sábado, 19 de março de 2011

VELHAS FOTOS [Maria Rita Lemos]

A passagem do tempo deixa marcas sobre as coisas. A calçada em frente à minha casa guarda a marca indelével das mãos abertas, no cimento fresco, de meu filho, então com sete anos, e de minha neta com três. Eles se foram, cada um tomando o rumo de sua vida, mas as mãozinhas lá estão tatuadas em minha “calçada da fama”. Nem as tantas reformas ou pinturas deixaram brecha para que eu permitisse a alguém apagar esse meu troféu.

Aliás, esta semana, não sei por que, resolvi remexer gavetas esquecidas, cheias de álbuns de fotos. Sabe aquele tempo em que as fotos não eram digitais? A máquina fotográfica, seja importada ou aquela nacional mesmo, mais baratinha, era componente indispensável, sobretudo nas férias com as crianças, nas festas de família, nos aniversários e ocasiões especiais.

Encanta-me a magia que existe nas fotos que sobreviveram ao tempo, registrando a passagem pela vida de tanta gente que pulou fora dela, antes da hora ou quem sabe na hora certa, porque no final das contas o senhor do tempo sabe o que faz. Achei uma festinha na Praça Toledo Barros, com minha filha Mariana dançando fantasiada de fada, se bem que uma fada muito mal humorada naquela tarde, com a querida e saudosa tia Martha ao fundo... outra foto flagrando uma birra da mesma Mariana, dias depois, num passeio a uma praia que já não sei qual foi, embora me lembre claramente da mal criação, em plena areia quente - acho que era algo que ela queria e naquele momento não podia ser feito ou comprado.

Fotos de minha filha Karina em diversos momentos de sua vida, em tempos de bailarina... registros de meus três filhos e de minha neta, enfim, velhas fotos que, se organizadas em sua cronologia, têm um passado tão lógico quanto saudoso.

Ah, quanta saudade! Meu filho pequenino, reclinado no bebê conforto, dormindo placidamente sob uma árvore do Limeira Clube... tão diferente, salvo a placidez, mantida ainda depois de tantos anos. A gaveta guarda ainda fotos de minha viagem à Itália, em 1996. O flagrante do pranto incontido, quando um pianista, em plena Praça de São Marcos, em Veneza, tocou “Garota de Ipanema”... fotos dos canais, mais lágrimas diante da Pietà, o passeio malogrado de gôndola, a catedral de Milão, os centuriões inesquecíveis no Coliseu em Roma... impossível não me comover, revendo aqueles momentos mágicos!

Na gaveta contígua à dos filhos, os álbuns da formatura, do meu primeiro casamento... custei a crer que era eu a jovem de lábios carnudos e olhos brilhantes, descendo do carro nupcial à porta da Igreja de São Benedito, começo da década de setenta.... reconheci pessoas que estavam ali, na praça, bem como gente que me olhava na igreja, e que já não está mais entre nós.

Quanta saudade, quanta lembrança, algumas boas, outras nem tanto; fotos de dias felizes, de almoços familiares... Uma foto, em branco e preto, destacou-se das demais e me fez rir entre lágrimas: marcava o dia em que, ainda morando na Vila Paraiso, papai ganhou como presente de Natal, de um velho amigo, um peru prontinho, assado e decorado... imediatamente ele chamou as filhas casadas, que chegaram logo, antes que o bicho esfriasse, que não tinha microondas naquele tempo. E lá estávamos nós, devorando o bicho: meu irmão, minha irmã caçula, as duas mais velhas com os maridos e filhos pequenos, vovó Santa, mamãe, papai e eu, quando o mesmo mensageiro tocou a campainha, quase em prantos. Ele havia se enganado na entrega, o peru não era para meu pai, mas para outra pessoa com nome parecido (embora houvesse pouca gente com nome parecido ao dele!) Seguiu-se a correria, a aflição, meu Deus e agora, sobravam praticamente os ossos daquilo que era um peru até com papel franjado nas patinhas inertes, dourado, lindo e cheiroso, ladeado por montes de fios de ovos, que foram todos consumidos. Papai, como sempre, imediatamente remediou a situação. Para alívio nosso e do mensageiro, mandou um peru assado, pronto e igualzinho, para a casa a quem se destinava. A correria não foi registrada, mas as fotos, em branco e preto, mostram nossa família saboreando o presente alheio...

Enfim, chegou a tecnologia. E não chegou só para as fotos.... onde estão as cartas, que de perto ou longe recebíamos, esperávamos por elas, chorávamos ou ríamos, ou ambos, sobre aquelas caligrafias queridas? Onde está o carteiro que às vezes eu aguardava na porta, ansiosa, adolescente que tinha mania de namorar “menino de fora”? Hoje eles ainda aí estão, valentes carteiros e carteiras em uniformes azuis e amarelos, mas dificilmente trazem cartas, além das contas, contas e mais contas. E haja folhetos de propaganda, que disputam lugar em nossas caixas de correspondência e, quando não retirados e reciclados, vão finalmente entupir bueiros e causar males maiores. Sinto falta, ainda, dos cartões de Natal, não os virtuais, mas aqueles de desenhos lindos, pintados a mão alguns, brilhantes quase todos, esbanjando purpurina. Recebíamos tantos, até recentemente, que enfeitavam toda nossa grande árvore.... recebíamos e enviávamos muitos cartões. Hoje eles vêm pelo computador. Belíssimos, animados, sem dúvida, enviados com carinho especial. Mas não resistem ao “deletar” automático, ditado pelo tempo e pelo espaço em disco rígido...

Voltando às fotos, talvez não fosse necessário dizer adeus a elas, afinal é muito bom vê-las logo que clicadas. Mas a preguiça é muita: há que para passar as fotos da máquina digital para o computador, e de lá para o tal de “pen drive”, e finalmente levar esse dito cujo para que os especialistas no assunto as transformem em fotos, de verdade, de papel. Ah, saudade dos tempos de “revelar fotos” no japonês... a gente chegava de férias louca para ver tudo, e eram álbuns e álbuns, os mesmos que hoje lá estão, esquecidos talvez, amarelados pelo tempo, mas vivos sempre, numa gaveta qualquer, à espera.

Vivos naquele cantinho de nós que palpita mais depressa manuseando todo esse tesouro, que a traça pode comer, que um dia vai se acabar, mas que em nossos corações representa a imagem de nossos amados e amadas, crianças que viraram adultos e adultas, com profissões, filhos e filhas. Gente viva nesse mundo ou que já cruzou o rio, mas que jamais será apagada de nossas mais doces lembranças.

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4 comentários:

Debora Bottcher disse...

Maria Rita, querida, essa semana pensei sobre isso. Minha neta de quatro anos adora mexer na caixa de fotografias; o problema é que só temos fotos 'antigas', de pelo menos cinco anos para trás. Falei com o Raul que precisamos fazer esse exercício que vc mencionou (pendrive e etc), senão perderemos o registro de muitos acontecimentos - embora se capte na mente.
Eu adoro fotografias e também sinto falta delas no papel. A tecnologia atropelou até o modo de lembrar o passado... :)
Beijo pra vc. Obrigada pelo texto.

Louro Neves disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marilza disse...

Sua crônica me emocionou...por tudo e pensei na facilidade com que as coisas simples da vida às vezes são trocadas por tanta era digital.
Como vc mesma disse, muito esta e fica na nossa lembrança. Quando vc fala dos cartões de natal, em especial,percebo que muito se perdeu. Era tão bom recebê-los, saber q alguém 'perdeu' uns minutos para escrevê-lo e postar no correio. Hoje, desconhecemos a escrita dos amigos, familia, etc porque tudo ficou tão impessoal e digital...

Fernanda disse...

Concordo com você e também sinto falta de receber as cartas vindas pelo correio, quanto cuidado e apreço. Hoje temos o teclado e as infinitas fotos digitais, mas desconfio que não mais notamos as fotos como fazíamos antigamente, quando ainda eram feitas de papel.
Beijos, lindo seu texto.