O TEMPO É UM RIO >> Sergio Geia

 


— O tempo é um rio que corre... 

Curiosa, o chá ainda quente sobre a mesa, ela se levanta. Na pequena estante tomada por livros e fotografias, por rios que já correram, ela apanha o livro. Examina-o com cuidado: 

— Não me lembro desse. 

Retorna à mesa para terminar o chá, trazendo nas mãos aquilo que julga ser uma preciosidade, pois conhece a autora. Dá uma pausa na aula que prepara para a faculdade, põe-se a folheá-lo. 

— Que interessante... 

Aos 51, ela pensa, o tempo parece ser mesmo um rio que corre, e rápido. Lá atrás, talvez estivesse mais para um lago, de águas claras e calmas. Se bem que mesmo que fosse um rio, não havia motivos para preocupação; a intensidade da vida não permitia. Mas agora... 

— Olha o que eu trouxe. 

Ela se volta para o marido que acessou a sala trazendo barulho e um perfume novo. 

— Comprei no mercado. Estavam muito bonitos; não resisti. 

Vermelhinhos, os cajus brilhavam como ouro. 

— Você não quer? Eu vou chupar. 

— Depois. Preciso terminar a aula. A propósito: “O tempo é um rio que corre”, por acaso é seu? 

O homem não compreende a pergunta. Depois de deixar a caixa com os cajus sobre a mesa da cozinha, retorna à sala para entender melhor. 

— Ah, esse livro? Comprei outro dia numa feira que estava acontecendo no shopping. Não li ainda. 

Ela larga o livro no canto da mesa, precisa retomar o trabalho. 

O tempo corre rápido demais, mas mais que isso, talvez não esteja sabendo ocupar esse tempo que corre rápido com coisas valiosas, e o barulho do marido na cozinha passa a incomodá-la sobremaneira. O casamento, por exemplo. Faz tempo que suas águas também andaram, andaram rápidas, e o rio secou. 

O pensamento a perturba. Ela tenta retornar ao trabalho, mas “O tempo é um rio que corre” definitivamente bagunçou as suas ideias. Como pode apenas o título de um livro ter esse poder? Levanta-se, pega a cigarreira, abre a porta da rua levando na mente a imagem de um rio correndo. 

O olhar se perde no lilás do céu. Há movimento, as pessoas saem do trabalho, os jovens se dirigem alegres para a escola, o crepúsculo encerra o show, a noite azulada está apenas a começar, buzinas, monóxido de carbono, nicotina. 

Termina o cigarro, volta para a sua mesa de trabalho. Sem inspiração, fecha o notebook. Pega o livro e senta-se no sofá. Acende o abajur e inicia a leitura ao mesmo tempo em que o pensamento começa a paquerar a ideia de alguns arranjos em sua vida. 

Quando o mergulho se desenha de uma vez e a leitura começa a fluir, ela novamente é interrompida pelo barulho do marido a descer as escadas, trazendo agora um novo perfume. 

— Vou ao Morumbi ver o jogo. O Manoel vem me pegar. 

Ela hesita, mas não consegue prender as palavras que fogem da boca como um vômito: 

— Perfumado desse jeito? Sei... 

O homem meneia a cabeça reprovando o comentário. Com a voz um pouco elevada, diz: 

— Eu sempre passo perfume quando saio, há mais de 30 anos. 

Ela não responde. Espera que o marido saia de uma vez e a deixe em paz. Ele, no entanto, vai até a cozinha preparar ovos mexidos. 

Antes das sete e meia, os dois ouvem uma buzina. 

— Manoel. Talvez depois do jogo a gente saia pra tomar uma cerveja. 

Ao ouvir o bater da porta ela se levanta. Rapidamente, espia pelo vitrô. Mesmo a rua estando vazia, Manoel não parou o automóvel na frente de sua casa. Pouco tempo depois ouve a partida. 

— Interessante... 

Na cozinha, ela abre uma garrafa de vinho. Pega o celular. 

— Ótimo. 21 horas está ótimo. Sim, aqui em casa mesmo. Pix. Combinado. 

Sobe as escadas levando consigo a taça de vinho. Espia o quarto de hóspedes e resolve trocar o lençol. Por alguns instantes, sente a pele arrepiar. Acende o abajur e um incenso. Bebe mais do vinho, vai para o seu quarto, pelo menos por agora, esperando o rio correr, rápido, ela precisa de um banho. 


P.S.: 1. “O tempo é um rio que corre”, Lia Luft, Editora Record; 2. Ilustração: Pixabay

Comentários

Regina disse…
Tenho pensado muito na passagem do tempo, nas opções da vida, como viver bem o tempo que não para de correr. Seu texto me fez pensar mais ainda. Estou “encafufada”...
sergio geia disse…
Prezada Regina, obrigado pelo comentário. Estamos juntos pois o conto reflete uma necessidade pessoal de usar esse tempo veloz em coisas realmente valiosas. Não é fácil.
Zoraya Cesar disse…
Sergio, essa é uma daquelas q vao ficar na nossa mente tal qual o título ficou na mente da protagonista. Que incômodo!
A gente ter noção de que as águas passaram e nao tempo onde aportar em novo porto é deveras angustiante. Espero que a protagonista possa navegar em novos rios, mesmo q, inexorvelmente, o tempo corra em todas elas.
Anônimo disse…
Sergio amei seu conto, esta reflexão sobre o rio que passa e nossas vidas, que passam muitas vezes sem que a gente tenha consciência ou controle… a vida de casal então, um rio com muitas etapas diferentes, sempre correndo… realmente, seu texto dialoga com o meu desta semana, e não é nem um pouco menos profundo. Adoro este recurso de recortes nas vidas das pessoas, em momento aparentemente banais, para contar coisas maiores e significativas. Me fez pensar dos contos da Alice Monroe, de quel sou fã.

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