terça-feira, 6 de março de 2018

PREPAREM-SE >> Clara Braga

Na minha vida estudantil passei pelo período do cursinho pré-vestibular, um período cansativo e competitivo, mas que tem sua graça. Os professores têm uma missão complicada: passar muito conteúdo em pouco tempo. E na tentativa de manter a atenção de alunos cansados, muitos usam seu lado piadista como estratégia. As vezes funciona, as vezes não. 

Lembro-me bem de um professor de física que era adorado por todos exatamente por, na maioria das vezes, saber usar muito bem esse tal lado piadista e fazer com que conteúdos complexos fossem um pouco mais fáceis de serem digeridos. Porém, um belo dia, não lembro o contexto, mas lembro que ele fez o seguinte comentário: as mulheres são muito poderosas, o problema é que não são unidas, elas só não dominam o mundo pois estão perdendo seu tempo falando mal umas das outras.

Confesso que lembro de pouca coisa da época do cursinho, de física então não lembro de absolutamente nada, mas lembro que não gostei do comentário, fiquei um tanto indignada e desde então, sempre que lembro da frase que ele disse, engulo seco.

Infelizmente não foram poucas as vezes que engoli seco, toda vez que eu via uma mulher sendo falsa, falando mal de outra, encrencando com outra sem motivo aparente, olhando outra mulher de cima a baixo, julgando, desejando o mal ou qualquer coisa do tipo, lembrava desse comentário dele e, mais uma vez, engolia seco.

Vi tantas situações com as quais discordei que cheguei inclusive a me questionar se o fato de eu ter ficado tão indignada com o comentário desse professor é porque no fundo me doía ter que admitir que o comentário parecia ter sua parcela de realidade.

Nunca cheguei a uma conclusão concreta, mas depois de muito engolir seco, observei que o ano passado foi um ano marcado pelo crescimento do movimento feminista, as mulheres se apoiaram nas denuncias de abuso, se empoderaram, se defenderam. Toda vez que abri minhas redes sociais e vi a hashtag “mexeu com uma, mexeu com todas” eu dava um sorrisinho de canto de boca e me imaginava dizendo: tá vendo isso professor?

Esse fim de semana, enquanto acompanhava a entrega do oscar, em vários momentos dei meu sorriso de canto de boca e disse: tá vendo isso professor? Principalmente quando vi as mulheres usando seus momentos no palco não só para agradecer, mas também para que pudessem falar de suas mobilizações e projetos contra o abuso e a favor da igualdade. Sem contar que é muito bonito ver que enquanto uma fala as outras aplaudem com força demonstrando seu apoio, não tem como não dizer: tá vendo isso professor?

E não tenho vergonha de dizer que na hora em que Francis Mcdormand fez seu discurso ao ganhar o oscar de melhor atriz quase não me contive. Ela falou de representatividade, de respeito, da importância dos projetos que as mulheres, juntas, estão lançando e, quando eu já estava bem emocionada, ela ainda pede que todas as outras mulheres também indicadas se levantem junto com ela. Ver aquelas mulheres em pé, juntas, me fez ter vontade de dizer muito mais do que só “tá vendo isso, professor?” Dessa vez eu tive a necessidade de falar para o professor e também para o mundo: preparem-se, estamos unidas e vamos dominar o mundo!



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