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Mostrando postagens de 2019

PHAROPHA>>Analu Faria

O brasileiro é cordial. E chique. O brasileiro é um cordial chique. Ou talvez a classe média seja chique. Cordial e chique. Talvez a classe média seja seletivamente cordial. Mas definitivamente é chique. 
A gente é (também me incluo na categoria) uma classe média cordial (ma non troppo) e chique. É por isso que há um tempo a gente resolveu que "vai estar fazendo" alguma coisa no futuro e não que "vai fazer". É por essa mesma razão que, depois de descobrir que " estar fazendo" tornou-se coisa comum para o pessoal do telemarketing (e o pessoal do telemarketing não é chique), a gente também deixou de usar gerúndio. A gente confundiu gerúndio com gerundismo. Então "estamos trabalhando" foi banido, mesmo que neste momento a gente err... esteja trabalhando. 
Entre os profissionais do Direito, então, nossa! é uma chiqueza danada! A gente (porque, novamente, eu me incluo na categoria) adora uma inversão de ordem na frase, tipo: "Sabe o réu que…

CONVERSA FIADA >> Carla Dias >>

É apenas conversa fiada. 
Você está aqui para uma breve, porém inconveniente conversa fiada. Ela fiada nas cruzes fincadas em terras que você conhece somente por telas e manchetes. Por seus pés nunca terem pisado nelas, sentido a umidade deixada ali pela garoa, imagina que aquele lugar é um lugar nenhum, porque a distância é um ansiolítico eficaz para aqueles que preferem não se envolver com a realidade descabida.
Não estou aqui, com essa conversa fiada, para lhe culpar pelo o que seja. Eu mesma ando com algumas distâncias a tiracolo. Porém, elas são íntimas e remetem somente ao meu questionamento. Não é distância que me leva a observar tragédias como se elas não tivessem acontecido. Não é distância que me torna capaz de abraçar indiferença pela miséria do outro. Não é distância que me nega a ciência de que aquele lugar nenhum é um lugar ao qual também eu pertenço. 
Prepotência do ser humano achar que somos divididos em lotes. Quando tem de vir, o inesperado, o improvável, o intolerá…

NO EMBARQUE >> Clara Braga

O local: aeroporto internacional de São Paulo.
Situação: eu e minha família estávamos aguardando o vôo de volta para Brasília que atrasou duas horas! Sim, duas horas de espera, tentando convencer uma criança de 2 anos que a espera do embarque do aeroporto é um lugar super legal para brincar, depois de uma semana participando de um congresso, enquanto nas cadeiras ao lado um dos jurados do MasterChef fazia flexões.
Enquanto andava atrás do meu filho ouvi meu pai comentando sobre alguém que estava próximo de nós, mas no momento não consegui identificar quem era. Logo depois vi uma moça arregalar os olhos, se agarrar na blusa do marido e dizer: meu Deus, não estou acreditando!!
Comecei a ficar bem curiosa, mas enquanto mantinha um olho no meu filho não consegui, com o outro olho, encontrar ninguém que me parecesse familiar.
Mais a frente vi um funcionário do aeroporto correr para trocar de posto com a outra funcionária que acabara de atender a tal celebridade e que dizia não saber de qu…

sobre bruxas e pintoras >>> branco

bruxa de pele sensível você não foi a minha primeira escolha mas por ser a última prova que todas as outras estavam erradas
seu rosto sujo de tinta e o pincel em sua mão mostram que você é a artista e enquanto pinta suas telas pessoas falam e carros buzinam lá fora formando outro quadro o da cidade e seus problemas mas volto a você eu - o poeta - parado em pé próximo da porta observando você deslizar por entre os cavaletes
bruxa de rosto feliz ainda não sabe que a cada sorriso me mostra que o mundo - aquele mesmo - lá fora pode ser mais bonito
nós não sabemos quase nada dos mistérios da vida mas compartilhamos o pouco saber e gargalhamos em nosso aprendizado
e finalmente quando nos deitamos  - abraçados -   só nós podemos nos ouvir palavras sussurros  - ternuras e gentilezas -   você coloca a cabeça no meu ombro para um descanso do amor - em estado de perfeita paz -  ainda sem perceber  que seu quadro mais belo está terminado pois com sua pele toque alma e espírito pintou minha vida …

SEU SERENO ME DESCOBRIU >> Fred Fogaça

Há duas semanas postei o caso de Seu Sereno e, coincidência, hoje tem mais. 
Não era senão hoje cedo, sexta-feira e eu em casa, me ocupando de me preocupar com mundanices a que se está sujeito plena semana útil, quando recebi uma ligação de número privado que, quase como geralmente, não atendi. 
Tem uma coisa: se você faz uma ligação plena pós-verdade liquida, você tem que ter coragem. 
Fora que eu, democrático de costumes, não atendo a nenhuma. Não fosse, nessa ocasião, um quê de tédio e um certo pressentimento.
Com que aparatos não se preza a discrição? Uma velha conhecida, com celular descartável só para caso de, falando que tem uma estória pra mim.
Levonor, cheia de casos. 
Já imaginava.
Talvez, mas eu não posso confirmar pra vocês, seja questão de tradição. Donde vem tais Gestrel? Não ligo sobrenome à nacionalidade, mas imagino um aconchego. Tenho de me lembrar de perguntar isso a ela.
Seja como for, estranhei a cautela: ela tem esse entusiasmo natural pelas pessoas, suas ligações e desa…

LYGIA >> Sergio Geia

Aos domingos tomo café em uma padaria que fica ao lado de uma livraria. Da minha mesa vejo pessoas chegando e parando em frente à vitrine para observar os livros. Não são poucas as que cultivam esse hábito. Curioso: jovens, em sua maior parte. 
Poucas coisas me dão mais prazer que um livro em mãos, um lugar bem iluminado e arejado, uma boa história. Mas livro livro, ou seja, de carne e osso, você entende. Sou daqueles que igual a muitos tem um tesão pelo cheiro do papel, pelo tatear, pelo movimento de virar página ou voltar, a perspectiva de tê-lo em minha mesinha de cabeceira para, sempre que quiser, dar uma olhada. 
Talvez as livrarias não resistam, muitas estão fechando, mas o livro de papel, esse sim há de resistir. Muitos títulos que procuro numa livraria física, eu não encontro, só sob encomenda. No mundo virtual eu acho o que eu quero, comparo preços, peço, eles chegam até mim. Fácil; e paradoxal. Seria uma explicação para esse funeral coletivo de livrarias?
Noite passada t…

DESLUMBRAMENTO >> Paulo Meireles Barguil

 Há alguns dias, ela estava lá.

Eu tinha passado algumas vezes do lado, mas, distraído, não a tinha visto.

Antes dela, outras já tinham nascido e morrido: descobri isso quando olhei para o chão.

Estupefato fiquei: seja pela sua beleza, seja pela minha cegueira.

Ah, quantos encantos eu perdi...

Espero que, cada vez mais, a diminuição do ritmo da caminhada me possibilite apreciar o sublime. Ah, como ele é fugaz: quando a procurei na manhã seguinte, ela já havia envelhecido...

[Eusébio – Ceará]

[Foto de minha autoria. 26 de julho de 2019]

MAL-ESTAR >> Whisner Fraga

a menina se queixa: o semáforo empaca com sua ordem vermelha.

a menina buliçosa.

o que foi, menina?

uma desordem lhe esmurra o estômago. pede que cheguemos logo.

a menina quer alívio.

o carro trêmulo nas ruas irregulares.

a menina não tem mais tempo e vomita e chora.

há um milagre que colha a dor e a traga para o fim?

o médico prescreve algo para um desarranjo qualquer.

criança é assim (é assim?), não se preocupe, vai passar (vai?).

vai passar, tudo vai dar certo.

criança é assim.

não há certeza a não ser esse deus que nunca se pronuncia.



CENÁRIO >> Carla Dias >>

Não nasceu para isso. Fazer o quê? Enlouquecer é que não. Nasceu para outras coisas: inventar histórias, criar canções, reverberar ideias, apaziguar angústias. Mas onde mesmo isso tudo é poderoso o suficiente para se colocar acima dos boletos vencidos e das tragédias diárias que assolam salas de espera e estações do ano? Nem precisam ser dele, as tais tragédias. Ele as identifica onde estiver, basta dar liberdade à própria atenção, que, insolente, às vezes o leva aos prantos, transformando-o em espectador impotente.
O mundo lhe causa espanto. Não sabe lidar com ele e a diversidade de suas camadas de desencantamento e luxurioso contentamento. Não irá chorar por perdas reversíveis. Não gastará seu pranto com construções alicerçadas em frágeis terrenos. O que realmente lamenta é a indiferença. Indiferença fere seu espírito, insulta sua existência. Ele enxerga na indiferença uma poderosa maneira de se liquidar felicidade.
É um pouco daquilo que seu avô costumava dizer, um cigarro apagado…

ESTRANHOS DIÁLOGOS >> Clara Braga

Na sala do médico fazendo exame para renovação da carteira de habilitação, esperando ele terminar de assinar toda a papelada necessária para liberar minha renovação. Então o médico começa aqueles diálogos estranhos, mas necessário, só para não ficar um silêncio incômodo. 
- Então Clara, o que você faz da vida? 
- Sou estudante, curso Artes Plásticas na UnB. 
- Ah, bacana (com cara de quem não acha bacana)... Quem na Globo fez Artes Plásticas? 
- Oi?! (perguntei não porque eu não entendi o que ele perguntou, mas porque eu não entendi o que ele quis dizer com isso... será que ele estava dizendo que eu só tinha escolhido esse curso porque alguém na Globo escolheu?) 
- É, quem na Globo fez Artes Plásticas como formação acadêmica? 
- Não sei, acho que ninguém... (ainda sem entender) 
- Como ninguém? Claro que alguém fez! 
- É... alguém deve ter feito e eu não sei quem foi... (preferi responder assim para não alongar muito o assunto) (... alguns minutos de silêncio depois...) 
- Artes Plás…

ACORDA, MENINO! >> Albir José Inácio da Silva

Imagem encontrada na internet


O que diz o menino que dorme na praia? Talvez fale dos perigos do mar, da displicência dos pais. Ou de um assassinato a ser esclarecido.
Mas é só um menino. Não deveria nos dar esta sensação de naufrágio da humanidade. Há dias, não adianta acusar governos, etnias, religiões, porque a falta de ar não cessa.
É lágrima que não pinga, não seca nem escorre. É mais que um cadáver, é um assombro, uma dor insepulta de que tentamos nos livrar.
E ainda suspeitamos de nós mesmos. Em nome dos deuses fazemos coisas que até o diabo duvida. 
Duvida e se defende, dizendo que não chegaria a tanto, embora comemore o resultado.
Queríamos não ter visto nem sabido — maldito fotógrafo, maldita web e maldita imagem que, mesmo escorraçada da memória, dorme no tapete da sala e à noite repousa no nosso travesseiro, naquela pose mesma que o mar beijava.
Fica-nos a sensação de que Alá deu de ombros, Jeová lavou as mãos e, embri…

UM AMOR QUE PEDIU PARA SER ESCRITO << Cristiana Moura

Os sons do mundo — são muitos e emaranhados os sons. Sou uma pessoa que deseja, de forma verdadeira e intensa, abaixar o volume do mundo. — Por favor, abaixa um pouco o som; — Ei, abaixa essa TV!; — Porra, está muito alta essa música! São algumas das frases que me acompanham desde a adolescência e se fazem presentes no meu dia a dia nem que seja só em pensamento comigo mesma. Em outras palavras, sou aquele tipo de pessoa que, muitos, facilmente designam: chata.
Então ele diz: —Minha filha, é porque você é sensível.
Sua fala me acaricia os sentidos. Sua palavras sábias aquietam minha dificuldade de calar. Minha remota e presente infância paulistana ganhou outros ares e liberdade de brincar e andar de bicicleta na sabedoria paterna de acampar. Ele ensina ao mesmo tempo que vive. Ensinou-me que viagem começa não quando a gente chega no destino, mas quando a gente sai de casa. E desta forma aprendi o que muito tempo depois li em filósofos orientais, que o caminho se faz ao caminhar.
Sou …

A AMANTE - - Zoraya Cesar

março 29, 2013 D. Tidinha era da época em que, uma vez casada, sempre casada. Assim fora criada, assim crescera e assim casara. O noivo, Aristeu, era de família tradicional, funcionário de carreira do Banco do Brasil, dez anos mais velho, um partidão, para os padrões da época.
Mas o tempo revelou que, como marido, Aristeu era um safardana. Aristraste, falava D. Tidinha (Matilde, para os não íntimos) com seus botões, com as panelas, as paredes, o berço dos filhos.
Sim, filhos, porque no mundo em que vivia D. Tidinha uma mulher não podia se furtar aos deveres conjugais. E se Aristeu era chegado às jogatinas, bebidas e farras, era chegado também ao corpo de D. Tidinha, que, mesmo depois de dois filhos, continuava impecável, com sua cinturinha de vespa. Aliás, falemos logo, para não deixar dúvidas, D. Tidinha era mesmo – e o foi a vida inteira – muito bonita.
E, para dar ao Amigo Leitor um quadro ainda mais realista, revelamos que Aristeu jogava tanto quanto perdia. Não poucas vezes D. Ti…

TEMPO, MANO VELHO>> Analu Faria

Se me perguntassem hoje o que eu mais quero ter, certamente "tempo" ficaria entre os meus top 5 desejos de mulher urbana. Minha última crônica foi sobre como ter tempo faz diferença para nossa qualidade de vida. Com tempo arranja-se algum dinheiro, diverte-se, estuda-se, conhece-se, ama-se, goza-se, não necessariamente nessa ordem, mas de forma mais completa. Se fosse vendido, o tempo seria um dos artigos mais caros das lojas de grife da Champs-Élysées. Deus sabe que eu daria meus pulos para comprá-lo. 
O problema é que o tempo é terrivelmente gratuito. Na sua distribuição, aliás, está a grande generosidade e a grande maldição do Universo sobre nós, humanos:  todos temos 24 horas para gastar, independente de nossas capacidades, malgrado nossas necessidades. (O tempo não é nada marxista!*)  Desconfio que é por isso que o tempo é tão sábio: quem sou eu para achar que preciso de mais tempo que meu vizinho? Que coisas eu preciso fazer que meus pares também não precisam, com o t…

NÃO O SUFICIENTE >> Carla Dias >>

Sentado à mesa, cercado por tantos. Entende bem o que acontece ali, mas é experiente em enganar os próprios sentidos, mesmo não gostando dessa qualidade da qual não consegue se livrar. Vale-se dela sempre que a oportunidade se apresenta. É um talento. Um incômodo talento.
Permanece ali, os braços cruzados, a cabeça levemente inclinada, como se observasse o cenário que se estende além. 
Já conhece as manifestações que se alardeiam, durante esses encontros sociais. Na verdade, compôs uma canção, certa vez, com uma inquietante letra gerada de combinações de algumas delas: não cabe aqui, não serve para isso, não orna com aquilo, não é sua culpa, mas não vai dar certo.
É bom, só que não o suficiente. 
Não ser o suficiente é meio que o slogan da vida dele, alguém considerado nada suficiente, até mesmo quando transborda. Acostumou-se a ser visto dessa forma.
A tal canção tomou conta dele. É capaz de cantá-la de trás para frente, formar novos versos, bagunçar as palavras e, ainda assim, elas…

=) =~ =( >> Clara Braga

Depois que mudei de trabalho precisei estar mais ativa nas redes sociais. Como nunca entendi muito bem de rede social, precisei começar a estudar assuntos que não faziam parte do meu universo. Claro que venho tendo muita dificuldade para entender certas coisas, como o tal do algoritmo, mas já domino outras que antes não entendia.
Entre as situações nas quais venho tendo dificuldade está a comunicação. Nunca imaginei que esse seria um problema, mas aprendi que uma das formas de melhorar seu engajamento é sempre comentar postagens de outras pessoas e nunca deixar de responder comentários que fazem nas suas postagens. Até aí tudo bem, mas vocês já passaram um tempo lendo comentários de postagens de redes sociais?
Me pergunto o que aconteceu com as palavras! As pessoas não usam mais palavras para comunicar algo, usam apenas emojis. Alguns emojis são bem fáceis de compreender, o rostinho com olho de coração não tem como ser algo ruim, bem como o rostinho com olho de estrela. Os polegares …

meu madrigal >>> branco

a neblina desce sobre o campo
e cobre a menina que segura a orquídea
a grama molhada suja seu vestido branco
tempos de violência
não existe clemência para os inocentes
enquanto o metal cromado é apenas perceptível
o estampido e o brilho de mil sóis clareiam momentaneamente a cena
atravessando a paisagem translucida
o corpo pequeno descansa no chão
não tenha medo criança
agora você jamais vai conhecer a dor
ou o passar dos anos
e poderá correr sem se cansar
pelos campos floridos em lilás

BIANCO SERENO, SR. >> Fred Fogaça.

A estreia era perfeita até ontem. Tinha esse personagem que já queria construir, um velho de rabugência seletiva. Tinha um texto todo. Escrito quase pronto. Mas inadvertidamente deixei descansar em guarda baixa – quanta inocência – acordei desapontado, como previsível: mas não surpreso. Bianco. Bianco Sereno. Seu Sereno, cá pra nós. Que aparentemente assumiu o próprio arquivo e apagou. Quer dizer, se apagou. Seu Sereno não reserva arrependimentos e isso diz muito sobre ele. Sabe que mais diz muito sobre Seu Sereno? Que ele apagou tudo, tudo senão uma primeira frase. Tudo senão o que dizia, de começo: sem tempo pra esse negócio de estreia. Seu Sereno maldiz novidades. Seu Sereno, sem tempo, com a sua pá, cava coisas práticas. Seu Sereno meandra pelo húmus, enquanto cava o tempo por coisas práticas. Seu Sereno com seu húmus cresce alguns sentidos, espicha algumas outras novidades. Mas nunca estreias. Seu Sereno maldiz estreias. Seu Sereno é, que me lembre, cético: como no sobrenome, sereno, ele …

TRADUÇÕES >> Sergio Geia

Um caminhão chama a atenção do morador-tradutor, oitavo andar, dez pra seis. 
O movimento é estranho, incomum na avenida letárgica. 
Filme: com o motor apagado, ele está de esguelha, a caçamba para sua mão, a cabine para a outra, como se quisesse fazer o movimento de retorno — irregular naquele trecho —, mas que parou no meio do caminho. 
Decerto almeja fechar a rua, impedir a passagem. Decerto estão assaltando o banco da praça, especula o morador-tradutor. 
Mas há também um movimento estranho nas imediações, nos fundos da casa abaixo, bem na frente de onde o caminhão enregelou. 
Pessoas chegam, corre-corre danado, algumas invadem o grande salão que de uns tempos para cá virou espaço para aulas de capoeira. 
Decerto estão conluiados com os homens do caminhão, com a bandidagem que assalta o banco, ele prossegue em suas especulações. 
Mas na casa verde, do lado de lá da rua, também na frente de onde congelara o caminhão, uma senhorinha e uma enfermeira (imagina ser uma enfermeira pela …

TENTATIVAS >> Paulo Meireles Barguil

Não sei quando decidi que queria morar em um local no qual eu tivesse maior contato com a natureza e os seus encantos. Ignoro também os múltiplos motivos que me levaram a tal desejo, embora identifique alguns: tanto os de natureza expansiva, quanto os de cunho retrativo. A 1ª tentativa, por volta dos vinte e poucos anos, foi uma grande frustração por vários fatores: seja porque foi curta; seja porque não consegui efetivamente morar no "meio do mato"; seja porque tive que voltar a morar em Fortaleza contra a minha vontade. Mirando a metade do século de existência, decidi me presentear com aquela antiga vontade. Compra do terreno, elaboração do projeto arquitetônico, construção da casa e, então, a mudança: em cada uma dessas fases, desenvolvi habilidades insólitas para mim. Há alguns meses, venho convivendo com novos vizinhos e inquilinos: sapos, grilos, vaga-lumes, corujas, borboletas, pombos, formigas, lagartas, calangos, maribondos... Os sentimentos que eles me causam são …

ESCRITORA >> Whisner Fraga

a menina vigia as linhas que deformam a folha, decanta o inóspito vocabulário do desalento.
espio a cabeça debruçada no escaninho do inconcebível: dói por todos os poros um tom de desordem.
e a desordem tem gesto de pedra.
a menina maneja a caneta contra o repugnante silêncio do mundo: ela não quer que a história expulse o desconcerto.
escreve um céu arranhado por fumaças de fósseis metálicos inebriados de potência.
a menina quer uma história de piscinas, parques e férias e fatia a realidade em compreensões serenas.
atrevo a mão até os cabelos e um sorisso rompe a casca do isolamento.
pai, continua, continua, pai.
a menina lê um gato gripado, um gato só, um gato abandonado.
pai, continua: despejo a mão sobre a franja.
vamos, eu digo. vamos, e ela aceita o pedido ritmado.
a menina está ao meu lado e já escorrega e já dispara e já pula e já se cansa e vem se debruçar sobre um acaso de tábuas. aos poucos escala meu colo.
depois saca a caneta e a acarinha: pai, me conta uma história.




SIGNIFICAÇÃO >> Carla Dias >>

Meus pensamentos não querem mal a você. Quem sabe até eles se encaixem nos seus, formando assim uma daquelas conexões improváveis, porém afortunadas.
Quer dar a eles uma chance?
Minha inspiração não se assanha com a vida porque quer ofendê-lo. Ela escorrega pelas ruas dos sentimentos. É temperamental, abusadamente libidinosa. Não é de distribuir ofensas, mas de cometer deslumbramentos.
Quer escutá-la?
Minha crença no outro é iludida diariamente. Ainda assim, não consigo ignorá-la, porque quando acontece de ela ser real –  leal –, a miséria se torna algo que somos capazes de combater. Miséria da fome – de tantas fomes. Miséria da compreensão – de tantas compreensões. 
Quer experimentá-la?
Minhas batalhas em nada têm a ver com a sua derrota. Não construo conquistas nos ombros dos desesperados. Quando o desespero é meu, eu o carrego até ele desistir de mim. Também acontece de eu desistir dele. 
Quer compreendê-las?
Minhas palavras não se combinam a fim de desmerecê-lo. Na verdade, elas …

MÃE EMPREENDEDORA >> Clara Braga

Atenção, atenção! Você está cansado de perder seu tempo com dietas da moda que te fazem perder muito peso rapidamente e ganhar tudo em dobro logo no mês seguinte? Já perdeu as contas de quanto dinheiro gastou com mensalidade de academia que você nunca frequentou e ainda renovou a matrícula quando ligaram oferecendo uma super promoção só para evitar o peso na consciência, afinal, de pesado já basta você?
Pois seus problemas acabaram e essa crônica não é uma propaganda de produtos tabajara, é mais um relato real de uma mãe tentando ser empreendedora e criando a nova modalidade que promete ser revolucionária: CROSSFILHO!
As vantagens do CROSSFILHO são: você não precisa sair de casa para praticar, aliás, dizem até que é mais eficiente dentro de casa mesmo; você não paga mensalidade; e o melhor de tudo, mesmo que você tente, não tem como faltar a aula e simplesmente deixar de praticar.
Nessa modalidade revolucionária fazemos exercícios como agachamento de brinquedos, que nada mais é do qu…

NO MUNDO DA LUA >> Albir José Inácio da Silva

Há cinquenta anos, em meio a chuviscos e ruídos da tv a preto e branco, o homem pisou na lua, mesmo que alguns não tenham acreditado e até hoje não acreditem.
Mas aquelas imagens não assombraram meus olhos infantis, habituados que estavam à série “Perdidos no Espaço”, narrativa pródiga em cenas de planetas distantes, espaçonaves e extraterrestres amigos ou inimigos.
A nave em que viajavam – Júpiter II – era mais avançada que a Apolo 11. O painel, entretanto, era decorado com lâmpadas coloridas, de bulbo – dessas que já não se fabricam mais.
A realidade imitando a ficção ajudavam a me manter no mundo da lua e eu aterrissava raramente e só de passagem pelo ano da graça de 1969. Enquanto o mundo assistia, além da alunissagem, ao recrudescimento da guerra do Vietnã, ao Festival de Woodstock e ao horror do assassinato de Sharon Tate pela família Manson.
No Brasil também, enquanto se comemorava o feito norte-americano, um “grande salto para a humanidade”, e voávamos nas asas da ficção das …