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O HOMEM COMUM >> Fred Fogaça


Madrugada pelas três só que do dia anterior, porque não dormira, sem pensar no turno que acabou, tanto menos no final da semana que começa, portando a indumentária pesada da lida, vestindo manchas de graxa pelo fim da gola dobrada, no antebraço longo, de veias saltitantes e pelos grossos que vão até a ponta da mão, intermediados apenas por um relógio largo e prateado, só no braço direito, que apoiado sobre a mesa de plastico manca, equilibra-a segura, e protege um copo americano de cerveja, que já meio quente, já meio sem gás, borbulha na mesma lentidão dos olhos semi-cerrados, da boca de grunhir sem dizer e de uma certa tranquilidade inconsciente de estar, por isso parado no tempo, senão pelos dedos que balbuciam em toques ritmados a música do rádio, salvo dois, que aproveita segurando um cigarro que mal se lembra de estar de aceso, não fosse pela fumaça fina que se espalha à vontade e já espanta os mosquitos, protegendo a garrafa, que apesar de vazia, não se anuncia à troca, talvez porque o garçom já tenha se cansado, talvez porque a multidão de presentes na dobra dos dias seja de poucos bêbados muito falantes, mas não se aborrece, sem cogitar pedir outra e nem olhar pros lados, não pensa em nada. 

Mas de repente olha o relógio: toma num gole o resto da cerveja e se levanta, e vai embora.

Foto: próprio autor. Ribeirão Preto, 2016.

Comentários

branco disse…
grande crônica. faz pensar...e muito !
Zoraya Cesar disse…
que beleza de narrativa, Fred! E que foto! Vc tem uma pegada cinematográfica. Dá pra gente sentir o personagem, o ambiente. Reli mais de 2 vezes. Texto pequeno mas enorme.
Brasilino Neto disse…
Fred que singeleza este trabalho. Curto, leve e que me impôs um distante voo. Legal.
Unknown disse…
Parabéns! Escrita densa e a foto muito boa. Gostei!