sábado, 22 de março de 2008

DEUS ME VÊ [Maria Rita Lemos]


Quando a semana começou, e me lembrei que era a Semana Santa, bateu saudade da infância. Bateu saudade do Colégio São José, do sagu da Irmã Benigna, saudade até da frustração porque a Irmã Gertrudes não me deixava jogar basquete, porque eu tinha que ser pianista, e esse esporte prejudicava as mãos. Creio que foi por aí que minha carreira esportiva foi abortada antes de nascer... como, infelizmente, a de pianista também, embora tenha durado por muitos anos, até a gravidez da primeira filha minha.Retifico: a de pianista está em “pause”, a de música jamais.

Focando novamente na Semana Santa, vamos lá. A cada vez que passo pelo Colégio São José, pressinto as janelas (ainda estão do mesmo jeito?) onde nossa juventude se pendurava, nos intervalos das aulas, para ver os meninos que, por sua vez, iam à Praça Luciano Esteves só para nos ver. Tínhamos, sempre, uma “olheira” na porta, porque se uma das Irmãs nos visse ali era um horror. E o fruto proibido era tão doce que cada menino que passasse por ali, por mais desengonçado que fosse, parecia, para nós, um Elvis Presley ou um Neil Sedaka, que na época não tinha Brad Pitt nem Tom Hanks. Não valia nem ser “feio mas sensual”, tinha que ser lindo mesmo. O palmo de rosto, bem diferente do que deseja agora a adolescência de minha neta, tinha que ser perfeito. E quem quiser saber quem eram esses caras, é porque nasceu bem depois de mim, então, que procure nas internets da vida. Mas, voltemos à Semana Santa, porque quando a gente senta aqui pra escrever tem que se policiar para não “viajar” demais - credo, vem tudo na cabeça, soltam-se os fantasmas todos...

Eu era menina e tinha muito medo do que estava escrito naquele muro, encostada ao qual eu ficava, todas as tardes, esperando papai me buscar. Não havia, nos anos aos que me refiro, essa profusão de vans escolares, nem mesmo ônibus circulares se viam, acho que estavam apenas começando. A cidade era pequena, e para ir do Colégio à Vila Paraíso, onde ficava minha casa, quinze minutos eram suficientes. Mas, para meu pai, significavam a estrada perigosa da liberdade, sabe-se Deus o que alguém com a minha idade e cabeça podia fazer ou pensar nesse trajeto! Por isso, papai me buscava todas as tardes, era uma pausa no Banco da qual ele não abria mão. E, enquanto ele não chegava, eu ficava olhando para a estátua gigante de São José com a mão no ombro de Jesus Menino, em frente ao muro onde, em letras garrafais, lia-se: “Deus Me Vê”.

Eu não gostava daquela frase, sentia-a como ameaçadora. Talvez, pelos arroubos juvenis, muitos dos quais eram considerados pecaminosos, eu pensasse nessa frase visualizando um Deus tremendo, vingativo e impiedoso, disposto a me castigar, e a todos quantos transgredissem seus mandamentos... Felizmente, hoje já não penso assim, embora continue não gostando da frase em questão e do que eu sentia, quando a lia.

“Deus me vê”, dizia o muro visto diariamente. Hoje, mais sábia e madura, consigo ver o olhar de Deus diferentemente, e é isso que me encanta. Como tanta coisa se modifica na maturidade da vida, também o olhar de Deus já não me martiriza com medo de punições. Muito pelo contrário.

Dia desses eu contemplava - porque ver é muito pouco -, meu neto sendo amamentado, e vez por outra ele parava de sugar e ficava fitando os olhos de minha filha, sua mãe. Ambos se olhavam, um olhar de gratidão, de saber serem amados um pelo outro, de confiança mútua. Creio que minha filha sentiu, naquele momento, que Deus estava olhando por ela.

Hoje, mais sábia, prefiro sentir que Deus não nos vê com aquele olhar que eu pensava aos oito ou nove anos, ameaçador e punitivo. Ele nos olha através de nossos próprios olhares para os outros. Ele nos vê com olhar de mãe para o bebê sendo amamentado, de quem sabe para quem não sabe ainda, de quem vai proteger a quem quer ser protegido.

Páscoa, com certeza, é isso: passagem de um olhar para outro, de uma forma de ver para outra, mais completa, mais madura. Eu vivo a Páscoa quando o “Deus Me Vê” do muro do Colégio já não é mais ameaçador, mas protetor como o colo de um pai, que me buscava todas as tardes, que eu esperava com a certeza de que viria. Um Deus Pai que virá, certamente, quando eu não sei, mas virá me buscar, e me olhará com amor, como me olha agora. Boa Páscoa a todos!

Recado: Carlos Chinelatto, amigo querido, obrigada pela forma como me vê. Você não é o único, mas está entre poucos. Beijos.

Imagens: Hands of God and Adam, Michelangelo; Detail of Ceiling, P. Deliss; Virgin and Child, Sassoferrato

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2 comentários:

Marisa Nascimento disse...

Maria Rita:
Que texto bonito e grandioso de se ler na véspera de Páscoa. O Deus que sempre habitou em mim, apesar de tudo que já foi dito, é Aquele que representa o amor e a justiça e é só assim que eu consigo vê-Lo. Muito bom ler esta sua crônica em forma de amor!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Lindeza de texto, Maria Rita! Deus me olhou através de suas palavras. :)