TODOS OS COGUMELOS SÃO COMESTÍVEIS – 2ª PARTE >> Zoraya Cesar



Sua avó e as fadas que a acompanhavam foram mortas de uma maneira horrível.
E agora, que Minsk descobrira o assassino, sua obrigação era vingá-las.
Ou as consequências seriam terríveis.


O tempo de chorar passara. Agora era o tempo de agir, e de agir rápido. 

Se não vingasse a morte da avó, seria amaldiçoado, perderia sua conexão com o mundo mágico e seus poderes de curandeiro. Pior, seu espírito jamais descansaria. Já encontrara desses espíritos errantes e não queria, de modo algum, ter o mesmo destino horrendo. 

E se não vingasse a morte das Fei Ved’ma, a água de toda região ficaria salobra, os campos murchariam e os animais não dariam mais cria. Inocentes seriam atingidos. As leis das Fadas eram duras. 

Mas Minsk sempre fora cumpridor de seus deveres.
Exercia com humildade e dedicação o ofício de
curandeiro. Vivia para ajudar. Tinha tudo o que precisava: uma missão de vida, paz na consciência e o amor de Krysia, sua noiva. Não mexia com ninguém. A bem da verdade, ninguém se metia com ele.  Minsk era pacato, mas era um caçador, forte como um lobo de duas cabeças, perigoso como um touro das montanhas e sorrateiro como uma cobra de olho de pedra. Não tinha problemas em matar quando necessário. 

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O dia amanhecera frio e úmido. Uma espessa névoa pairava rente ao chão, fazendo parecer que Minsk andava nas nuvens, enquanto se dirigia ao local onde aprendera as primeiras lições sobre cogumelos e as Fei Ved’ma. Onde enterrara os restos da avó. 

O pântano dos mangues púrpuras. Lindo. Perigoso. Selvagem. O ar cheirava a açúcar queimado. Inalado por muito tempo, destruía o sentido de direção da pessoa, que jamais acharia o caminho de volta. Sob a água azul crepúsculo, opaca como um tapete, abrigava-se uma diversidade de seres hostis. Como os minúsculos caranguejos de fogo – que paralisavam a presa e comiam sua pele viva, deixando a carne exposta e pulsante para as salamandras pintadas, carnívoras esfomeadas e vorazes. 

Minsk não perdeu tempo. Colheu os Grib Psykh, cogumelos que nasceram da terra que cobria os restos em decomposição de sua avó. 

Serviam para curar gangrenas ou ensandecer um espírito. Todo cogumelo é comestível. Depende do preparo. 

Deu as costas à terra revolvida sem peso no coração. Sabia que a essência de sua avó não estava ali. 

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Ao chegar, pôs os cogumelos sobre a mesa de madeira, onde nasciam várias, aparentemente, inofensivas orelhas de pau. Tudo depende de quem as prepara.

Os Grib Psykh pareciam pequenas joias, com suas cabeças afuniladas salpicadas de grãos multicoloridos iridescentes; seus troncos, em diferentes tons de castanho, eram recobertos por fina penugem dourada. Apenas um parecia apodrecido; exalava um cheiro nauseabundo, e exsudava um líquido viscoso e repulsivo. Minsk guardou-o numa gaveta.  

Separou as cabeças dos troncos, ignorando os gemidos pungentes e lancinantes emitidos pelos cogumelos. Minsk sabia que não era dor o que sentiam, mas ilusões criadas para provocar hesitação. Um átimo de pena ou culpa que fosse, um piscar de interrupção do ritual e a pessoa estaria perdida em sonhos tão deslumbrantes que nunca mais acordaria. 

Depois de vários cortes, macerações, infusões, cozimentos, a torta de Psykh estava pronta. Cheirosa, apetitosa, dourada. Irresistível. 

Antes de deitar, comeu o cogumelo repulsivo – mas que sabia a flores com canela. E se preparou para dormir uma noite exausta e triste. O mais difícil estava por vir. 

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Quando acordou, Krysia estava ao seu lado, uma xícara de chá fumegante nas mãos. Mais que bonita, Krysia era deslumbrante. Longos cabelos verde-escuros terminavam em profusos cachos brancos, como uma cascata que desce as montanhas e explode nas pedras. Sua pele tinha a cor do leite morno com mel e seus olhos eram amarelo âmbar - lembravam os de um leão. Minsk só amara duas mulheres em sua vida: a avó Tantine e Krysia. Faria tudo por elas. 

Ele tomou o chá, quente e reconfortante. Foram para a cozinha. 

O cheiro da torta abriu o apetite de Krysia. Comeu com vontade, estava uma delícia. 

Minsk observava, entre fascinado e horrorizado, a mulher que ele amava comer o destino que lhe cabia. 

De repente, Krysia reparou no olhar dele. 

- Você descobriu, não é? – perguntou, sorrindo.

- Sim, respondeu ele. Só queria entender...

- Porque aquela velha idiota não quis me dar a receita dos cogumelos da Riqueza sem Fim. Estou cansada dessa mediocridade e sei que você nunca vai passar de um curandeiro desambicioso. Sei também que você vai fazer essa receita para mim, o chá que te dei quebra a sua vontade. E quando o efeito passar, já estaremos longe, eu e minhas Ratazanas Voadoras. 

Minsk sentiu um arrepio de desgosto. Ratazanas Voadoras! Os seres mais torpes do mundo mágico. Tinham um prazer brutal em destroçar entidades frágeis e benéficas como as Fei Ved’ma e estavam sempre por perto de um mortal desprezível. Como Krysia.

- Você sabe o efeito colateral dessa receita?

- Sei e não me importo. Quero a infusão agora. É uma ordem. Vá! – ela ria, feliz e despreocupada. Sabia que nem mesmo Minsk poderia resistir aos efeitos do chá. Uma receita que ele mesmo lhe ensinara, o trouxa. 

Minsk sentiu um pouco de amargura. Doía-lhe não ter percebido a crueldade que se escondia na noiva. Assassinara uma velha indefesa, deixara Ratazanas torturarem Fadas. E usaria sem pejo uma poção da Riqueza sem Fim – que a deixaria rica para sempre, mas levaria à miséria e ao desespero todos os que se achegassem a ela. O que mais lhe doía era ver que Krysia não sentia nem uma gota de arrependimento. 

Calmamente, como se estivesse falando a coisa mais normal do mundo, disse:

- Você não vai ficar rica. Vai ficar presa dentro de si mesma por toda sua existência. Não terá riquezas, mas pesadelos sem fim até seu corpo definhar. E quando seu espírito partir, suas amigas Ratazanas Voadoras estarão esperando por ele. Você nunca, nessa vida ou na outra, terá paz. Assim é a Lei. 

Só então Krysia percebeu, tarde demais, que, em sua arrogância, subestimara o ingênuo e apaixonado Minsk, o senhor das poções, Grib Master. O chá que lhe dera nunca fizera efeito. Pois o fungo que Minsk comera na noite anterior era um poderoso antídoto contra diversos outros cogumelos.Tentou vomitar, mas já era tarde. 

- Isso não vai ficar assim – rugiu Krysia, o pavor inundando seu corpo. 

- Não, disse Minsk suavemente, não vai.

- As Ratazanas Voadoras vão te matar – disse Krysia ao sair correndo. 

- Não, não vão – murmurou Minsk. 

Ele assobiou moduladamente. E esperou.

Primeiro sentiu o pesado ruflar de asas grandes. Depois, ouviu um crocitar selvagem. Por fim, formas negras começaram a se formar no céu e ele os viu: Vremya, os Corvos do Tempo, chegando do outro lado da vida. O destino das Ratazanas Voadoras estava selado. As Fei Ved’ma seriam vingadas. 

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Minsk sentou-se ao sol, apaziguado pela certeza da missão cumprida. Entendia a necessidade de matar, mas não a de matar sem necessidade. Krysia recebera o castigo merecido e exigido para que o mundo não entrasse em caos. E isso bastava. 

De resto, a morte da avó, a traição de Krysia, tudo fazia parte da vida.

Pegou diversos cogumelos na cozinha – alguns venenosos – para levar à aldeia e curar alguns doentes.

Todos os cogumelos são comestíveis. Basta saber como preparar. 








Comentários

Helena disse…
Que legal! Gostei bastante da história e de toda a sacada que você teve com os cogumelos!!
"Entendia a necessidade de matar, mas não a de matar sem necessidade.".
Suas palavras têm magia! Mais uma vez, obrigado por elas!
Marcio disse…
Sexta-feira, 19h09. Lua crescente. Um dia morno, sucedido por uma noite suavemente fria (para critérios cariocas).
Recebo uma mensagem: o texto da Zoraya está publicado. O tema é daqueles bem assombrosos. Isso são horas? O editor já foi mais exigente. Zoraya virou celebridade literária e agora publica na hora que bem entende.
Ouço uma coruja piar e uma gata prenha miar, e um frio percorre a minha espinha. Será que é apenas a minha imaginação? Não importa: já me caguei todo, de tanto medo.
Chego em casa, e as crianças estão vendo "Stranger Things" na TV. Isso não vai acabar bem.
Para piorar, a noiva Krysia entra em crise, por ciúmes de Minsk (o que é que a capital da Bielorrússia fez de tão bom para nomear um protagonista do universo zorayacesárico???), e ameaça o equilíbrio do Universo ao traí-lo.
Agora que eu li o texto até o final, apesar de todos os sinais de perigo que indicavam que eu deveria ter esperado o dia nascer, para começar a leitura, a pergunta que se impõe é: como é que eu vou conseguir dormir? Como vou explicar para as crianças a luz deixada acesa no quarto, amanhã pela manhã?
branco disse…
como comentei, na primeira parte, existia a promessa de uma continuidade apaixonante.você não apenas cumpriu, como superou as expectativas, entre os meus preferidos (exceto aqueles que me fizeram lembrar Dickens (tenho boa memoria)). minsk e uma garota polonesa, aleatório ou não?
Alfonsina disse…
Amei a intriga e o aparecimento da nova personagem. Até a descrição da noiva eu ainda não imaginava que fosse ela a culpada, fiquei com pena do Minsk. Mas ele parece levar as coisas com bastante serenidade!! Me fez lembrar do witcher do seriado da Netflix! Obrigada por mais este conto fantástico querida Lady Zô!
Aliel disse…
." Tinha tudo o que precisava: uma missão de vida, paz na consciência e o amor." Eu achei esse resumo de vida incrível, me chamou a atenção no início da leitura! E eu fiquei super interessada em pesquisar sobre os cogumelos! Que legal!! Adorei!!
Zoraya Cesar disse…
Helena - vc nao sabe a alegria que me deu qdo seu pai contou q vc gostou da história. E ainda comentou! Tô nem cabendo em mim...

Antonio Fernando - vc destacou uma frase q mta gente gostou e isso me deixou bem feliz. Mais uma vez, ver vc por aqui me deixa sempre feliz.

Marcio - hahahahahaah, como sempre, me acabo de rir com seus comentários! Amo! E se realmente consegui provocar alguma emoção dessas, posso dizer, como o Minsk, que cumpri minha missão. E contente demais. (agora, qto ao nome do personagem, não me culpe. É o nome dele, conforme as Fei Ved'ma me passaram. Eu é q nao ousaria trocar!). Espero q vc tenha conseguido dormir, mesmo de luz acesa

branco - ah, esses elogios... Mas vc está me devendo dizer a quais contos vc se refere. Lembrar, mesmo q muito muito longinquamente um de meus escritores preferidos é mais do que eu poderia desejar!

Alfonsina - Que bom te ver por aqui! Sempre me prestigiando. Não fique mesmo com pena do Minsk. Ele sofreu na medida exata. E, realmente, leva as coisas com serenidade depois de entender o que tem de fazer. Ah, já tava doida pra ver o Witcher. Agora vou correndo conferir.

Aliel - vc tb separou uma frase basilar dessa história, o que fundamenta toda a trajetória e decisões do Minsk. E pesquise sobre os cogumelos sim, são seres supreendentes e interessantíssimos (e, como vimos, também muito úteis)

A todos, muito obrigada!

Erica disse…
Minsk podia estar apaixonado mas não era tão ingênuo afinal.
E você não seja ingênua achando que não cumprirei minha promessa.
O comentário acaba por aqui, já que você não cumpriu o que prometeu kkk
Deu sorte que eu li a segunda parte... Já fiz muito... hahaha
sergio geia disse…
Zô, Zô, que delícia de cogumelos! Não sofri da ansiedade dos outros pois li os dois textos hoje. Sabe que cheguei a pensar que ele próprio fosse o assassino da avó? Que bobagem rsrs

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