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Mostrando postagens de Julho, 2022

NOS LÁBIOS AVERMELHADOS DE MEL >> Sergio Geia

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  Se estivesse atento ao entorno como normalmente estou; se estivesse atento como normalmente estou num lugar aberto como aquele; se estivesse atento aos movimentos que estavam sendo costurados, eu perceberia. Eu perceberia fácil, fácil os movimentos nos olhares, no andar, nos agrupamentos, na conversa amiúde.  Eu faria a leitura óbvia, meio assim: olha, cuidado! Não cheira bem. Presta atenção: tá na cara que estão tramando, fica esperto, meu camarada. E é com você, entendeu? Se for o caso, pegue as suas coisas e vaza, vaza rapidinho. Era fácil perceber, afinal, tão comuns eram eles, e não estavam nem um pouco interessados em eclipsar os movimentos, os filhos da puta estavam armando na minha cara.  Ocorre que o tonto aqui tinha a visão túrbida, e ela se fizera túrbida de repente, como se para eles eu estivesse a usar óculos com lentes inadequadas para a minha necessidade de visão. Meu campo de visão se embaçara de repente — essas coisas acontecem de repente. Meu campo de visão se embaç

(IN)DECISÃO >> Paulo Meireles Barguil

Levantar-se ou continuar deitado? Esconder-se ou mostrar-se? Viajar ou ficar? Mentir ou falar a verdade? Responder ou calar? Engolir ou cuspir? Cozinhar ou comprar pronto? Sim ou não? Viver ou morrer? Escrever!

AO LADO >> Carla Dias

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Às vezes, o outro perdia a paciência, e as veias saltadas em suas têmporas avisavam que era melhor mudar de assunto. Ele mudava, falava sobre os carros antigos que o irmão sempre gostou de admirar. Talvez esse cuidado tenha rendido mais alguns anos de vida ao outro, que os gastou amplificando os problemas simples, de soluções disponíveis. A voz do irmão sumiu da playlist dos sons que lhe acalentavam. Lembra da entonação, do ritmo, das palavras escolhidas com a frequência de quem deseja tal intimidade com elas. No entanto, saber que essa lembrança é apenas uma repetição patrocinada pela saudade o faz sentir mais prisioneiro do que comovido. Aliás, poucas coisas o comovem. Nasceu assim, despido da versão intensa dessa qualidade. Na morosidade da sua comoção, agiliza o que a maioria deixa passar no momento do espanto, do desarranjo emocional, dos assombros superlativos. A senhora do apartamento ao lado depende dele. Sua família não entende a insistência dela em permanecer na solidão daque

PARECE QUE SOMOS TODAS MADRASTAS >> Clara Braga

Cada vez mais tenho me deparado com textos de mães que falam sobre deixar a culpa de lado, olhar para si e entender que se elas não estiverem completas, não terão condições de cuidar de uma criança! A maternidade está cada vez menos relacionada à ser perfeita e mais relacionada a ser o que é possível ser. É difícil saber quando é hora de priorizar a criança e quando é hora de nos priorizarmos, afinal, o que o mundo espera das mães é que elas abram mão de tudo que são para serem um ser sem defeitos que vivem única e exclusivamente para os filhos. Logo, como não se sentir culpada quando a prioridade não é o filho? Acho curioso, quanto mais eu me informo sobre a maternidade mais eu vejo que toda a estrutura na qual estamos inseridas é feita para que a gente se sinta culpada! Outro dia, ouvindo a um podcast, uma mãe que é também madrasta estava explicando a origem dessa palavra que, inacreditavelmente, é definida como algo ruim pelo dicionário! Ela dizia que textos antigos, como dos Irmãos

IGNORÂNCIA É FELICIDADE >> Albir José Inácio da Silva

    - Quem escreveu isto? - perguntou a diretora, mais séria que de costume, olhando para os quatro suspeitos.   Os quatro eram os alunos de melhores notas, que tinham direito a sentar nas carteiras duplas em frente à professora. Naquele mês, Silvinha, primeira colocada, sentava-se à esquerda. Celinha, segunda melhor nota, ao seu lado. Na carteira de trás estávamos eu e Hilda, como terceiro e quarto lugares respectivamente.   Eu estava entre os quatro por razões político-econômico-administrativo-pedagógico-aleatórias. E era, por isso, um garoto de muita sorte. Cheguei mesmo a ouvir de Dona Creusa - um misto de servente, inspetora e fofoqueira:   - Esse menino dá muita sorte nas provas. Está sempre nas primeiras carteiras!   É que as escolas públicas não comportavam todos os alunos e o governo dava bolsas de estudo em escolas particulares. Eram os bolsistas. E foi assim que eu fui parar numa escola, não digo de classe média, era um bairro pobre, mas que tinha alunos de

CONSTRUÇÃO >> Sandra Modesto

  De tarde o barulho se aquieta. Depois das cinco e meia, que é quando a empreitada entoa a canção da despedida. Amanhã começa tudo de novo, mas pode ser com outros acordes. Porque o som da britadeira, dos operários passando a pá de cal com força pelo patamar. Raspando as mãos como se fossem quadros de arte, respingando tintas pela janela do meu quarto, zonzo e inocente. Eu sentei mirando naquele espetáculo bêbado os cacos de telha voando na minha cama.    Quisera eu soubesse quanto tempo duraria a eternidade. Nessa garupa desse veículo chamado vida. Antes dessa história, antes desses dias. Mas deixa eu contar o início... Moramos numa casa há treze anos. Uma pré-adolescência afinal, envolta em planos de marcar as linhas do coração. Como se a morada fosse o corpo da gente. Que fala, ouve, canta, lê e silencia. Barulheira agitando meu cérebro, escuridão em três quartos e banheiros. Luzes acesas por que o sol fugiu, esmagando o brilho devorado em quase duas estações. A gente teve uma conv

VOCÊ SÓ VIVE DUAS VEZES: UMA PRA VOCÊ, OUTRA PROS SEUS SONHOS >> Zoraya Cesar

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O ano era o dos 50 e muitos. Não a década do século, mas a idade, aquela em que a mulher se agarra aos preenchimentos faciais, às massagens estéticas, às dietas insanas e à musculação alucinada, numa guerra muitas vezes inglória contra a gravidade. Contra a gravidade da situação, principalmente. Já passara da metade da expectativa de vida de um ser humano (e quem quer chegar até os 100 anos?). Dali pra frente o que viesse era lucro. Porque o presente andava meio muxibento. O passado não menos sem graça. Ai, meu Deus, lá vem ela, a maldita crise existencial. Inferno. Absorta nesses pensamentos sombrios, imersa em dúvidas sobre o futuro, Akash escorregou, quase caiu e ... thud! bateu com força na cabeça da pessoa que a amparara.  Ainda atordoada, viu apenas que era um homem, com certeza. Alto, sem dúvida. E forte. E de repente, zum!, ela o reconheceu. ‘Ele”! Ator famoso de Hollywood, bonito, hot , rico e boa gente. Estava naquela meia-idade que cai tão bem em homens, que os fazem mais d

PROVOCAÇÕES >> André Ferrer

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  As duas entraram e a menina que morava naquela casa fechou a porta e ganhou a dianteira. Visto pela primeira vez, o ambiente paralisou a visitante. "Gabi! Você vai ficar parada no meio da sala?" Inúmeras vezes, ela tinha ficado numa esquina próxima, a pedido da amiga. E também, a pedido de Luciana, Gabi esperara do lado de fora, junto ao portão ou no meio do jardim, em várias ocasiões. Naquela tarde, mal acreditava. O grande suspense em torno da nova residência da amiga chegava ao fim. "Anda, Gabi", ordenou Luciana, que terminava de cruzar a sala e já dobrava o corredor que as levaria ao quarto. Gabi foi atrás. "Estou indo. Estou indo", ela disse, ajeitando timidamente a mochila nas costas. A casa era linda. Gabi fazia de tudo para encontrar o mau gosto de que tanto a sua amiga falava, mas nada destoava nas escolhas feitas para a decoração. No final do corredor, havia um belíssimo tapete. Acima, em uma janela voltada para o poente, o dia terminava cor-de

Ernestina >> Alfonsina Salomão

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- Mamãe, com quantos paus se faz uma canoa? Ernestina estava lavando louça quando Samira fez a pergunta. Achou que tinha entendido errado. Pediu para a filha repetir. -  Com quantos paus se faz uma canoa? A pequena tornou a perguntar, mirando-a com seus olhos redondos. Os olhos de Samira eram enormes. Ainda bebê, ela já intimidava os adultos sobre os quais pousava o olhar. Não havia em seus olhos nada de acusador, ao contrário, eles eram doces, ingênuos. Olhos de cervo. Talvez fosse a franqueza do olhar que atordoasse. Onde já se viu olhares tão pouco dissimulados? Olhares que iam direto ao peito, como flechas bem lançadas. Ernestina ainda não sabia como, mas um dia teria que explicar à filha que era falta de educação olhar com tamanha sinceridade. - De onde você tirou isto, filha? – perguntou, sem desviar a atenção dos pratos. Estava um dia bastante quente, era um prazer mergulhar as mãos na água fria, deixar o sabão escorrer da louça para os dedos. Embora nunca houvesse elaborado est

O TEMPO É UM RIO >> Sergio Geia

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  — O tempo é um rio que corre...  Curiosa, o chá ainda quente sobre a mesa, ela se levanta. Na pequena estante tomada por livros e fotografias, por rios que já correram, ela apanha o livro. Examina-o com cuidado:  — Não me lembro desse.  Retorna à mesa para terminar o chá, trazendo nas mãos aquilo que julga ser uma preciosidade, pois conhece a autora. Dá uma pausa na aula que prepara para a faculdade, põe-se a folheá-lo.  — Que interessante...  Aos 51, ela pensa, o tempo parece ser mesmo um rio que corre, e rápido. Lá atrás, talvez estivesse mais para um lago, de águas claras e calmas. Se bem que mesmo que fosse um rio, não havia motivos para preocupação; a intensidade da vida não permitia. Mas agora...  — Olha o que eu trouxe.  Ela se volta para o marido que acessou a sala trazendo barulho e um perfume novo.  — Comprei no mercado. Estavam muito bonitos; não resisti.  Vermelhinhos, os cajus brilhavam como ouro.  — Você não quer? Eu vou chupar.  — Depois. Preciso terminar a aula. A pro

SUMIÇO >> Paulo Meireles Barguil

Cada um de nós tem alguma história de sumiço para contar. Ou para esconder. Seja referente a algo ou alguém que, de repente, desapareceu. Às vezes, este episódio foi motivo de alívio e júbilo. Outras, de preocupação ou desespero. Enquanto uns sofrem com o ocorrido, outras se alegram. Enquanto umas são atentas detetives, outros são exímios sumidos. Escafeder-se é uma arte, que pode ser apreciada ou odiada. Depende de quem a pratica.  Depende de quem recebe as consequências da obra. Inevitável é o susto quando o perdido aparece. Quando você vai lhe contar aquele segredo?

CORAGEM >> Carla Dias

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Tem coragem para quase tudo. Para enfrentamento diário de incômodos cotidianos e desapontamentos variados; silenciar durante discussões que levam à nada ou beneficiam ninguém.  Construiu-se com o pensamento de que coragem é artigo necessário para ser um ser humano. Sem ela, as criaturas se empanturrariam de suas próprias desgraceiras. No entanto, compreendeu, mas não sem um susto interno, daqueles de fazer coração parar por um segundo, que a coragem é mais um item do supermercado existencial. E como acontece com todo alimento, também estraga. Não tirou essa ideia da cartola do devaneio. Veio ao mundo nos braços da crueldade de outrem; foi escrachado por sua própria biografia. Durante muito tempo, viveu na boca da covardia, ela que já vem estragada, não tem salvação. Viveu acreditando que era somente esse abismo que lhe restava. Até que olhou nos olhos da coragem. Não foi cena de cinema, acontecimento escancarado. Coragem, aprendeu, vem em conta-gotas. A que explode, em momentos impossí

MISÉRIA CONSIGNADA >> Albir José Inácio da Silva

O empréstimo consignado é importante conquista da civilização, que veio corrigir uma injustiça histórica contra as instituições financeiras.   O piedoso banqueiro, no afã de minorar a penúria dos miseráveis, disponibiliza seu capital acumulado com trabalho e privações, praticamente sem garantias. Porque, diferentemente de outros tempos, não se pode dispor do corpo, nem dos filhos, nem do barraco do devedor. Os bancos acabam vítimas dos ladinos e preguiçosos que se locupletam com a facilidade de crédito, gastam mais do que precisam e ficam ostentando luxos incompatíveis com a austeridade que dos cidadãos de bem se espera.    Assim o suado dinheiro do banqueiro acaba indo parar na barriga do preguiçoso e sua prole, que compra sem nenhum critério ou pesquisa de preços. Por isso os bancos quebram todos os dias, enquanto os vândalos queimam os carnês de empréstimos nas suas bebedeiras e comilanças de final de semana, em verdadeiros rituais de heresia contra o sistema financeiro. Esta ameaça

NO MESMO SOL >> Sandra Modesto

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  No mesmo sol da manhã surgia a dor quente. No mesmo sol que a dor esquentava o dia cortava o meio. O dia estava indo e a dor nada. No mesmo céu que cortava o sol ninguém olhava a noite, a dor, o rasgo, o bafo, o trago, o avanço, a lente, a caricatura, os traços fortes. No mesmo sol diferente a remitente canção que ninguém ouviu. Na mesma canção, um menino chorava de fome na rua, uma mulher dizia sobre o “escorregão no chão”. Um homem bradava - se homem. Uma história era esquecida. Beijos nunca mais. Abraços nunca mais. Silêncio. O sol estava fraco. No mesmo sol da manhã Este texto faz parte da antologia Elas e As Letras : Diversidade e Resistência  ( 2019)