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CARO SENHOR MUNDO >> Clara Braga

Eu tinha um sonho: ser professora de artes de escola pública e ensinar para os alunos que eles podem mudar o mundo através da arte! Sim, em resumo meu sonho era “apenas” mudar o mundo!

Passei no vestibular, me formei em artes plásticas licenciatura, fiz o concurso público, passei, fui chamada quatro anos depois, assumi a vaga e comecei a trabalhar! Agora que eu já estava lá só faltava o básico: mudar o mundo!

Sei que vocês devem estar pensando: será que durante todo esse trajeto ela não pensou que esse sonho era audacioso demais? Claro que pensei, mas não dizem que sonho que se sonha só é só um sonho e sonho que se sonha junto é realidade? Pois é, o que mais conheci foram professores que também queriam fazer a diferença!

Infelizmente não demorou muito para eu ver que não é exatamente assim que funciona, sonhos que são sonhados junto mas que contrariam o interesse de quem tem poder não se tornam realidade assim tão fácil.

Para convencer os jovens que o mundo vale a pena e pode ser mudado é preciso primeiro que ele de fato valha a pena! Parece redundante, mas uma certa vez li um texto muito bonito da Eliane Brum e no texto ela dizia exatamente isso, estamos vivendo em um mundo que está sempre prestes a acabar, estamos sempre esperando uma tragédia, um apocalipse, um ataque zumbi, enfim, alguma tragédia. E elas têm vindo, Brumadinho está aí para provar. Como convencer alguém que vale a pena viver em/por um mundo que está se acabando? E assim criamos uma geração de jovens que não tem sonhos, não tem perspectivas e, por isso, pensam tanto em tirar a própria vida.

As histórias que ouvi e vivi em sala de aula foram tristes, convencer alguém que não vale a pena tirar a própria vida não é tarefa que ensinam no curso de licenciatura em artes. Ouvi alunos contarem histórias de abuso, vi aluno largar o estudo por estar sendo ameaçado de morte, vi alunos ameaçando professores, vi alunos largarem os estudos pois ganhavam mais dinheiro indo para o tráfico e outras tantas histórias que são difíceis até de lembrar. Quando dava buscava na arte um jeito de mostrar outras perspectivas para essas pessoas, mas nem sempre conseguia.

No meio disso tudo precisei trabalhar perto de casa, pois meu filho ainda bebê estava mamando e passando por uma fase complicada que parecia ser terror noturno. Trabalhei depois de passar noites em claro e me negaram o pedido de ir para perto de casa. Fui ficando mais cansada e não me sentia mais nem mãe, já que chegava em casa acabada e mal ficava com meu filho. Pedi redução de carga, negado novamente. Foi então que entendi que professor é mesmo aquela profissão que tem uma responsabilidade enorme, que vai formar os jovens, mas que tem que fazer isso quase que com mágica, pois ninguém vai te dar apoio, estrutura boa e muito menos reconhecimento.

Resultado: adoeci!

Precisei largar meu sonho, antes de mudar o mundo precisei cuidar do meu universo particular. Vi muitos colegas fazerem o mesmo, pois quem está ali sabe que tem horas que a estabilidade financeira perde espaço para a sanidade mental, e é simplesmente uma pena que seja assim.

Dói pensar nessas coisas e sei que nesse momento muitos vão me julgar e achar fraca por não ter conseguido seguir em frente já que tanta gente consegue. Sinceramente, não me importo. Fiz o que tinha que fazer para eu poder continuar a sonhar. As vezes sinto como se tivesse abandonado alguns alunos e até alguns colegas, mas precisei dar um passo para trás. Mas também não vim aqui me lamentar ou deixar uma mensagem triste para quem está me lendo, vim aqui dizer para você Senhor Mundo, que eu não desisto assim tão fácil dos meus sonhos, essa batalha me derrubou, mas já estou cheia de novas ideias para seguir tentando te tornar um lugar cada vez melhor para se viver, afinal, agora além dos meus alunos tenho também que mostrar para o meu filho que tudo isso aqui vale muito a pena!

Comentários

branco disse…
a cadeia se encaixando, não de um jeito fácil, mas de uma maneira bonita. sua crônica é bela e real, importante dizer, fazer-se valer a pena. muito bom !
Clara Braga disse…
Muito obrigada Branco!