quarta-feira, 30 de julho de 2014

VENTANIA DA SILVA >> Carla Dias >>


Para as meninas da minha vida: Duda, Amanda, Débora e Mayara.

O seu nome é Ventania. Gosta de vento que é uma coisa, mas não é só isso: os cabelos. Já viu cabelos iguais aos dela? Parece até que vão se enroscar nas copas das árvores, enquanto ela caminha desacelerada. Bem se vê que está paquerando pensamento. É de uma lindeza descabida, que faz mais de um, de dois, de cento e cinquenta e sete pessoas desejarem ser Ventania.

Ventania da Silva. Batizada aos meandros dos acontecimentos, que a mãe pariu a menina às lufadas do vento, que na hora do registro não saía de sua cabeça essa coisa de ventania. Ventania da Silva escapou de sua boca, e depois disso, não houve quem tirasse o registro da menina.

Ela nasceu inadequada, é preciso que aceitemos isso.

Quer dizer, não é não! E nem devemos tentar.

Nasceu com a inadequação em polvorosa, porque quando não se cabe no provável é dito feio, insalubre, incorreto, desproporcional, inaceitável e mais uma penca de predicados que não fazem sentido quando se trata da celebração da vida de uma pessoa. Sendo assim, Ventania nasceu não cabendo, e o pai se benzeu ao vê-la sorrir mal saída do ventre da esposa, e os seus olhos já vieram arregalados de um jeito indecente. Jeito de quem vê além. Não teve dúvidas o consorte: fez as malas e se mandou dali. Escolheu viver na lonjura de suas meninas.

Ventania não reclama da vida, não. Mesmo tendo de trabalhar duro para alcançar o que almeja — como qualquer ser humano deve fazê-lo, vale lembrar —, continua na sua caminhada de quem passa e desmancha cabelos, derrete olhares, incomoda pela naturalidade com que diz a verdade, sabendo que a sua verdade nem sempre será a do outro.

A mãe tem um orgulho imenso da filha. Gastou muito do seu tempo contando a ela sobre a história de sua família. Inventou a tal inteirinha, que a mãe veio de lugar nenhum, foi meio que cuspida no mundo. Já viveu tanta coisa ruim nessa vida, que delícia de ser mãe de pessoa feito Ventania é a importância mais importante de sua existência.

Saibam que Ventania não é moça de ficar quieta diante de injustiça. Já desceu das tamancas, e muitas vezes, para defender direito sendo arrancado do outro, assim, na maior cara de pau. Fosse pelo povo lá do bairro, Ventania da Silva seria presidente do Brasil, que sabe que todo direito vem com o dever, e que a fome não é só de comida, a sede não é apenas de água. Talvez por isso tenha se tornado professora, a mais famosa do lugar, conhecida por defender o direito de todos de ser pessoa, com histórias distintas, com suas riquezas particulares.

Ventania da Silva nasceu para a beleza dos pequenos gestos que provocam grandes mudanças. Tem a cabeça nas nuvens, mas os pés no chão, sempre que preciso. E os cabelos? Às vezes, eles parecem querer se enroscar nas estrelas, esconder pensamentos, que Ventania cultiva sonhos e mais sonhos na sua cabeça.

Não há como ignorar pessoa nascida sorrindo, com os olhos já arregalados, de saber enxergar além. O pai se assustou e fugiu. A mãe se encantou e cuidou. A escolha de quem foi e de quem ficou não a aflige, porque acredita ter sido abençoada por a terem acolhido. Ainda que lhe digam que ela merecia ser criada por pai e mãe, amada por pai e mãe, festejada por pai e mãe, oras, nem todos são escolhidos para serem amados apesar da inadequação, e ela foi e tem sido.

Que Ventania da Silva não nasceu para ser vítima de si mesma, tampouco da incapacidade do outro em compreender que ser autêntico, às vezes é confundido com ser inadequado.

Lá vai Ventania, rosto sendo beijado pela chuva, carregando sua história com a maior alegria. E os cabelos? Às vezes, parece que eles se enredam à melodia do vento.

carladias.com



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3 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Eita Ventania boa!

albir disse...

Carla, sua poesia diz tanto que o correto diante dela é calar-se.

Carla Dias disse...

Eduardo... Ventania tem seus momentos ;)

Albir... Um obrigada bem sonoro.