quarta-feira, 2 de março de 2011

AMOR, FLOR, DOR E OUTRAS RIMAS DESAMPARADAS >> Carla Dias >>


A casa foi partida em duas: ela ficou com o quarto e a cozinha, um tiquinho da lavanderia e com meia varanda. Na sua metade, estão os vasos de avenca e lírio-do-brejo, resquícios da tentativa dele de construir jardim em apartamento. Elas parecem ter sede, então ela vai até a cozinha, que é inteirinha dela, porque é viciada em café e bolo de milho, e bebe um copo de água. Pronto... Matou a sede dela, mas quer que as plantas se danem. Quer, na verdade, que as plantas saibam que ela poderia, mas não dará de beber a elas. Então, pega outro copo de água, escora-se à porta da varanda, e bebe o líquido transparente e gelado, crente que as plantas estão assistindo a tudo, suas gargantas secas feito o deserto.

Não pode pisar na sala, tampouco no quarto de empregada. Lavar roupas é no tanque, porque a máquina de lavar ficou do outro lado. Em meio varal, pendura coisinhas de mulher, que se antes, ela acredita, assanhava o olhar dele, agora apenas estabelece certo pudor e um sério mal-estar. Por isso mesmo dispõem a toalha de banho enorme de um jeito que ele não possa ver suas roupas íntimas, a não ser que ele queira muito.

Será que ele vai querer?

No quarto a cama é king size, de uma vastidão imprópria para quem nunca pensou em ficar só. Ela vira pra cá e pra lá, agarra os travesseiros de ervas, e o perfume que deles exala é o dele. Deita-se de atravessado, as pernas apontando para um canto e a cabeça para outro, o olhar vidrado no teto. Poderia ter dividido o quarto, e ainda assim teria espaço. Mas como seria se deitar ao lado dele sem poder, já no sono começado, e como tem sido de costume há quase uma década, virar-se e abraçá-lo até cair num sono profundo?

Ladra esse amor
Ao meu peito em flor
E renasce silente
Depois se abre em grito
Escandalizando o paraíso
Com a sua nudez

A partilha foi feita com fita crepe, num momento explosivo, em que ela, com as faces vermelhas e a voz chorosa, exigia que ele entendesse o seu lado. E ele estava irritado, mas de um jeito inédito pra ela, exigindo que ela ficasse calada para que ele não dissesse nada que a ofendesse demais. Como todos sabem, conselho mais sábio, quando se trata de casais, não existe: em briga de casal não se mete a colher. Por isso que as irmãs dele e a mãe dela assistiam a tudo sem abrir a boca, prontas para a fase 2, quando ambos desabassem. E desabaram...

Chororô à parte, olhos injetados de falta de noite bem dormida e conclusões, ambos passaram a respeitar profundamente aquela fita crepe de fora a fora do apartamento. Mesmo quando os dias passaram e a moça da limpeza dele não entrava em acordo com a dela, e ambas passavam pano úmido na fita, fazendo com que ela se descolasse, ficasse meio solta, eles se mantiveram firmes... Ela bebendo café frio, porque já não tinha mais disposição para fazer café mais de uma vez ao dia. Ele gastando água até ao lavar apenas uma camisa na máquina, só para que ela ouvisse o barulho do que já não era mais dela.

Esse tal amor
Tatua seus abismos
Na minha pele em flor
No meu coração partido
Crava o olhar no meu semblante
E sai de mim sorrindo

Houve essa noite em que ambos pareciam zumbis caminhando pelo apartamento. Encontraram-se no corredor, este divididinho certinho, para que cada qual pudesse caminhar do seu lado. Porém, ao irem um de encontro ao outro, ainda que abaixando suas cabeças para evitar a troca de olhares, suas mãos se tocaram. Suas mãos se tocaram como se fossem amantes que não se viam há tanto tempo que seus corpos e suas almas doíam de um jeito que nem dava para explicar.

Ela foi para o quarto, deitou-se ao pé da cama, que já não suportava tanto espaço sobre ela, e chorou baixinho, durante horas. Ele se deitou no sofá, entre lençóis remexidos, apossou-se do controle da televisão como se estivesse empunhando uma arma, mas não atirou. Ficou segurando o controle no ar, lágrimas escorrendo pelas suas faces, em silêncio.

Ela aprendeu a andar direito. Ele vivia tirando sarro dela por causa da sua mania de caminhar quase que em zigue-zague. Mas agora era uma mulher treinada pelo que está disponível. Foram noites e dias de caminhadas pelo apartamento, andando sobre a fita crepe, um pé na frente e outro atrás, como se estudasse para se tornar malabarista e andar sobre a corda bamba. Um equilíbrio necessário para que não se jogasse do outro lado, berrando seus porquês, alardeando interrogações que já nem fazem mais sentido.

Para ele, o que estava fazendo era respeitar um pedido. Ela não queria que ele entendesse o lado dela? E como fazê-lo sem defini-lo certinho? Na verdade, não imaginou que ela toparia essa loucura de dividir o apartamento, deixando apenas como lugar comum o batente debaixo das portas, evitando, assim, confrontos quando lá se encontrassem, sem querer.

Ou querendo?

Porque ele se levantou mais cedo que de costume, ficou espreitando a cozinha, lugar que, ele sabia, era a primeira parada dela, porque acordava doida por um cafezinho fresco. E qual não foi a sua surpresa quando olhou no relógio e ele já apontava quase uma hora depois do horário usual dela. Pensou tantas besteiras, e aquela fita crepe gritando “nem pensar em me ultrapassar!”, mas ele ultrapassou, “questão de vida ou de morte!”, gritou de volta para a fita crepe insolente. E, ao abrir a porta do quarto, encontrou a cama feita, mas com o lençol tão esticadinho, que apenas um pensamento veio a sua cabeça: “perdi?”

Naquela semana, sentiu saudade da palavra saindo da boca dele. Estranho como podemos sentir saudade de coisas que jamais imaginamos que fariam tanta falta. Ela o observava, discretamente, indo para lá e para cá, silente, cabisbaixo, o controle remoto da tevê na mão, mas raramente a ligava. As camisas brancas dele se tornaram cor-de-rosa, após uma lavagem mista. A sala ficou empapuçada de tantos saquinhos de biscoito sobre os móveis, a alimentação vigente. O olhar dela cambaleou e escorregou em lágrima. Saudade da palavra saindo da boca dele. Da boca dele dizendo a palavra que a faz sorrir tão fácil. Saudade do sorriso, da gargalhada, e das brigas sem motivo.

Invade esse amor as paredes da casa
Enquadra-se esse amor
Nas mãos amparadas
De cara com a dor
Em espirais e fermatas
Esse amor fecha a cara

As semanas passaram e as plantas não morreram porque a empregada dela achou maldade demais cometer tal homicídio, e deu de beber às pobrezinhas. A empregada dele quis aplicar uma nova fita crepe divisória, mas ele a impediu. Aquela, ao menos, foram eles que colocaram. Ela parou de vez de dormir na cama, deitando-se sempre aos pés dela, no chão. Café fresco? Dia sim, dia não, e olha lá! Ele largou de vez o controle remoto, divorciou-se da televisão. Agora, deu de se sentar no sofá e escutar seus discos modelo Long Play até a madrugada implorar para acabar.

Abandonaram-se em companhia um do outro, criando esse espaço partido ao meio, como partido ficaram seus corações. Com o tempo, aprenderam a conviver com a solidão acompanhada, acostumando-se a espiar um a dor do outro, como se assim pudessem manter uma ligação infalível...

Mas falível é a felicidade, hoje eles sabem disso muito bem. E a fita crepe, que ainda é a mesma, suja, descolando, mas persistente, é a única lembrança que eles mantêm do dia em que, sem realmente desejarem, impuseram limites aos próprios sentimentos.

Vê-se bem que esse amor
Nasceu em dia de chuva
Escondeu-se debaixo do cobertor
E chorou até a lua
Colheu bálsamos para curar mágoas
E depois saiu: varado de sede e em lágrimas



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9 comentários:

fernanda disse...

Cortante, Carla. Adoro seus contos! Tento acreditar na rima de amor com cor. Tema da minha crônica de amanhã =)
Beijos!!

Marisa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marisa Nascimento disse...

Carla,
Adorei a disposição do texto e toda a poesia embutida.
E uma fita crepe pode separar um amor, jamais remendá-lo, não é? :)
Beijos

Marilza disse...

Amei sua crônica. De prender a atenção a cada detalhe, linha. A vida é assim: remendada com fita crepe.

albir disse...

Carla,
por mais que se desgastem, as fitas da separação costumam durar eternidades.
Beleza de texto! Vida em prosa e verso.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Uma obra-prima, Carla. Brava! Bravíssima!

Carla Dias disse...

Ah, Fernanda... Fiquei envergonhada e feliz por você ter gostado. Principalmente depois de ler a sua crônica do hoje! Beijos!

Marisa... Que bom que você gostou. Gosto quando você gosta dos meus textos : ) Mas esse é conto, não crônica, então tem um gostinho especial.
Obrigada e beijos!

Marilza... As pessoas têm de estar atentas ao que a fita crepe emenda. De repente, basta puxar e mandar os limites, as demarcações passearem. Beijos!

Albir... Pois é, as fitas de separação às vezes separam até o que deveria continuar junto, apesar de. Beijos!

Eduardo... Fiquei envergonhada Parte 2.... Mas adorei o comentário : )
Obrigada e beijos!

Marisa Nascimento disse...

Carla!
Acho que esta é a segunda vez que faço a réplica à resposta do comentário. Lembro de ter feito a primeira a uma resposta do Eduardo. Esta é necessária para constatar que você sempre gosta, porque eu sempre gosto dos seus textos. Impossível ser diferente.:)
Beijos

Carla Dias disse...

Marisa... Então, só me resta agradecer a gentileza de você ler os meus textos.