinto do Terror. Ali, as almas sofrem tormentos tão dolorosos e cruéis, que é como se estivessem ainda presas ao corpo. As chances de escapar…

HOJE É DIA>>Analu Faria

Dia de ganhar presente. Dia de protestar. Dia de pegar os filhos e sair de casa correndo, de madruga, fugindo do marido violento. Dia de sair naquela viagem deliciosa com a família. Dia de ter um dia de princesa. Dia de chorar porque as contas estão atrasadas e você é a única da casa que trabalha. Dia de esbanjar. Dia de comemorar porque conseguiu economizar. Dia de ler. Dia de não fazer nada. Dia de decidir não casar. Dia de ficar ansiosa para a primeira prova do vestido de noiva. Dia de contar para a família que gosta de outra mulher. Dia de ficar vendo Netflix agarradinha com o namorado. Dia de gastar num espartilho. Dia de queimar sutiã. Dia de enterrar a lua. Dia de chorar de raiva porque o coletor menstrual não quer entrar. Dia de rir, porque é engraçado demais ficar dobrando aquele copinho de mil jeitos até ele entrar em você. Dia de rezar. Dia de transar até cansar. Dia de ser assassinada por um membro da família. Dia de nascer. Dia de perder um filho. Dia de ganhar um filho.…

DESVESTIR-SE >> Carla Dias >>

De vazio desolador mesmo. Não é no aeroporto, observando filas e aviões decolarem. Não é de fechar as malas, a porta. É de fechar os olhos e assim mantê-los, e durante tanto tempo, que parece que fomos esquecidos em lugar nenhum.

Não é de adormecer e acordar sem presença. Não é de recorrer aos álbuns de fotografias para matar saudade com a lembrança provocada. Nem mesmo das festas que precedem a agonia da despedida.

Despedida que você não reconhece como despedida, que traz, na sua definição frágil de cotidiana, a devastadora transformação provocada por um gesto, uma palavra, uma falta.

Tudo se inflama, lateja, grita.

Percebe-se, então, mais do que o percebido antes dela, essa despedida que não permite a ausência. É feito ter de exorcizar demônios, mas sem a possibilidade de se desfazer deles, que continuam ali, morando em você.

Silenciosos, graves.

É de cair de amores pela figura exposta no quadro. Por aquele personagem que nunca lhe tocou, até que você o observasse mais de perto. Ma…

PREPAREM-SE >> Clara Braga

Na minha vida estudantil passei pelo período do cursinho pré-vestibular, um período cansativo e competitivo, mas que tem sua graça. Os professores têm uma missão complicada: passar muito conteúdo em pouco tempo. E na tentativa de manter a atenção de alunos cansados, muitos usam seu lado piadista como estratégia. As vezes funciona, as vezes não. 
Lembro-me bem de um professor de física que era adorado por todos exatamente por, na maioria das vezes, saber usar muito bem esse tal lado piadista e fazer com que conteúdos complexos fossem um pouco mais fáceis de serem digeridos. Porém, um belo dia, não lembro o contexto, mas lembro que ele fez o seguinte comentário: as mulheres são muito poderosas, o problema é que não são unidas, elas só não dominam o mundo pois estão perdendo seu tempo falando mal umas das outras.
Confesso que lembro de pouca coisa da época do cursinho, de física então não lembro de absolutamente nada, mas lembro que não gostei do comentário, fiquei um tanto indignada e …

FÁCIL E RÁPIDO >> Paulo Meireles Barguil

 “Entrem pela porta estreita, pois larga é a porta e espaçoso o caminho que conduzem à perdição. São muitos os que entram por ela.
Estreita, porém, é a porta e apertado o caminho que conduzem à vida. São poucos os que a encontram.” (Mt 7, 13-14) O Mestre tem uma Didática inigualável, pois explica as suas ideias sobre a vida a partir do cotidiano dos seus ouvintes. Pouca importa onde eles estejam e quando as escutem: eles sempre podem entender a mensagem enunciada com desconcertante profundidade. O caminho, já dizia o poeta, é feito pelo andarilho. De vez em quando, uma companhia ou uma carona pode ajudar. Embora a sabedoria popular aconselhe não conversar com estranhos, muito menos com eles viajar, a solicitação de certidão negativa costuma ser inútil. Seja porque ela pode ser fraudada, seja porque o emissor costuma ser desconhecido, seja porque a sua descrição revela-se desatualizada pouco tempo depois da lavratura... No trajeto, várias portas e janelas – largas ou estreitas, a…