CORAGEM >> Carla Dias

Submerged Town © Stanisław Szukalski. Foto: szukalski.com

Tem coragem para quase tudo. Para enfrentamento diário de incômodos cotidianos e desapontamentos variados; silenciar durante discussões que levam à nada ou beneficiam ninguém. 

Construiu-se com o pensamento de que coragem é artigo necessário para ser um ser humano. Sem ela, as criaturas se empanturrariam de suas próprias desgraceiras. No entanto, compreendeu, mas não sem um susto interno, daqueles de fazer coração parar por um segundo, que a coragem é mais um item do supermercado existencial. E como acontece com todo alimento, também estraga.

Não tirou essa ideia da cartola do devaneio. Veio ao mundo nos braços da crueldade de outrem; foi escrachado por sua própria biografia. Durante muito tempo, viveu na boca da covardia, ela que já vem estragada, não tem salvação. Viveu acreditando que era somente esse abismo que lhe restava.

Até que olhou nos olhos da coragem.

Não foi cena de cinema, acontecimento escancarado. Coragem, aprendeu, vem em conta-gotas. A que explode, em momentos impossíveis, promovendo situações de provocar taquicardia no espectador, é uma versão mais poderosa da coragem, mas não é aquela que, acredita, sustenta o diariamente de cada um.

Sua coragem celebrada, respeitada e assumida não é vedete de grandes feitos.  Reconhece que ela nunca lhe proverá reconhecimento que venha de outra pessoa. Assim, exercita reconhecê-la por si mesmo, em agradecimento. Quem viveu nas entrelinhas da covardia, sendo alimentado com a certeza de que era somente esse pedaço de escárnio de destino o que lhe restava, apega-se com força à possibilidade de sobreviver à degradação cotidiana, outro item popular na prateleira da existência.

Tem coragem para quase tudo, porque quase tudo lhe foi tirado. A coragem que colhe aos poucos, no andamento do ser e realizar. Aquela que o ajuda a se levantar da cama para viver sua história; que a ele mostra os detalhes que, não raro, são engolidos pelos outdoors das promessas. Há nessas entrelinhas, espaços desprovidos de grandes feitos, não a mediocridade, como acreditava ser a única oferenda possível. Nelas moram a riqueza da coragem que alimenta a delicadeza dos gestos de gentileza, o escutar e ser ouvido, o celebrar a conquista alheia, apesar de a própria ainda não ter chegado.

Ter coragem para quase tudo é o que o mantém pessoa. Onde ela não cabe, naquele quase, ele não se encolhe.

É preciso coragem para exercer a coragem que passa despercebida, e que a vida exige a cada dia.

Submerged Town © Stanisław Szukalski. Imagem: szukalski.com

carladias.com

Comentários

Sandra Modesto disse…
É preciso pelo menos um pouco de coragem. Para enfrentar os dias sombrios, coragem. Lindo texto. Parabéns!
Felipe S. disse…
Antes de qualquer coisa, nunca me decepciono com seus escritos, pelo contrário, aliás. Eu tenho uma curiosidade, como é a relação de escolha das imagens que você usa para ilustrar os textos, Carlinha?
whisner disse…
É a realidade do brasileiro, sempre buscar coragem para sobreviver. Bonita crônica, Carla!
sergio geia disse…
Carla, você é uma contista-terapeuta. Seus contos são pura terapia. Quanta coisa interessante sobre coragem, quantas lições!
Zoraya Cesar disse…
Carai... que texto! O final, então, maravilhoso. Vc me fez pensar em qta coragem nós verdadeiramente temos e demonstramos ao longo do dia, e nem nos damos conta, e nem valorizamos. Pensamos q somos desprovidos de coragem e valentia pq nao nos enxergamos nos pequenos atos de coragem que fazemos. Obrigada!

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