Pular para o conteúdo principal

O vinco afetivo de Virgínia Morse >> Leonardo Marona


Duas doses para além do amor perplexo, que teve as pernas amputadas, ela espera pelo reflexo da própria sorte diluída, no fundo falso da cartola sem retorno, onde as almas sensíveis desaparecem e retomam o centro catatônico de uma questão aparentemente crassa, mas complexa: loira escura, nuca de avelã, gosto de farmácia, unhas dos pés carregadas de pecados incompletos, exame pré-natal garantido por pontas de agulhas filicidas, fios grossos de cabelo espalhados pelo calcanhar descascado de veias. A fatiota do major confinada de ácaros atrás do baú – tomado de cupins por dentro como certos corações infantilizados pela desconfiança e pelas rugas, que se tornam cinzentos e inchados de pus, tal qual o crânio do major reconstituído aos pés de tias com unhas de águia e salmos fora de moda em forma de sobrancelhas, crânio guardado para os vermes dentro da madeira. Major mesmo cuja fatiota provoca nela bolhas de gás no cérebro – impossibilitado de fantasias sonoras. Fantasmas proletários sujos de graxa reivindicam outra dose, que sai tremida das lembranças oleosas: aquário escaninho de prazeres líquidos anis inadequados para a satisfação de cada pétala pedregosa, de cada cílio postiço embalado pelo piano mecânico ao fundo do inverno dos percevejos fanáticos. Tarde demais para perder, cedo demais para escolher. Só as taças vazias marcadas de batom sabem o que significa o sentimento de ausência: esse vinco enfezado de belezas rarefeitas que a faz manequim de veludo e deusa do além.

Comentários

Bela associação imagem-texto. Suas minicrônicas me lembram daqueles sonhos que a gente tem e acorda como se o corpo estivesse pesando duas ou três vezes mais. Esse peso exagerado me faz pensar que o próprio peso - dito normal - é em si um exagero.

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …