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Mostrando postagens de Junho, 2014

O AMANTE >> Albir José Inácio da Silva

Só mesmo a culpa para explicar tamanho desassossego. Ainda faltavam alguns minutos e ele poderia se atrasar como todo mundo. Era um restaurante afastado, que ela mesma sugerira, e as chances de serem encontrados ali eram infinitamente pequenas. Não havia motivo para preocupações.

Por outro lado, eram injustificados os escrúpulos dela. Sabia das escapadelas do marido. Tudo apontava para anos de traições: ausências, desculpas, viagens, atrasos e madrugadas. Manchas no colarinho e perfumes alienígenas capazes de condenar um padre franciscano. Além disso, muitas das suas amigas tinham seus casos e ninguém morria por isso.

Esses pensamentos, entretanto, não conseguiam tranquilizá-la. Um suor gelado lhe escorria pelas costelas como dedos numa harpa. Não conseguia ficar quieta na cadeira.

O outro aparecera inesperadamente. Da primeira vez olhou. Da segunda, sorriu. Da terceira vez ele trouxe uma pétala amassada na mão e seguiram-se outras suavidades que a deslumbraram. Troca de telefones, lo…

PAU DE FERRO >> Sergio Geia

A informação está disponível no site da Prefeitura de Pau dos Ferros: “Até o começo do século XVII, a região do atual município de Pau dos Ferros não passava de uma vasta área ainda inexplorada. Naquela época, na então província do Rio Grande do Norte, na chamada zona oeste, uma trilha foi feita por vaqueiros e viajantes para terem acesso até a província do Ceará. Ao longo dessa trilha seguia um curso de água, que estava sempre cheio nos meses de janeiro a junho, época do inverno na região. Esse rio mais tarde ficou conhecido por Rio Apodi. Essa região ficava entre duas grandes serras, tornando assim fácil de fazer longas caminhadas e aproveitar as pastagens nessa grande planície. Às margens do Apodi, umas grandes árvores eram utilizadas pelos viajantes para alívio do calor e como ponto de atividade comercial, como vender e marcar gados”.

Localizada no interior do Estado do Rio Grande do Norte, na microrregião homônima e mesorregião do Oeste Potiguar, a 393 quilômetros de Natal, Pau d…

BRINCANDO COM O ESPAÇO >> Paulo Meireles Barguil

Sim, eu sei: não é possível falar de tempo sem falar de espaço. E vice-versa!

Perdoe-me as crônicas heréticas, nas quais viajei no tempo ignorando o espaço.

Não me julgue, também, insolente por discorrer, agora, sobre o espaço, deixando o tempo dormindo.

Fique em paz: não ousarei tentar explicar a Teoria da Relatividade de Einstein. Permita-me, contudo, dizer que, depois dela, o mundo ficou muito mais divertido.

O motivo: ela revelou que essas categorias não podem ser entendidas separadamente. A Ciência Moderna, baseada no fracionamento, na divisão do todo, no isolamento das partes, foi a nocaute, sem necessidade de contagem.

A vontade de controlar, ter todas as respostas, prever e determinar a vida revelou-se uma fantasia, por vezes, um pesadelo. Nascia uma Ciência sistêmica, holística, baseada na relação, no movimento, na transição, na transitoriedade e na impermanência!

É fácil perceber quão forte e caduco é o DNA da Ciência Moderna. Seus avanços nos fascinam, ao mesmo tempo em qu…

BUFADAS DESNECESSÁRIAS >> Mariana Scherma

Desperdiçar horas (ou seriam apenas minutos muito longos?) em fila não é meu passatempo preferido. Mas encaro porque a vida também é uma sala de espera. Às vezes, você só entra no supermercado pra comprar um chocolatinho — e nem as 15 pessoas na fila de cada caixa fazem com que desista da mordida doce pós-almoço. Eu, quando entro numa fila, tento abstrair total. Me perco no meu pensamento com gosto: organizo minha agenda mental, faço a lista de convidados pra minha festa de casamento com Leonardo Di Caprio, escolho o modelo do vestido pra deixar o Leo feliz (tomara que caia não me favorece, sabe?), coisas necessárias mesmo e que podem ser decididas nesses 20 minutos ou menos de espera.

Mas tem um problema: pessoas que chegam depois de você e bufam. Por que a pessoas bufam, meu senhor? Eu adoraria ter a cara de pau e virar pra elas e dizer “assoprar assim com força não vai fazer as pessoas passarem mais rápido, meu amigo”. Eu não tenho coragem de fazer isso, sou cara de pau, mas nem ta…

ACHO POSSÍVEL.... >> Carla Dias >>

Será que sou eu?

Pode ser... Mau hábito, condicionamento, essas coisas. Não foi tevê que me fez assim, nem mesmo leitura de revistas de consultório médico. Não foram aqueles shows do Eli Correa que assisti, quando era criança. Sério... Assisti a Gretchen e os Tremendos no mesmo dia. Não me lembro de ter gostado dos shows, mas da diversão de estar lá naquele parque com minha irmã e primas, ah, dessa eu me lembro.

Habitualmente, as pessoas dizem que eu não sei sobre o que falo. Em muitos aspectos, eu não sei mesmo, porque não vivi as vidas das outras pessoas. Porém, há muito sobre o que sei, meus caros, do que fiquei sabendo logo cedo, por conta da experimentação e da educação que recebi daquelas pessoas que, por sorte, importavam-se comigo.

Garanto a vocês que não tem nada a ver com assistir novelas. Novelas fazem parte da minha vida desde pequenininha, que fui companheira noveleira de minha avó. Ou de ter escutado Waldick Soriano em algum momento da minha vida. Garanto, não tem nadic…

O GRANDE INCÔMODO >> André Ferrer

Para que serve estudar isto? Quem nunca fez essa pergunta, nunca passou pela escola. Seja qual for a justificativa dos professores, a dúvida costuma sobreviver. De tempos em tempos, ela retorna e, invariavelmente, leva um grande número de egressos a pensar que a escola deveria oferecer respostas mais plausíveis para o mistério. Entre estes, muitos até carregam uma ideia negativa da escola. Tudo porque os professores não teriam conseguido diminuir essa grande impressão de vazio enquanto trabalhavam suas disciplinas. Outros, no entanto, percebem algo extraordinário. Pode ser, por exemplo, que um biólogo jamais volte àqueles capítulos mais penosos da Geometria, mas compreenda com profundidade e respeito que a observação do mundo microscópico dificilmente seria possível sem um ramo da Física chamado Óptica e, antes disso, a Geometria.

Determinadas perguntas são mais importantes como perguntas do que como perguntas sucedidas, obrigatoriamente, de respostas. Parece maluquice. Felizmente, co…

MÁQUINAS >> Eduardo Loureiro Jr.

Não sois máquinas! homens é que sois! (Charles Chaplin)
Saber, sabor. Leitura, comida. É possível se empanturrar dos dois...

Reservei o dinheiro trocado, deixei o cadeado destravado e sentei no sofá para esperar o caminhão das frutas passar. Ele passa às segundas e às quintas à noite, em horário impreciso, numa velocidade tal que, se eu não estiver já à porta, ele passa reto e eu fico sem frutas para os próximos dias.

Como tenho dificuldade de esperar só por esperar, peguei um livro para ler: “O erro de Narciso”, de Louis Lavelle. Livro densamente poético e filosófico, no qual não consegui entrar imediatamente, ansioso que estava pelo som do caminhão das frutas. Resolvi então ler as passagens que haviam sido grifadas pela pessoa que me emprestou o livro. Cada trecho melhor que o outro. Feito esse:

“Quem tem consciência de ser eleito para cumprir uma tarefa sabe perfeitamente que sua vontade tem pouca serventia. O único papel da vontade é nos preparar para acolher essa eleição.” (p. 33)

ENTRANDO PELA COZINHA >> Cristiana Moura

Aromas, sabores, os sons dos talheres e das panelas misturados à prosa em alto volume das vozes femininas. A cozinha é parte tão viva da casa! Não sei se de todas. Por certo da casa da minha infância e adolescência, perseverando na casa dos meus pais hoje e na minha. A gente não come somente a comida. Come os afetos, os prazeres, os desejos. Quantas lembranças acordam o olfato com os cheiros daquele tempero de um certo prato que aquela pessoa preparava?

Peço, agora, que você imagine os alimentos de sua infância, seus cheiros, sabores, texturas e aromas, imagens e vozes das pessoas que os faziam. Feche os olhos! Sim, eu agora fecho os meus para dar vazão à memória. Feche, por favor, também os seus!

Salivei. As memórias da cozinha da mãe e das avós me despertam todos os sentidos. De um lado, pães de queijo, pamonhas, pudins e outras sobremesas do centro-oeste — a origem materna. De outro lado, caruru, vatapá, camarões e peixes no toque do dendê do nordeste africano e o tempero sem igual…

O CORAL >> Zoraya Cesar

A vida de Pedro não era das mais fáceis ou alegres. Tímido, era alvo fácil para temperamentos despóticos. E temperamentos despóticos não faltavam em sua vida. 
Começando pela mulher, uma jararaca desleixada que lhe aplicara o falso golpe da barriga só para poder sair do subúrbio onde morava. A casa vivia imunda, as refeições se restringiam a arroz e feijão. E olhe lá. Pedro não podia falar nada que ela lhe gritava os maiores desaforos, bem alto, para constrangê-lo perante os vizinhos.  Quando estava de bom humor até que o tratava melhor, então Pedro ia ficando.
Despóticos também os havia no trabalho. A diretora, uma criatura ainda mais irascível que a esposa, não perdia oportunidade de humilhá-lo. Os colegas, para não ficarem mal com a chefe, ou o ignoravam ou abusavam de sua timidez. Mas o salário era bom, o emprego era público, então Pedro ia ficando.
Levava quase duas horas para ir ao trabalho e dele voltar. Almoçava e jantava todo dia o mesmo arroz com feijão, às vezes acompanhad…

E AQUELA DA NORAH JONES >> Carla Dias >>

Apresento-lhes ele, um tocador de trompete que circula pelos bares da cidade tocando jazz na terra do samba. Mas nem pensem o contrário: samba ele também toca, e muito bem. Não só toca, como dança, e muito bem. Não só dança, como compõe, e muito bem. Não só compõe, como canta, e muito bem.

É filho de puxador e costureira, letrista de primeira, já foi premiado pela Associação dos Apaixonados por Samba, merecendo o primeiro lugar na categoria Corações Partidos, devido ao refrão do samba-enredo, um causador de embriaguez emocional.

Apaixonou-se por porta-bandeira, até se casou com ela, compôs vinte e sete canções para ela, jurou-lhe amor “eterno enquanto dure”, mas a cada vez que ela pisava na avenida, harmonizando-se com o mestre-sala, ele se escondia em algum canto dos bastidores do carnaval e tocava Blue in Green, aquela de Miles Davis e Bill Evans. Então, os tamborins silenciavam. Sua cabeça era esvaziada dos pensamentos equivocados, o trompete se tornava a extensão de si mesmo.

BLUE…

MAIS UMA OPINIÃO >> Clara Braga

Sabe qual é o real problema no final das contas? Pra mim, o problema é que nós somos muito bons de discurso e não muito bons de atitudes. Só que quem fala demais e faz pouco acaba tendo pouca coisa para contar sobre si mesmo, é ai que essas pessoas passam a cuidar da vida dos outros e falar das atitudes dos outros como se fossem os donos da razão.
Se vai ter copa ou não vai ter copa, sério que ainda estão discutindo isso? Na boa, está tendo copa e não está tendo copa ao mesmo tempo! Está tendo porque os jogos estão acontecendo, as pessoas estão torcendo, os gols estão sendo marcados e tudo mais que acontece em uma copa. Só que não está tendo porque se a ideia de ter copa no Brasil era esconder mais uma vez as besteiras políticas e deixar o povo feliz para votar sem lembrar de tudo de errado que aconteceu, não deu certo, desse ponto de vista, não está tendo copa! Ou seja, os dois lados têm argumentos e, se formos discutir sobre quem está certo e quem está errado, vamos ficar eternamen…

HERNANDES, O ESPANHOL >> Albir José Inácio da Silva

Hernandes era ainda uma criança na última copa, quando a sua gloriosa Espanha sagrou-se campeã. Digo “sua” porque é assim que ele sentia a nação espanhola. Não que ela lhe pertencesse, mas ele pertencia a ela, pelo menos de coração. Era um bom aluno antes de ser atropelado pelo sonho de jogar futebol e ver a Espanha na copa do mundo no Brasil.

De lá para cá o futebol era sua vida e a Espanha, o paraíso. Vasculhou sites de pesquisas genealógicas, encheu o saco dos avós e se irritou porque não sabiam dos próprios antepassados. Mesmo sem provas, teve certeza de suas raízes. Sentia correr nas veias o sangue espanhol. Passou a assinar Hernandez porque achava que “z” era mais espanhol que “s”.

Se ainda visitava a escola, digo visitava porque eram esporádicos os seus comparecimentos, apenas atendia às negociações com sua mãe, que prometera matriculá-lo na escolinha de futebol. Mas já tinha ficado reprovado e não estudava nada que não fosse futebol e Espanha.

Conhecia todos os times, técnicos…

INVEJA >> Whisner Fraga

Cacá Diegues nos alertava, em 1978, a respeito da existência de um patrulhamento ideológico que dominava o afetado cenário intelectual brasileiro da época. Mudam-se os meios, ficam a mentalidade e a tradição. Essa patrulha age sorrateiramente nas redes sociais, motivada, sobretudo, pela inveja. Assim, quando um "amigo" (porque somos todos amigos nas redes) posta uma foto, devidamente tratada em algum Instagram da vida, de uma faustosa alheira ou de uma cardíaca feijoada, o que está expondo não é somente a sua fome ou o seu requintado padrão gourmet. Não. Para os "amigos", está achincalhando a boa vontade alheia. Para os "amigos", aquela postagem suscita as seguintes reflexões: 1) Puxa, o cara ganha uma mixaria, mas vai direto a restaurantes chiques. Que merda é essa? Tem algo errado. 2) Ué, ele não tinha de estar trabalhando agora? 3) Nossa, e aquele/a vinho/cerveja ali do lado. Não é que o sujeito é alcoólatra mesmo?

É evidente que a patrulha não tem umb…

CRÔNICAS, CONTOS E MICROCONTOS >>> Sergio Geia

Sou novo aqui. Claro, claro, vocês já perceberam. A menos que... Você! Sim! Você aí! A menos que você seja tão novo quanto eu. Beleza, meu irmão. Prazer. Seja bem-vindo. Enfim. É o meu primeiro dia aqui no “Crônica do Dia”. De muitos, espero. Que nossa jornada seja duradoura e proveitosa. Pra vocês que sempre estão por aqui; pra você, meu novato, que como eu está debutando; e pra mim, é claro. Quinzenalmente, aos sábados, estarei aqui. Para escrever crônicas. Conto? Conto, não. Crônicas! Não sou de escrever contos. Confesso que certa vez até cismei de participar de um concurso de contos. Mas não enviei um conto. Enviei uma crônica, que nasceu crônica, que viveu crônica, mas que num dado momento da existência resolveu virar conto. Uma espécie de transexual literário. Não deu muito certo. Crônica é crônica. E conto é conto. Acho... Eu, hein? Mas eu gosto de crônica. Como gosto de mexericas, melancia e quiuí. E não gosto de abacaxi.

Pensando melhor, houve outra vez em que participei de u…

BRIGANDO COM O TEMPO >> Paulo Meireles Barguil

Eu já tinha decidido que não ia falar da Copa do Mundo de 2014, independentemente do resultado do jogo entre Brasil e Croácia.

Ao acessar os bastidores do Crônica do Dia para iniciar este texto, verifiquei que alguém já preparou algo sobre o tema, que deverá entrar no ar em breve: mais um motivo para manter meu propósito inicial.

Seria agora o momento para versar sobre uma temática que, apesar de eu ter feito algumas pesquisas na internet, venho adiando?

Poderia, ainda, escrever sobre hoje — Dia dos Namorados — ou amanhã — sexta-feira, 13. Decidi, então, continuar o folguedo da quinzena passada, mudando o enfoque.

É crescente a queixa sobre a falta de tempo, bem como sobre a sensação de que ele está passando cada vez mais rápido.

O budismo tem me ajudado a, lentamente, entender e aceitar que a realidade é construída na mente, a qual, portanto, merece muito cuidado.

Fique em paz: ciente da minha ignorância sobre budismo, não ousarei apresentar uma síntese do que tive a oportunidade de…

PARAR DE PROCURAR? JAMAIS >> Mariana Scherma

Não adianta procurar. Quando você menos esperar, vai acontecer. Ok, pode até ser verdade. O telefone mesmo só toca quando a gente já desistiu que ele toque e a luz do WhatsApp acende quando quase acreditamos no próprio fingimento de que não esperamos mais nada de uma conversa na qual todas as nossas expectativas estavam depositadas. Mesmo assim eu sempre sinto vontade de renegar toda a minha boa educação e mostrar a língua para as pessoas que adoram bater na tecla do “espera aí, sua vez vai chegar”. Desculpe se você é uma delas.
Essa regra do amor, de não esperar, de parar de procurar e de ter paciência, faz o mínimo sentido pra mim. Quando você se apaixona, é mais ou menos como viajar para o lugar mais turístico dentro de si mesmo. É ver tudo mais colorido. É sentir sabor de bolo trufado mesmo comendo bolo de fubá meio seco. Aí o amor se perde e você volta para os dias de bolo de fubá ressecado. Você tem o paraíso. Perde o paraíso. E ainda mandam que tenha paciência. Sério?
Às vezes, f…

A VÉSPERA TRANSFORMADA EM DIA DE...
>> Carla Dias >>

O Dia dos Namorados, neste ano, acontece na véspera, que não há amor que se dobre a uma Copa do Mundo. Ainda que eu seja avessa às comemorações de calendário — que sou das que acredita que todo dia é dia de índio e de amor bem cuidado —, não resisto a um bom romance.

Por isso hoje, véspera que se tornou dia, escreverei sobre os filmes que, em minha opinião, são românticos pra dedéu.


Vou começar com um filme que é uma lindeza, da história ao figurino, da fotografia às interpretações dos protagonistas. Em Anna e o Rei (Anna And The King/1999 – direção: Andy Tennant), Anna Leonowens (Jodie Foster) é uma professora de inglês, viúva e mãe de um menino, que vai para o Sião para ser tutora dos 58 filhos do Rei Mongkut (Chow Yun-Fat).  Foster e Yun-Fat mergulham no flerte, enquanto a revolução acontece e o choque cultural é inevitável. Um filme de delicadeza, apesar dos confrontos. Culpa da sintonia entre Foster e Yun-Fat.

A Última Ceia (Monter’s Ball/2001 – direção: Marc Forster) é uma histó…

O ÓBVIO DO POVO >> André Ferrer

Existem, de fato, assuntos explosivos. Religião e futebol, por exemplo, não se discutem. O anátema popular, nesses dois casos, merece consideração. No que se refere à crença, por mais automática, fria, vazia ou exótica nos pareça a sua liturgia, merece, ainda assim, o nosso mínimo respeito.

Apesar da fama de encrenqueiro, o futebol também carrega uma poderosa força capaz de unir as pessoas. É preciso dizer, entretanto, que isso acontece somente até o momento em que as opiniões sobre flâmulas não se tornam radicalmente opostas. Assim, quando algo já não soa adequado para um dos interlocutores, essa força descomunal, capaz de aglutinar homens e formar tribos e nações, converte-se em repulsa.

Daqui em diante, pode-se dizer simplesmente que os interlocutores se agarram em ideias opostas. Correto. Entretanto, há uma leitura mais rica e provocativa para tal ruptura: as pessoas param de concordar umas com as outras assim que elas deixam a sacrossanta “zona do óbvio”.

Há diversos temas assim …

O OUTRO ESCRITOR >> Eduardo Loureiro Jr.

É outro que escreve. Quanto melhor é aquilo que penso que escrevo, mais eu sei que é outro aquele que escreve.

Eu, que até agora pensava que escrevia, sou apenas a caneta, o computador, o instrumento com o qual esse outro busca escrever.

Ele tem suas ideias, ele tem sua inspiração, e nem sempre consegue fazer, por meu intermédio, o texto que imaginou. E isso não se deve a uma limitação dele, mas minha. Pois não sou um instrumento mecânico, mas um instrumento vivo. Um instrumento com vontade, principalmente a vontade de não ser um mero instrumento mas de ser o próprio escritor. Uma caneta, ou um computador, que quer escrever sozinho. Uma inteligência artificial que quer se mostrar real. Uma tentativa de inversão: o instrumento querendo usar o escritor para produzir um texto. Assim saem os piores escritos, como talvez seja este. Na melhor das hipóteses, uma confissão sincera, uma admissão do crime.

Enquanto escrevo isto, o outro não escreve o que deveria escrever. Você, leitor, fica pri…

UM SOPRO NA TARDE >> Cristiana Moura

Tarde de junho. É um tal vento que volta a ventar janela adentro. Nestas épocas gosto de dormir nua só para sentir a brisa tocando minha pele — é como fazer amor com o Sopro.

Era manhã de domingo. Ele tinha cinco ou seis anos. Saímos do mar correndo como  numa brincadeira que se pensasse eterna. Sempre que saio do mar me sinto como que emergindo do útero da Terra. Ele fechou os olhos e depois de um curto silêncio disse quase em sussurro, como quem revela um segredo ainda sem a certeza de que pudesse ser revelado:

— Mãe, o vento tá fazendo carinho no meu rosto!

— Pois deixa ele carinhar meu filho, deixa ele carinhar.

O vento que invade meu quarto agora, trouxe consigo esta lembrança leve. Por vezes, o cotidiano me endurece o caminhar e, com este, os encontros em seus gestos mais simples. Fiquei aqui pensando que é preciso acolher as gentilezas da vida e deixá-la acarinhar. Só acarinhar.

DANDO UMA AJUDA A SANTO ANTONIO...
>> Zoraya Cesar

O dia amanhecera chuvoso e friorento, contrariando a previsão meteorológica da noite anterior, que prometera sol e calor. Nada a estranhar, pensou ela, essa gente não acerta nunca. Assim como eu, suspirou.
No ano passado ela não conseguira sequer assistir à missa, a água benta não passara nem perto. Tinha plena convicção de que não arranjara ninguém decente por causa desses inconvenientes. 
Os últimos namorados estavam enfileirados num colar de fiascos, um atrás do outro, sem falhas. Senão vejamos... Marcos Simão era tão folgado que, no segundo encontro, perguntou se não poderiam viver logo juntos, pois ele morava longe e o apartamento dela era melhor. Carlos Washington cuspia enquanto falava e ela fingia que não se importava em ficar com o rosto constantemente úmido, mas no dia em que ele começou a chupar os dentes pra limpar a saliva excessiva, ela desistiu; aquilo estava dando nos seus nervos. Wenceslau a fazia morrer de vergonha, porque nunca dava gorjeta e vivia arranjando confu…

BARULHINHOS >> Fernanda Pinho

Outro dia, tentando elaborar para duas amigas o porquê de eu não conseguir parar de tomar refrigerante, saí com essa: “Ouvir o barulho de uma lata de Coca-Cola se abrindo é uma das coisas que mais me emociona na vida. Possivelmente, deixará de ser meu barulho preferido apenas quando eu tiver um filho e escutar seu choro pela primeira vez”.Reconheço. Posso ser bastante exagerada quando quero defender meus pontos de vista. Hipérboles à parte, é verdade. Alguma coisa acontece no meu coração — estômago e papilas gustativas — quando abro a latinha.
E não somente isso. Vários outros barulhinhos banais me emocionam. Ontem tive um dia exaustivo, estava cansada e angustiada. Fiquei deitada no sofá e só voltei ao normal quando escutei o barulho de pipoca estourando na cozinha. Meu marido realmente me conhece. Alegria imediata, mesmo antes de comer a pipoca. Até agora não  lembro o motivo de estar angustiada.
E para não dizer que todos os barulhos que me emocionam têm a ver com comida, me reco…