Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de Março, 2008

GRAFITEIROS [Ana Gonzalez]

É assim em muitas cidades. Andando por elas, nos deparamos com paredes sujas, cheias de rabiscos, linguagem obscura, símbolos enigmáticos, sem significação para nós, leigos no assunto. Muitas vezes, porém, tais rabiscos chegam a ser formas em representação de interessantes cenas e personagens.

Frente a essa manifestação cultural, podemos sentir indignação, revolta, tristeza, e até alegria, no caso dos grafites coloridos terem o condão de nos motivar. Emoções como essas sentidas por nós também podem estar em sua origem.

São, na verdade, a vida se marcando anonimamente nos espaços urbanos, atrás desses traços caóticos. Caóticos apenas para nós, bem entendido. Os responsáveis, participantes de turmas - gangs? -, com certeza, sabem o que estão fazendo, insistentemente sujando ou colorindo praças públicas, lugares insuspeitados de difícil acesso, o topo de prédios altos, gastando tintas, sprays, tempo, muitas vezes se colocando à mercê da autoridade pública.

E essa vida anônima, desrespeit…

Mais uma xícara de café antes que eu me vá >> Leonardo Marona

O homem entra com sua mulher nos braços. Eles sobem pela escada. O elevador não está ali na hora em que deveria estar. E um homem não tem paciência quando ama. Um homem não pode amar e ser esperto ao mesmo tempo também.

Ele despeja delicadamente o corpo de sua mulher no chão, em frente à porta. Ajeita a cabeça da mulher com carinho, gira a chave, torna a erguer o corpo dela sobre os ombros e os dois entram.

Deixa a mulher no sofá e vai até a cozinha.

- Ei - ele diz - você quer comer alguma coisa? Uma fruta pelo menos. Você deveria comer alguma coisa, babe, sabe... Foi uma longa noite... Nada? Bom, eu vou pegar uma.

Ele volta com os dentes fincados numa pêra. A mulher tem os olhos muito abertos, estalados, mas não estão com raiva. Ela não diz nada, hora alguma. Ela está no sofá com a cabeça caída para o lado. O homem vai até o som. You’re gonna make me lonesome when you go: Dylan.

Ele apóia exausto o corpo sobre o parapeito da janela e fica um tempo ali. Olhando para baixo com os cotovelos …

PALCOS DE SAMPA >> Carla Dias >>

Quando vim para a capital de São Paulo, em 1995, sabia que seria uma mudança para a intensidade. Santo André, minha cidade natal e onde morei até os 25 anos de idade, era mais pacata culturalmente, na época, mas somente no que se referia a espaços culturais e bares, pois nela e nos seus arredores, no ABC Paulista, surgiam compositores, instrumentistas e intérpretes, e muitos deles eram inquestionavelmente talentosos. Faltavam palcos, mas não quem fosse capaz de garantir uma boa apresentação sobre eles.


Élio Camalle interpreta a canção “ Caso”. Compositor, violonista e cantor que muito admiro – www.camalle.com.

Eu não ouço rádio, então ando meio por fora do que anda acontecendo por aí, comercialmente falando, mas conheço as tendências e os artistas com seus sucessos relâmpagos, não só do Brasil, mas de outros países. Continuo a buscar um diferencial na música que me proponho a apreciar. Não consigo usufruir de uma música que não mexa comigo pela sua letra ou sua parte instrumental; se de…

EXCESSO E FALTA >> Eduardo Loureiro Jr.

Sei que deveria estar escrevendo sobre Páscoa e ressurreição, mas às vezes — muitas vezes — a vida ressurge quando e de onde menos se espera.

Esta é uma crônica sobre amor e trabalho — assuntos que interessam a qualquer leitor sério. Como deve haver algum leitor não muito sério do outro lado da tela, devo deixar claro que é também uma crônica sobre sexo e dinheiro.

Aviso, entretanto, aos apressadinhos, aos que sofrem de leiturização precoce, que essa crônica tem suas preliminares, que há romance, sedução, que eu não vou direto ao ponto G do leitor. Há que se ralar para obter o justo salário ou arriscar para colher o rendimento pela leitura desta crônica; há que se labutar.

*

Todos nós temos nossos redutos de fantasia, áreas da vida que experimentamos apenas na imaginação. Vivê-las de verdade, ao vivo, em carne e cores, parece impossível ou pelo menos pouco provável. Então criamos nosso próprio filminho interior em que tudo dá certo, em que milagres acontecem. Em algumas de minhas fantasia…

DEUS ME VÊ [Maria Rita Lemos]

Quando a semana começou, e me lembrei que era a Semana Santa, bateu saudade da infância. Bateu saudade do Colégio São José, do sagu da Irmã Benigna, saudade até da frustração porque a Irmã Gertrudes não me deixava jogar basquete, porque eu tinha que ser pianista, e esse esporte prejudicava as mãos. Creio que foi por aí que minha carreira esportiva foi abortada antes de nascer... como, infelizmente, a de pianista também, embora tenha durado por muitos anos, até a gravidez da primeira filha minha.Retifico: a de pianista está em “pause”, a de música jamais.

Focando novamente na Semana Santa, vamos lá. A cada vez que passo pelo Colégio São José, pressinto as janelas (ainda estão do mesmo jeito?) onde nossa juventude se pendurava, nos intervalos das aulas, para ver os meninos que, por sua vez, iam à Praça Luciano Esteves só para nos ver. Tínhamos, sempre, uma “olheira” na porta, porque se uma das Irmãs nos visse ali era um horror. E o fruto proibido era tão doce que cada menino que passass…

"Mulher-Lobinho" >> Leonardo Marona

1. Morte e Danton

No final da peça Ele não sabia quem era Danton. Saiu um tanto confuso, pensando: “uma hora Danton é covarde... Outra hora é um bêbado... Depois vira uma puta! Outras três putas: Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Então, de repente, Danton é um sujeito que diz: ‘hoje estive sentado na pedra do Arpoador fumando um cigarro. Fiquei ali olhando o mar... Pensei que eu não era nem uma gota daquele mar... E quantas gotas tem o mar! E eu me acho tão importante, tão importante... vocês não imaginam o quanto... Nossa que papo ridículo’”.

E esse foi o fim da morte de Danton. O começo do movimento da classe artística pelas veias venenosas do teatro do Sesc, Copacabana. Mulheres com muita maquiagem e pouca cor, mais a intensidade dos confusos e nenhum parafuso no lugar certo, o que, parece, sempre serviu às artes e aos psiquiatras para passarem as férias em Positano, bebendo bebidas fumacentas e ouvindo calipso. Mulheres para você se casar com elas e morrer dignamente, diariamente:…

POEMAS NEM TÃO TARDIOS >> Carla Dias >>

Há algumas semanas, eu conversava com uma aluna de bateria aqui da escola, a Julia. Falávamos sobre assuntos gerais, principalmente a música. Não sei como nossa conversa foi parar na literatura, mas chegou lá.

Comentei com ela que escrevo contos, crônicas, poemas e romances; que num mundo gracioso e receptivo sou escritora, mas que na realidade apenas tenho urgência em escrever.

Foi então que a Julia me falou do seu avô poeta... Eu tive um avô poeta, o paterno. Na verdade, Sr. Aureliano, carinhosamente tratado como Seu Lili - e Vô Lili para nós, os netos - escrevia belíssimas cartas e as enviava lá de Poços de Caldas, Minas Gerais, para Santo André, São Paulo. Eu e minhas irmãs esperávamos por essas cartas numa ansiedade que só. Na época, meu irmão ainda não estava conosco.

Mas voltando ao avô da Julia... Eu que sempre estou disposta a ler o que me cai na mão, perguntei se não poderia ler alguns poemas dele. E ela me explicou que o avô adora escrever, que mesmo informalmente distribuía …

SALA DE AULA >> Albir José Inácio da Silva

Ao contrário do que tenho ouvido dos alunos de hoje, a sala de aula sempre representou para mim um encantamento: a presença de pessoas tão diferentes, atentas umas, distraídas outras, algumas sorridentes, outras sérias, as que falam alto, as que nem falam; as relações que se desenvolvem timidamente a princípio, por olhares, por sorrisos, por gestos de cortesia; todos concentrados no que acontece a frente, nas palavras e gestos do professor, mas também prestando atenção nos outros. Muitos vão se transformar em amigos, outros nem tanto, e outros ainda serão indiferentes. Mas todos têm potencial. A sala de aula é uma possibilidade de convivência que de outra forma não se teria. Há uma necessidade de se estar ali, mas há também a inafastável emoção do encontro.

Apesar do desenvolvimento tecnológico nas comunicações, as possibilidades de encontro e de convivência diminuem para o humano moderno. Conversa-se com o colega do lado pelo computador. As pessoas trabalham juntas, mas passam semanas…

OS TRÊS DO 16 >> Eduardo Loureiro Jr.

Eu estava no que hoje se chama puberdade, mas que na época era só meninice mesmo. Entre os super-heróis, eu não queria a força do Super-Homem, contentava-me em possuir a discrição do Homem Invisível... e naquele quarto em que ela estava, eu entrava descalço, com todo o cuidado para não produzir nenhum som que me denunciasse. Ela estava na rede, olhos fechados. Eu deitava na cama e ficava observando. O tempo parava, preso no silêncio e no encantamento. Ela abria os olhos, mas não me via; colocava os óculos — inúteis — e continuava sem me ver. Ainda sem se levantar da rede, e mesmo sem se virar, ela estendia a mão direita para a mala que ficava ao lado — coisas de hóspede que estava só de passagem. Da mala ela retirava um pente, marrom, daqueles que também poderia servir como prendedor de cabelo — não havia o que retocar em seus cabelos lindos, lisos, inelinháveis. Eu aproveitava minha invisibilidade para assistir àquele ritual de delicadeza e graça. Guardado o pente, ela passava lentam…

A SURPRESA DA AMIZADE [Ana Coutinho]

Talvez seja a lei da atração, talvez seja merecimento, talvez seja o acaso ou a sorte mesmo, fato é que a vida sempre foi absolutamente generosa comigo. Todos os dias, por anos a fio, recebo presentes grandiosos da vida. Alegrias furtivas, pessoas excelentes, acontecimentos melhores ainda, trabalho, saúde, família, um amor de verdade, tá tudo aqui, dentro da minha doce rotina... Tempo bom, tempo melhor, outro médio, mas a vida me sorri na maior parte dos dias e eu tento sorrir de volta a ela e aos meus, quase todo o tempo também.

No entanto, de todos esses presentes que recebo, talvez o mais precioso e surpreendente deles, sejam os meus amigos.

A dedicação e a lealdade de uma amizade, seja ela nova ou antiga, me surpreende, incesantemente, todos os dias.

O meu marido me dá amor e carinho incondicinalmente. Dele recebo um tanto de minha força e de minha alegria, mas a ele retribuo com aquilo que tenho de melhor (e, vez ou outra, de pior) mas, embora essa seja uma relação de amor e dedica…

OS MITOS NOS DIZEM ONDE ESTAMOS [Heloisa Reis]

"Chapeuzinho Vermelho" é sempre a primeira estória que me vem à lembrança quando penso em estórias infantis. Com certeza foi a que mais significados me sugeriu quando a ouvi pela primeira vez, algumas décadas atrás.

Mas sua idade vai ainda além, no passado...


Os irmãos Grimm, em 1812, escreveram "Rotkäpchen" numa versão própria de um conto oral nascido na região dos Pirineus e do Tirol, e alguns de seus elementos básicos foram encontrados ainda em contos do Japão, Coréia e China.

Em seu trabalho de compilação dos contos infantis ouviram o relato oral da huguenote francesa Jeanette Hassenpflug sobre o conto "Le Chaperon Rouge" - de Charles Perrault, escrito em 1697. Outra de sua fonte foi a peça com o mesmo tema "Leben und Tod des kleinen Rotkäppchens: eine Tragödie", escrita em 1800 pelo escritor romântico alemão Ludwig Tieck, que foi quem introduziu em sua versão o personagem caçador que salva Chapeuzinho e a vovó.

É um conto rico de emoções, su…

GIRÂNDOLA >> Carla Dias >>

Percebo na idade das perdas os motivos claros e constantes das minhas buscas.

Não desisti das estradas a perder de vista, dos horizontes açoitados por pores-do-sol. Continuo a economizar tempo para gastar essas fichas em outros lugares; naquelas lonjuras nas quais uns e outros jamais ousariam estar. Às vezes, essas lonjuras estão no mapa e me levam a outros estados, outros países; levam-me aos impessoais quartos de hotéis, onde remôo desejo de voltar para casa, mas sem saber ao certo se meu destino de volta é o meu lugar... O meu lar. Outras vezes, elas fazem parte da geografia da minha imaginação.

É realmente curioso como o tempo nos aborda. Diferente do que pregam os entendidos, os filósofos, cientistas, pais, políticos; é preciso viver o tempo para compreender que jamais saberemos como ele passará para cada um de nós. No fim das contas, estamos sempre à mercê dos mistérios.

Notei, ainda há pouco, que não engravidei de filhos; as crianças não correm pela sala, não me endoidecem com tom…

MIL E UM DIAS DA MULHER >> Eduardo Loureiro Jr.

Quando eu nasci, um anjo mulher, desses de longos cabelos, disse: "Vai, Eduardo, amar e ser amado". E deu-me minha mãe Mazé, que havia sido dada à minha Vó Izolda, e esta à minha bisavó Encarnadinha.

Quando eu era bebezinho, minha mãe estudava com suas colegas de faculdade em nossa casa. Com minha mãe, além das amigas, vieram as tias, as primas, e depois mais primas e as irmãs. No mundo em que eu cresci, as mulheres eram as estrelas e nós, os homens, éramos os satélites: coadjuvantes.

Depois vieram as professoras, as médicas, as terapeutas, as amigas: sempre em maior quantidade que os homens. (Até minhas grandes amizades masculinas têm uma sensibilidade e afabilidade que não seria demasiado qualificar de "femininas".) Para onde eu fosse, sempre havia uma grande mulher: uma anfitriã amorosa, uma conselheira sábia.

Ainda hoje, se mudo de cidade, o que me aparece? Mulheres. Numa nova sala de aula, o que vejo? Mulheres. Um grupo de pesquisa? Mulheres. Um estúdio de TV? Mu…

MULHERES [Sandra Paes]

Sou uma delas.Vivo cercada delas. Mães, filhas, amigas, vizinhas, amantes, amadas, desamadas, cansadas, perdidas, trôpegas e, por vezes, sem saber quem são…

Tocam-me o coração, me fazem rir muitas vezes, trazem-me vincos novos na face e dores pelas curvas de meu próprio corpo. Sofro com as dores nos seios de todas que temem perdê-los para o câncer, para o tempo, para o espelho.

Não consigo deixá-las na mão, entregues à própria sorte ou ao próprio azar. Até porque vislumbro aquelas que se arrastam pelos seus homens - ou pensam que assim os têm.

Espero por longos tempos ao telefone por suas falas tantas vezes bêbadas e sem rumo, tanto quanto suas vidas, assoberbadas de tarefas, preocupações e tantos desejos jamais vistos e saciados.

Contemplo todos seus volteios em torno de suas insônias e buscas pelo amado que nem sempre acorda a tempo de lhes cobrir o anseio.

E nas minhas próprias noites insones, sinto seus uivos carentes e doadores ao mesmo tempo, em todos os confins desse planeta, que ta…

DIA INTERNACIONAL DA MULHER [Monica Bonfim]

Oi, prazer, meu nome é Mônica, brasileira, advogada, solteira aos 47 anos e feliz, feliz. Sou um membro útil da sociedade, respeitada no meu meio de trabalho, uma boa profissional, amiga dos meus amigos e até de quem tenta me prejudicar. Além disso, para melhorar a coisa, sou bonita e razoavelmente inteligente e culta.

Porque abri uma crônica sobre o Dia Internacional da Mulher com tal declaração? Porque é importante, muito importante.

Há pouco tempo atrás deparei-me com um sujeito que não consegue entender meu lugar no mundo: mulher que não casa e não tem marido, para ele é uma frustrada sem valor. Mulher trabalha é para ajudar o marido, desde que não atrapalhe no andamento da casa e do cuidado com os filhos. Mulher solteira que trabalha é porque é solteira e está “passando o tempo e se sustentando” enquanto o marido não chega.

Caiu de páraquedas na minha vida fazendo promessas de casamento, de vida a dois. Considerou ele que prometendo tais coisas — que diga-se a bem da verdade, tinha …

O vinco afetivo de Virgínia Morse >> Leonardo Marona

Duas doses para além do amor perplexo, que teve as pernas amputadas, ela espera pelo reflexo da própria sorte diluída, no fundo falso da cartola sem retorno, onde as almas sensíveis desaparecem e retomam o centro catatônico de uma questão aparentemente crassa, mas complexa: loira escura, nuca de avelã, gosto de farmácia, unhas dos pés carregadas de pecados incompletos, exame pré-natal garantido por pontas de agulhas filicidas, fios grossos de cabelo espalhados pelo calcanhar descascado de veias. A fatiota do major confinada de ácaros atrás do baú – tomado de cupins por dentro como certos corações infantilizados pela desconfiança e pelas rugas, que se tornam cinzentos e inchados de pus, tal qual o crânio do major reconstituído aos pés de tias com unhas de águia e salmos fora de moda em forma de sobrancelhas, crânio guardado para os vermes dentro da madeira. Major mesmo cuja fatiota provoca nela bolhas de gás no cérebro – impossibilitado de fantasias sonoras. Fantasmas proletários sujos…

DESPEDIDA >> Carla Dias >>

Hoje compreendo, aquém da teoria, o significado de pessoas que somente passam por nós... Nunca ficam. Ainda que promovendo uma verdadeira algazarra na alma da gente; mesmo desferindo seriedade aos sentimentos que despertam na gente, estão de passagem.Experimentei desses rituais de passagem várias vezes, mas sempre foram em doses sutis, com pessoas que, apesar de deixarem em mim após sua partida o vazio, provedor da saudade, da lembrança, da nostalgia, não se embrenharam em minha biografia de forma a despertarem a falta dolente. Houve sempre o toque lúdico, de menina que ganha presente e, ao perdê-lo, fica chorosa por um tempo. Que vez ou outra relembra esse momento, mas a melancolia passa.

Essa despedida não... Essa é dolorida mesmo.

Não imaginamos, no começo das nossas vidas, que teremos de dizer adeus às pessoas. Não esperamos isso ao nos relacionarmos com elas. Confesso que sou das que levam muito tempo quando se trata de sentimento. Demoro para compreender, mas me dedico a isso... A…