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Mostrando postagens de 2019

FELIZ ANO NOVO! >> Clara Braga

Sempre que chega o fim do ano sinto que devo escrever sobre o ano novo. Claro que essa não é uma obrigação formal, eu poderia falar sobre qualquer coisa, mas ainda assim, algo dentro de mim me faz pensar que se eu usar esse dia, o último de uma década, para falar de qualquer coisa que não seja dele, eu estaria perdendo uma grande oportunidade. Esse ano, além de ter sido um ano um tanto diferente para todos, foi também um ano de mudanças pessoais significativas que exigiram de mim coragem e paciência. E, claro, toda mudança nos faz crescer, aprender e, consequentemente, mudar nossa visão sobre alguns assuntos. Esse ano, curiosamente, mudei minha visão sobre o fim do ano. Sempre que falo sobre o ano novo reforço a ideia de que você não deve esperar o ano virar para mudar hábitos e planejar novas metas. Todos os dias das nossas vidas são uma nova oportunidade de recomeçar. Continuo acreditando nisso, mas não acho mais que o ano novo em si, os dias 31 e 01, sejam exatamente iguais

O MARTELO DO BEM - Final >> Albir José Inácio da Silva

(Continuação de 16/12/2019) Zé Pedro vai à cozinha e volta com uma lata que despeja sobre as duas. O querosene que escorre para o chão está vermelho de sangue. O interrogatório continua, agora com a caixa de fósforos nas mãos. - Vocês são loucos! - E vocês são bruxas! Onde está o menino? Zé Pedro risca o fósforo. Zé João assopra a chama e arranca a caixa das mãos do outro. - Não somos assassinos! Queremos justiça! Vamos achar o menino. - Isso se ele já não foi sacrificado em algum ritual! – protestou Zé Pedro. Como se tivessem combinado, as duas se levantam ao mesmo tempo e atacam, mas são novamente derrubadas a socos e pontapés. - Não querem ser macho? Então podem apanhar como homem! – grita Zé Pedro. Déti veste pijama e Margô, camisola. Num tom de generosidade, eles sugerem que elas coloquem mais alguma roupa. Mas elas recusam, dizendo que não vão a lugar nenhum. Zé Antônio amarra as duas pelos pulsos e as obriga a se levantarem. Cambalea

LIQUIDAÇÃO DE CORPOS >>> Sandra Modesto

L eio as notícias pela internet.  Olho observando incrédula.  Há alguns vídeos e imagens.  “Quem quer mais?”  Um monte de gente pedindo:  “Por favor, manda mais”.  Desço a tela. Não é tela de pintura. Não é tela para proteger animais. É uma realidade roendo meus diários. Pessoas mortas. Espancamentos.  Domingo tem missa, tem reza, tem prece, tem oração.  Cristãos vestindo camisetas com a estampa: “Jesus salva”  Depois estanca,  Depois de tudo,  Ficou um pouco. Um pouco de sangue na calçada. Um pouco de muita esperança despedaçada.  Ficou um pouco de cheiro dos destroços. Muitos choros espelhados e rimas tristes.  Famílias cheias de dor. Acreditar em mudanças em 2020?  É querer demais. Vou estocando minhas palavras. Quem sabe um novo livro...  Enquanto relembro do sangue, muito sangue, muitos tiros. Oitenta.  A menina que queria ser bailarina morava na favela. A mãe chora. O pai chora. A menina era preta. Amar alguém do mesmo sexo, n

POSSO TECER MEMÓRIA E DESEJO? >> CRISTIANA MOURA

Amanhece chovendo na terra do sol. O vento e o som da chuva adentram o apartamento como que para me acariciar a pele. Lembro-me da noite chuvosa e mágica de chamegos  pele-a-pele contigo. Lembranças destas que são tão vivas que tem gosto, que tem cheiro. Aqui chove ao mesmo tempo em que faz sol. Daqui há pouco, vou procurar um arco-íris. É que arco-íris são ladrões de sorrisos. Quero arrematar as lembranças do teu cheiro, dos momentos vividos, com fios coloridos de arco-íris e começar a tecer um manto, uma colcha, uma almofada, nem sei. O que quero mesmo é saber tecê-las sem medo de não ter garantias. Mesmo que eu conheça sobre a mistura e composição das cores, não sei se vai chover nem se minha tessitura será útil, ou se, mesmo que inútil, será bela, alegre e viva! E, em meio a desejos e dúvidas, olho  o arco-íris por entre os prédios. Sorrio. O  que posso dizer agora?   — Até mais (espero).

O VELHO PADRE E OS PRESENTES DE NATAL >> Zoraya Cesar

A construção parecia bastante antiga, um pouco gasta, um pouco velha, um tanto... convidativa? P ois emanava uma tal energia de amor e acolhimento que seria impossível, mesmo ao transeunte mais distraído e apressado, mais empedernido, mais sofrido não se sentir estranhamente compelido a entrar naquela pequena igreja.  Apressado e distraído O rapaz seguia apressado, o celular na mão, cabeça inclinada num ângulo que prenunciava graves problemas cervicais. A temperatura estava quente e abafada; ele suava, mas, de tão concentrado, nem se dava conta da sede e do desconforto. Ao passar pela porta, no entanto, um brisa gentil envolveu-lhe o corpo, refrescando seu constante estado de excitação febril. A sensação foi tão impressiva, que ele, momentaneamente, levantou os olhos da tela.  Foi o suficiente. O encantamento surtiu efeito imediato. Como era para ser.  E ntrou, cauteloso, ainda desacostumado à diferença de luminosidade. De repente, um enorme gato preto, preto, pr

O DIA EM QUE UMA MENININHA MATOU O PAPAI NOEL >>> Nádia Coldebella

ENTÃO CHEGOU O DIA. Papai. Mamãe. Titio. Titia. Primo. Irmã da vovó que também era tia. Vovô. Vovó. Madrinha. O mundo todo. Ela. Música, conversa, comida. E mais tarde o Papai Noel.  Aninha achou que tinha muita gente, gente muito agitada.  Arte: Nádia Coldebella Então é Natal e o que você fez? O ano termina e começa outra vez... A professora tinha explicado que o Natal era tempo de expressar amor. Ela ouviu atentamente e mesmo não conhecendo aquela gente, abraçou todo mundo. Aninha estava animada para ganhar a boneca. Tinha se comportado direitinho. Contou para a madrinha, que não prestou atenção porque escutava o papai. Ele explicava baixinho porque o primo não tinha vindo. Ele não aguentou, disse o pai, e aí deu um tiro na cabeça.  Um tiro na cabeça devia machucar bastante...  Aninha sentiu um nó na garganta, mas não entendeu porquê.  Então é Natal, a festa cristã. Do velho e do novo, do amor como um todo... A professora explicou

DISTÂNCIA >> Carla Dias >>

É o que acontece quando se deixa de ser o espectador, a pessoa que, ainda que veja o acontecimento ser desfiado em sua presença, consegue manter a distância que oferece a sensação de que não é com ele. É feito filme do qual ele pode se esquecer durante o jantar. Sente-se incomodado por reconhecer-se incomodado por ter essa distância diminuída, a ponto de ele se sentir íntimo do tema. Como é possível aproximar-se tanto do caos sem pertencer a sua arquitetura? Duvida de tudo, desde aquele momento, aquela catarse que trouxe ausência pela mão. O que, antes daquele momento, ajudava-o a se acalmar, agora parece ineficiente bálsamo. Tanto lhe inquieta como nunca. Há esse ineditismo emocional cerceando a sua sempre tão apurada razão. Essa compreensão atrasada sobre o que importa. Sobre como importar-se. Aconteceu sem que ele percebesse. Foi de um desejo acanhado de beijar moça que conheceu em uma festa. Amiga da amiga de um amigo. Inteligente, sorriso largo, usuária da ironia

DICAS PARA UM NATAL TRANQUILO >> Clara Braga

Então, é natal! Enfim chegou uma das noites mais aguardadas do ano! Porém, 95% das pessoas que eu conheço concordam que esse último ano foi um tanto atípico! E dessas 95%, pelo menos umas 70% já pensaram que certos assuntos podem ser inconvenientes e acabar gerando constrangimento durante a ceia de natal! Falar simplesmente para não tocar em certos assuntos pode ser besteira, já que política e religião estão nos assuntos mais falados dos últimos tempos! Então, o melhor é ler essa crônica e se preparar com as “dicas para um natal tranquilo”! Bom, a primeira dica para você que está com receio de discutir com sua família durante a ceia é: quando o assunto começar e alguém falar algo que você discorda, coma uma rabanada e sorria! Caso, ao final da rabanada, você ainda decida comentar algo sobre o assunto, lembre que o tom da sua voz define se a pessoa vai ouvir ou simplesmente te rebater sem nem ouvir! Você acabou de comer uma rabanada, seja doce! A segunda dica é para aquelas

natal >>> branco

é natal pessoas sorrindo felizes magia é natal compre 3 e pague 2 diz o vendedor é natal e eu vejo um mendigo caído na sarjeta

HÁ UM LUGAR >> Fred Fogaça

Há um lugar onde as coisas acabam. Começam, se desenvolvem e: eu não sei, mas: o problema foi encontrá-lo - já a princípio. Pisado firme suas ripas, que sabe deus quem ao mal converteu, tremia ao longe os seus princípios; é que existem convicções que são nada além de grandes abalos. Como existem grandes fingidores - não por gosto. Há um lugar em que o princípio era encontrá-lo. Se desenvolve o problema: começa o fim - eu não sei. Sabe deus das suas ripas que tremem, firme no mal a que se converteu; é que existem princípios de convicção - não por gosto - próprio de grandes fingidores. É tudo um grande abalo.

BOAS FESTAS >> Sergio Geia

Em uma página qualquer do livro “O irmão de Assis”, de Inácio Larrañaga, que tenho aqui em minha estante, que me inspirou muito no passado quando vivia em trevas, que me inspira até hoje, está escrito:  Irmão Leão, se Deus tivesse alma, chamar-se-ia Paz. Dizem que a gente começa a dar valor à saúde, depois que a perde. Eu perdi a paz. Agora que a recuperei, sei quanto é preciosa. Mas seria avareza guardá-la para a saborearmos sozinhos. Irmãos, vamos sair pelo mundo e semear a paz.  Que as palavras do pequenino de Assis se transformem em realidade. Que cada um de nós encontre a verdadeira paz. E, sem avareza, okay ?  P.S.: Ah, queridos, ando tão sem inspiração; e sem disposição. O lançamento do meu livro neste final de ano me consumiu horrores, que literariamente, posso dizer que estou em frangalhos. Para não encher vocês de abobrinhas, escolhi essa mensagem inspirada em outra crônica que escrevi lá longe. Grato pelo carinho, pelas palavras sempre gentis, pelo amor, p

A ETERNIDADE DO EFÊMERO >> Paulo Meireles Barguil

A vida é um relógio de areia, cuja quantidade na parte superior é desconhecida. Às vezes, parece que ela está caindo mais rápido. Outras vezes, aparenta nem estar descendo... A percepção do fenômeno, como sempre, é definida pelo observador. Durante essa cascata de poeira, elaboramos sonhos: ora dormindo, ora acordado. Alguns se tornam realidade, uns permanecem no imaginário, outros viram pesadelo. Entre mel e fel, seguimos.   A parada técnica, programada ou não, é sempre uma possibilidade.   Quando a porção na parte inferior se torna substancial, removemos, com distintas intenções, as partículas há tempos depositadas.   Corpo e alma, outrora engajados em aventuras, buscam um ninho para contemplarem o vivido.   A qualquer momento, contudo, a cortina pode se fechar...

VI TUDO O QUE SE FAZ DEBAIXO DO SOL >> Whisner Fraga

Vi tudo o que se faz debaixo do sol, e eis: tudo vaidade, e vento que passa.  Eclesiastes, 1, 14 um sol desdenhoso atrapalha o dia. a menina sonda. dia feio, arremato. ela caçoa. mas. nós deformamos tudo. a menina contempla a criança que chora e compreende: feio. nós. é assim. a pedra que arde na palma. às vezes ela nem quer falar disso, mas precisa. a menina sabe que há coisas terríveis, salpintadas de ilusão. estas plantas são para amenizar? as gatas? precisamos de sol, menina, mas nem tanto. ela assopra um carinho. o sol flameja seu egoísmo. demais.

RESOLUÇÃO >> Carla Dias >>

Para breve, ele quer o diferente. Não importa que o sofá continuará o mesmo, as ruas manterão seus nomes e os provocadores codinomes oferecidos pela ironia popular. Ele quer conhecer um e outro diferentes. A questão é que não suporta ter mais do mesmo. A diversidade do mesmo. A pluralidade do mesmo. Um ciclo do mesmo fragmentado e seus fragmentos travestidos de novidades. Ser um consumidor e provocador do mesmo. Um destaque na hierarquia do mesmo. Pode parecer filosófico desfiar o mesmo como se ele fosse comportamento, mas não para ele, quem o sente domar seu destino, levando-o pelos caminhos indicados, às rebeldias redigidas pelo resultado inalterado. Cansou-se dos manuais, dos itinerários, da nomenclatura da etiqueta. Tentou as palestras motivacionais e se entediou mais do que quando encarou dois episódios e meio de uma maratona programada de série sugerida pelo aplicativo. De acordo com o de acordo do resumo de seu consumo, aquela série o surpreenderia como nenh

O AMIGO OCULTO >> Clara Braga

Fim de ano chegando e, além das confraternizações, surgem também os amigos ocultos. Todo mundo com a renda baixa, país em crise, nada melhor do que um amigo oculto para todo mundo ser presenteado sem precisar presentear todo mundo! Parece uma ideia maravilhosa. Porém, verdade seja dita, a ideia ficou tão popular que acabamos participando de amigos ocultos que envolvem pessoas que não fazem parte do nosso círculo de amigos ou família, e aí começa o problema! Eu até gosto de amigo oculto, confesso que sou daquelas que fica perturbando os outros para tentar descobrir quem tirou quem antes do dia de trocar os presentes. Mas nos últimos anos vi tanta coisa estranha acontecer nesses eventos, que comecei a ficar preocupada! A primeira vez que pensei se seria melhor participar do amigo oculto ou pegar o dinheiro e me presentear com algo que eu tinha certeza que eu iria gostar, foi quando um grupo de amigos decidiu incluir no amigo oculto o irmão de uma das participantes, que tinha aca

O MARTELO DO BEM - Nona parte >> Albir José Inácio da Silva

(Continuação de 02/12/2019) Batidas na porta. De novo, batidas sem intervalo. Pelo barulho, chutes na porta. Déti pula da cama e corre até a sala escura. A porta é arrombada. Vultos aparecem na claridade da lua. Déti acende a luz, eles entram na casa. - Fora da minha casa agora! – grita ela, levantando uma enxada que ainda tinha o cabo envolto em jornal.   – Se saírem vivos daqui, vão pra cadeia! São três e usam meias finas na cabeça. “Três idiotas”, pensa Déti, “mesmo vestidos de astronautas eu reconheceria os cães de guarda da Penha”. Apesar do pouco tempo ali, já tinham ouvido algumas histórias sobre eles. Histórias cochichadas como se uma culpa comum ligasse pessoas que se calaram sobre crimes.                                                                                                                                               Os Josés Nasceram há aproximadamente duas décadas entre trabalhadores semiescravos de um sítio afastado. Cresceram brinc

PRECISEI FALAR COM DEUS>>> Sandra Modesto

ARTE: GBR A sala gelada. Luna numa maca usando uma vestimenta estranha.  Uma equipe preparando-a. Ela, assistindo ao vivo.  Algumas agulhadas do lado esquerdo do peito. Tudo tranquilo até que a voz do homem de branco conta que não deu certo.  — Temos três minutos para tentar novamente.  A mente de Luna vira do avesso. Ouviu uma ordem:  — Pode preparar rápido.  Naquele momento, Luna olhou pra o teto. Até então nunca tinha ficado em silêncio com Deus. Era uma tarde de agosto em um hospital a cento e cinquenta de distância. Naquele mês interminável.  “É o seguinte, cara, se você achar que não tem mais jeito, meu coração está fraco e chegou minha hora, cuida bem dos meus filhos, abrace-os todas as manhãs. Não os desampare nunca. Não deixa ninguém se apoderar dos meus livros. Não sei se você se lembra de quando eu tinha quatro anos e minha avó me levava aos cultos evangélicos. Eu não entendia bulhufas. Depois minha avó morreu. Contam que ela semp

DONOS DE UM CORAÇÃO>> Cristiana Moura

Estávamos todos em um quarto de hospital. O risco seria grande, a vida lhe passava pela cabeça e compartilhava suas visões em músicas as quais todos deveriam ouvir O médico entrou, explicou passo a passo o procedimento possível diante do quadro e de artérias tão obstruídas. Mediu as palavras sem furtar-se de deixar claro o alto risco do procedimento. Terminada sua fala, olhou para meu pai como quem espera uma resposta ou autorização. — Eu estou pronto — respondeu. Entendi.  — Mas preciso saber, primeiro, o que eles pensam.  Nesta hora, apontou para nós: minha irmã, meu irmão, nossa mãe e eu. — É que o meu coração, doutor, não é meu. O meu coração é deles!