quarta-feira, 28 de março de 2018

OCUPE-SE DE MIM >> Carla Dias >>


Pense na contradição: desejo vazio.

O que se deseja tão sem força que só oferece espaço impossível de se ocupar?

Há cansaço, daqueles que açoitam silêncio com minguados gritos ecoando por lugar nenhum. Gritos-espasmos. Alquebrado gestos interrompidos no primeiro fôlego retomado. 

Percebe o desalento?

Em meio a tanto silêncio obrigatório: há amor.

Haja amor para nos torturar, diariamente. Nós que somos funcionários que servem aos seus desmandos. Nós que o deixamos em carne viva, para que o sentimento reverbere, enquanto nos atiça o corpo. Invoca o frenesi da nossa alma.

O amor.

Esse despautério de eriçar sonhos, aveludar a violência da falta. Esse argumento ao qual jamais teremos a capacidade de adequar desfecho. Onde mora,  ao relento, a esperança a flertar com uma felicidade que nasceu para a efemeridade.

Dura nada.
Dura menos que nada.
Jamais durará o suficiente.

A nudez que desola, em vez de abrasar. É benquerença embriagada por medo de que se acabe o que nem mesmo começou.  É essa pintura em destaque na parede dos pudores que recitam tendências controladas e patrocinam romarias.

Sobre a qual se jogam panos e preces, escondendo as partes que lhes provocam, além do permitido, de jeito que não consigam esconder seus olhares alvoroçados.

Eriçados pecados.
Pontiagudos segredos.

Há amor.
Haja amor.

Desatado de esperas, que ando urgente. Ando de lá para cá, às vezes, deito-me. Chão.

Haja céu.
Haja voz calada, esse esconderijo perfeito para ressentimentos dedicados a si.

Porque deveria, mas não.
Poderia, mas nunca.
Seria capaz, mas quando?

Imagem © Arthur Boyd

carladias.com



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