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TERRITÓRIO DE MORPHEUS [Claudia Mello Gonçalves]


Em todas as culturas e em todos os tempos, o ato de sonhar sempre teve uma conotação mágica. Por mais cética que seja uma pessoa, em algum momento da sua vida seus sonhos (ou pesadelos) deixaram um grande ponto de interrogação, um vácuo sem explicação. E até hoje as explicações em relação ao que faz o ser humano sonhar e o que está acontecendo, exatamente, com ele durante os momentos em que está sonhando são ainda muito vagas.

Já ouvi várias pessoas afirmando que tiveram um sonho absolutamente real e que se não fosse o fato de, em um determinado momento, acordarem e perceberem que estão em suas camas, poderiam ter vivido naquele lugar (lugar?) pela eternidade, como se aquela fosse a única realidade existente.

Algumas teorias também afirmam que para a mente algo que acontece em sonho, algo imaginado em estado de vigília ou um fato bem concreto pelo qual as pessoas passaram são percebidos da mesma maneira. Então, resta a pergunta: o que é a realidade?

Minha relação intensa com o sonhar é antiga. Talvez a mais antiga de todas as experiências marcantes da minha vida. Desde criança, sonhos e pesadelos sempre tiveram um forte impacto na minha vida. Houve fases em que não queria dormir, por prever pesadelos repetitivos que atormentavam minhas noites. Houve fases em que meus talentos e vivências em sonhos eram tão fantásticos, que minha vida acordada parecia monótona, um tédio só.

Hoje, olhando para trás, consigo perceber certos processos interessantes, questões que foram amadurecidas e superadas com o passar dos anos, através dos sonhos. Assim, o pesadelo em que eu tentava dirigir um carro que nunca obedecia meus comandos, desapareceu logo que tirei minha carteira de habilitação. O pesadelo dos elevadores, que sempre apareciam em diversas versões (ora ele despencava, ora não saía do lugar, ora era feito de tábuas meio soltas sobre as quais eu precisava me equilibrar), um belo dia foi transmutado na consciência de que “eu estou sonhando e no meu sonho o elevador vai para onde eu mandar”.

Não tenho dúvida de que existem diversas formas de sonhar, por experiência própria, independentemente de teorias. Algumas vezes o sonhar é simplesmente uma reprodução da nossa rotina, em outras vezes ele sinaliza situações que não percebemos claramente através do nosso racional. Mas temos também os chamados sonhos lúcidos e esses são meus preferidos. Neles, estamos conscientes de que estamos sonhando e temos o domínio de nossos atos e até influenciamos a realidade que nos cerca. Durante a infância e a adolescência, 90% dos meus sonhos eram assim. Ao entrar na vida adulta, passei por fases de alternância entre sonhos conscientes e não conscientes, de acordo com momentos específicos pelos quais passava.

Acredito que quando conseguirmos descobrir toda a potencialidade do ato de sonhar, passaremos a saber mais sobre nós mesmos, também compreenderemos mais sobre a nossa existência e o que chamamos de realidade. Particularmente, creio que ainda somos bebês em relação a tudo isso, há uma quantidade absurda de mistérios que passam despercebidos na vida agitada que levamos. Mas, ao contrário do que diz a série de TV, a verdade está aqui dentro e esse mergulho no território de Morpheus é muito mais fascinante do que qualquer viagem interplanetária.

Pitacos, Achados e Perdidos

Imagens: Shadow of a Hand Against Cloth, Annette Fournet; The Navigator, Patrick; Black Face Out Of White Face, Wieslaw Rosocha Koslo

Comentários

Debora Bottcher disse…
Pois então: esse acho que sempre será um território desconhecido - como a Morte (ou, mais exatamente, o que há depois dela - se é que há alguma coisa).
E isso de sonhar com elevadores... Ainda hei de aprender a ordenar a esse 'instrumento' de que sou eu quem está no comando quando ele me habita as noites em total desordem e pavor... :)
Adorei o texto.
Um beijo enorme.
Identificação total, Claudia! Ontem à tarde mesmo tive um sonho interessantíssimo e à noite conversei com uma amiga sobre minha sensação de que os sonhos são BEM reais. :) O que descansa é só o corpo, a consciência continua acordada. :)
Cláudia Mello disse…
Oi, Debby!
Obrigada!!! :-)))
Sabe o que percebo de similaridade nesses pesadelos? Carro desgovernado, elevador desobediente e coisas do gênero? rs Eles refletem o descontrole que temos sobre nós mesmos. Já houve um tempo em que eu buscava mil caminhos mágicos, espirituais, místicos para descobrir coisas misteriosas e fantásticas. Pois hoje já fico imensamente grata se conseguir ter poder sobre mim mesma. Por isso continuo uma buscadora incansável. ;-)

beijos!
Cláudia Mello disse…
Oi, Eduardo!
Somos do grupo dos Sonhadores...:-)
As experiências que acumulei com o passar dos anos me levam a SABER que não somos somente um corpo, de carne e osso. Engraçado como as pessoas buscam respostas nas religiões e no entanto elas estão dentro de nós mesmos. Quem já viveu a experiência do sonhar consciente sabe muito bem do que estou falando. E a pergunta é: quando estamos "lá", onde é lá? rsrsrs Que realidade é aquela que parece tão concreta, onde podemos observar detalhes de lugares, pessoas e situações?
Mistéééérios...rs
bjok
Claudia, seu texto é excelente! O interessante é que existem tantas teorias, religiosas ou não, sobre essa viagem maluca do sonhar, porém, os sonhos continuam admiráveis enigmas.
O fato é que o sonho é um ousado desconhecido que invade nosso sagrado descanso sem hora marcada, sem regra e nos deixa pensando no efeito dessa visita, quando estamos acordados.
Cláudia Mello disse…
Oi, Marisa
Exatamente isso! E fico boba de ver o ser humano querendo desbravar o espaço, apesar de não conseguir nem ao menos desbravar a si mesmo. Não é não? rs
bjo

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