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Mostrando postagens de Julho, 2014

AMOR, ESTOU COM SAUDADES DA FITA ISOLANTE
>> Fernanda Pinho

Uma das coisas mais bacanas de estudar outras línguas é descobrir palavras que só existem naquele idioma. Como “saudade” que, dizem, é uma palavra exclusiva do português. Mas de onde vem isso? Qual foi nossa primeira saudade? Pesquisando, descobri que a palavra nasceu junto com o Brasil. Ou, pelo menos, junto com aquele Brasil descoberto pelos portugueses. Já que a palavra, derivada do latim (em que “solitáte” quer dizer “solidão”), passou a ser utilizada pelos nossos patrícios para definir a melancolia causada pela distância de casa.

Na mesmo pesquisa, descobri também que o gaélico é o único idioma que nos oferece uma palavra com conotação textual semelhante: “hiraeth”. Como meu marido não é um escocês do século V, deve ter acontecido de, em algum momento, eu ter inserido a palavra “saudade” em nosso relacionamento. E provavelmente deixei claro que sentir saudades era o mesmo que sentir a falta, sentir a ausência.

Ótima explicação, certo? Precisa e esclarecedora. E quando ele me dis…

VENTANIA DA SILVA >> Carla Dias >>

Para as meninas da minha vida: Duda, Amanda, Débora e Mayara.
O seu nome é Ventania. Gosta de vento que é uma coisa, mas não é só isso: os cabelos. Já viu cabelos iguais aos dela? Parece até que vão se enroscar nas copas das árvores, enquanto ela caminha desacelerada. Bem se vê que está paquerando pensamento. É de uma lindeza descabida, que faz mais de um, de dois, de cento e cinquenta e sete pessoas desejarem ser Ventania.

Ventania da Silva. Batizada aos meandros dos acontecimentos, que a mãe pariu a menina às lufadas do vento, que na hora do registro não saía de sua cabeça essa coisa de ventania. Ventania da Silva escapou de sua boca, e depois disso, não houve quem tirasse o registro da menina.

Ela nasceu inadequada, é preciso que aceitemos isso.

Quer dizer, não é não! E nem devemos tentar.

Nasceu com a inadequação em polvorosa, porque quando não se cabe no provável é dito feio, insalubre, incorreto, desproporcional, inaceitável e mais uma penca de predicados que não fazem sentido q…

DEFEITOS QUE SÃO FALSOS ELOGIOS
>> Clara Braga

— Uma cor?
— Branco, representa a paz.
— Um sentimento?
— Amor.
— Algo que você odeia?
— Racismo.
— Uma frase?
— Não se leve sempre tão a sério.
— Uma qualidade?
— … é… hum… é…

De todos os clichês existentes em uma entrevista no estilo “bate-volta”, sem dúvida o maior de todos é a dificuldade em se autoelogiar. Parece que elogiar é uma das únicas coisas que costuma ser mais fácil fazer para os outros do que para si mesmo. Exatamente o contrário do defeito, que é muito mais fácil falar do próprio do que do alheio. Será?

Repare bem, já percebeu que as pessoas, quando vão citar um defeito, nunca dizem aquele defeito cabeludo? Todo grupo de amigos tem pelo menos uma pessoa de que todo mundo pensa: “Fulaninho é ótimo, se não fosse aquela mania de falar berrando, mesmo quando estamos em um local silencioso". Ou: “Adoro Fulaninha, mas ela tinha que ser tão egoísta?” Agora pergunta para o Fulaninho ou para a Fulaninha qual o maior defeito deles, eles nunca vão dizer "falar alto dema…

AS TRÊS MARIAS >> Albir José Inácio da Silva

Plin-plin. A câmera mostra o céu sem nuvens, desce pra areia dourada e avança sobre o mar calmo e azul. Fecha agora sobre as pedras onde se veem dois corpos bronzeados, esguios e adolescentes, que se beijam. Beijam com ternura, as mãos acariciando os rostos. Lentamente a câmera passeia pelo terreno rochoso, vai até a linha d’água e volta. Agora se beijam com paixão, com fome. As mãos seguram as cabeças como se quisessem fundi-las. Dedos desajeitados afastam uma alça de biquíni. A câmera os deixa rapidamente e para lá longe, onde se encontram céu e mar. O microfone ainda registra o estrépito dos beijos e a respiração convulsa. A música se eleva feito um hino e o ruído das ondas marca o ritmo. O Rio de Janeiro brilha ao sol das dezenove horas. E se um dia deuses se amaram, foi assim.

Raras são as novelas que não trazem belas paisagens da Zona Sul do Rio de Janeiro, corpos esguios e bronzeados, e românticas primeiras vezes. Essas cenas alcançam recordes de audiência e ficam na memória de…

A ÁRVORE >> Sergio Geia

Foi uma conversa estranha, mas à medida que eu andava, seguindo uma espécie de fila indiana, com a mochila nas costas, o violão, a latinha de coca, ela falou, falou sim, falou no meu ouvido, se apresentando como uma nova amiga. “Olhe pra mim!” E eu olhei. E me senti instantaneamente muito bem. Senti toda a sua força colossal, seu poder extraordinário, sua resistência e sua sensibilidade, uma energia cósmica me invadindo pela epiderme do dedão do pé até a mais profunda das camadas da alma. Ela não parava de falar: “Eei! Irmãão! Estou aqui, viu? Eu vivo também, Tchutchucão!”.

Isso pode parecer maluquice, mas foi real, amigo, eu garanto! Ela me disse que embora centenária, frondosa, enorme, poucos ali a percebiam. “É assim mesmo. Eu já estou acostumada. Somente alguns conseguem sintonizar o meu nível vibratório. E precisa coragem, Tchutchucão! Você tem. Tem muita coragem. Estou feliz com sua presença, meu novo amigo! Faz tempo que não aparece alguém como você. Eu tenho certeza que o reno…

CRER SEM VER >> Paulo Meireles Barguil

A realidade não pode ser compreendida inteiramente pelo Homem. Brincamos, então, de elaborar sentidos, que nos permitam uma maior aproximação e, assim, aquietem, mesmo que brevemente, o nosso espírito.
A cada descoberta, a pessoa é invadida por sentimentos antagônicos: por um lado, sua percepção do mundo se amplia, por outro, surgem sombras antes sequer imaginadas.
Iluminar, portanto, aumenta não somente a área visualizada, mas, também, a cortinada. Que paradoxo fascinante!
Diante dessa constatação, é compreensível que alguém defenda a inutilidade do conhecer, afinal o ignorado só cresce!
O espírito, contudo, refuta essa proposta e se movimenta, com intensidade variada, em direção ao infinito.
Eu admito: na maior parte das vezes, só consigo ver o que creio e só acredito no que minha mente é capaz de perceber.
Este é um dos fatores que mais influenciam a velocidade do deslocamento, bem como a sua direção.
Somos diferentes — e cada vez mais! — em virtude da herança biológica e da ba…

O BOICOTE NOSSO DE CADA DIA >> Mariana Scherma

Eu não sei você, mas eu vivo me boicotando. É um ciclo sem fim. Estou direto com duas (ou até mais) vozes na minha cabeça, uma sempre tentando me convencer de algo que eu quero. A outra, num som mais baixinho, tentando deixar claro que eu não preciso do que quero. A voz da razão é um sussurro. Começa logo pela manhã, assim que abro meu e-mail:

— Bolsas de franja em promoção. Ai!
— Mas eu já tenho duas bolsas de franja.
— Só que nenhuma nesse marrom caramelo. Olha que linda, imagina usar junto com a calça de onça?!
— Esquece, tá faltando armário pra guardar tanta bolsa.

Ok, venci o round um do boicote. Uma bolsa de franja a menos. O problema é que as tentações do dia nem começaram ainda...

Aí vem a fome no meio da manhã. Depois de você ter malhado com toda a sua energia na academia.
— Vou tomar um copão de água e comer uma ameixa.
— Mas e aquela bolacha de chocolate que você comprou?
— É pro fim de semana.
— Uma só não é pecado, aquele gostinho de mel com chocolate... Hmmm!
Resultado: …

ALGUNS DE ALEXANDER PAYNE >> Carla Dias >>

Alexander Payne é um diretor que me agrada muito. Não somente um diretor, mas também um roteirista que me apetece. Para mim, As Confissões de Schmidt (About Schmidt/2002) e Sideways – Entre Umas e Outras (Sideways/2004) são filmes primorosos. Em Os Descendentes (The Descendantes/2011), ele exercita a delicadeza ao abordar a perda de uma pessoa em processo. Nos três filmes, Payne atuou como roteirista e diretor.

Sabe-se sobre Payne que ele é ótimo quando se trata da seleção dos atores, e eles o adoram. Talvez por isso ele consiga tirar o melhor daqueles que já fazem parte da seleta lista de artistas realmente talentosos. Quem não se lembra de Jack Nicholson em As Confissões de Schmidt? Se você não se lembra, é porque não assistiu ao filme. Por isso, eu o aconselho, veementemente, que o faça. Em Sideways, Paul Giamatti, um ator fantástico, consegue ir além do que já fizera em Anti-Herói Americano (American Splendor/2003), de Shari Springer Berman e Robert Pulcini. Em Os Descendentes, G…

INSISTIR EM DESISTIR >> Clara Braga

— E você, em algum momento, pensou em desistir?
— Ah, pensei várias vezes, mas ai encontrei apoio nos meus familiares, nos meus amigos, nos meus amores e segui em frente, batalhei muito para chegar até aqui!
— E se você fosse dar um recado para seus admiradores, o que você diria?
— Para nunca desistirem de seus sonhos, tenham fé que vocês irão realizar o que desejam!
Por acaso isso soa familiar? Para mim soa muito, é o diálogo básico de 90% das entrevistas feitas com grandes celebridades, seja da música, do teatro, da dança, do esporte, não importa. E convenhamos, sorte a deles que dizem que pensaram em desistir, mas não desistiram. Dá um ar dramático para a entrevista, e a gente, que sabe que muitas vezes nem foi assim, adora um drama! 
Vai dizer que não é um tanto decepcionante quando você está assistindo àquela entrevista com o seu ídolo e ele responde: "Não, nunca pensei não, tudo aconteceu de forma muito natural, eu sabia que essa era minha vida, sempre todo mundo me apoiou…

NÃO SE PISA NA LUA >> Eduardo Loureiro Jr.

Há quem diga que, há exatos 45 anos, o homem pisou na Lua. E há quem diga que não.

Quem sou eu para suspeitar da veracidade dos depoimentos de cientistas, jornalistas e políticos? Mas compartilho com os descrentes algumas dúvidas: se o homem chegou mesmo à Lua, por que não retornou? Por que a corrida armamentista, desenvolvimentista, mercantilista, não fez com a Lua o que faz com todo lugar onde chega? Por que não ocupou, colonizou, extraiu, desnaturou? Sem desconfiar de uns nem me fiar em outros, gosto de pensar que a Lua, a Senhora da Inspiração, permitiu a aproximação do Homem pensando que alguns dos tantos que lhe louvavam em versos estavam chegando. Quando percebeu que se tratavam de militares e não de poetas, que vinham não com penas e papéis, mas com bandeiras e coturnos, a Mulher de Fases decidiu fechar seu corpo. E não há tecnologia que a faça abrir por enquanto. Talvez quando os poetas ganharem asas e puderem pousar lá sem nenhuma parafernália. Talvez, apenas talvez.

E você,…

QUANDO O SOL SE PÕE DENTRO DE UM CAFÉ
>> Cristiana Moura

Não havia mesa livre como de costume. Esqueci-me do desconforto da cadeira alta na simpatia larga do rapaz do outro lado do balcão. Tomava meu chá e observava os passantes do lado de fora do café. Alguns paravam para olhar o cardápio através do vidro.  Do lado de cá temos uma impressão divertida de que eles é que estão dentro de uma vitrine.

Sim, uma vitrine de manequins vivos. A luz do Sol adentrando o recinto através do vidro parece não lhes dar permissão para enxergar o lado de dentro. A moça para, olha talvez o cardápio e, por certo, a si mesma. Arruma o cabelo, passa batom. Ela percebe que está sendo observada e o jeito sem jeito da moça se faz diversão pro mundo do lado de cá. Leandro, o rapaz vendendo cafés e simpatia detrás do balcão, ri. Nasce uma descontração solta do tudo igual do trabalho no café.

Leandro conta que é sempre assim quando é antes do pôr do sol. A luz transforma o vidro em espelho e o pessoal se arruma, faz careta e, se percebe que estamos vendo daqui, é um …

O CASACO - PARTE II >> Zoraya Cesar

clique para ler O Casaco Parte I
Aline vestiu-se discretamente, como sempre. Vestido, meias, sapatos, tudo preto. Está parecendo um urubu, disse a mãe, gentil, como sempre. 
O casaco. Ela o admirou longamente, como era bonito, um amarelo tão vistoso, brilhante, extravagante, até agora não entendia como tivera coragem de comprá-lo. Assim que chegou à rua, vestiu-o. 
E, novamente, daquele momento até o final na noite, a Aline tímida de doer, explorada, amassada, inexpressiva passou a ser mera espectadora do que uma outra Aline fazia enquanto ocupava seu corpo. Aline-do-casaco-amarelo parecia muito à vontade com o mundo. Parou num bar, entornou um copo de vodca e depois pegou um táxi. Desceu no local da festa, um bar-restaurante badalado que a mídia propagava ser ideal para os modernos e antenados. 
O ambiente, lusco-fusco, estilo decadente-chic, estava lotado. Isso vai ser um saco, pensou. Nenhum de seus colegas a reconheceu. Aline viu Cristiana Rosely, que, bêbada, ainda era mais vulga…

VIOLA DA GAMBA, LITERATURA E VIOLONCELO
>> Carla Dias >>

A pesquisa, com o fim de escrever um livro, é algo que faço somente quando definitivamente necessário. Depois que embarco nessa jornada, não há como fugir da pesquisa. É preciso saber se aquele dito popular, que você escutou, durante a infância toda, que decidiu incluir nessa história inventada, é originalmente como lhe disseram. Às vezes, uma palavra que os seus avós pronunciavam de um jeito, não era bem assim, mas você fixou, então tem de reciclar, colocar a palavra em ordem. Mesmo depois de descobrir o dicionário, às vezes me espanto com a lembrança de alguma palavra que aprendi na infância, e que, adulta, descubro que o seu sentido estava correto, mas não a sua grafia.

Obviamente, eu falo sobre uma época em que a informação não era amplamente disponível como hoje. De quando até mesmo o professor mandava a rua brilhar, em vez de ladrilhar; que vaiar Roma fazia muito mais sentido do que a ideia de ir até ela. Nos dias de hoje, a pesquisa ficou mais rápida, apesar de ainda exigir di…

HASTA LA VISTA >> Albir José Inácio da Silva

Não comento a copa porque não sei nada de futebol. Mas fiquei à vontade depois de ouvir por uma semana os especialistas tentando explicar a derrocada da seleção. Quase concluí que sabem tanto quanto eu. A própria Alemanha campeã parece nos dar a resposta — investimento nas equipes de base.

Mas a copa acontece vinte e quatro horas por dia, durante um mês, e o futebol apenas algumas horas. E não ia ter copa, nem aeroporto, nem estádio, nem hotel, nem segurança. E ia ser um fiasco, uma risadaria, e os gringos iam ter certeza de nossa incompetência para fazer qualquer coisa que não seja samba e futebol.

E a única coisa que salvava o Brasil nesta copa do mundo era o futebol porque somos pentacampeões, nascemos jogando futebol, e está no nosso sangue, no suingue, na malemolência do drible e do toque de bola.

E os gringos jamais conseguiriam isso porque são muito duros, não têm jogo de cintura, não aprendem futebol na várzea e no paralelepípedo e jogam um futebol burocrático e retranqueiro, …

A SOMBRA DA ASSOMBRAÇÃO >> Whisner Fraga

Nem sei se avisavam sobre a classificação indicativa, mas no início dos anos oitenta, eu e meu pai chegamos à conclusão de que eu não deveria ter visto o Fantástico daquele domingo. Não tínhamos o hábito de assistir aos comerciais, de modo que nos sentamos para ver o programa sem a mínima ideia do que inventariam para nos divertir. A certa altura entra a voz obscura de Cid Moreira para narrar a história de um fantasma que assombrava uma loja de brinquedos, nos Estados Unidos.

O dito-cujo, morto há sabe-se lá quantas décadas, deu de aparecer em fotos infantis, tiradas em uma loja de brinquedos. Entrou uma parapsicóloga para dar um tom científico ao acontecimento e eu comecei a ficar cabreiro. Cid inventa uma entonação um pouco mais macabra e a minha noite começa a degringolar. Dali a pouco eu já não aguento e choro. Meu pai olha para um lado e para outro e parece que o interesse dele pelo assunto é grande o bastante para que ele não mude de canal.

Sei que meus irmãos e minha mãe não es…

O CARA >> Sergio Geia

Taubaté. Praça Santa Teresinha. Terça-feira. Sete e meia da manhã. Céu cinza. Ele caminha em volta da praça falando ao celular. Eu atrás. No mesmo ritmo.
“Não! Não é assim! Nós precisamos fazer uma reunião. Pra já! Mas se prepara, mermão! Se prepara! Ele é esperto. E te passa o rodo. Não, Carlos, eu já disse isso pra ti uma vez. Cê precisa conversar com a Celinha e com o Paulo antes. Expor os parâmetros do projeto, mostrar as referências. Assim eles já vêm pra reunião na nossa, sabendo da coisa toda. Isso...”.
Eu não entendo alguém que se dispõe a cair da cama cedo, botar um abrigo roxo, fazer uma caminhada matinal e ao mesmo tempo trabalhar.
“Você viu como vendeu? Eu não falei? Eu sabia desde o início. Sabia. Os caras não têm visão. Tava na cara que o negócio ia bombar. Cê viu? Eles queriam entrar no mercado timidamente. Esse é o problema. Eles pensam pequeno. Tomam atitudes muito conservadoras. Aí a empresa não sai do lugar. A gente precisa de arrojo. Eu cheguei pro chefe e falei: ‘Não…

BRIGANDO COM O ESPAÇO >> Paulo Meireles Barguil

— Eu estou perdido? — indaga, para si mesmo, o passeante na Floresta Amazônica, que resolveu explorar, sem o auxílio de mateiro, os encantos desse templo natural.
— Eu estou perdido! — grita, desesperado, o aventureiro que brincou de deslizar nas areias dos Lençóis Maranhenses, sem se preocupar com o destino.
— Eu estou... perdido — constata, atônito, o turista em Veneza, apesar de ter seguido fielmente o mapa, estratégia que se revelou insuficiente para aquela catedral cultural.
Brincando com o espaço, por vezes, não percebemos o quanto ele é dinâmico, pois o tempo, seu fiel companheiro, nele atua silenciosamente, embora, às vezes, nem tanto...
Um dia, acordamos — ou então, numa noite, não conseguimos dormir — e somos sugados, numa velocidade superior à da luz, para o centro do nada, numa viagem que parece não ter fim...
E, então, constatamos que o nosso espaço não é tão nosso quanto acreditávamos.
O mais difícil é quando, devido à inexperiência, tentamos resistir e nos agarramos em…

ATITUDE – RECLAMAÇÃO = FELICIDADE
>> Mariana Scherma

Sempre olhei torto para as pessoas que, pra puxar uma conversa, decidem que vão reclamar de qualquer coisa. É bem curiosa a cabeça de alguém que pode citar 3089 fatos fofos (dos melhores memes da Copa à mágica que é dormir nos dias mais frescos, passando pelo céu iluminado do dia), mas prefere reclamar de qualquer coisa: da dor de cabeça, do salário, da fome, do excesso de peso... Ih, lista sem fim!

Eu acredito cegamente no poder das primeiras frases com um desconhecido. São elas as responsáveis por uma possível amizade ou por aquela sensação de ai-que-sujeito-chato, uma antipatia quase eterna até que se prove o contrário. O mais curioso é que você tem a opção de ser simpático, falar oi, dar um sorrisão, mas decide engatar uma reclamação nada a ver. Ainda com o gostinho da Copa apesar dos pesares, é mais ou menos como chegar como a seleção da Inglaterra, reclamando da “selva que é o Brasil” quando você poderia chegar como a seleção alemã e até gravar um clipe ao som de Tieta com os me…

ALGUMAS PALAVRAS DE QUEM
NÃO ENTENDE DE FUTEBOL
>> Carla Dias >>

Eu nunca acompanhei futebol. Não sou torcedora de time que seja, e meus sobrinhos adoram dizer que, já que não tenho time, sou do time deles em dia de jogo. Sendo assim, já fui torcedora, sem querer ou saber, de alguns times. Em todas as Copas que cabem na minha biografia, acho que assisti a dois jogos do Brasil, e nem me lembro em quais anos.

Se há algo que eu sei, é que muitos brasileiros adoram futebol. Eu nunca entendi o esporte, ou tive paciência de assistir a jogos o suficiente para ter uma ideia do que se trata esse objeto de apaixonamento coletivo. Quando saiu a notícia de que a Copa seria no Brasil, não houve como fugir do assunto. Entraram outros temas no pacote, muitos brasileiros se inspiraram para bendizer e maldizer o esporte e o país.

Não houve como fugir do tema. Não era somente um jogo, em um dia da semana, que oferecia a opção de se mudar de canal na televisão e aproveitar um bom filme. Era um debate, uma comoção, uma enxurrada de informações.

Que fique claro que nun…

E VIVA A MÚSICA! >> Clara Braga

Ai, já estou com aquele sentimento de nostalgia no peito! Mas não, não estou falando da copa que está acabando, estou falando do programa SuperStar que acabou esse domingo. Que programa maravilhoso! Sim, eu sei que foi um programa um tanto criticado, parece que não fez muito sucesso. E admito que, como muitas coisas na vida, tinha seus altos e baixos, mas tenho que dizer, as bandas que estavam participando davam um banho! Algumas, inclusive, eram muito melhores que os próprios jurados! Cada domingo que passava eu tinha mais e mais vontade de poder assistir a esse showzão ao vivo!

E quer saber? Se deu ou não ibope pra Globo, se fez ou não fez sucesso, se os jurados faziam ou não comentários relevantes, pouco me importa! O que eu sei é que dá gosto de ver a boa música que o Brasil faz e, principalmente, a diversidade musical/cultural que existe por aqui. Foi muito bom ver as bandas do programa crescendo a cada semana, se reinventando, mostrando todo o amor que tinham em estarem lutando …

O PRIMEIRO ENCONTRO >> Eduardo Loureiro Jr.

Diariamente, encontramos pessoas pela primeira vez.

Quando Paulo encontrou João, eles tinham 15 e 16 anos, respectivamente. João estava se apresentando na quermesse da Igreja de São Pedro com a sua banda Os Pedreiros. Um amigo em comum apresentou os dois. Paulo mostrou a João como se fazia a afinação de um violão em Sol, à moda de um banjo. Os dois ficaram intrigados com o talento um do outro. Duas semanas depois, Paulo aceitou o convite para integrar a banda de João. Três anos depois daquele primeiro encontro, a banda de João (John) e Paulo (Paul) passou a se chamar Besouros Prateados e, logo depois, apenas Beatles, um neologismo que juntou Besouro com Batida (ritmo). Mais dois anos se passaram e eles começaram a compor música juntos por um período de sete anos: 180 canções, dizem uns; 192 canções, dizem outros. Canções que embalaram muitos primeiros encontros, vários encontros duradouros e alguns encontros eternos. Tudo porque John e Paul se encontraram pela primeira vez no dia 6 de…

UM SORRISO NUMA BOLHA DE SABÃO
<< Cristiana Moura

E era tanta a alegria num rosto só! Gabriela, num sorriso que não cabia em seu tamanho pequeno de menina com dois anos incompletos, brincava com a leveza efêmera das bolhas de sabão. Dera eu saber lidar assim com o que simplesmente se desmancha na minha frente. Dera eu.

Vez por outra acordo na madrugada. Insônia quando a gente não briga com ela é assim: um emaranhado de palavras, imagens, desejos como os de Gabi, voando em bolhas de sabão.

A menina cresceu e, no corpo de moça, às alegrias se juntaram seus delírios sãos. Queria adentrar os céus carregada pelas bolhas da infância até adormecer dependurada no sorriso da lua que mal começara a crescer. Deveria também ter sonhos de raízes adentrando na terra. Não. Ela se negava a manter os pés fincados ao chão — só queria o ar.

Houve um dia em que acordou muito depois do Sol. Perdera a hora. Já não era tão menina. Já não era tão moça. Olhou no espelho e lhe faltavam os sorrisos. E foi assim dia após dia. Era uma tal timidez nos lábios, co…

O CASACO - PARTE I >> Zoraya Cesar

Aline era tímida. Tímida de doer na alma — dela, naturalmente, porque o resto da humanidade que a cercava se aproveitava para explorá-la o quanto podia. Se havia uma palavra que Aline pronunciava uma vez na vida outra na morte era "não". 
Sua timidez era quase doentia. Cada vez que tinha de se aproximar do chefe — por quem era apaixonada — suas pernas tremiam, gaguejava, abaixava os olhos. Ver a face de Aline era um desafio, pois andava sempre de cabeça baixa e com o rosto coberto pelo cabelo. Seus olhos eram verdes, mas nunca ninguém reparara. 
Em casa, sustentava a mãe ranzinza que não perdia oportunidade de lhe dizer que era feia, magra, sem graça e que, ao contrário da irmã — que vivia na esbórnia —, jamais arranjaria homem. Aline pensava que era melhor ficar sozinha a sair com os estrupícios que a irmã conhecia, mas cadê coragem para dizer isso, parar com a exploração que sofria em casa?
E se fosse só em casa! No trabalho, as colegas empurravam as tarefas mais desagrad…

NÃO HÁ VAGAS >> Fernanda Pinho

Já vi gente dizendo sobre mim que sou uma pessoa com facilidade para fazer amigos. Para ser bem sincera, eu não acho. O que também dizem sobre mim, e isso sim procede, é que tenho sorte. Ocorre então que tive a sorte de, ao longo da vida, me aproximar de pessoas com sérias intenções de amizade sincera. E isso explica o considerável número de amigos de anos que trago comigo.
Ok. Também não preciso ser tão modesta assim. Alguma parcela de culpa eu tenho. Se a facilidade para fazer amigos não é dos meus maiores talentos, certamente mantê-los está entre as coisas que sei fazer bem. Zelo muito pelas minhas amizades. Procuro estar sempre presente — fisicamente ou não, sou honesta em minhas relações, não dou margem para mal-entendido, não meço esforços, não julgo, não minto, sou clara, tento ser compreensiva e estou sempre à disposição. Nem sempre é fácil. Eu, e todos os meus amigos, temos uma vida atribulada. Mas quem quer, dá um jeito. Acredito e pratico.
Entre meus melhores amigos, tem …