sexta-feira, 7 de março de 2008

O vinco afetivo de Virgínia Morse >> Leonardo Marona


Duas doses para além do amor perplexo, que teve as pernas amputadas, ela espera pelo reflexo da própria sorte diluída, no fundo falso da cartola sem retorno, onde as almas sensíveis desaparecem e retomam o centro catatônico de uma questão aparentemente crassa, mas complexa: loira escura, nuca de avelã, gosto de farmácia, unhas dos pés carregadas de pecados incompletos, exame pré-natal garantido por pontas de agulhas filicidas, fios grossos de cabelo espalhados pelo calcanhar descascado de veias. A fatiota do major confinada de ácaros atrás do baú – tomado de cupins por dentro como certos corações infantilizados pela desconfiança e pelas rugas, que se tornam cinzentos e inchados de pus, tal qual o crânio do major reconstituído aos pés de tias com unhas de águia e salmos fora de moda em forma de sobrancelhas, crânio guardado para os vermes dentro da madeira. Major mesmo cuja fatiota provoca nela bolhas de gás no cérebro – impossibilitado de fantasias sonoras. Fantasmas proletários sujos de graxa reivindicam outra dose, que sai tremida das lembranças oleosas: aquário escaninho de prazeres líquidos anis inadequados para a satisfação de cada pétala pedregosa, de cada cílio postiço embalado pelo piano mecânico ao fundo do inverno dos percevejos fanáticos. Tarde demais para perder, cedo demais para escolher. Só as taças vazias marcadas de batom sabem o que significa o sentimento de ausência: esse vinco enfezado de belezas rarefeitas que a faz manequim de veludo e deusa do além.


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Um comentário:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Bela associação imagem-texto. Suas minicrônicas me lembram daqueles sonhos que a gente tem e acorda como se o corpo estivesse pesando duas ou três vezes mais. Esse peso exagerado me faz pensar que o próprio peso - dito normal - é em si um exagero.