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RESGATE DO SUBMUNDO >> Clara Braga

A sensação era de que teria acabado de acordar, mas não tinha como ser mais do que uma sensação já que nem se lembrava da última vez que tinha ido dormir.

Conhecia aquele ambiente com a palma da mão, mas o que havia depois daquela porta, constantemente fechada, tinha virado mera lembrança.

Decidiu sair, já que não lhe restavam muitas opções. Abriu a porta desconfiada e, assim que uma fresta se abriu, já ouviu barulhos. Ela esperava mesmo ouvir barulhos, mas não tinha ideia de como seriam. Titubeou, mas novamente lembrou de que não tinha muita opção.

Foi andando devagar, quase como se estivesse fazendo um reconhecimento do local. Morava ali havia 14 anos, mas será que aquelas paredes sempre estiveram pintadas de verde?

Enquanto olhava a parede esbarrou  em uma mesa e derrubou um porta-retratos. Quem ainda revela foto, pensou! Mas não pôde deixar de notar que fotos dela haviam poucas, como se de uns anos para cá não estivesse presente em muitos eventos familiares.

Ficou pensativa e foi descendo as escadas. As gargalhadas ficavam cada vez mais altas.

Quando chegou no andar de baixo as gargalhadas foram substituídas por um silêncio ensurdecedor. Seus pais a olhavam com espanto e pareciam não acreditar no que viam. Ela também tinha um estranhamento no olhar, não lembrava que os cabelos da mãe eram grisalhos muito menos tinha reparado na barba de seu pai.

O silêncio durou minutos que pareceram uma eternidade. Sua mãe foi quem tomou a iniciativa e perguntou:
- Tudo bem com você? Precisa de alguma coisa? Quer jantar?
- Não sei - ela disse - acho que não tenho fome...

O silêncio voltou a reinar, então a garota disse:
- Vou para o meu quarto dormir, boa noite.

Todos se levantaram e se retiraram para dormir, apesar de terem todos ficado acordados pensando se deveriam ter dito mais alguma coisa. A comida ficou ali, junto com a garrafa de vinho que abriram, como se tivessem feito jantar para ninguém.

Na manhã seguinte demoraram a sair da cama com receio do que poderia acontecer. Quando foram até a cozinha e não encontraram a garota sentiram um misto de tristeza e alívio. Jogaram a comida do dia anterior fora e começaram a fazer café. Logo ouviram o barulho da porta do quarto da garota se abrir. Ficaram apreensivos, mas dessa vez já a encontraram dentro de sua normalidade, olhando fixo para o celular e com fones no ouvido. Ela chegou a olhar para os pais, mas logo abriu a geladeira, pegou um iogurte e saiu.

Quando buscaram entender o que havia acontecido descobriram que as principais redes sociais haviam saído do ar em todo o mundo, e foi então que perceberam que tinham acabado de perder uma chance única de resgatar a filha do submundo da internet!

Comentários

Brasilino Neto disse…
Clara, lindo lindo. Nota "11".
Graça Pelogia disse…
Maravilha de crônica!
Analu Faria disse…
Que legal, Clara!