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CARNAVAL>>Analu Faria

Mulata, pombos e paisagem
Di Cavalcanti
Fonte: noticias.universia.com.br
- Onde é que cê tava?
_ Hein???
_ Você? Tava...?
_ Lá na pipoca.
_ E esse aí, quem é?
_ Tava lá comigo! É Rodrigo ou Tiago, o nome.
_ Hahahahaha
_ Hahahahaha
_ Bebe?
- Oi?
_ Se ele bebe...
_ Deve beber.
_ Dá pra ele isso aqui, ó, é aquele negócio que mistura cerveja com...
_ Tava lá, lá na pipoca, conheci...
_ Já entendi, eu disse pra provar isso aqui...
_ Ah, tá! Pega aqui, Rod...Tiago!
O TEU CABELO NÃO NEGA, MULATA/PORQUE ÉS MULATA NA COR/MAS COMO A COR NÃO PEGA, MULATA/MULATA, EU QUERO TEU AMOR._
_ Vamo pra lá?
_ Pra onde?
_ Pra pipoca. Agora tá tendo frevo.
_ Lá onde cê conheceu o cara?
_ Que cara?
_ Aquele! Cadê?
_ Não sei! Já foi!
_ Hahahahahaha
_ Hahahahahaha
_ Me dá mais cerveja!
_ Não é cerveja, é aquele negócio que mistura cerveja com... aquilo que é destilado de cerveja!
_ Do lado do quê?
_ Hahahahahaha
_ Tá rindo do quê? Hahahahahaha
_ Hahahahaha
_ Hahahahaha
... PORQUE ÉS MULATA NA COR/ MAS COMO A COR NÃO PEGA, MULATA/MULATA EU QUERO TEU AMOR.
_ Tá difícil andar, hein?
_ Tá muito cheio!
_ Falando em cheio, enche meu copo aqui!
_ Calma, vai derrubar a cerve... a bebida... este negócio aqui, sei lá o que é... Hahahaha
_ Vai, continua, empurra e passa!
... MAS COMO A COR NÃO PEGA, MULATA/MULATA, EU QUERO TEU AMOR.
_ Cê tá ouvindo o frevo, já?
_ Não.
_ É frevo ou funk?
_ Me falaram que ia ser frevo.
_ Eu acho que era funk.
_ Ah, foda-se!
... MAS COMO A COR NÃO PEGA, MULATA/ MULATA EU QUERO TEU AMOR.
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_ Minha sandália tá acabada!
_ Cê devia ter vindo de tênis! Tá com o pé todo pisado.
_ E daí, eu tô bêbada, não tô sentindo nada!
_ Foda vai ser chegar em casa com esse pé! Ainda tem uma meia hora de caminhada...
_ Se você não ficasse indo de um lado pra outro lá no bloquinho...
_  Eu só queria voltar pra a pipoca aquela hora, pô!
_ Foi por conta do cara?
_ Que cara?
_ O que cê encontrou lá! Achei que cê tava querendo encontrar ele de novo.
_ Na pipoca? Como? Hahahahaha
_ Mais fácil encontrar outro! Hahahaha
...
_ Ei, sabe o que é? Aquela marchinha da mulata, me dá raiva. Até saio de perto, não aguento ouvir. O português do bar da Tioca sempre cantava pra nossa mãe na rua, lembra?
_ Lembro. Ele era esquisito. Mas te deu uma boneca naquele Natal... cê tinha o quê? Uns onze anos? Depois disso a vó tocou ele do bairro com aquele revólver que ninguém sabe onde ela arranjou. A vó era braba. A mãe correu com a gente pro quartinho do fundo e a gente dormiu juntas, as quatro, na cama da vó, até ter notícia de que o português tinha mudado de cidade.
_ Eu sei que é meio bizarro, mas... às vezes eu acho que minha voz parece com a dele.
_ Ah, para! Não existe isso de voz de mulher parecer com a de homem. ... Mas cê bem que tá rechonchuda que nem o português.
_ Vai à merda! Sou rechonchuda, mas pelo menos não sou burra de vir de sandália no bloquinho.
_ Não fui eu que paguei pra beber um negócio que eu nem sei o que é.
_ É destilado de cerveja.
_ Não existe isso, sua louca! Hahahahaha
_ Hahahahaha

Comentários

Carla Dias disse…
O poder das entrelinhas, Analu. Seu texto me deixou meio inquieta, pensando em como passamos por situações complicadas e a vida segue, como se nada tivesse acontecido. Só que aconteceu.
sergio geia disse…
Analu: sinceramente? Sensacional!
Zoraya Cesar disse…
Divertidíssima, Analu! Pior que agora sempre q ouvir essa marchinha vou lembrar de sua crônica. Vou rir alto e pagar mico. bom demais!
albir silva disse…
Muito bom, Analu!
Narrativa sem narrador é difícil de fazer. E a sua foi perfeita.