quarta-feira, 7 de março de 2018

DESVESTIR-SE >> Carla Dias >>


De vazio desolador mesmo. Não é no aeroporto, observando filas e aviões decolarem. Não é de fechar as malas, a porta. É de fechar os olhos e assim mantê-los, e durante tanto tempo, que parece que fomos esquecidos em lugar nenhum.

Não é de adormecer e acordar sem presença. Não é de recorrer aos álbuns de fotografias para matar saudade com a lembrança provocada. Nem mesmo das festas que precedem a agonia da despedida.

Despedida que você não reconhece como despedida, que traz, na sua definição frágil de cotidiana, a devastadora transformação provocada por um gesto, uma palavra, uma falta.

Tudo se inflama, lateja, grita.

Percebe-se, então, mais do que o percebido antes dela, essa despedida que não permite a ausência. É feito ter de exorcizar demônios, mas sem a possibilidade de se desfazer deles, que continuam ali, morando em você.

Silenciosos, graves.

É de cair de amores pela figura exposta no quadro. Por aquele personagem que nunca lhe tocou, até que você o observasse mais de perto. Mais de perto é sempre risco. Mais de perto traz mil armadilhas nos braços. Mais de perto reverbera a intimidade do olhar.

Vai-se, então? Não... Parte de vez? Não...

De falta, apesar da presença. De altibaixos indecorosos. E de pequenas aventuras estimuladas pelo apreço, combinando catarses homeopáticas com conclusões indisponíveis.

A despedida de quem dá adeus, mas permanece. Um remanso falsificado. Uma mentira fazendo a vez de uma verdade.

Há distância em tantas instâncias. Há pausas de variadas durações.

Há despedidas repetidas à exaustão.

Imagem © Jan Mankes



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3 comentários:

Anônimo disse...

Como sempre uma leitura instigante! Valeu Carla Dias!

Abraços
Enio.

Zoraya Cesar disse...

Como sempre, irretocável, Carla!

Carla Dias disse...

Obrigada Enio e Zoraia. :) Beijos!