segunda-feira, 3 de março de 2008

DE HUMOR E DE ESPERANÇA À TERRA DESCE >>> Albir José Inácio da Silva

O bicentenário da chegada da família real ao Brasil reedita os registros sobre esse momento importante de nossa história. A pompa e reverência com que os brasileiros receberam Sua Majestade não estavam isentas de ironia e de um humor nem sempre tão discreto. O monarca bonachão não parecia se importar muito com isso. Aproveitava a lisonja e fingia não ouvir o riso a suas costas.

Daí para cá nenhum governante foi poupado. Alguns seguiram o exemplo de D. João VI, fingiram não entender, e a história do Brasil seguiu seu curso sem maiores traumas. Outros, raivosos, ameaçaram prender e arrebentar. E prenderam e arrebentaram, tingindo de sangue a esperança do jovem país. Mas nem estes calaram o riso.

A ironia , embora pareça passiva, é muitas vezes a resistência possível. Rir da situação opressiva em que se está inserido é rir de si mesmo, mas é também rir do algoz que sabe quão ridículo é o seu comportamento. Ninguém escapa ileso. Mesmo fechadas as urnas e calados os representantes do povo, os opressores sabem que no silêncio das ruas, onde quer que se reúnam duas pessoas, eles estão sendo julgados. É a democracia possível quando esse poder é formalmente usurpado.

Neste país, apesar das ditaduras ridículas, dos governantes ridículos em situações tão trágicas quanto risíveis, nunca puderam os ditadores dormir tranqüilos. A inconfidência jazia até mesmo no sorriso subserviente dos oprimidos. Somos um povo que tem sabido rir de si mesmo e daqueles que nos fazem chorar. É a vingança do oprimido.

É verdade que o riso não nos tem adiantado muito, por exemplo, na economia. Vamos trocando um explorador por outro, Portugal, Inglaterra, Estados Unidos, e nossa gente continua necessitada, por mais que risonha. O que não tem rendido na economia, entretanto, sobeja na literatura. De Machado de Assis a Stanislaw Ponte Preta, a ironia nos tem alimentado em substituição até mesmo ao arroz e feijão. Coisas como o Samba do Crioulo Doido e FEBEAPÁ (Festival de Besteiras que Assola o País) do Stanislaw não têm data. Ou, se correspondem a algum período de nossa história, diria que vai de 1500 a 2008.

D. João não é mais ridículo nem menos herói que qualquer brasileiro. Fez coisas importantes mesmo sem querer. Cometeu erros quando tinha ótimas intenções. Foi ridículo e foi gentil. Não queria vir e depois sofreu porque não queria partir. Traduz o monarca a nossa própria dor que, reciclada em anedotas, vem nos fazer felizes. Felizes, na falta de outro motivo, por habitar esta terra sempre tão cheia de graça - nos dois sentidos.

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4 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Adoro trocadilhos, Albir, feito esse do título. E vamos sem perder a ironia, que conserva nosso humor enquanto esperamos a graça. :)

Joana disse...

eduardo tem razão. O título é uma delícia.
Adorei que você pegou um gancho, que nem bem começou o ano e já tá ficando batido (mas que é inevitável), e deu a ele uma outra abordagem.
Como você sabe sou uma irônica de carterinha, membro da comunidade dos eskrotinhos e não pude deixar de lembar também das cobras do veríssimo. parabéns!

Marisa Nascimento disse...

Albir, um belo texto começa com o título. E este é tudo de bom!! É a introdução perfeita para a sua crônica bem-humorada, irônica, porém, de alto nível.

albir disse...

Obrigado, maestro Edu - sempre dando força pros seus músicos!

Joana,
que bom ver você aqui. Saudações irônicas! Bjs.

Marisa,
não houvesse outros motivos para se escrever crônicas, ler seus comentários já seria o bastante. Bjs.