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DESPINDO-SE DE PONTO FINAL
>> Carla Dias >>

“Enforcar-se é levar muito a sério o nó na garganta.”
Mário Quintana

Algumas coisas me afetam mais sobre o pensamento alheio do que outras. E você pode achar isso perfeitamente normal, contanto que este incômodo não provoque críticas aos seus pensamentos e crenças.

Incomoda-me, profundamente, por exemplo, quem bate no peito e diz “eu sou assim, se quiser me aceite desse jeito”. Na verdade, nem sempre existe a opção de você não conviver com o indivíduo, e nem de longe há como alcançar a aceitação. Vive-se, então, uma tolerância moderada, com uma margem enorme para uma tragédia pessoal.

Sou completamente a favor de sermos quem somos, goste o outro ou não. O problema não está no conceito, mas na forma como ele é praticado. Não há como empurrar uma declaração dessas quando a situação toda depende de uma compreensão que ultrapassa os direitos e deveres de quem a proclama, quando ela afeta o coletivo. Neste caso, a declaração soa estupidamente egoísta.

O que estamos desaprendendo, pouco a pouco, e ao adotarmos frases das quais pouco compreendemos o sentido, mas que sempre provocam rebuliço, é a sermos preguiçosos com a construção da nossa própria identidade. Desde sempre, o ser humano se vale de citações para falar sobre si mesmo, sejam elas oriundas dos livros de autores consagrados ou das letras de música sertaneja. Porém, ao adotar alguma delas como carro-chefe da sua vida, como um mantra, uma ferramenta para você construir sua história, melhor estar certo do espaço que ela ocupará na sua biografia.

O “dane-se o que você pensa ou sente, eu sou assim” é uma das declarações que mais me irrita. Quando uma pessoa chega ao ponto de berrá-la por aí, com um orgulho desavisado a tiracolo, pode acreditar, não há orgulho algum rondando o momento. Para mim, declarações como essas soam como certificado de incapacidade de escutar o outro, de conhecer um ponto de vista diferente, de se enveredar pela possibilidade de não estar assim tão certo, de precisar aprender um pouco mais sobre si. E no final, dá sempre em uma solidão para se amargar.

Eu sou uma das escolhidas para encarar pessoas que batem no peito, e que aos berros dizem “eu sou assim, se quiser me aceite desse jeito”. Acontece de eu ser receptora de tais declarações com uma frequência assombrosa. E o duro é que isso não apenas me irrita, como me entristece, pois algumas dessas pessoas levam isso muito a sério, tornando a convivência difícil demais, quase impossível.

Eu sou assim, você é assado, e não há problema algum nisso, ao contrário, há a pluralidade necessária para tecermos a vida com certa cadência. Não defendo a aniquilação do direito de ser, mas o sermos sem nos privarmos do aprendizado que o diariamente nos oferece, tampouco da possibilidade de melhorarmos quem somos.

E se nos transformamos com o tempo, não há um “eu sou assim” que não sofra a influência das experiências, que não cresça, aprenda. Então, apenas tome cuidado com as declarações que insistir em tornar definitivas, com as citações interpretadas como se fossem confissões pessoais. Porque até que é bom ser assim e reticências, e vírgula, e dois pontos, e isso vem com um bônus de interrogações, pontos de exclamação, enfim, surpresas.

Não insista em colocar ponto final na sua capacidade de se transformar. Lapidar-se.

carladias.com

Comentários

Antídoto disse…
Concordo plenamente!!!

"Não insista em colocar ponto final na sua capacidade de se transformar"...

A gente muda porque evolui, estamos em evolução constante.

Quem é o dono do blog?

Ótimas crônicas!!

Está nos meus favoritos...

Lila
Carla, fiquei aqui me perguntando: Quando a gente ouve demais alguma coisa não é porque estamos precisando falá-la nós mesmos?
Carla Dias disse…
Lila... O dono do Blog é o Eduardo Loureiro, mas nós, os cronistas, nos sentimos tão bem por aqui que achamos que a casa é nossa!
Obrigada por aparecer, por ler e por apreciar.

Eduardo... Nem sempre. Às vezes, é só uma questão de estar disponível para ouvir. E neste caso eu posso garantir que em nada me interessa estabelecer que sou assim e pronto. Não estou pronta, tampouco de prontidão. Gosto das nuances das mudanças.
fernanda disse…
Adorei o texto, Carla. Sempre penso sobre essas frases feitas que usamos para justificar nosso comportamento e o dos outros. Quer dizer, você pode matar uma pessoa e chegar no tribunal e dizer: desculpa, eu sou assim mesmo, assassino por natureza? Não mesmo.

Eu mesma caio nessas armadilhas. Recorro até às desculpas astrológicas: ah, me decsulpa por estar demorando a decidir, é que eu sou libriana....rs. Eu sou assim, mas seria interessante tentar não ser, ao menos, às vezes, né?

Bjos!!
Marilza disse…
Carla, ja ouvi isso inúmeras vezes de uma grande amiga. O problema é que as pessoas falam o que querem - afinal elas são assim né? - mas, quando ouvem algo que as desagradem se magoam...Frases feitas são ouvidas e ditas à todo instante sem que nos detenhamos no verdadeiro sentido.
Em tempo, grande sacada do 'dono' do blog..Gosto muito daqui....Está também em meu 'favoritos'.
Fê Miceli disse…
Adorei o seu blog e já tô seguindo. A maneira como escreve é simples, objetiva e tocante. Muito bom o texto!

Bjs
Anônimo disse…
Oi muito bom o texto, adoro suas crônicas e acho que as pessoas agem assim usando frases que não abrem espaço para mudança simplismente por medo de uma não aceitação
Kika disse…
Excelente reflexão.
Bater no peito com um argumento tosco e preguiçoso desses é, no mínimo, muito limitado né?
Adorei o texto.
beijos.
albir disse…
O mais interessante, Carla, é que as pessoas se orgulham da estagnação. É como acabar antes do fim.
Carla Dias disse…
Fernanda... Eu até vejo muita sabedoria em frases feitas, porque elas não grudam na gente pela repetição à toa. O problema é que fica tudo nublado quando uma pessoa as assume como legenda da própria existência. Quando essa pessoa não se dá ao trabalho de evoluir, sabe?
Acho que a gente cai sim nessas armadilhas, mas não com a seriedade de alguns ao tornar essas frases resumos da própria existência.
Como eu disse, adoro frases feitas, mas somente quando podemos desfazê-las, depois da compreensão e do aprendizado.

Marilza... Verdade. Pessoas tão radicais ao assumirem declarações feito esta são extremamente fechadas à intrusão do outro, ainda que faça sentindo metermos a mão nessa cumbuca. No final das contas, essa coragem de se dizer assim e ponto, é na verdade a covardia de experimentar os tons da vida.

Fê... Obrigada por aparecer por aqui, e de quebra, ler minha crônica. Beijos!
Anônimo... Qual é o seu nome? Ok, curiosidade de lado... O ser humano é um país de medos, mas sobreviver a eles é o que nos torna aptos a construir uma história. Eu compreendo o que você diz, mas acho que, mais do que medo, quem se comporta dessa forma tem preguiça de ser, porque dá um trabalho danado ser. A gente tem de dar a cara à tapa tantas vezes que desanima. Mas como em tudo nessa vida, há o outro lado da moeda: nós vivemos e o medo fica pequeno, quase insignificante, apenas o necessário para sermos cautelosos com as importâncias.

Kika... É limitado, sim. Sei que nos damos desculpas o tempo todo para não seguirmos adiante, mas a beleza está naquele momento em que descobrimos que isso não nos faz bem, e abandonamos a desculpa, abraçamos a continuação das nossas vidas. Beijos!

Albir... É verdade... Como deve ser vazio e desbotado o universo dessas pessoas, não? Uma pena.
Andressa Kárita disse…
Eu sempre quis escrever um texto que abordasse esse tema.
Destaco essa parte: ´´Não defendo a aniquilação do direito de ser, mas o sermos sem nos privarmos do aprendizado que o diariamente nos oferece, tampouco da possibilidade de melhorarmos quem somos.``

Vc tem algum blog no facebook?
Carla Dias disse…
Andressa... Obrigada por ler meu texto. Eu tenho:
www.carladias.com
www.facebook.com/emprosa
http://talhe.blogspot.com

Abraço!

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