NOS LÁBIOS AVERMELHADOS DE MEL >> Sergio Geia

 


Se estivesse atento ao entorno como normalmente estou; se estivesse atento como normalmente estou num lugar aberto como aquele; se estivesse atento aos movimentos que estavam sendo costurados, eu perceberia. Eu perceberia fácil, fácil os movimentos nos olhares, no andar, nos agrupamentos, na conversa amiúde. 

Eu faria a leitura óbvia, meio assim: olha, cuidado! Não cheira bem. Presta atenção: tá na cara que estão tramando, fica esperto, meu camarada. E é com você, entendeu? Se for o caso, pegue as suas coisas e vaza, vaza rapidinho. Era fácil perceber, afinal, tão comuns eram eles, e não estavam nem um pouco interessados em eclipsar os movimentos, os filhos da puta estavam armando na minha cara. 

Ocorre que o tonto aqui tinha a visão túrbida, e ela se fizera túrbida de repente, como se para eles eu estivesse a usar óculos com lentes inadequadas para a minha necessidade de visão. Meu campo de visão se embaçara de repente — essas coisas acontecem de repente. Meu campo de visão se embaçara pois eu havia sido fisgado como um peixe tolo logo que a vi, ela ainda se preparando para entrar, olhando-se no pequeno espelho que tinha nas mãos, ajustando a maquiagem, os cabelos, eu já dentro, assistindo aos caramelos de seus cabelos se esvoaçando ao sabor da brisa, assistindo aos olhos de Mel, à boca de Mel, à pele de Mel, olhos, cabelos, pele, eu estava fascinado pelos doces de Mel e não lia os sinais, e então. 

Eu não sabia o que estava prestes a acontecer, mas dava para adivinhar. Era só prestar atenção aos olhares fecundos que eles se lançavam, aos movimentos circulares e em blocos que ora se juntavam, ora se afastavam, à fala ao pé do ouvido, apontando, a armadilha sendo arquitetada. Às vezes eles tomavam o meio do salão daquela Pauliceia desvairada, e pulavam, erguendo as mãos para o céu, sacolejantes como pipocas bêbadas diante das batidas e repiques. Nesses momentos, se meus olhos não estivessem ocupados, eu veria a ponta do iceberg, a ponta à mostra quando a camisa subiu, o brilho do cabo brilhante como um marrom-glacê, embora duro. 

Mas eu estava perdido no meu microentorno, vacilante para esse tipo de pegada. Minha pegada era mais, digamos, de dimensão amorosa, e estava em dançar com Mel, em ouvi-la, em saber quem era, de onde vinha, o que fazia, do que gostava. Ela correspondia ao meu cortejo e enquanto eu me bebia de Mel, eles aprumavam o embuste. 

Sóbrios, limavam os dentes, armavam a cilada na minha cara, e eu, tolo, sem perceber o que iria acontecer, e aconteceria se ninguém nada fizesse, como de fato aconteceu, pois ninguém fez nada. Eu poderia me esconder, me arrastar para as sombras, ou vazar. Vaza!, a voz dizia; eu não escutava. Mel atraía olhares, foi quando notei a primeira vez a armadilha, e apesar do estranhamento, eu me enganei. Pensei: ah, é Mel, esses brutamontes querem Mel, tolamente eu pensei, e só depois, lembrando do episódio, foi que consegui reunir tudo e ter noção exata do quadro. 

Então fez-se um silêncio no amplo salão, as pessoas foram para fora, para respirar o ar fino da madrugada, a multidão saindo aos poucos, em passos lentos, como num estádio de futebol após o jogo, eu lá fora, tão exposto, tão à mercê, nem percebia que no meio da multidão resfolegante e suada, no meio de gente alegre e bêbada, havia um sólido agrupamento que saía pra guerra, um grupo de aço, alheio à festa do carnaval, pronto para consumar o bote, mãos úmidas e hábeis tremeluzindo para a refrega, eu nem aí, absolutamente entregue, apenas pronto para avançar nos lábios avermelhados de Mel.


Ilustração: Pixabay

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