Pular para o conteúdo principal

CRÔNICAS, CONTOS E MICROCONTOS >>> Sergio Geia

Sou novo aqui. Claro, claro, vocês já perceberam. A menos que... Você! Sim! Você aí! A menos que você seja tão novo quanto eu. Beleza, meu irmão. Prazer. Seja bem-vindo. Enfim. É o meu primeiro dia aqui no “Crônica do Dia”. De muitos, espero. Que nossa jornada seja duradoura e proveitosa. Pra vocês que sempre estão por aqui; pra você, meu novato, que como eu está debutando; e pra mim, é claro. Quinzenalmente, aos sábados, estarei aqui. Para escrever crônicas. Conto? Conto, não. Crônicas! Não sou de escrever contos. Confesso que certa vez até cismei de participar de um concurso de contos. Mas não enviei um conto. Enviei uma crônica, que nasceu crônica, que viveu crônica, mas que num dado momento da existência resolveu virar conto. Uma espécie de transexual literário. Não deu muito certo. Crônica é crônica. E conto é conto. Acho... Eu, hein? Mas eu gosto de crônica. Como gosto de mexericas, melancia e quiuí. E não gosto de abacaxi.

Pensando melhor, houve outra vez em que participei de um concurso de microcontos. Não conhece? É interessante. O microconto, ou miniconto, ou nanoconto, é um conto nanico, pequeno. Mas o mais importante, dizem, é deixar o leitor adivinhar ou preencher o vácuo, tentar enxergar a história por detrás da história. Escrevi alguns e até que saíram bonitinhos, e diziam muito mais do que estava escrito. Um deles era assim: “Os passarinhos cantam lá fora, enquanto ela, exausta, descansa em seus braços”. O outro: “Sente a formação de placas de água na região dos lábios. Prefere voltar, ainda que a imagem não o deixe em paz”. E, por fim: “O juiz apita o fim do jogo. Ataliba abraça dr. Sócrates. Foi absolvido”.

Gosto mais do primeiro. Seu título é “Depois”. A imagem que me vem à cabeça é a do casal de conchinha, depois de um gostoso amor matinal. Como é bom ouvir os passarinhos cantando pela manhã, não? Ainda mais depois de um amor bem feito. O título do segundo é “Traição”. Coisa de amor juvenil, incipiente. O cara vai encontrá-la e a flagra em tórridos beijos com outro. Mas não faz nada. Aliás, ele se esconde. Não deixa que ela o veja. Sai correndo. Foge. Desesperado. Aniquilado pela imagem. O último está mais fácil. Eu jogo com duas situações: um julgamento e uma partida de futebol. Quem não se lembra do Corinthians de Ataliba, Sócrates, Casagrande, Biro-Biro? Mas no caso é um julgamento mesmo, em que o juiz é um Juiz de Direito; Ataliba, o réu; e dr. Sócrates, o advogado, e não o saudoso médico-jogador.

Gostei da experiência, apesar de ainda preferir as crônicas. E isso é muito fácil de entender. Agora, por exemplo. Vejam que interessante. Após alguns dias de extraordinário e exaustivo trabalho, cá estou descansando a casca numa jacuzzi pelando, a fumaça tomando conta. Começo a imaginar como poderia ser a minha primeira crônica do “Crônica do Dia”. Algo sobre a Copa? Sobre a aposentadoria do Joaquim? Ou, quem sabe, sobre a minha dama-da-noite, que depois de muita insistência me inunda com seu perfume noturno excepcional? Fico um pouco duvidoso quando começo a sentir a invasão desses microcontos atrevidos. A mente viaja e, paradoxalmente, sinto uma crônica sendo gestada; aos poucos, serenamente; vejo o pezinho lá, a cabecinha se formando, a orelhinha. De repente, ela pronta. Completa. Só esperando um médico, quer dizer, só esperando alguns dedos e um teclado para nascer.

Comentários

Paulo Pereira disse…
Bela estreia, caro Geia. Será muito bom tê-lo por perto. Muito aprenderei, me divertirei e me deliciarei com seus escritos.
sergio geia disse…
Obrigado, Paulo Pereira, pela visita. E pelas palavras. Venha sempre. Tem muita gente boa aqui.
whisner disse…
Bem-vindo, Sergio. Bela estreia. Abraços.
albir disse…
Bem-vindo, Sergio, e parabéns pelo texto.
Dall disse…
Parabéns Sergio! Bacana o texto.
Seja bem-vindo, Sergio.
Muitas crônicas de vida!
Zoraya disse…
Bonita estreia, Sergio, bem vindo! E me diz, como vc tem uma dama-da-noite? O melhor aroma do mundo!
sergio geia disse…
Obrigado, Adalberto! Valeu, Eduardo, pela acolhida! Olha, Zoraya, concordo com você. Foi em Ubatuba que senti pela primeira vez. Quis ter aqui. Depois de muita luta ela parece que vingou. Chego do trabalho e a brisa me traz o melhor aroma do mundo. Abraços!

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …