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Mostrando postagens de Março, 2011

POR QUE NÃO A AMIZADE? >> Fernanda Pinho

“Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores. Mas enlouqueceria se morressem meus amigos”, Vinicius de Moraes.

Responda rápido: quantas músicas brasileiras você conhece que falam sobre a amizade? Se você for esperto, certamente se lembrou de Canção da América, de Milton Nascimento e, quem sabe, de Amigo, que Roberto fez para Erasmo. Se for um pouco desligado, talvez nem isso. E se for muito esperto, talvez tenha se lembrado de mais umas duas ou três – que eu não sei quais são, porque não sou muito esperta. Mas vamos tentar outra questão: quantas músicas brasileiras você conhece que falam sobre o amor? Agora, sim, tenho certeza de que sua cabeça está fervilhando, mesmo se você for o mais desligado dos mortais.
Chega a ser impossível responder. É como tentar mensurar quantas estrelas tem no céu ou quantos litros de água há nos oceanos. Porque o amor é assim. Lembrado em atacado. Propagado em massa. Festejado em larga escala. E não por um acaso. O am…

SAUDADE & VOZES >> Carla Dias >>

Às vezes, me dá uma pane danada olhar o mundo tão de perto. Folhear jornais ou apreciá-los na tela do computador, da televisão. Consultar formulários, desenvolver projetos, criar rotas de fuga, alinhar a diplomacia com a loucura do diariamente.

Outro dia, senti saudade da caminhada do ponto de ônibus até a biblioteca, e do cheiro dos livros, das mesas onde os colocava e folheava por horas, antes de decidir quais cinco eu levaria para casa, para passar uma semana comigo. Senti saudade da sensação notória de que minha vida seria completamente diferente, depois de ler aquelas histórias.

Sentir saudade faz parte da vida, eu sei, mesmo que seja saudade de si mesmo, de quem foi há cinco dias, sete horas, dois segundos, até de quem será. E sentir falta de quem será me lembra desistir do desejo, antes que ele nos soque no estômago, e se torne completamente inesquecível.

Eu sou boa com vozes, reconhecendo-as com mais facilidade do que a fisionomia. Nos meus pensamentos, ainda moram as vozes de mu…

PRECONCEITOS A PARTE... >> Clara Braga

Eu acredito que todo mundo é um pouco preconceituoso, não dá para assumir facilmente porque, bem ou mal, ser preconceituoso é uma coisa muito feia, mas no fundo, no fundo, todo mundo tem preconceito com alguma coisa, por menor que ele seja.

Eu, quando era menor, tinha um preconceito muito grande em relação a terapeutas. Achava muito esquisita toda essa conversa de contar meus problemas e dilemas a uma pessoa completamente estranha. Sem contar que, para mim, terapeuta era uma pessoa que tinha passado alguns anos na faculdade, se matando de estudar, para depois passar o resto da vida ouvindo problemas alheios. Pode ser normal uma pessoa que quer viver disso?

Quebrada a barreira do preconceito, resolvi começar a fazer terapia. Me indicaram uma moça que era terapeuta, iridóloga e acupunturista, tudo ao mesmo tempo. Achei exótico, diferente. Ela ia olhar meu olho e saber uma parte dos meus problemas sem eu ter que contar? Bom, vamos ver se isso existe mesmo ou é mais um caso para o Mister …

O PULO >> Kika Coutinho

Eu estava sentada na minha mesa de trabalho, o ambiente era frio e silencioso. Diante de mim, uma planilha do Excel, lotada de números e fórmulas. Eu estava tão concentrada, tão imersa nessa placa de gelo que é uma planilha no Excel, que nada teria me tirado do transe, nada, exceto o que se deu na sequência.

Entre uma fórmula e outra, bem quando eu tentava achar um cálculo, num instante, senti um tremor dentro de mim. Um micro, mini tremor que vinha do meu ventre, logo abaixo da minha barriga, que começava a apontar nos meus quatro meses de gestação. “Uhh!”, falei num misto de suspiro e susto, pondo a mão na barriga. “O que foi?”, perguntou a colega do lado, virando-se para mim. “Mexeu.”

Um silêncio ecoou no espaço. Eu repeti, sorrindo numa emoção quente: “Meu neném mexeu!”.

“Ahhh, que legal!”, ela se aproximou de mim, também pondo a mão em meu ventre: “Deixa eu sentir?”

E ele mexeu de novo. Num segundo, senti meus olhos ficando quentes, as lágrimas brotando, volumosas. “Ai, desculp…

POUCO É MUITO >> Eduardo Loureiro Jr.

Muita coisa pode acontecer em trinta minutos, ou menos.

Relações sexuais, por exemplo, em sua maioria, acontecem em menos de trinta minutos, muitas vezes já incluindo as preliminares.

Um balde de pipoca leva menos de trinta minutos para ser preparado e comido. Tudo bem, um pouquinho mais, considerando que há de se lavar a pipoqueira.

Uma volta no Parque Olhos d'Água, de Brasília, ou um trecho de caminhada na Raul Lopes, em Teresina, dura menos de trinta minutos, embora seja difícil se contentar com apenas uma volta ou trecho. (Ah, leitor... Você só pensa naquilo, é?)

Um bom banho não chega a trinta minutos, e o planeta agradece.

As palestras do TED, muitas excelentes, duram todas menos de meia hora. E fazem pensar em todo o tempo que se perde em escolas.

Menos de trinta minutos é o tempo limite para estar dentro de um carro sem ser num engarrafamento ou numa viagem. Após trinta minutos, o que é transporte vira prisão.

Um filme tem que agradar em menos de trinta minutos, senão não …

CONFLITO PÓS-MODERNO
>> Leonardo Marona

uma coisa estranha, entre tantas, acontece
comigo agora, perto da noite, diante do breu,
deito-me sozinho e me dou conta, pasmo,
de que não consigo dormir sozinho, como
quando éramos crianças, penso me girando,
procurando o travesseiro, então dou risada,
mas no fundo choro, porque, nu na cama,
percebo outro problema mais grave: já não
posso mais acordar acompanhado, melhor,
posso até acordar, mas me dêem uma hora
de sono, desde que acorde sem ninguém
ao lado e farei meus polichinelos, esticarei
a coluna, estalarei os ossos e assobiarei
junto aos passarinhos, brindarei ao novo dia,
enquanto que, se me derem doze, quarenta
horas de sono-pedra ao lado de um amor,
por mais amoroso que seja o amor, e ele é
sempre o mais amoroso enquanto é nosso,
eu não conseguirei me mexer no outro dia,
reclamarei das juntas, até dos passarinhos,
tudo, talvez, porque ao lado do nosso amor
sentimos ganas de dividir o que há de pior,
enquanto que sozinhos, quem sabe, não há
o que fazer a não ser permanecer v…

DECLARAÇÃO UNIVERSAL
DOS DIREITOS DA MULHER COM TPM
>> Fernanda Pinho

Preâmbulo
Considerando as alterações hormonais que afetam as mulheres durante os dias que precedem o período menstrual, e seus consequentes transtornos psicológicos e sentimentais, fica estabelecido que:

ARTIGO I
Toda mulher em dias de TPM tem direito a comer uma caixa de bombons inteira (não ouse se aproximar da caixa) e a tomar leite condensado direto na lata. E que isso não implique em alterações na balança.
ARTIGO II
Toda mulher em dias de TPM tem direito à preferência no trânsito; a encontrar todos os sinais abertos; a receber passagem dos outros motoristas; a encontrar vagas sem que haja necessidade de baliza; e a não ouvir nenhuma buzina — salvo em casos de buzina utilizada como ferramenta de paquera.
ARTIGO III
Toda mulher em dias de TPM tem direito a deitar a cabeça no colo da mãe e chorar de medo de qualquer coisa. Exatamente como fazia aos cinco anos de idade e acordava com pesadelos.
ARTIGO IV
Toda mulher em dias de TPM tem direito a recusar ligações de clientes insuportáveis; a c…

NUDE >> Carla Dias >>

Thou merely, at the day's last sigh,
Hast felt thy soul prolong the tone;
And I have heard the night-wind cry
And deemed its speech mine own.
Dante Gabriel Rossetti


Não tenho os olhos azuis de céu, tampouco a imensidão do Mediterrâneo. A pele já me cobra o tempo, na sua moeda mais requintada, ao mudar a tatuagem de mim na fotografia sem se ater aos meus medos. Assim como o dia, ando com minhas variáveis, mas do jeitinho que o Vinícius de Moraes rezou: de manhã escureço / de dia tardo / de tarde anoiteço / de noite ardo.
Posso dizer, numa rara certeza, que eu ando bagunçada.
Andei lendo, assistindo, presenciando a vida de personagens. Até o mais plausível ser humano carrega o palco nas costas, não? Todos nós representamos papéis, remendamos a realidade, com delicadeza ou desprezo. Porém me veio uma dúvida, daquelas mais caóticas não há: sou eu aqui o personagem ou a pessoa? Devo sentir no presente ou pretender no pretérito imperfeito dos sonhos inacabados?
Falando em sonhos inacabados, …

A FÚRIA DE SÃO PEDRO >> Clara Braga

Definitivamente, São Pedro não gostou da idéia de Brasília — que historicamente têm sido o palco dos horrores políticos — finalmente se tornar palco de várias atrações internacionais. Eu tenho para mim que ele deve ter pensado mais ou menos assim: "É, vocês querem shows para se divertir e esquecer dos absurdos que andaram acontecendo, né? Pois aqui vai a novidade, eu não vou deixar isso acontecer. HA HA HA!"

E foi nesse momento que nós fomos presenteados com o dilúvio que caiu na noite do dia 17, até então um dia de sol. A alegria de muitos fãs que aguardavam a mega-atração daquela noite, Shakira, ficou por ali mesmo. A única pessoa a quem São Pedro permitiu ver a famosa colombiana foi a presidenta Dilma, afinal elas iam conversar sobre coisas importantes como a erradicação da fome e o cuidado com as crianças. Aí pode.

Mas convenhamos, show aberto corre esse risco mesmo. Com equipamentos danificados não tem show que aconteça. E, no final das contas, foi melhor a Shakira pass…

AVE OBAMA! >> Albir José Inácio da Silva

Naldinho tem sete anos e uma lógica simples: gosta ou não gosta. E isso acontece ao sabor das contingências e das orientações familiares. Primeiro gostava de uma facção que pagava enterros e comprava remédios, e não gostava de outra que vivia ameaçando invadir e de vez em quando matava alguém. Também odiava a polícia que entrava na favela atirando e esculachava todo mundo.

Um dia houve muito tiro e muito defunto, e os símbolos e inscrições da comunidade foram trocados. Ele ouviu que enfim aqueles foram expulsos porque estes são melhores e já prometeram luz de graça e tevê a cabo a preços módicos. Imediata e solidariamente o garoto começou a gostar dos novos donos do morro, e a detestar os antigos e, claro, a polícia.

Politicamente, Naldinho acompanha o coletivo dos moradores. Já foi Lula doente e fez desenhos barbudos tão bons que foram escolhidos para enfeitar a parede da escola. Num domingo virou Serra, durante a visita do candidato com promessas de aumentos de salários, de igrejas,…

CERTAS CANÇÕES >> Eduardo Loureiro Jr.

As canções mais tolas — tendo seus defeitos — sabem diagnosticar o que vai no peito. Certas canções que ouço cabem tão dentro de mim, que perguntar carece: como não fui eu que fiz? Eu sou aquele amante à moda antiga, do tipo que ainda manda flores, aquele que no peito ainda abriga recordações dos seus grandes amores. Para quem bem viveu o amor, duas vidas que abrem não acabam com a luz. Eu me possuo e é na sua intenção. É um carinho guardado no cofre de um coração que voou. E quem voou, no pensamento ficou. É um afeto deixado nas veias de um coração que ficou. E quem ficou, no pensamento voou. É a certeza da eterna presença da vida que foi na vida que vai. É saudade da boa, se a gente lembra só por lembrar o amor que a gente um dia perdeu. Ela me encontrou, eu estava por aí num estado emocional tão ruim já conheço os passos dessa estrada, sei que não vai dar em nada. Ela demonstrou tanto prazer de estar em minha companhia e eu experimentei uma sensação que até então não conhecia: d…

VELHAS FOTOS [Maria Rita Lemos]

A passagem do tempo deixa marcas sobre as coisas. A calçada em frente à minha casa guarda a marca indelével das mãos abertas, no cimento fresco, de meu filho, então com sete anos, e de minha neta com três. Eles se foram, cada um tomando o rumo de sua vida, mas as mãozinhas lá estão tatuadas em minha “calçada da fama”. Nem as tantas reformas ou pinturas deixaram brecha para que eu permitisse a alguém apagar esse meu troféu.

Aliás, esta semana, não sei por que, resolvi remexer gavetas esquecidas, cheias de álbuns de fotos. Sabe aquele tempo em que as fotos não eram digitais? A máquina fotográfica, seja importada ou aquela nacional mesmo, mais baratinha, era componente indispensável, sobretudo nas férias com as crianças, nas festas de família, nos aniversários e ocasiões especiais.

Encanta-me a magia que existe nas fotos que sobreviveram ao tempo, registrando a passagem pela vida de tanta gente que pulou fora dela, antes da hora ou quem sabe na hora certa, porque no final das contas o…

MINHA QUERIDA NOITE COM CÓLICA MENSTRUAL >> Leonardo Marona

Ia começar dizendo que sou um perfeito pessimista católico: um tipo que diz não rezando pelo sim. Mas hoje não (mais uma demonstração) que a noite é fresca, o peito é quente e não tem lua no céu. Algo que não sei de onde vem nem pra onde vai fica bem aqui, como se esse algo bem aqui não soubesse também ficar parado sem avisar. Então somos dois certos sem saber, dentro de um apenas duvidoso sem errar. Dou um pulo até a janela. Finjo que acendo um cigarro – mas nem tenho um cigarro – para poder enrugar a testa em vez de pensar. Não agüento teus urros noturnos de cólica, a pressão que você faz com o travesseiro sobre o ventre, teu formato feto felino enquanto dorme tranqüilamente, dentes rangendo mordidos, teu beijo de porra depois que eu desperdiço mais uma boa intenção na tua boca, não agüento isso tudo deitado ao teu lado. Tenho que levantar atrás de ar e não há. Mas você fala comigo com tanto carinho e tão pouco jeito – porque não somos dados a jeitos – e eu leio a história dos sapat…

SORTE >> Fernanda Pinho

Sempre que deixo alguma coisa para resolver na última hora, conto com a sorte. E acaba dando certo. Eu tenho sorte. Essa semana, por exemplo, esperei até o último minuto para escrever minha crônica de quinta, pois estava sem assunto, confesso. Não tendo caído nada do céu, dei uma de jornalista – que se pauta de acordo com as datas – e fui ver no calendário que dia é hoje. Lá estava meu assunto: em 17 de março é comemorado o Saint Patrick’s Day. O que eu tenho a ver com isso? Nada. A única coisa que sei é que, quando eu fazia curso de inglês, a escola se coloria toda de verde nessa data. Por que verde? Saint Patrick é protetor da Irlanda e tem como símbolo o trevo de quatro folhas que – de acordo com meus conhecimentos googlísticos – era considerado sagrado e cheio de energia encantada pelos magos Druidas irlandeses. Daí o fato de o trevo de quatro folhas estar associado à sorte.
Nesse ponto, o assunto já começa a fazer parte da minha alçada pois, como eu disse lá no início, eu tenho s…

DESPINDO-SE DE PONTO FINAL
>> Carla Dias >>

“Enforcar-se é levar muito a sério o nó na garganta.”
Mário Quintana
Algumas coisas me afetam mais sobre o pensamento alheio do que outras. E você pode achar isso perfeitamente normal, contanto que este incômodo não provoque críticas aos seus pensamentos e crenças.
Incomoda-me, profundamente, por exemplo, quem bate no peito e diz “eu sou assim, se quiser me aceite desse jeito”. Na verdade, nem sempre existe a opção de você não conviver com o indivíduo, e nem de longe há como alcançar a aceitação. Vive-se, então, uma tolerância moderada, com uma margem enorme para uma tragédia pessoal.
Sou completamente a favor de sermos quem somos, goste o outro ou não. O problema não está no conceito, mas na forma como ele é praticado. Não há como empurrar uma declaração dessas quando a situação toda depende de uma compreensão que ultrapassa os direitos e deveres de quem a proclama, quando ela afeta o coletivo. Neste caso, a declaração soa estupidamente egoísta.
O que estamos desaprendendo, pouco a pouco…

SERÁ? >> Clara Braga

Recentemente, uma das minhas bandas prediletas veio fazer show aqui em Brasília. Parece que Brasília está finalmente entrando na rota das atrações internacionais. Como uma boa fã, fiz aquilo que considero bem brega, mas que quando se trata de banda predileta está valendo: coloquei a camiseta da banda e fui ao show na parte mais próxima ao palco.

Não me perguntem por que acho brega usar blusa de banda, não sei explicar, mas acredito que seja porque me lembra a minha adolescência, que era quando eu usava muita blusa de banda, e sinto que essa época pra mim já passou, não combina mais, se é que vocês me entendem...

Chegada a hora do show, lá fui eu. E não sei por que, mas como eu tenho 22 anos e curto muito a banda e a vocalista da banda é da mesma idade, eu tive a impressão de que as pessoas que estariam no show teriam essa faixa etária também. Quando cheguei lá... SURPRESA! O último show que eu fui em que as pessoas tinham a idade das que estavam nesse e usavam faixas brilhantes na cab…

QUEM AMARRARÁ SEUS CADARÇOS?
>> Kika Coutinho

Uma das lembranças mais antigas que tenho é de um dia frio quando todos almoçavam na casa de minha infância e, lá, onde meus pais moram até hoje, eu estava invisível no meio da multidão.

A multidão era os meus muitos irmãos, talvez alguns vizinhos, e meus pais que se preparavam para sentar à mesa e comer.

Eu, sozinha na sacada, uma menina pequena, pelejava para abotoar a minha própria camisa. Os tênis estavam desamarrados e os botões da roupa não entravam nas suas casas, de forma que eu passava algum tempo ali, maltrapilha, concentrando-me em me arrumar, ainda que minimamente, para o almoço que viria na sequência.

De repente, como que num estalo, lembro-me que meu irmão mais velho me notou. Saiu da sala de jantar e veio em minha direção. Num instante, ajoelhou-se diante de mim e começou a me ensinar:

— Olha, você põe o botão aqui, encaixa, e vira a casa assim. Viu? — ele me explicava pacientemente.

Eu mantinha a cabeça abaixada, guardando no meu silêncio uma satisfação sem limites. …

PRÓDIGO >> Eduardo Loureiro Jr.

Desde criança, escuto a Parábola do Filho Pródigo. Mas só ontem a vivi.

É a história de um pai que tem dois filhos. O mais novo deles pede ao pai uma antecipação da herança e sai pelo mundo, esbanjando riquezas. Quando fica sem dinheiro, passa a trabalhar em condições miseráveis e lhe ocorre voltar para casa, pedindo que seu pai lhe aceite como um de seus empregados. O pai recebe o filho mais novo de braços abertos e com grande festa, despertando a indignação do filho mais velho que, ao voltar do trabalho, ao final do dia, reclama da situação com o pai. Este lhe responde: "Meu filho, tu estás sempre comigo. Tudo que tenho é teu".

Eu vivi esta parábola no papel de "filho mais velho", vendo um "irmão" rebelde, não cumpridor dos seus deveres, receber do "pai" uma atenção especial que não me havia sido dispensada. Quando reclamei com o "pai" a respeito de tamanha injustiça, ele me disse:

— Justiça não é dar a todos uma porção igual, é dar…

FÁBULA DA DECAPITAÇÃO VOLUNTÁRIA
>> Leonardo Marona

A quarta-feira de cinzas é uma segunda-feira proveitosa. Desviando do cheiro atraente de suor, urina e sexo do último aglomerado hedonista na praça pública, sigo metido apenas comigo mesmo, a caminho do trabalho. Sinto um misto de vergonha e pressa, aquele não é o meu lugar. E não digo aquela praça, aquele bairro, aquele distrito, aquele país, me refiro ao aquele que posso apontar, seja qual for, o que está fora de mim e nunca dentro de mim, esse eu chamo de "aquele não é o meu lugar", não uma questão especificamente objetivada, a preocupação com "aquele que não é", é muito mais uma questão de eu "nunca ser" algo situado dentro do que se aponta.
Não que me doa além da conta, ou especialmente agora, não confio mais nas pernas da tragédia. Quase mudo de caminho quando vejo uma bela e magra moça loira, com pernas de um metro e meio e, apesar de linda, tão deslocada quanto eu, ainda que inserida. Quanto senso comum, quanta mesmice essa ideia de "o amor ve…

BUDAPESTE >> Fernanda Pinho

Houve um questionamento que nunca havia passado pela minha cabeça até eu ler Budapeste, do Chico Buarque. Para quem ainda não leu o livro (mas vai ler, estamos combinados?), trata-se da história de um homem que se apaixona pelo idioma húngaro. E, nele, até consegue escrever poesias. Coisa que nunca havia feito em português. Aí é que tá! O que arrebata a gente são as palavras ou a língua? Eu gostaria tanto de ler e escrever se fosse uma russa, falando em russo e tendo sido alfabetizada em russo? Alguma coisa me diz que não exatamente. Um idioma muda tudo. Imagine ler Luis Fernando Verissimo em alemão! Improvável. Alemão é gutural demais para a leveza das palavras de Verissimo. Assim como espanhol é dramático demais para qualquer coisa. Eu, aliás, quando estou achando um filme muito monótono tenho um truque infalível: mudo o idioma para o espanhol. Não dá outra. Em cinco minutos, estou aos prantos. O que me faz acreditar que se minha língua-mãe fosse espanhol, eu seria uma escritora e u…

IDENTIDADES >> Carla Dias >>

Ele estranha a cadência do tempo como o faz a maioria de nós, os outros, aqueles que observam, enquanto o feito é feito. Nasceu do estranhamento de ditos pais que o deram de presente ao sistema logo nos primeiros anos de sua vida. Lembra-se da infância com o esquecimento necessário para não doer gravemente o abandono.
Por isso deu de inventar naturalização, chegando até a ser inglês, africano e alemão em um mesmo dia. Aprendeu tudo que sabe ao se portar como turista em seu próprio país. Mas se a inteligência lhe é aguçada, a percepção sobre a própria identidade deixa a desejar.
Às vezes, olha-se no espelho e murmura um nome que não é o seu dos documentos, mas um dos adotados. Ao se deparar com as vizinhas faladeiras, acaba sempre deixando as carolas em dúvida sobre a sua origem, mixando o espanhol com o inglês e o português, criando um dialeto que as pobres jamais entenderão.
Trabalha como arquivista, bartender e segurança de teatro. Consegue desempenhar tais papéis sem deixar que um atr…

PATRÍCIA ABSOLUTA >> Clara Braga

Muitos tiveram o prazer de conhecer a famosa Stefhany Absoluta e seu Cross Fox, mas muitos a conhecerem não significa que todo mundo conhece, e esse foi um detalhe que eu esqueci.

Recentemente, minha madrinha comprou um carro novo. Adivinhem qual? Um Cross Fox, claro. Não pensei duas vezes, na mesma hora comecei a chamá-la de Patrícia Absoluta. Ela curtiu e ficou por isso mesmo. Durante um dos famosos almoços de domingo, todos conheceram o novo carro dela, realmente muito bonito, com tudo que se tem direito: travas elétricas, vidro automático, airbags e até aquele bip que apita quando  você dá ré para evitar que bata. Não é pra menos, faz qualquer um se sentir absoluto mesmo. E quando eu soltei o comentário, minha prima disse: “É mesmo, agora Tia Paty é Stefhany”. E foi então que Patrícia Absoluta perguntou: “Quem é Stefhany?”.

Como assim quem é Stefhany? Eu estava há pelo menos uma semana chamando ela de Absoluta e ela não sabia quem era Stefhany?

Exatamente, ela não sabia. Simplesme…

BOMBAS E BATUQUES
>> Albir José Inácio da Silva

Colado na parede, ao lado da bancada, está um mapa-múndi que olho pra matar o tempo. Ele ainda mostra União Soviética e outras configurações do passado. É uma página arrancada do atlas da infância só pra lembrar que gosto de geografia.

Recordo o telejornal na hora do almoço: Kadafi, bombardeios, civis, mulheres e crianças. O relógio na parede não anda, mas não está quebrado, é só ansiedade.

A sexta-feira começou arrastada. Acordei uma hora antes e não consegui mais dormir. Tive de esperar o café ficar pronto na padaria, o ônibus demorou pra passar e demorou no trânsito. A manhã durou vinte e quatro horas e a tarde parece que não vai acabar. E o que é pior: um dia assim comprido não rendeu a cota de hoje. Fico devendo muitas peças pra semana que vem, o que o feitor parece adivinhar pela maneira como me olha. Mas agora todo mundo já está parado, e o silêncio incomoda mais que o barulho das máquinas. Puxo conversa pra espantar o nervoso:

- Você viu o que está acontecendo na Líbia?

- É, …

SEMPRE O TEMPO >> Eduardo Loureiro Jr.

Às vezes, sinto o tempo das coisas...

"Não gosto de fazer perguntas, só quando não tem jeito. É que as pessoas ou falam o que querem ou não adianta que falem. O que a gente tem dentro da gente eu sinto que é como frutas... se saem no ponto certo, estão maduras, gostosas... se saem antes disso, estão verdes, são ácidas, fazem mal... se passam do tempo, apodrecem, ninguém quer. Só o que me falam querendo e na hora certa é que eu dou valor, e só assim que eu acredito nelas".  (Coiote, Roberto Freire)

Às vezes, eu sinto o tempo de escovar os dentes, de tomar um banho. Não como uma atividade que se deva fazer e que tenha hora certa, mas como um momento que vem se aproximando, chega, e depois se vai. Outras vezes, deixo-me levar pelo automatismo, pela pressa, pelas obrigações.

O tempo que sinto agora é de silêncio, música e um bom livro. Quando determinado tempo vem chegando, ele nos traz recordações de outros tempos similares. Por isso me lembrei de Coiote, e do quarto de …

REALIDADE E SONHO [Debora Bottcher]

"Quando os deuses querem nos punir, atendem nossas orações." (Orson Welles)

Essa semana assisti ao filme 'A Origem'. O cineasta Christopher Nolan (de “Batman – O Cavaleiro das Trevas” e "Amnesía"), conhecido por conceber narrativas confusas e pouco usuais, definia a trama como 'uma ficção científica de ação que ocorre na arquitetura da mente'. Isso significa, sob o prisma dele, uma realidade em que é possível entrar em sonhos alheios, fazendo do personagem principal um terrível invasor do sono profundo com objetivo de roubar informações.

É um filme que demanda muita atenção para entender todas as nuances do roteiro que é bem lapidado, mas cheio de interrogações. E como o filme é 'rápido' demais (meio trilogia Bourne), você se vê literalmente grudado na tela senão, se perde do sonho e aí não entende nada mesmo.

Naquela noite, sonhei coisas tão absurdas quanto as da tela e acabei, durante o dia, divagando sobre sonhos de forma geral aque…

QUAL COR SEUS PAIS TE DERAM?
>> Fernanda Pinho

Pensei em recorrer ao óbvio e falar sobre carnaval. Mas não tenho nenhuma história carnavalesca que mereça virar crônica (embora tenha vivido alguns carnavais inesquecíveis) e nem nenhum sentimento especial pela data – de amor ou de ódio. Eu até gosto de carnaval, mas pela mesma razão que gosto do dia de finados: feriado! Sem ter o que dizer, então, sobre marchinhas, bailes, agremiações, trios elétricos e fantasias, o que me resta do carnaval são as cores. Façamos, então, uma crônica de antevéspera, bem colorida.
Minhas cores primárias foram: branco, azul e vermelho. As cores referentes aos nomes das pessoas da minha casa. Pois é. Eu acho que os nomes têm cores e sei que é loucura compartilhada, pois minha melhor amiga, a Lili, também acha. Sendo assim, estabeleci: Léia, o nome da minha mãe, é azul. Luiz, o nome do meu pai, é vermelho. Paula e Fernanda, eu e irmã, nomes brancos. Pode até ser que haja alguma lógica inconsciente nisso tudo. Afinal, azul é a cor preferida da minha mãe. V…

AMOR, FLOR, DOR E OUTRAS RIMAS DESAMPARADAS >> Carla Dias >>

A casa foi partida em duas: ela ficou com o quarto e a cozinha, um tiquinho da lavanderia e com meia varanda. Na sua metade, estão os vasos de avenca e lírio-do-brejo, resquícios da tentativa dele de construir jardim em apartamento. Elas parecem ter sede, então ela vai até a cozinha, que é inteirinha dela, porque é viciada em café e bolo de milho, e bebe um copo de água. Pronto... Matou a sede dela, mas quer que as plantas se danem. Quer, na verdade, que as plantas saibam que ela poderia, mas não dará de beber a elas. Então, pega outro copo de água, escora-se à porta da varanda, e bebe o líquido transparente e gelado, crente que as plantas estão assistindo a tudo, suas gargantas secas feito o deserto.
Não pode pisar na sala, tampouco no quarto de empregada. Lavar roupas é no tanque, porque a máquina de lavar ficou do outro lado. Em meio varal, pendura coisinhas de mulher, que se antes, ela acredita, assanhava o olhar dele, agora apenas estabelece certo pudor e um sério mal-estar. Por i…