terça-feira, 29 de julho de 2014

DEFEITOS QUE SÃO FALSOS ELOGIOS
>> Clara Braga

— Uma cor?
— Branco, representa a paz.
— Um sentimento?
— Amor.
— Algo que você odeia?
— Racismo.
— Uma frase?
— Não se leve sempre tão a sério.
— Uma qualidade?
— … é… hum… é…

De todos os clichês existentes em uma entrevista no estilo “bate-volta”, sem dúvida o maior de todos é a dificuldade em se autoelogiar. Parece que elogiar é uma das únicas coisas que costuma ser mais fácil fazer para os outros do que para si mesmo. Exatamente o contrário do defeito, que é muito mais fácil falar do próprio do que do alheio. Será?

Repare bem, já percebeu que as pessoas, quando vão citar um defeito, nunca dizem aquele defeito cabeludo? Todo grupo de amigos tem pelo menos uma pessoa de que todo mundo pensa: “Fulaninho é ótimo, se não fosse aquela mania de falar berrando, mesmo quando estamos em um local silencioso". Ou: “Adoro Fulaninha, mas ela tinha que ser tão egoísta?” Agora pergunta para o Fulaninho ou para a Fulaninha qual o maior defeito deles, eles nunca vão dizer "falar alto demais" ou "egoísmo", vão dizer “sou muito perfeccionista” ou “tenho mania de arrumação”. A não ser que eles sejam muito bem resolvidos com os tais defeitos.

A verdade é que a maioria de nós sabe de seus maiores defeitos, mas tem tanta dificuldade de encará-los quanto de dizer o quão bom é naquilo que faz. Aliás, vivemos eternamente nessa cultura de que não podemos ser de fato bons em nada, pois se assumirmos isso seremos para sempre as pessoas mais arrogantes do mundo. Ser bom é arrogância e ser muito ruim é falsa modéstia, o que também é ruim, mas é menos pior do que ser arrogante, pelo menos você tentou não ser arrogante. O bom mesmo é ser mais ou menos. Mas não insista muito em convencer os outros de que você é mais ou menos, pois pode parecer que você está querendo ter seu ego massageado por elogios, ou seja, você é arrogante de qualquer jeito.

Essa história de falar sobre defeitos e elogios, erros e acertos, vai longe, o problema é que parece que foi longe demais e virou mania. Antes essas perguntas só eram famosas no programa De Frente com Gabi, e a gente ficava rindo da cara do entrevistado que tinha que rebolar para não ser tachado de arrogante metido. Agora, a gente que ficava só rindo se depara com essa pergunta nas mais diversas situações. Entrevistas de emprego são batata, você precisa se virar nos trinta e dizer seus defeitos e qualidades. Me questiono até que ponto essas perguntas ajudam de fato, afinal, quem é que vai dizer que detesta trabalhar em equipe, odeia acordar cedo, não tem horário para nada, gosta de fazer umas viagens imprevisíveis e deixar o trabalho para depois, etc? Aliás, é tão raro alguém ter coragem de falar essas coisas que se alguém fosse sincero a esse ponto comigo, eu era capaz de contratar só pela sinceridade. Ia me arrepender na primeira vez que a pessoa simplesmente não aparecesse, mas me ganhou pela honestidade.

Acredito que todos nós temos dificuldade em nos elogiar, mas também temos dificuldade em nos criticar, e é por isso que disfarçamos nossas críticas em defeitos que nem são tão defeituosos assim. O perfeccionista pode ser chato, mas é muito útil para trabalhos detalhados e costuma ter muita atenção. A pessoa que tem mania de arrumação só atrapalha quem mora com ela e gosta de largar a toalha molhada em cima da cama, para os colegas de trabalho isso é ótimo. E assim segue, para não sermos nem arrogantes nem perdemos nossa vaga de emprego, não assumimos ser muito bons em nada — o que soa no mínimo contraditório — e disfarçamos nossos defeitos em falsos elogios. O que eu não entendo é: se todo mundo sabe disso, por que não passamos a simplesmente assumir nossos reais perfis?

Partilhar

4 comentários:

NANDO disse...

Muito bom! Só li verdades...

Anônimo disse...

Otimo

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Boas reflexões, Clara!

Debora Bottcher disse...

Adorei. Acho que a questão passa por entender que o que para uns é um defeito, para outros pode ser uma qualidade. Por exemplo, algumas pessoas que me conhecem, me acham muito dura emocionalmente, racional demais; pois eu acho isso uma qualidade - acho gente passional um porre. Também detesto acordar cedo, mas posso trabalhar madrugada adentro, sem me cansar. A boa saída seria dar-nos Liberdade para ser quem somos, sem clichês. ;)
Um beijo.