quarta-feira, 14 de março de 2018

O QUE NÃO SAI DA CABEÇA >> Carla Dias >>


Um sonho recorrente: mergulha no rio, permanece submerso por tempo que não sabe definir. O silêncio pesado lhe acalma a mente, que vive inquieta a respeito de tudo, dos assuntos mais singelos aos grandes desafios que demandam reflexão apurada. Quando volta à superfície, chega a esse lugar que não é rio, não é terra. Bilhões de pontos luminosos sobre a sua cabeça. Os pés apoiados em algo que é nada. Flutua nessa caixa incandescente, que imita o infinito, mas tem paredes. Belas paredes, que não deixam de ser paredes por serem belas.

Sempre acorda quando a respiração parece lhe faltar. E grita, como se expulsasse de seu corpo o que o aprisiona. Um grito condoído, longo e perturbador.

O que eriça o espírito de uma pessoa pode nem mesmo comover outra. Na solidão das suas buscas, ele aprende de um tudo. O que muda é a profundidade, que de tudo, pouco está disponível para a sua compreensão. É assim que ele aceita, sem ressalvas, que é capaz de conviver com suas inquietações. Sente-se bem com essa aceitação, porque conhece poucas pessoas que aceitam que nunca terão as respostas que buscam. Admira aqueles que, sem melindres, assumem seu lugar de questionadores, ainda que jamais alcancem uma resposta. Já presenciou catarses e descobertas durante longas sessões de questionamentos. A maioria aconteceu sem que houvesse uma resposta. A maioria levou os inquiridores a novos caminhos.

Para ele, questionar é necessário.

Porém, nasceu questionador silente. Está sempre presente, é ótimo ouvinte, mas nunca se manifesta. Tem certeza de que, se tivesse coragem de verbalizar inquietações, responderia a algumas perguntas feitas por outros, aqueles amigos que não sabem o nome dele, mas apreciam sua companhia.

Não entende como veio parar nesse grupo. Seu tio o indicou a outro, não tão apurado nos questionamentos. Então, veio o convite de um dos integrantes daquele grupo para que conhecesse esse do qual participa há mais de vinte anos. A transição ainda lhe chega falha à memória. Não sabe se é esquecimento que se adquire com a idade ou dos escolhidos. Fato é que, toda vez que alguém lhe dirige a palavra para perguntar como chegou ali, ele consegue se tornar ainda mais calado. O outro sempre sorri e, distraído com seus próprios demônios, segue para a próxima expurgação.

Há dias em que a excitação toma conta de um e de outro e os questionamentos se tornam discussões acaloradas. Às vezes, as discussões se estendem por horas, sendo necessário que um dos integrantes do grupo, que tenha mais o que fazer do que reverberar suas crendices, dê fim ao desconforto e coloque o trem nos trilhos. Ele gosta desses momentos de descontrole. Aprecia observar os sempre tão diplomatas inquiridores perderem a compostura. Não há nada que o incomode mais do que inquietações no cabresto.

Homens e mulheres se reúnem toda semana nessa sala. Esse lugar que presencia o ser humano sendo humano, acertando apontamentos, errando comportamentos, revitalizando entendimentos. Onde pessoas conversam à exaustão sobre temas que lhes inquietam e fascinam. Onde as conversas são em benefício do conhecimento, que resultam em descobertas.

O grupo se reúne e ele se posiciona. Não se lembra sobre como veio parar aqui, mas foi seu tio que o indicou para o primeiro emprego. Depois, recebeu o convite para atender a esse grupo. Há mais de vinte anos, verifica as instalações, providencia o alimento, garante que não falte café. Durante horas, permanecesse em pé, ao lado da porta, vestido em seu impecável uniforme, um terno muito requintado, disponível para atender aos pedidos daquelas pessoas.

Soubessem como lhe encantam as inquietações. E que, talvez, se ele abrisse a boca e mencionasse as suas, pudesse responder alguns dos questionamentos abordados naquela sala. Há gênios ali e ele se sente lisonjeado por fazer parte dessas reuniões. Há também as mazelas humanas: ciúme, egocentrismo, desejo fervoroso pelo poder. São pessoas, para o bem, para o mal e para a genialidade. Às vezes, eles cometem a barbárie da tolice.

Se ele conseguisse abrir a boca e dizer. Se reverberasse suas inquietações, quem sabe? Eles o escutariam, discutiriam seus apontamentos, descobririam neles algumas respostas que, já decidiram, nunca encontrarão nessa vida. Porém, permanece ali, em pé, estático, o olhar apontado para a janela. As vozes deles a lhe confundirem os pensamentos. Os pensamentos deles a lhe fascinarem o espírito.

Imagem © Oskar Schlemmer

carladias.com



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