quinta-feira, 10 de março de 2011

BUDAPESTE >> Fernanda Pinho

Houve um questionamento que nunca havia passado pela minha cabeça até eu ler Budapeste, do Chico Buarque. Para quem ainda não leu o livro (mas vai ler, estamos combinados?), trata-se da história de um homem que se apaixona pelo idioma húngaro. E, nele, até consegue escrever poesias. Coisa que nunca havia feito em português. Aí é que tá! O que arrebata a gente são as palavras ou a língua? Eu gostaria tanto de ler e escrever se fosse uma russa, falando em russo e tendo sido alfabetizada em russo? Alguma coisa me diz que não exatamente. Um idioma muda tudo. Imagine ler Luis Fernando Verissimo em alemão! Improvável. Alemão é gutural demais para a leveza das palavras de Verissimo. Assim como espanhol é dramático demais para qualquer coisa. Eu, aliás, quando estou achando um filme muito monótono tenho um truque infalível: mudo o idioma para o espanhol. Não dá outra. Em cinco minutos, estou aos prantos. O que me faz acreditar que se minha língua-mãe fosse espanhol, eu seria uma escritora e uma leitora muito mais voraz. Eu amo português, mas espanhol é o meu húngaro.

Budapeste fala ainda da angústia de ser um ghost-writer, profissão do homem que se apaixona pelo húngaro. Eu fiz, e faço, muitos trabalhos como ghost-writer e não sofro nada por isso. Tudo o que faz parte da nossa vida são coisas fabricadas por outras pessoas. Não vou ficar morrendo se tem gente usando textos fabricados por mim. Fico é feliz e lisonjeada por conseguir fazer alguma coisa nessa vida pela qual alguém queira pagar. No fim das contas (de água, luz, telefone), é disso que a gente vai precisar.

Mas existe um grande porém. Ou melhor, dois. O primeiro é que eu não consigo não deixar minha marca nos meus textos. Tem um homem em nome do qual eu sempre escrevo. E, olha, tenho certeza que tem gente que deve achar que ele é gay. Porque eu não consigo conter certas firulas femininas. Mas ele prefere as minhas palavras às dele. Que eu posso fazer? Outro detalhe é que eu só tenho esse desprendimento com meus textos que são fabricados sob encomenda e, normalmente, sobre assuntos que não me interessam nem um pouco. São palavras que saem de uma parte muito superficial de mim e nada dizem a meu respeito. Agora, quanto aos textos que são sentidos — e não fabricados — morro de ciúmes. Não que eles sejam geniais. Não mesmo. São coisas como essas porcarias que vocês leem aqui. Mas são as minhas porcarias. Que saem das minhas Fossas das Marianas internas. E, por essas, eu jamais aceitaria ver outra pessoa levando o crédito. Graças a Deus que ninguém tem interesse nisso mesmo. Uma passagem que me corta o coração em Budapeste é a do ghost-writer no lançamento de um livro que ele escreveu com sua alma e, obviamente, é assinado por um poeta famoso. Além da angústia do sucesso fantasma, ainda tem que levar para a casa uma dedicatória do "autor": "Para você, essas despretensiosas palavras".


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6 comentários:

Carla Dias disse...

Eu me apaixonei pelo livro, depois pelo filme. Achei de uma sacada fantástica fazer o paralelo entre a descoberta de um idioma e a descoberta da própria existência dele. Acho que a coisa vai além de ser um ghost-writer, porque ele era um ghost-pessoa. Ele não existia até escrever a autobiografia de outro. E não é uma loucura? Escrever a autobiografia de outra pessoa? Até a nossa autobiografia pode ser de outro.
E acho que o apego pelos escritos que assinamos vem do fato de eles serem nossa identidade, e a gente não ter vontade alguma de perdê-la por aí.

..DONA DAS BATATAS.. disse...

Acho que eu não escreveria em outra língua, porque provavelmente eu não seria a mesma pessoa se nascesse em outro lugar do mundo... não me vejo inglesa ou russa, mas assim como você, tenho um tanto de sangue (e lágrimas) latinos.

Samara disse...

Budapeste é um dos meus livros preferidos, e acho que boa parte pq ele é ghost writer e por causa dessa coisa geografica/cultural.

Eu acho q tenho algo com a língua inglesa, desde sempre componho minhas "musicas" em ingles, nao tem indioma mais musical. Tb acho eles mais expressivos em dialogos, mas pra todo resto, fico com o português. Sou apaixonada pela língua.

Cacá - José Cláudio disse...

Não li ainda o livro (está combinado que vou ler) e já me encantei por ele através dessa crônica genial. Abraços. Paz e bem.

albir disse...

Quanto aos textos sentidos - e não fabricados - dos quais você morre de ciúmes, eles são geniais, sim!

kika disse...

ótimo texto.
tinha que ser seu.
:)
beijos