domingo, 22 de junho de 2014

MÁQUINAS >> Eduardo Loureiro Jr.


Não sois máquinas! homens é que sois!
(Charles Chaplin)

Saber, sabor. Leitura, comida. É possível se empanturrar dos dois...

Reservei o dinheiro trocado, deixei o cadeado destravado e sentei no sofá para esperar o caminhão das frutas passar. Ele passa às segundas e às quintas à noite, em horário impreciso, numa velocidade tal que, se eu não estiver já à porta, ele passa reto e eu fico sem frutas para os próximos dias.

Como tenho dificuldade de esperar só por esperar, peguei um livro para ler: “O erro de Narciso”, de Louis Lavelle. Livro densamente poético e filosófico, no qual não consegui entrar imediatamente, ansioso que estava pelo som do caminhão das frutas. Resolvi então ler as passagens que haviam sido grifadas pela pessoa que me emprestou o livro. Cada trecho melhor que o outro. Feito esse:

“Quem tem consciência de ser eleito para cumprir uma tarefa sabe perfeitamente que sua vontade tem pouca serventia. O único papel da vontade é nos preparar para acolher essa eleição.” (p. 33)

A demora do caminhão das frutas me fez ler até o ponto de me sentir empanturrado de informação. Eu queria continuar lendo, me deliciando com palavras tão bem ditas, mas, ao mesmo tempo, não conseguia ler mais. Parei, fechei os olhos e me dei conta...

... de que fazia um bom tempo que eu não parava e fechava os olhos. Gosto de parar de vez em quando, durante o dia, mas a parada normalmente é aproveitada para uma leitura. O corpo até que para, os olhos não. Dei-me conta disso. E de outra coisa...

Que meus dias estão repletos de máquinas, essas maravilhas da tecnologia que substituem o meu trabalho, e o trabalho da natureza, pelo seu prático mecanismo. Acordo com um despertador, ou seja, com uma máquina. Pego água de uma máquina, o gelágua. Tiro comida de uma máquina, a geladeira. Passo a maior parte de meu dia em frente a uma máquina, o computador. Para me locomover, uso a máquina ônibus ou a máquina carro. Para me comunicar, uso o telefone celular, uma outra máquina. Se está calor, ou para espantar muriçocas, ligo uma máquina, o ventilador. Para fazer suco, uso a máquina liquidificador. Almoço muitas vezes em frente a uma máquina, o televisor. Dei-me conta disso tudo e a conta era alta. Eu estou ligado na tomada dessas e de outras tantas máquinas.

No silêncio de onde moro, silêncio que eu esperava ser quebrado pela máquina caminhão e pelas máquinas microfone, amplificador e caixa de som, procurei lembrar de momentos, no meu dia, em que eu não precisava de máquinas. No instante em que pensei isso, havia um ventilador apontando para mim. Mesmo assim, empreendi a busca por esses momentos desmaquinados...

Meu desjejum... Tudo bem que eu normalmente retiro o mamão da geladeira, mas às vezes também é a banana que está na fruteira. Depois aveia, linhaça, granola, mel. Um café da manhã com pouca ou nenhuma máquina.

O banho de mar... Não preciso ligar o sol nem o vento na tomada. O mar vai e vem num moto perpétuo. É entrar, mergulhar, boiar.

Fazer amor... Uma rede e uma namorada é o que basta. Não precisa de ar-condicionado ou ventilador, o suor é bem-vindo. A rede balança em resposta ao nosso movimento. Não precisa ligar o rádio: gemidos e sussurros são a melhor música.

Apenas três momentos. Momentos importantes e prazerosos, é verdade, mas apenas três momentos em meio a dezenas e dezenas de outros momentos movidos a máquinas. Será que isso é que torna esses três momentos importantes: a baixa dependência de máquinas? Será que a redução da utilização de máquinas pode tornar outros momentos mais significativos? Por outro lado, conseguiríamos ainda viver sem máquinas? Ou seremos salvos da dúvida pela ciborguização de nossa humanidade: máquinas implantadas em nosso corpo de forma a esquecermos que estamos usando máquinas?

Já me empanturrei de leitura, agora me empanturro de reflexões. Abro os olhos. Olho para o relógio, essa máquina que tenta fazer cada segundo parecer igual, um mero deslizar de um ponteiro. Lembro que o caminhão da fruta não passou. A essa hora, não passará mais.

Está se aproximando a hora de dormir. Inicio a rotina pré-sono. Hora de acionar máquinas: ventilador, despertador. Quando eu dormir, meu espírito deslizará deste corpo (seria ele mesmo uma máquina sutil?) e voará para lugares onde não há máquinas. Eu não costumo sonhar com máquinas. Sonho com água, sonho com asas, sonho com amores, sonho com amigos, sonho com música. E tenho a certeza, talvez vã, de que meus sonhos são desmaquinadamente reais.

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6 comentários:

Lilu disse...

Querido amigo Deus: hoje acordei com muita vontade de te abraçar porque meu coração amanheceu imenso. Querido namorado Edu: hoje acordei com fome e antes do café degustei seu texto gourmet. Quase senti o sabor das cores da sua íris em baixo das pálpebras esperando as frutas. Bênçãos da vida. Gratidão.

Fernando disse...

O erro de Narciso. Caramba, quantas lembranças! Estava no meio da tradução desse livro quando descobri que a É já tinha comprado os direitos sobre toda a obra do Louis Lavelle. Abração, Eduardo!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Lilu, gratidão desmaquinada também. :)

Fernando, se ler "O erro de Narciso" já não é fácil, imagine traduzir... Parabéns!

Anônimo disse...

Adorei o texto.

Samara Melo

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Grato, Samara, "adorar" é um verbo humano, desmaquinadamente humano. :)

albir disse...

Boa idéia, Edu, listar o que resta desmaquinado. Se não ensejar providências, pelo menos serve pra surpreender.