sábado, 8 de março de 2008

MULHERES [Sandra Paes]


Sou uma delas.Vivo cercada delas. Mães, filhas, amigas, vizinhas, amantes, amadas, desamadas, cansadas, perdidas, trôpegas e, por vezes, sem saber quem são…

Tocam-me o coração, me fazem rir muitas vezes, trazem-me vincos novos na face e dores pelas curvas de meu próprio corpo. Sofro com as dores nos seios de todas que temem perdê-los para o câncer, para o tempo, para o espelho.

Não consigo deixá-las na mão, entregues à própria sorte ou ao próprio azar. Até porque vislumbro aquelas que se arrastam pelos seus homens - ou pensam que assim os têm.

Espero por longos tempos ao telefone por suas falas tantas vezes bêbadas e sem rumo, tanto quanto suas vidas, assoberbadas de tarefas, preocupações e tantos desejos jamais vistos e saciados.

Contemplo todos seus volteios em torno de suas insônias e buscas pelo amado que nem sempre acorda a tempo de lhes cobrir o anseio.

E nas minhas próprias noites insones, sinto seus uivos carentes e doadores ao mesmo tempo, em todos os confins desse planeta, que também é fêmea, que também sangra e que também recebe tantos tratos, bons e maus.

Por elas, venho devotando preces e pedidos vários, horas de devoção e atenção desmedidas por que assim sinto e sei que elas merecem viver e não vivem.

E seja no carro, ao longo da estrada, no cansaço ao carregar as compras do supermercado e ainda sorrindo ao preparar o jantar para a família ou os que habitam sob o mesmo teto, seja como for, estou ali, presente, atenta e silenciosa, na maioria das vezes, apenas como testemunha que sou de minha própria condição de mulher e cúmplice.

Há que se devotar um pouco mais de amor a todas nós, um pouco mais de lirismo, um pouco mais de poesia também.

Onde está quem nos prepara o jantar com surpresa e requinte? Onde está quem nos atende ao telefone com um alô doce e um sorriso nos lábios apenas por nos saber do outro lado da linha? Onde está quem nos afaga o cabelo apenas pela felicidade de tocar nossa beleza sem um arranjo por detrás querendo barganhar algo? Onde está quem nos lê o pensamento e nos saca das aflições a que nem sempre nós mesmas temos acesso?

E por nos saber assim, forte, frágil e entregue, as louvo, as amo incondicionalmente, e me incluo nessa lista infindável das que sabem tudo sobre a vida, porque retém o segredo no seu core, no seu útero.

Que a Deusa que habita em nós se regozige hoje numa data promissora de renascimento de nosso melhor.

Santè! Salud! Saúde! Chears
!

Olhe-se no espelho e saúde-se. Mais do que ninguém, você merece!

Nakedness

Imagens: Smiling Woman, Patrik Giardino; Smiling Woman Drinking Coffee, Tom Grill; Spirit Departing Wiccan Body, Floris Leeuwnberg

Partilhar

5 comentários:

-Rodrigo- disse...

Mulher...ahhh mulher....s2

albir disse...

Parabéns e obrigado às mulheres que, vencedoras, em vez de executar os vencidos, abrem-lhes os braços e gastam a vida tentando dividir com eles a vitória.
Às cronistas e leitoras desta página - ouso falar por todos - nossa sincera, humilde e agradecida homenagem!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Sandra, MUITO mais amor, lirismo e poesia para você e para cada uma.

Debora Bottcher disse...

Sandra, querida,
Essa sua crõnica me emocionou muito - até chorei (ontem ao publicar e agora ao reler). Incrível o poder que tens em nos tocar.
Obrigada, bonita. Desejo pra vc de volta toda dedicação que vc dá à Terra e a nós, as mulheres.
Um beijo enorme.

Heloisa Reis disse...

Sandra,

Que palavras precisas descrevendo sentimentos definidos, objetivos, particulares e universais ... e com que poesia! Menina, você sintetizou a alma de Ártemis e de todas as deusas!

Obrigada
Beijo
Heloisa