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Mostrando postagens de Março, 2019

GRAÇAS AO CHOQUE >> Fred Fogaça

Contadas, enfim, sessenta páginas, devo compartilhar com mais segurança que esse é o projeto mais longo que empreendi.  Claro, a escrita, de fato, não fez seu primeiro aniversário. Mas a ideia está aí por década. Processar o pensamento tempestuoso e tirar dali o que valeu a pena, tão sem um procedimento lógico pra entender esses paradigmas quanto era como pós-adolescente, não podia ainda ser chamado de projeto. A ideia, e compreender isso me ajudou mais tarde, só se estruturou com leitura e prática.
Mas gostava era da ideia rondando, subjetiva, na minha cabeça, porque parecia boa o bastante quando não interferida. Se, por acaso, me preocupava em colocá-la em prática, existia sempre uma prioridade e, daí, um procrastinação. Durante todo esse tempo era difícil aceitar a própria dificuldade e, consequentemente, não a remediava. Isso se estendeu sem previsão, tal como era.
A verdade é que a coisa toda já surgiu como uma fuga. No alto da adolescência, como uma maneira de me aliviar de tud…

CINQUENTEI >> Sergio Geia

Devo estar ficando velho. A começar pelos hábitos. Ando adorando ouvir jazz. Até gravei um pen drive com velhos sucessos, Miles Davis, Chet Baker, Bill Evans. Pretendo aumentar a lista, quem sabe Keith Jarrett, Thelonious Monk. E digo que pouca coisa é melhor que ouvir um jazz, uísque no copo, fechar os olhos. Talvez ouvir jazz em casa seja coisa de velho. 
A bebida hoje encontra limite. E o limite é o dia seguinte. Pode se beber a vontade, cerveja, cachaça, uísque, rir à toa, contar histórias. Tudo isso é bom. Mas o dia seguinte sempre chega; e cobra. Com medo do dia seguinte, me cerceio na vontade de continuar a beber; uma agressão, sem dúvida. E também cuido de beber água, muita água, litros de. Isso deve ser coisa de velho que não aguenta mais longas noitadas; de velho medroso que tem medo do dia seguinte. 
Dias atrás cinquentei. Pois é. Ouvi muito isso dos amigos, Sergio, querido, você cinquentou; parabéns! Honestamente, não conhecia o verbo. O que consola é que meus amigos de M…

INEFÁVEL >> Paulo Meireles Barguil

 E, então, o inefável acontece.

Será breve, mas eterno!

Outras flores e borboletas virão...


[Foto de minha autoria. 01 de março de 2019]

PRESSA >> Whisner Fraga

Ela prefere a fila, sem atalhos. Ainda está naquela idade que provoca dúvidas, não baste a pele que incita alguns anos a menos.
Como ninguém demora nos trâmites financeiros, ela se dá ao luxo. Alguns minutos e pronto, é a vez dela.
Deposita a mochila debaixo do caixa rápido e desanda a digitar qualquer coisa que sequer compreende plenamente.
Não tarda o diálogo com a máquina.
E dos meandros eletrônicos nada de resposta. Desconfiam.
A atendente, como se fosse com ela, desanda a acudir.
Cheque não. Só na outra ali.
A velha chispa, os dedos pressurosos.
A mochila resta para trás, estacionada, ela mesma um cliente. Ninguém avança e isso não é bom para a marcha da fila.
A velha foca nas folhas que a máquina regurgita.
A antendente resgata a mochila e a entrega à velha. Todos suspiram, o mundo pode prosseguir com a selvageria.
A velha conta meticulosamente as folhas. Mesmo que ninguém queira cheques, mesmo que alguns sequer saibam o que é cheque, o desejo é que o aparato fique logo desimpe…

O DIA EM QUE ELE ASSISTIU AO TERROR >> Carla Dias >>

Estarreceu-se diante do feito. 
Parou ali, sentindo um misto de medo lancinante e curiosidade acirrada. Observou a tragédia com o olhar se distraindo com as poças de sangue. 
Não se lembra de ter visto tanta carne fora do corpo de uma pessoa. Tanto vermelho-morno pavimentando a rua. 
Não se lembra de se sentir tão vazio diante de uma tragédia. 
Aceita que nunca vivera ou mesmo testemunhara uma de tal calibre, de desfigurar tantos, aniquilar outros. Entretanto, não consegue se desviar da cena. Não sabe parar essa espera pelo o quê? 
Engole, na conta do repúdio, o que há pouco o agoniava: a comida ruim do restaurante, o pedinte enfeando a paisagem, a cor dos ônibus, o atraso do filho para o compromisso, a abotoadura perdida. 
A paisagem que observa é vigorosamente violenta. 
Nela tudo se escancara, perde a identidade, mistura-se com coisas. 
No chão, a criança atravessada pela placa que indica: rua sem saída.
E ele assim, sem direção para seguir ou certeza para guiá-lo. 

Imagem: Le dése…

VOCÊ TEM MEDO DE QUE? >> Clara Braga

Medos, quem não os tem?
Por muito tempo achei que medo estava ligado à idade. Pensava que eu tinha medos porque era pequena e não conhecia ou entendia a origem dos meus medos mas com o tempo isso tudo ia acabar.
Quando fui crescendo descobri algo que foi essencial para entender que todos têm medos: meus pais tinham medos. Sempre achei que eles não tinham o menor receio de nada, mas aí vi meu pai com muito medo de altura e descobri que aquele desconforto que eu sentia em lugares altos também era um medo, igual ao do meu pai.
Minha mãe dizia ter medos também, mas eu não conseguia identificar um em específico. Fiquei em um misto de curiosidade, querendo desvendar o mistério do medo, e alívio, se quando descobri um dos medos do meu pai acrescentei o medo dele na minha lista particular de medos, talvez fosse melhor não descobrir o da minha mãe, vai que eu acabo aumentando minha lista de novo.
Foi então que um certo dia, pouco depois do meu filho nascer, estava conversando com minha mãe e …

TORRE DE PINDORAMA - final >> ALBIR

(Continuação de 11/03/2019) Tudo indicava que, embora a eleição não tivesse acontecido ainda, o poder havia trocado de mãos.
Houve, sim, alguma resistência. Ou talvez nem se possa chamar de resistência aos protestos murmurados pelos corredores por uma minoria assustada. Vanesse saíra da Assembléia muito nervosa, tentando disfarçar as lágrimas e o tremor. Estava envergonhada de sua covardia, apoiou os golpistas por medo, mas agora se sentia muito mal.
Foi pelas escadas pra não encontrar ninguém, mas ao passar pelo segundo andar, viu Selma e Mirna – duas mulheres que, segundo o Reverendo Felício, viviam em pecado contra a natureza e ainda usavam “tóchico”, conforme ele escrevera no livro de ocorrências da portaria.
Também elas estavam assustadas com a repressão que se anunciava. E lembraram de Pai Luiz, do sétimo, que lhes tinha cochichado ainda durante a Assembléia: “Vou ter que ir embora daqui. Eles não vão me deixar em paz. Principalmente o Leiroz - eu sei mais do que devia.”
Para n…

AQUI O CÉU É MAIS AZUL >> Mariana Scherma

Chegar na casa dos meus pais é me blindar do resto do mundo. Pode estar rolando a 3ª Guerra Mundial, que, da porta pra dentro de casa, nenhum problema consegue atingir a gente. As rotinas que acontecem na casa dos meus pais são meio mágicas e acalmam a alma. O cheiros...
Todo dia de manhã, minha mãe passa pelo corredor dando bom dia, abre a porta, com a gata no pé miando. Dali a pouco, meu pai começa a rir porque a gata está rolando pedindo carinho. Todo dia é assim. E todo dia continua sendo mágico do mesmo jeito. Não demora muito vem o cheiro de café, o barulho do rádio e da tevê ao mesmo tempo, a gata miando e meus pais conversando. Todo dia de manhã parece que a casa dos meus pais conta com 50 pessoas. Mas são só três: eles e a gata. Quatro quando eu vou visitar. E o café da manhã conta com meu pai, minha mãe, a gata pedindo requeijão e eu rindo da gata. Todo dia às 7h. Acordar cedo é uma delícia aqui. Se você acorda tarde, perde esse ritual.
O céu aqui de cima da casa dos meus p…

JOÃO, O ABAJUR E A ASTROLOGIA >> Cristiana Moura

Foi como emergir de um mergulho que de tão intenso ainda me sinto ofegante. E me deparar com um amor que era quase de verdade, que nem café descafeinado em fins de tarde.
— Dona Cristiana, cadê o abajur? — Está dentro do guarda-roupas. — Por quê? — Porque eu não quero vê-lo.
Este abajur havia se mudado da casa do João para a minha. Ficou bonito ali, em meu quarto. Acontece que, naquele momento, eu carecia do espaço vazio sobre a mesa de cabeceira. Precisei ver a presença da ausência na invisibilidade do ar, o único a preencher a lacuna desabitada na lateral da cama.
Gabriel chega, me dá um abraço e ouve um pouco da ladainha comum aos fins de namoro.
— Mãe, já pode brincar? — Não. — Então avisa quando puder pra gente te mostrar um video.
De repente, toda a abrupta finitude de uma relação que aparentava promissora, cabia em um video de um youtuber que falava sobre astrologia e as piores combinações entre os signos.
"Áries e virgem — pode ser que dê bom, mas a chance de dar ruim...…

AMARRAÇÃO DE AMOR 1ª parte >> Zoraya Cesar

Isaldinha via seu casamento soçobrar lentamente no mar dos sargaços da rotina e indiferença domésticas. Talvez nem tão lentamente assim. 
Olhou-se no espelho. Feia, feiosa, não estava. Talvez um pouco fora de forma, mas, pelamordeDeus, depois de quase 30 anos de casamento, trabalho duro, filhos, problemas, grana sempre apertada, que mulher não ficaria um pouco gasta, um pouco baça, um pouco barriguda? Que mulher não teria flacidez, celulite e... a Marinalva, aquela filha de uma égua sem dentes, não tem nada disso. É mais velha que eu mas aparenta menos 10 anos. E rebola de cima pra baixo, desquitada, sem marido, sem ninguém, doidinha pra arranjar um otário que a sustente ou que, pelo menos, aplaque aquele seu fogo no útero, sempiternamente aceso e...
Entrou em pânico. A crise em seu casamento começava pelo sexo. Ou falta dele. O marido não se interessava mais por ela, mas gostava de assistir uns pornôs de vez em quando, e, sabe como é, né? Marinalva gostosona, ali, à mão...
Não que Oscar…

VIDA DE ÉTUDIANTE>> Analu Faria

Achei nos meus guardados um velho caderno de estudos de francês. Aparentemente, eu já estudava francês há dez anos, embora eu não me lembrasse disso. O que me chamou a atenção, contudo, não foi meu problema de memória, mas o fato de que, em um dos exercícios em que se perguntava “Êtes-vous fatigué(ée) ou en forme?” eu tenha respondido : Je suis TRÈS FATIGUÉE!”, assim mesmo, com letras maiúsculas e exclamação. Concluí que tô très fatiguée há muito tempo. Talvez fosse de estudar francês.
Não me leve a mal, eu gosto de estudar, gosto de aprender novas línguas. Minha implicância com le francês é com a incompatibilidade – em número mesmo - entre representação gráfica e fonema. Traduzindo: é incrível a quantidade de “letras que não são faladas”. Mon Dieu! “S” à la fin das palavras é um negócio que francês déteste. Ainda bem que existe contexto para a gente saber quando é plural e quando não é. Mesmo assim, ainda me sinto très confuse.
Olhando o resto do caderno, me dá uma pena de não ter a…

FUGA >> Carla Dias >>

Mora ali, naquele canto. Às vezes, sai para um passeio pelo por aí, mas sempre volta. Dizem que sabe nada sobre aventurar-se. Porém, sai por aí, vez em quando, mas sempre volta.
Sempre volta.
Mora ali, nas indecisões. Não raro, pega-se a vasculhar possibilidades: e se? E se? E se?
E se?
Então, cala os questionamentos e se encolhe no seu ali. Não há lugar que conheça melhor do que aquele lugar, onde é capaz de acalmar seus barulhos internos e ser livremente... 
Quem?
Dia desses, observou uma mãe abraçar seu recém-nascido, como se o protegesse do tudo de ruim. Percebeu que aquele era o ali daquela criança, que resmungou e, em seguida, sorriu. E também um moleque faceiro que, depois de muito tempo a brincar com seu cachorro, sentou-se no chão, exausto, e o bicho se ajeitou aos pés dele, exausto. Ali era o ali daquele ser. O ali no qual ele se sentia seguro para curar exaustão.
Mora ali, onde os olhares nem sempre alcançam ou as palavras ecoam. Há vazio de monte naquele ali. Há silêncio …

RESGATE DO SUBMUNDO >> Clara Braga

A sensação era de que teria acabado de acordar, mas não tinha como ser mais do que uma sensação já que nem se lembrava da última vez que tinha ido dormir.
Conhecia aquele ambiente com a palma da mão, mas o que havia depois daquela porta, constantemente fechada, tinha virado mera lembrança.
Decidiu sair, já que não lhe restavam muitas opções. Abriu a porta desconfiada e, assim que uma fresta se abriu, já ouviu barulhos. Ela esperava mesmo ouvir barulhos, mas não tinha ideia de como seriam. Titubeou, mas novamente lembrou de que não tinha muita opção.
Foi andando devagar, quase como se estivesse fazendo um reconhecimento do local. Morava ali havia 14 anos, mas será que aquelas paredes sempre estiveram pintadas de verde?
Enquanto olhava a parede esbarrou  em uma mesa e derrubou um porta-retratos. Quem ainda revela foto, pensou! Mas não pôde deixar de notar que fotos dela haviam poucas, como se de uns anos para cá não estivesse presente em muitos eventos familiares.
Ficou pensativa e foi…

branco >>> benteví

mea culpa
- eu
sempre distraído -
nunca tinha percebido antes
mas lá está ele
em meio aos meus bem-te-vis
o meu benteví

nasceu errado
sem saber que não poderia existir
em tempos de regras
hifens virgulas e pontos
- o politicamente correto -
lá está ele
cantando alto seu canto absurdo
sem perceber que é apenas um erro

está pousado na árvore grande
olho-o por 7 vezes
e por 7 vezes o culpo
mas também o perdoo
por 7 vezes
por pena por indiferença
- é o que digo a mim mesmo -
mas na verdade por admiração

- penso -
quisera ser como ele
viver sem ter consciência
de que não deveria ter nascido
e poder cantar
por não saber o canto impossível

vejo-o ainda pousado na grande árvore
sozinho agora
- e para sempre -
também não sabe
que jamais existirá uma benteví
desconhece sua sina
de nascer viver e morrer
dentro de sua própria solidão
- que ele também desconhece -
ouço mais uma vez seu canto
que repentinamente me parece
mais belo que todos os demais

O HOMEM COMUM >> Fred Fogaça

Madrugada pelas três só que do dia anterior, porque não dormira, sem pensar no turno que acabou, tanto menos no final da semana que começa, portando a indumentária pesada da lida, vestindo manchas de graxa pelo fim da gola dobrada, no antebraço longo, de veias saltitantes e pelos grossos que vão até a ponta da mão, intermediados apenas por um relógio largo e prateado, só no braço direito, que apoiado sobre a mesa de plastico manca, equilibra-a segura, e protege um copo americano de cerveja, que já meio quente, já meio sem gás, borbulha na mesma lentidão dos olhos semi-cerrados, da boca de grunhir sem dizer e de uma certa tranquilidade inconsciente de estar, por isso parado no tempo, senão pelos dedos que balbuciam em toques ritmados a música do rádio, salvo dois, que aproveita segurando um cigarro que mal se lembra de estar de aceso, não fosse pela fumaça fina que se espalha à vontade e já espanta os mosquitos, protegendo a garrafa, que apesar de vazia, não se anuncia à troca, talvez…

ESCRAVO DA PAIXÃO >> Sergio Geia

Sorriso de criança feliz que me enfeitiça quando comento coisas tipo você já imaginou o sujeito dormindo em casa e ser morto por uma vaca que cai sobre sua cabeça? E você ri mais ainda quando digo que é verdade, que está em todos os jornais. Mas depois você para um instante, de repente fica séria, talvez refletindo sobre a estúpida morte acidental, me olha fundo, parece querer dizer algo, eu fico imaginando coisas, mil coisas, no fundo, eu imploro que diga, diga algo, eu quero ouvir, mas você não diz. Lentamente, silente, sem desviar os olhos, você se aproxima, me beija, ou se deixa beijar; sorri, se arrepia toda, eu sinto, com um leve mordimento em sua orelha, depois me beija, e aí sim, agora, você me beija, como se fosse o último beijo de sua vida, um beijo de línguas fundidas, de união de desejos, um beijo de coroação, pode ser de coração, vai, por que não?, de vida, de paixão, eu sinto o sabor de nicotina no seu beijo, sinto, agora em mim, os pelos eriçados, uma vontade desespera…

DESGASTE E RESGATE >> Paulo Meireles Barguil

A convivência, bem sabemos, é fonte de desgaste. A corrosão decorre de várias situações: expectativas não alcançadas, atitudes sem polidez, promessas não cumpridas... O tempo é o cupim da existência! Mas, também, pode ser o tamanduá, pois diversas são as condutas preventivas e conservacionistas, embora elas não emitam qualquer certificado.
Aos desatentos e relapsos, bem como aos contemplados pelo acaso, muitas vezes, é possível tentar o resgate, cuja possibilidade de sucesso é imprevisível.

O maior desafio não é evitar a ruína, a qual sempre acontecerá, mas aceitar que ela é sempre uma dádiva...

A VIDA É LONGA >> Whisner Fraga

Ainda está noite e ele se levanta até o banheiro, onde começa o dia.
Já anda pela cozinha, enquanto espera a água ferver. Gosta de café forte. Enche a garrafa térmica e sai para a padaria.
A rua começa a coleta de gente.
Um amigo está de chinelo e pijama e ninguém se importa. Comentam sobre o calor, sobre o jogo do Palmeiras e sobre o quão bons eram aqueles tempos. Depois se despedem.
No caminho cruza com o bar abandonado do Seu Joaquim. As paredes enfeitadas com pichações e outros anúncios de amor e de desprezo, o lodo herdando os rebocos umedecidos, o capim sequestrando o balcão vazio, as portas de aço salpicadas de ferrugem.
Em casa, tira a margarina da geladeira e, com a faca, unta o miolo do pão. O café já não está mais fresco. Prefere assim. Quase amanhece.
Vai para o quintal molhar as plantas. Observa alguns caramujos prontos para o ataque. Apressa-se em buscar o sal. Borrifa o pó na cabaça dos bichos e espera para ver as minúsculas antenas se derreterem diante do assombro inv…

PROVOCAÇÕES DA BENQUERENÇA >> Carla Dias >>

Observá-lo tem sido seu fazer constante e desafiador de irritar rotina.
Nele habitam os gestos que furtam seu fôlego. Os olhares que bagunçam sua alma. Aprecia dele a voz, ela que se mostra em ritmo lesto, fazendo palavras se atropelarem com tal graciosidade, vez em quando.
Ele que é agridoce, que nele moram a erudição e o desvario. Nele se agitam sonhos e medos e desejos, às vezes, equivocados.
Sim, desejos sofrem de equivocação.
Quem o sabe, sabe pouco menos do que saberia se o observasse não apenas com os olhos. Não somente por meio do quem aparenta e do quem ele poderia ter sido e não foi.
Não será.
Não que seja tarefa fácil essa de se aprofundar no outro. Nesse aprofundamento é possível se envolver a enlevos e desenganos amplificados.
Ainda assim, tudo nele soa feito agrado. Predicados todos.
Há tempos imaginava como seria o sentimento de apreço por alguém de quem os fantasmas não amedrontassem. De quem não levasse à fuga, em direção contrária aos abismos particulares.
Por quem …

CARO SENHOR MUNDO >> Clara Braga

Eu tinha um sonho: ser professora de artes de escola pública e ensinar para os alunos que eles podem mudar o mundo através da arte! Sim, em resumo meu sonho era “apenas” mudar o mundo!
Passei no vestibular, me formei em artes plásticas licenciatura, fiz o concurso público, passei, fui chamada quatro anos depois, assumi a vaga e comecei a trabalhar! Agora que eu já estava lá só faltava o básico: mudar o mundo!
Sei que vocês devem estar pensando: será que durante todo esse trajeto ela não pensou que esse sonho era audacioso demais? Claro que pensei, mas não dizem que sonho que se sonha só é só um sonho e sonho que se sonha junto é realidade? Pois é, o que mais conheci foram professores que também queriam fazer a diferença!
Infelizmente não demorou muito para eu ver que não é exatamente assim que funciona, sonhos que são sonhados junto mas que contrariam o interesse de quem tem poder não se tornam realidade assim tão fácil.
Para convencer os jovens que o mundo vale a pena e pode ser mud…

TORRE DE PINDORAMA - I >> Albir José Inácio da Silva

A Assembleia
Ventos moralistas que varrem o planeta chegaram ao condomínio pacato no Bairro de Fátima e invadiram a sonolenta assembleia para eleição do síndico. Ou melhor, reeleição.
- Com licença, Seu Vandiro! Viemos aqui dizer que acabou esse negócio de recondução, de candidato único! Esse prédio está uma vergonha! Entra quem quer, vende-se de um tudo, funcionários preguiçosos, inquilinos suspeitos, livros que ninguém vê, notas que desaparecem, contratos superfaturados.
O síndico precisou puxar do bolso um comprimido e colocar debaixo da língua, tamanho o susto. Aqueles invasores eram seus parceiros na administração do prédio, com e sem cargo.
- Mas o que é isso, Jaimito?! Minhas contas foram aprovadas pela comissão. O reverendo, que está aí junto com você, faz parte da comissão. E, apesar da maledicência, nunca provaram nada contra mim! O que aconteceu com vocês?
- A gente tentou ajudar, mas não sabia dos absurdos, fraudes e desvios. Sem falar do ambiente moralmente irrespirável d…

NÃO DEIXEM O FONE DE OUVIDO SER EXTINTO >> Mariana Scherma

Imagem: PixaBay/PlushDesignStudio

Eu não dirijo. Dito isso é fato que viajo muito em ônibus, principalmente pra visitar meus pais. E eu estou perdendo a fé nas pessoas que fazem o mesmo trajeto que eu. Não em todas as pessoas (generalizar? Nope), mas em várias delas. Eu culpo a ausência de fone de ouvido. O uso de smartphones se popularizou fácil, tipo refrão chiclete que quando um canta, já era... Mas, então, por que raios o uso de fones de ouvido ainda encontra tanta resistência? Todo celular já vem com um fone na caixinha junto. Não precisa ser muito gênio pra entender que é pra usar junto. E, caso o fone se perca no meio do caminho, tudo bem, compra outro, custa baratinho. Usar fone é ser levado por sua playlist preferida para um mundo só seu. É uma coisa sua, você no seu mundinho, com a voz rouca do Eddie Vedder (eu!). É um momento lindo. Mas parece que não rola pra todo mundo...
Mas talvez as pessoas (sem generalizar, só me referindo as que não usam fone pra ouvir música em públ…

A PANELA DE PRESSÃO E EU >> Cristiana Moura

Houve um tempo em que eu gostava de cozinhar. Hoje em dia, depois do filho criado, aposentei-me da rotina doméstica tal como a conhecia. Todavia, mesmo no tempo em que eu cozinhava nunca usei panela de pressão. Vocês podem me perguntar: e o feijão? Eu deixava de molho antes de cozinhar. Por quê? Ora, simples a resposta — tenho medo da panela de pressão. Aquele chiado me faz esperar, quase sem respirar, por uma explosão que vai acontecer já já! Nossa, já ouvi histórias terríveis sobre panelas de pressão explodindo nas cozinhas.
Noutro dia, resolvi cozinhar. Não era um prato qualquer. Decidi por fazer uma carne de panela, dessas que se faz com legumes e na pressão. Segui passo a passo a receita. Então, chegou aquele momento em que a panela começa a apitar, zumbir, chiar... Nem sei, ao certo, o verbo daquele som. Saí da cozinha num repente e fechei a porta. Vez por outra, a entreabria cuidadosamente e espreitava a panela, o fogão, a vida acontecendo, sem mim, na minha cozinha. Meu coraç…

CARNAVAL>>Analu Faria

- Onde é que cê tava? _ Hein??? _ Você? Tava...? _ Lá na pipoca. _ E esse aí, quem é? _ Tava lá comigo! É Rodrigo ou Tiago, o nome. _ Hahahahaha _ Hahahahaha _ Bebe? - Oi? _ Se ele bebe...
_ Deve beber. _ Dá pra ele isso aqui, ó, é aquele negócio que mistura cerveja com... _ Tava lá, lá na pipoca, conheci...
_ Já entendi, eu disse pra provar isso aqui... _ Ah, tá! Pega aqui, Rod...Tiago! O TEU CABELO NÃO NEGA, MULATA/PORQUE ÉS MULATA NA COR/MAS COMO A COR NÃO PEGA, MULATA/MULATA, EU QUERO TEU AMOR._ _ Vamo pra lá? _ Pra onde? _ Pra pipoca. Agora tá tendo frevo. _ Lá onde cê conheceu o cara? _ Que cara? _ Aquele! Cadê? _ Não sei! Já foi! _ Hahahahahaha _ Hahahahahaha _ Me dá mais cerveja! _ Não é cerveja, é aquele negócio que mistura cerveja com... aquilo que é destilado de cerveja! _ Do lado do quê? _ Hahahahahaha _ Tá rindo do quê? Hahahahahaha _ Hahahahaha _ Hahahahaha ... PORQUE ÉS MULATA NA COR/ MAS COMO A COR NÃO PEGA, MULATA/MULATA EU QUERO TEU AMOR. _ Tá difícil andar, hein…

ANDAMENTO >> Carla Dias >>

Céu azul que disfarça poluição. Pelas lentes dos seus óculos, ele observa o andamento. Cruzam ruas. Curvam-se para mergulhar no mundo em que vivem, ali, nos seus celulares. Será que amam mais tecnológica ou humanamente?

Tem nada contra esse mundo paralelo de pixels e publicações. Na verdade, entretém-se a navegar por tais paragens. Acontece que não sabe se afastar por muito tempo do que deslumbra pelas cores sem filtro, até da pele, do céu, que nesse momento observa. O mundo dos cheiros, dos toques, dos sons imediatos, do acaso a trabalhar sem auxílio de códigos que limitam gosto, por meio de sedutoras promoções.
Ele sabe que esse é o mundo ao qual serve. Pode até não caber muito bem nele, mas o serve. Um trabalhador que, diariamente, busca meios de se sobrepor ao seu desejo de recostar-se no óbvio, espreguiçar-se no de sempre, acostumar-se ao costume.
Que o céu está azul e serve de fundo falso para fotografias registradas no entusiasmo de impressionar. Lembra-se de quando impressiono…