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Mostrando postagens de 2019

ABUSOS NOSSOS DE CADA DIA >> Mariana Scherma

"A língua é algo pequeno, mas que baita estrago pode fazer" (da internet)
Quando a gente fala em abuso, logo pensamos no sexual, no infantil… E eles são terríveis, merecem destaque, merecem ser denunciados, merecem ser expostos e, principalmente, punidos. Mas tem também alguns abusos aos quais nos submetemos diariamente por medo de perder algo do qual precisamos de fato. Também são abusos — beeem menores, claro. Bem menos danosos, mais ainda danosos. E o pior é que a gente sofre com eles todo dia e o permitimos colocar em xeque nossa autoestima e nossa capacidade profissional.
Ser jornalista (mas acho que posso incluir aqui qualquer profissional da comunicação) é aceitar todo o tipo de trabalho freelancer (manda frilas!) para complementar a renda. Ser da comunicação é ganhar mal — a não ser que você seja, sei lá, o William Bonner. Ser jornalista é ter um pouco de medo de recusar frilas porque sabe lá quando vem o próximo. E aí você vive enlouquecido em casa, porque é complic…

TUDO PARA EVITAR O FIM >> Cristiana Moura

Não faz muito, conheci Madalena — atriz de teatro, arrojada, dessas pessoas que acreditam no inesperado e que amam a vida quase todos os dias.
Semana passada sentamos em um café e conheci a história mais intrigante de um fim de namoro que eu já havia ouvido. Arlindo e Madalena se conheciam há anos, mas não eram próximos. Reencontraram-se na Lapa, em meio a um evento político e muitos amigos. Em poucos dias já estavam namorando.
Apaixonados, seus olhos brilhavam, imaginavam-se envelhecendo juntos, faziam muitos planos para os futuros possíveis. Passavam o máximo de tempo possível juntos, dormiam de conchinha e orgasmos temperavam a vida quase todos os dias.
Por aproximadamente dois meses, os dias se seguiram assim. No terceiro e último mês desta relação tudo havia mudado: brigavam à toa, discutiam por banalidades, pareciam não falar a mesma língua. Ela contou-me que Arlindo lhe parecia paranóico, via coisas onde não existiam, sentia-se explorado só Deus sabe porque e como, queria cois…

ACREDITE EM SUA CARTOMANTE >> Zoraya Cesar

As cartas dizem: onde há fumaça, lagartixa não tem cauda. Fique atento. O que é bem difícil para Feiticeiros estúpidos. As cartas riem e fazem pouco dos que não seguem seus conselhos. Fique esperto, seu tonto. As cartas alertam para o que é o melhor a fazer no dia de hoje: tirar o mofo das pantufas  alimentar o gato... lembre-se de alimentar o gato, feiticeiro idiota...  amarrar sua gárgula mal-educada e insuportável  cuide da sua vida. Se a gárgula não chamar, não abra a porta. Esconda-se.  Ou vai se arrepender. Ayè.
O Sr. Amadan leu, releu e encheu-se de zelos. Que coisa! Obviamente Mme. Embwsteyr, ainda estava aborrecida, só podia ser. Mas ele já pedira desculpas, dera presentes, descontos... Que mulher mais rancorosa! Tudo porque uma vez, uma única vez!, ele entregara um sabonete de cascalho de tumba de vampiro, em vez do de pedra vulcânica. A pele de Mme. Embwsteyr não ficou avermelhada e fumegante (última moda entre as cartomantes), mas branca feito cal, grudenta como gelatina e, pior…

POEIRA ESTELAR>>Analu Faria

"Somos feitos de poeira estelar" é provavelmente a frase feita mais horrorosa desde a invenção das frases feitas. Não só porque, em termos patéticos poéticos, é uma tragédia, mas também porque é uma tentativa patética (agora sim!) de desviar o foco, para o infinito e para o solitário, da matéria que realmente nos une e nos define como gente: as histórias. Mais do que um aglomerado de grãos de estrela, nós somos as nossas sagas.
Prova de que histórias são nossa matéria fundamental é que as identificações mais profundas entre nós não se dão por nossas condições estáticas, (sou servidora pública, mineira, estudante, branca etc.), nem pelas nossas ideias em comum (sou a favor da liberação da maconha e contra a posse de armas, torço para o Palmeiras, blá blá blá), sequer pelos nossos gostos, mas pelas histórias que vivemos, que ouvimos, que contamos. Eu tenho pouquíssimo em comum com tantos outros servidores públicos! Mas reúnam-se um bando de desconhecidos ao redor de uma fogue…

UMA PORÇÃO DE DELÍRIOS DESATENDIDOS >> Carla Dias >>

Não precisa de livros. Não precisa de música. Não precisa de filmes, fotografias, esculturas, tampouco de trapézio, coreografias. Dizem que o que precisa é de ordem. É ela que coloca tudo em... ordem. O que o faz lembrar de roupa engomada. Nada contra roupa engomada, mas ele se sente entediado diante de pessoas engomadas. Nada contra a ordem, contanto que ela não seja restritiva no departamento que cabe somente a ele gerir: seus desejos, suas responsabilidades, suas buscas, sua individualidade.
É fato, pode conferir... não gosta de melancia. Nem por isso ele a odeia. Para ele, odiar é intenso de um jeito avesso, e leva as pessoas a perderem um tempo valioso, que seria mais útil se dedicado às reflexões.
Porque ele precisa de livros, de música, de filmes, fotografias, esculturas, trapézio e coreografias, e tantos outros ingredientes dessa laia de necessidade interminável, eles que são capazes de despertar os seus sentidos para o que não é óbvio. 
Veja bem, ele sabe que o óbvio tem sua…

PARA MINHAS TIAS DA ESCOLA >> Clara Braga

Não sou o tipo de pessoa que lembra de forma saudosa de todas as fases da vida escolar, mas com certeza gostava daquela época em que éramos pequenos e comemorávamos todas as datas existentes no calendário. 
No dia dos pais e mães a gente preparava uma apresentação. No dia das crianças podia levar brinquedos diferentes para a aula. Todo mês tinha pelo menos um aniversariante celebrando mais um ano de vida. Na chegada do calor levávamos roupa de banho e tomávamos banho de mangueira, e no dia do amigo podíamos levar um amigo para a escola e passávamos o dia participando de gincana com direito a lanches tipo cachorro quente, pipoca e refrigerante.
Quando se é criança você participa dessas atividades sem pensar no lado pedagógico, se você está ou não aprendendo algo, você só participa. Depois que cresce vai entendendo (infelizmente nem todo mundo se enquadra nisso) a importância real da brincadeira. Entende que correr em uma gincana não serve só para você gastar energia, dormir melhor e d…

vento amigo >>> branco

sopre sempre vento amigo
refrescando irmãos de sofrimento
secando lágrimas
curando almas atormentadas

vento amigo nascido nas florestas
que se incorpora em pessoas comuns
- dessas
que encontramos nas ruas -
com quem conversamos
e usufruímos a presença

espíritos de luz - ventos invisíveis -
aguardando em serena sabedoria
a ordem dos deuses da floresta
de sempre ventar

vento brando vento amigo
vente também por estas paragens
pois aqui existem pessoas
que necessitam do seu frescor

heil você
caminhante desavisado
esta brisa não é o inverno chegando
mas sim
o consolo  que sempre pediu




VINTE E NOVE >> Fred Fogaça

Minha blusa tem uma pequena descostura no ombro, faz uma semana que chove aos vinte e nove e eu fiz pouco de importante. Minha mãe veio e limpou a casa; e eu e meu cachorro aqui. Há alguns dias atrás eu assinei o YouTube Premium. Molhei minhas roupas no chuvisco que se esconde pelos postes apagados, mas algum jeito foi dado. Existem algumas sagacidades mudanas demasiado concretas. Sou fraco pro concreto, minha estrutura ainda não fecha oitenta e cinco quilos completo; na verdade, ela progride em regressão. 
Ontem não comi muito. 
Arguição é uma palavra boa e eu falava, falava do que eu sabia e pensava, mas em termos inocentes - me sinto culpado por isso; a profundidade não se manifesta em termos inocentes. Nesses dias, também, trabalhei. Um bolo singelo e uma mocinha tímida, e o que é realmente importante? O presente é um reconhecimento. Ontem roubei duas folhas de uma planta - não das melhores, questão de ética - foi meu próprio agrado. 
Um sorriso singelo e uma sugestão tímida: aqu…

AMENIDADES AÇUCARADAS >> Sergio Geia

Cristovão Tezza disse numa entrevista que um bom leitor é alguém que tenha tempo e condições de ler um livro por mês. Acrescenta que no Brasil seria o paraíso se essa fosse a média. Um livro por mês. Estou tentando me disciplinar. Há meses que leio mais, que me empolgo com um, que emendo outro, e outro. 
E disse outra coisa que me causou inveja, das boas. Disse que escreve pelas manhãs, momento em que sua cabeça ainda parece nova. À tarde, depois da sesta, ele lê. E de noite, vê filmes. Deus! Que sonho de consumo! 
Por falar em escritor contemporâneo, descobri que Ian McEwan vem aí com um novo romance, Machines like me, que deve ser publicado no Brasil ainda neste ano. Tenho aqui vários McEwan, tipo “Sábado”, “Na praia”, “Solar”, “A balada de Adam Henry”, “Amsterdam”. Se não leram nada dele, leiam. McEwan, Philip Roth, J.M. Coetzee, gente da pesada. 
E o que vocês estão achando da nova fase do Crônica? Trouxemos algumas feras de volta: Mariana Scherma, de quem sou leitor, e que deixo…

VAGA-LUME >> Paulo Meireles Barguil

Ontem, deitado na rede, enquanto escutava a sinfonia de sapos e grilos, pensei se alguma noite eu veria ali um besouro luminoso.
Para minha grande surpresa, segundos depois, avistei um pequeno clarão acima da grama.
Antes que eu pudesse esfregar os olhos, o ponto piscou em outro lugar.
Durante alguns minutos, ele se movimentou em várias direções.
Perplexo, agradeci ao Universo o ocorrido, pois compreendi que eu, também, sou um vaga-lume. De vez em quando, eu clarifico algo: aqui, ali ou acolá.


[Crônica referente a 24 de maio de 2019, a qual foi publicada na data, mas, por motivos desconhecidos, quando a consultei no dia seguinte, constava apenas como rascunho! Considerando que eu não fiz um print, não tenho como provar...]

UM BICHO >> Whisner Fraga

A menina acolhe o caderno e se ampara nas linhas que deformam a folha.

A menina depura o inóspito vocabulário do desterro.

Espiono a cabeça tombada na mesa. Dói por todos os caminhos o sabor da desordem.

E a desordem tem uma ordem de pedra.

A menina acirra a caneta contra o repugnante silêncio do mundo.

A menina escreve uma história maior do que o céu.

Um céu arranhado de fumaças de fósseis inebriados de potência.

A menina quer piscinas e amigos em sua história.

A menina fatia a realidade em compreensões menores.

Atrevo a mão até outro mistério e um sorriso rompe a casca do isolamento.

Pai, continua. Continua, pai. Continua.

A menina lê um gato gripado, um gato internado, um gato só.

Pai, continua.

Despejo a mão sobre a franja. Vamos, eu digo.

É tão conforme esse pedido que ela aceita.

A menina me segue e já escorrega e já dispara e já pula e já se cansa.

E vem se debruçar no banco e aos poucos escala o colo.

Depois saca a caneta do bolso e a acarinha como se fosse um bicho recém-doma…

INDETERMINADO >> Carla Dias >>

Um artigo publicado na internet informou que ela deveria viver o que lhe era oferecido, criando, dessa forma, muitas oportunidades de encontrar a tal da felicidade. 
Ontem mesmo, ela soube que a felicidade para um seria conseguir a vaga de trabalho para o qual fez entrevista. Teve outro que declarou que seria uma bebida quente em dia frio. Houve quem jurasse que a felicidade, a mais pura e plena, seria uma viagem pelas águas do Oceano Atlântico.
Para ela, a felicidade, assim como o ser humano, é viva, independente. Pensa que, prendê-la em um artigo de jornal, esmiuçá-la em ensaios, poesia, estudos científicos, ruminá-la em longas conversas, apenas alimenta a curiosidade sobre o que é felicidade em meio à diversidade na qual ela se molda, enquanto cria arte, fecunda desejos, expande horizontes.
Felicidade, quase sempre, cabe em uma promessa de felicidade.
Conhece quem adora processos, incluindo-se nessa lista. Enxerga processos como mil felicidades sendo perseguidas por dois mil obstá…

A PERGUNTA CERTA >> Clara Braga

Em Brasília, ser concurseiro virou profissão. Difícil encontrar quem nunca tenha feito um concurso e é ainda mais difícil encontrar quem nunca tenha ouvido o famoso conselho: porque você não faz um concurso para ter estabilidade?
No meu caso, a estabilidade financeira acabou com minha estabilidade mental e eu desisti do meu cargo público. Desde então vejo caras de reprovação, como se eu tivesse cometido um erro muito grave, e escuto várias perguntas que não ajudam muito, algumas até me fazem um tanto mal.
Uma das mais clássicas é: mas e agora, como vai pagar suas contas? E eu me pergunto como elas acham que as pessoas não concursadas pagam contas, será que todas as pessoas no mundo que não são concursadas vivem de favor?
A outra pergunta constante é: mas e agora? Para essa eu realmente não tenho uma resposta pronta, mas estou bem com isso, logo, ninguém mais deveria se incomodar.
Mas a pergunta que mais dói com certeza é: mas e seu filho? É difícil saber que tem coisas que antes era …

DEPOIS DO GRANDE VERÃO VERMELHO - QUASE O PARAÍSO. QUASE.>> Zoraya Cesar

Alfonsine precisava de um café. Esticar o corpo. Respirar ar puro. Espairecer para pensar. Há mais de duas horas examinava provas, confrontava evidências, torturava seu cérebro em busca de coincidências, pistas, qualquer coisa que levasse à elucidação da morte do botânico Tinds Bârd. Descartada a hipótese de suicídio pela perícia, a equipe de Homicídios de Alfonsine encarregou-se do caso. 
Bebeu o café, pegou a bicicleta e saiu. Ar puro não era problema. Praticamente todos os meios de transporte e fontes de energia poluentes haviam sido trocados por sistemas limpos – energia magnética, solar, eólica... Extensas malhas cicloviárias cortavam bairros e municípios, permitindo que ciclistas chegassem a pontos longínquos em pouco tempo, com segurança e praticidade. As ruas, arborizadas, arborizadíssimas, para descrever com exatidão, tanto nos centros comerciais quanto nos bairros residenciais, davam à cidade um aspecto de nouveau bucolique, o movimento socioambiental e estético que equilibra…

O DONO DO CLUBE >> Carla Dias >>

Era assassino de profissão.
Vamos combinar, não é a primeira vez que você lê a respeito. Há como citar uns pares de filmes, alguns personagens da realidade e, se bobear, aquele vizinho... sabe quem? Melhor continuar sem saber.
Era assassino de profissão. Ganhava em dólar, porque dólar é dinheiro com valor. Guardava seus dólares, milhares deles, em caixas de sapato, estocadas em um closet de um dos quartos onde vivia com sua esposa e sete filhos. Tinha isso com o número... morava na casa sete da rua sete, seu telefone tinha vários sete e a soma dos que não eram sete dava em sete. Sua esposa foi sua namorada número sete, penou, mas o filho sete veio, temporão, mas veio. Acalmou-se, que temia ficar preso ao número seis. Não gostava do número seis.
Sua profissão exigia disfarce, e não há disfarce mais sólido do que a realidade de uma rotina. Um casamento sem amor, mas com certa cumplicidade. Bater cartão na igreja, ao menos uma vez por semana, comprar sempre a mesma marca de aveia, uísqu…

TRADUZINDO AO PÉ DA LETRA >> Clara Braga

Quando eu era adolescente adorava comprar revistas. Ir à banca da quadra era um evento, ficava um tempão olhando quais revistas tinham matéria sobre minhas bandas prediletas, escolhia umas duas, comprava um picolé e ia para casa ler. No dia seguinte levava as revistas para a escola, minhas amigas faziam a mesma coisa, e a gente sentava juntas para ver as revistas umas das outras.
Além das matérias sobre as bandas, algumas revistas tinham uma parte que eu adorava: tradução de músicas. Achava o máximo poder finalmente entender o que aquele artista estava querendo dizer naquela música. Lembro de um dia passar um bom tempo no quarto tentando encaixar a tradução da letra de Torn da Natalie Imbruglia na melodia da música, quem sabe eu não poderia virar uma grande cantora de traduções musicais?
Pena que eu não levei minha ideia a sério, pois as pessoas que também pensaram nas traduções como um nicho na música dos anos 90 acabaram se dando bem. E quando o assunto é traduções dos anos 90, não…

no limite >>> branco

existe um lugar
para onde meus pensamentos vão

eu conheço cada rosto
cada rua
cada esquina
os cheiros são facilmente reconhecíveis
é um lugar fora do espaço/tempo

caminho pela avenida tão conhecida
revejo amigos
revejo amores
que andam descalços pelo chão de terra batida
sentimentos fluem
cores sólidas
sonhar que cada sonho possa ser vivido
cumprir as promessas
não desviar
nenhum preço é tão alto
que não possa ser pago
imaculado é o lugar
para onde meus pensamentos vão
quando estou no limite

neste momento
sentado em minha cadeira
quebrado pelo tempo/ocupando espaço
sou alguma coisa entre o esquecido e o descartável
agora
sei sobre cada sonho que deixou de ser vivido
e um preço muito alto para que pudesse ser pago
tudo isso percebido
tarde demais

hoje me contento
em olhar para os sorridentes e descompromissados rostos
aprisionados no porta-retratos sobre a prateleira
um rosto se destaca
tão jovem e familiar
- felicidade fulgaz
borrão no céu
gota no oceano -
outros tempos outros dias









60w

Tungstênio, sessenta watts. O espelho encara a nudez do meu reflexo. O banheiro fede. Quase duas. Ofertas de sexo reclamam espaço nas portas. Fede à masturbação. A água do chuveiro é fria. A nudez encara o reflexo no meu espelho. Azulejo azul, rejunte com restos de pressa e máculas na cor. Meu pé descalço esquenta o chão gelado. O espelho encara. Cabelos no ralo. Fede à sexo. Sessenta watts, cento e vinte hertz. A janela trancada pela oxidação. Uma e tanto da madrugada. O branco da pia fede. Restos de ofertas me encaram. A cor do azulejo tem máculas de água ardente. Oxidação tranca as torneiras. O branco da pia tem restos de masturbação. A cor do azulejo tem máculas de azul. Fede a restos. As portas reclamam espaço. Um pouco antes das duas. Reflexos no ralo. Meu espelho, algum reflexo. Sexo. O espaço reclama restos que as máculas no espelho encaram como a minha nudez. Cento e vinte hertz, duzentos e vinte volts. Uma e quarenta e cinco, água ardente. 
Preciso dormir, é demasiado tarde…

UM RASGO, UMA PREGA >> Sergio Geia

Minha calça rasgou. 
Okay, tudo bem, você deve imaginar “que grande acontecimento; com tantas preocupações sérias, a reforma da previdência, a falência das universidades federais, ministros batendo cabeça, trapalhadas políticas mil, o sujeito me aparece aqui e começa uma crônica dizendo que sua calça rasgou! Ora bolas! E eu com isso?” Acalme-se, amigo, relaxe um pouco. É uma simples crônica. Minha intenção é exatamente essa: fazer com que você esqueça um pouco dessas mazelas, dores de cabeça cotidianas que ultimamente tornaram-se “crônicas”, enxaquecas belicosas que só elas, e venha para o universo das “crônicas”, as verdadeiras, as originais, understood? Assim, esclarecido tudo, imagino, que tal nos divertirmos? Vamos? 
Pois minha calça rasgou. 
Não foi a primeira vez. Da primeira vez, minha mãe, que pouco enxerga e ouve mal, ao ver o pequeno rasgo na altura do zíper — não me pergunte como ela viu —, se assustou meio assim: “Cruzes! Você está com a calça rasgada?”. Fez-me sentir um …

IDADE >> Whisner Fraga

Ele estica a vista, procurando a faixa.

O carro relincha e o homem atravessa a rua.

Um sol rosa vai desocupando o dia.

O homem é velho, mas alcança a outra calçada.

Ele está sem o chapéu. A julgar pelos indícios na testa, raramente sai sem o chapéu.

O velho passa por um estacionamento e está no supermercado. Comprará ovos, azeite e macarrão. Um vinho suave também.

O velho se demora na seção de xampus, mesmo tendo os cabelos ralos e curtos. Perto, uma mulher pinça um condicionador. Ele diz que não adianta, que nada adianta. Ela se sobressalta, mas o assunto não evolui.

Tenta o calor. O calor é sempre um tema que todos dominam. Até que desiste.

Dali a pouco, quem sabe a novela e o sono avassalador antes do primeiro comercial.

Parece gostar do caixa. As filas longas lhe dão oportunidades de novos palpites, a iminência de outras vozes.

Alguns minutos e está novamente na calçada, prestes a pisar a faixa. Um carro para, espera que o velho cruze com segurança.

Os passos lerdos vão puxando to…

ENLEVO >> Carla Dias >>

Percebe-se em êxtase.
Porque nele tudo vibra, de dentro para fora, até o ar lhe falta. Ao tentar retomar o fôlego, os lábios são inundados por uma saudade reverberante pelo nem sabe o que ou quem. Saudade que lhe cutuca o choro. Dá um desamparo que ele não reconhece. 
Não é saudade do beijo, mas sim do passeio, onde o tempo se torna macio, de maciez que poucas coisas – e pessoas – têm nessa vida.
Até há pouco, sentia-se certo sobre a capacidade de dominar sentimento. Não havia emoção que lhe fizesse desandar a racionalidade, que o arrastasse aos confrontos sobre temas desconhecidos. Ele sempre foi de cuidar do modo como reagia às coisas, aos acontecimentos, às pessoas. O que acontece agora é um desatino, um desvio de rota.
Percebe-se em êxtase. Não do êxtase moldado às buscas que escolheu, tampouco do que prenuncia conquista mediante esforço. Está habituado a receber afeto feito pagamento por ações. Compensação ele entende e aprecia que ela seja controlável. 
Não isso... não o que lhe…

SERIA UTOPIA? >> Clara Braga

Basta que uma pessoa levante um questionamento para que a gente perceba algo simples: mesmo quando o objetivo é o mesmo, os caminhos são diversos. E quando você conhece os caminhos das outras pessoas, pessoas que você antes julgava tão parecidas com você, aparece um novo questionamento: existe um único caminho certo?
Uns dirão que sim, o caminho certo é aquele e todos que vão contra estão errados!
E estar errado ou certo tem relação com quantidade de pessoas que pensam daquele jeito? Poderiam 1.000 pessoas estarem erradas e 1 estar certa? Se uma pessoa disser que sim, logo as outras 1.000 estão erradas.
Mas eu sei que estou certa, li naquele livro, aquele autor não mente! E quantos outros sinceros autores não disseram o contrário? Bom, mas eu prefiro acreditar naquele, que para você não tem credibilidade. Mas afinal, o que é a credibilidade? É ser mais velho? É ter mais livros escritos? É ter mais acessos no youtube? Ou credibilidade já tem sido dada por pura conveniência?
Cada um te…

LUZ E FOME >> Albir José Inácio da Silva

No princípio o que não mata engorda. No princípio tem que matar pra comer. Matar o dente-de-sabre, o mamute, o unicórnio, a preguiça e o jacaré. Matar o próximo também que a proteína é pouca e é melhor comer que ser comido.
Não existe ódio ainda, apenas fome.
O ódio surge depois por causa das diferenças: famílias diferentes, tribos diferentes, deuses diferentes, raças diferentes. E nunca mais ele foi embora.
Foi então que a luz apareceu lá na Grécia: convivência, ágora, virtude, bem-comum, ética, beleza. Passou por Roma e chegou a Belém de Judá. E os crentes já não queriam matar os inimigos, antes convertê-los ao bom Deus.
E aprendem amar o próximo, orar pela sua saúde, dividir o pão e a fome, a dor e o gozo, a colheita e a praga. Cuidar dos filhos que não são seus e acolher o estrangeiro. Estender a mão e levar a mensagem de paz e amor aos quatro cantos do mundo.
Mas vem a noite de mil anos. Fome, peste, tortura e morte na fogueira em nome da cruz. Grilhões, impostos, primícias e m…

IMPRESSO NO CORPO>> Cristiana Moura

Era um evento lindo — Festival Internacional de Arte de Rua de Lyon. Eu estava eufórica de tanta
beleza! Grafites adentrando-me o corpo todo pelo olhar. Cores e formas doando -me sua vitalidade.
Havia três tatuadores de plantão no festival. Sempre pensei que tatuagem há de ser algo muito pensado. Vejam bem, não é uma decisão banal. Fiz minha primeira tatuagem após os quarenta anos de idade. Decidi a imagem que queria em minha pele e, Tereza Dequinta desenvolveu. Gostei, mas ainda queria mais movimento. Ela a refez e ,de repente, foi como se Tereza tivesse entrado em meu pensamento e transformado meu sonho em gestos leves gravados em linhas — arte para minha pele.
Mas era um festival. A experiência de intercâmbio pós juventude a criar uma bruma leve nas possibilidades temporais dos possíveis. Sou impulsiva. Mas não para tatuagens. Estas a gente cria devagarinho como a obra de Tereza em minhas costas.
— Vou fazer uma tatuagem! — Pois vou filmar tudo — disse Shana, uma recém amiga e ót…

OS ESPERANTES >> Zoraya Cesar

O restaurante funcionava no último andar de um prédio comercial – prestigiadas bancas de advogados; cassinos clandestinos para clientes classe AA; agências internacionais de detetives; médicos que cobravam mais de três mil reais a consulta; start ups de informática high tech; filiais de empresas off shore e outros movimentadores de dinheiro, nem sempre legais -, e ficava aberto 24 horas. Sua decoração era requintada, em tons escuros de madeira, mármore, ferro batido. As toalhas e guardanapos eram de linho, louça da Wedgwood, copos da casa Bormioli Rocco. Mais clássico, impossível.
Poucos sabiam de sua existência, parecia a fachada de um grande escritório. Mas era como um clube - com o já citado restaurante, sala de leitura e descanso, biblioteca - e dos mais reservados, frequentado apenas por sócios indicados por outros sócios. 
E quem eram essas pessoas? Se dissermos "qualquer um que...”, estaríamos incorrendo num erro de definição. Ninguém naquele clube poderia ser classificado c…