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UM SOPRO NA TARDE >> Cristiana Moura

Tarde de junho. É um tal vento que volta a ventar janela adentro. Nestas épocas gosto de dormir nua só para sentir a brisa tocando minha pele — é como fazer amor com o Sopro.

Era manhã de domingo. Ele tinha cinco ou seis anos. Saímos do mar correndo como  numa brincadeira que se pensasse eterna. Sempre que saio do mar me sinto como que emergindo do útero da Terra. Ele fechou os olhos e depois de um curto silêncio disse quase em sussurro, como quem revela um segredo ainda sem a certeza de que pudesse ser revelado:

— Mãe, o vento tá fazendo carinho no meu rosto!

— Pois deixa ele carinhar meu filho, deixa ele carinhar.

O vento que invade meu quarto agora, trouxe consigo esta lembrança leve. Por vezes, o cotidiano me endurece o caminhar e, com este, os encontros em seus gestos mais simples. Fiquei aqui pensando que é preciso acolher as gentilezas da vida e deixá-la acarinhar. Só acarinhar.

Comentários

Grato pela carinhada em forma de crônica, Cris. :)
sergio geia disse…
Crônica suave. Delicada. Boa de ler. E sentir.
Zoraya disse…
Que lindeza de crônica Cristiana! Ideal para o lindo domingo de outono que está hoje. Ideal para todo dia, aliás.

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