Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de 2019

ABACATE >> Analu Faria

"Abacate é 'o rei das frutas'", me disse uma vez uma nutricionista, informação confirmada por outra (outra nutricionista, não outra fruta, até porque frutas não falam). Isso na época em que eu fazia dieta. “Você compra vários, tira a polpa, congela, faz estoque”, me disseram também as duas profissionais, mais ou menos nessas palavras, em épocas e clínicas diferentes. Estocar comida sempre me fazia pensar em tragédia. Talvez por isso as dietas não tenham vingado. É possível que meu inconsciente interpretasse o armazenamento de polpas de abacate como uma preparação para o Armagedon e reagisse boicotando a redução de calorias, impelindo-me irresistivelmente a manter a rotina de gordices. De qualquer forma, mantive o hábito de comprar abacates.
O problema é comê-los. Vou ao supermercado toda semana, parto direto para os hortifruti, encontro os abacates, escolho – primeiro pelo aspecto visual, depois apalpo – coloco no carrinho, pago, levo para casa, coloco na geladeira.…

ERIÇAR-SE >> Carla Dias >>

Mesmo ela passando um corretivo no moleque, enquanto ele explica os fatos à moleca, há apreço ali, pode acreditar. Ele está no tom que torna as palavras duras uma lição exigida pela situação vigente, não uma violência. Uma urgência no ensinamento, para que aquelas crianças, que passaram do limite, compreendam que suas escolhas farão diferença logo mais, quando as brincadeiras forem substituídas por buscas, projetos, desejos, conquistas e desapontamentos. 

Os desapontamentos pontuam tudo, especialmente o aprendizado, na multiplicidade de suas camadas.
A cara carrancuda, a voz encrespada, as palavras agrupadas na construção de um discurso formal. Ela ajeita o coque, porque tem horror ao que está fora do lugar. Ajeita a saia, passa as mãos na barra do casaco, desfazendo uma dobra inadequada. Há quem pague muito para poder escutá-la desfiar impressões sobre o assunto. Há quem a considere uma conhecedora profunda do apreço. O que não sabem é que ela raramente o vivencia, que nela mora um …

TRAGÉDIAS ANUNCIADAS >> Clara Braga

Ano passado assistimos atônitos às seis horas de incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Um museu que tinha 200 anos e um acervo histórico importantíssimo. Vi várias pessoas lamentando o ocorrido e outras tantas que foram tomar conhecimento do museu e de sua importância para a identidade brasileira só depois que grande parte do acervo já havia sido perdido.
Ontem voltamos a assistir um novo incêndio que entristeceu todo mundo. Catedral de Notre Dame ficou em chamas por duas horas e perdeu parte dos seus 800 anos de história. Mais uma vez as pessoas lamentaram, aqueles que já tiveram a oportunidade de conhecer essa construção maravilhosa encheram as redes sociais de fotos e aqueles que nunca foram se mostraram igualmente comovidos já que, diferente do Museu Nacional do Rio, é difícil alguém nunca ter ouvido falar dessa Catedral, nem que tenha sido só quando criança assistindo ao filme da Disney.
Eu também lamentei, fiquei triste e pensei que esse ano de 2019 podia acabar hoje e …

bittersweet >>> branco

estou sentado embaixo da árvore grande
- vocês sabem -
gosto de observar o movimento
mas hoje
não existem muitas coisas
a serem observadas
é apenas mais uma manhã tranquila
de uma quarta-feira qualquer

vento suave e repentino me faz lembrar

vejo um rosto sorridente
- a dona deste rosto tão lindo tem 17 -
viajo
não estou mais sob a copa da árvore grande
estou no campo
e olhando para essa vida tão jovem
que sem se saber observada
brinca e dança entre os galhinhos
sobre sua cabeça
- e sob o céu azul -
pássaros voam para algum lugar
enquanto ela abre os braços
- e fecha os olhos -
só pelo prazer de sentir o vento

agora outra paisagem
praia
vejo-a correr pela areia
e brincar com as marolas
que teimam em molhar seus pés
ela corre - e sobe - para as pedras
no canto da praia
enquanto sobre sua cabeça
- e sob o céu azul -
gaivotas voam para algum lugar
ela abre os braços
 - e fecha os olhos -
só pelo prazer de fazer amor com o vento

um cachorro late
trazendo-me de volta para debaixo da árvore g…

GAVETAS >> Fred Fogaça

Buenos Aires, 2014.
Quero dizer uma coisa num repente, aproveitar o não dormir pra adiar o sol, pois nas horas avançadas é qu'eu me sinto livre, preferindo demais postergar quaisquer problemas apesar de, eu sei, deveria constar as últimas relevâncias, mas a plena sexta à noite não confunde problemas: semana como antro de desgraças: desgraças como forma de vida, mas quiçá, o proletariado oprime as escolhas e as classes (sociais) de vanguarda só trabalham com tradições e eu - lhes juro - nunca refleti faculdades até os dezessete, veja, já na boca de saída pro mundo cão, expelido a todo jato pra me colidir com uma série de consequências que se sustentaram até aqui, agora, sem parar, e eu sem tempo, irmão, na estica de disposição pra contemplar inquietações a - metafóricos - papel e caneta, porque sabe-se lá também que remédios há, mesmo pretendendo me livrar dessas amarras, ainda estou preso à meia-cidade apenas - denúncia do meu conto preferido - apegado demais pra deixar o ofício, …

FOFUCHO >> Sergio Geia

O cartório estava em absoluto silêncio. Era tanto, que se ouviam estalar de dedos, respirações profundas, suspiros suspeitos, passarinhos cantando. Se todos apurassem os ouvidos, seria possível ouvir o desfile suave de nuvens no céu. 
Atendia-a como sempre faço, com cordialidade e educação. Depois de consultas e verificações no meu computador, digitei o teor do documento que ela tanto esperava. 
Em poucos minutos, o silêncio de que falei era rasgado pelo ruído da impressão e seu desejo estava materializado numa simples folha amarela de papel reciclado, a que os burocratas de plantão dão o nome de certidão. 
Entreguei o documento e, muito simpática, ela agradeceu com essas palavrinhas mágicas:
— Já ficou pronta? Nossa, que rápido, querido! Você é um fofucho, viu? Obrigada! 
E saiu saltitante, feliz da vida, de posse de um simples documento. 
Eu também saí, não tão saltitante assim, e voltei para a minha cadeira, envolto no mesmo silêncio, agora, digamos, preocupante. 
Você aí, querido…

PROVÉRBIOS ESMIUÇADOS >> Paulo Meireles Barguil

 A Humanidade construiu em múltiplos espaços-tempos interpretações para o vivido, as quais ambicionam facilitar a sua caminhada: seja para atrair o que deseja, seja para repelir o que detesta. A abrangência dos adágios é variável: local, regional, nacional ou universal (terral me parece mais apropriado...). Os falados, conhecidos como ditados,populares expressam de forma singela e direta uma explicação para a complexa e tortuosa vida, motivo pelo qual a sua adequabilidade depende da situação. Necessário, pois, que os provérbios sejam, com razoável frequência, submetidos a um escâner 3D, que oferecem uma qualidade satisfatória, o que não é o caso dos riscos vindouros. Cada macaco no seu galho. Essa máxima aparentemente propaga a igualdade, mas, além de ser falaciosa, pois sabemos que há poucos macacos com grande quantidade de galhos e muitos macacos sem galhos, ela é segregacionista porque não prestigia a famosa solidariedade dos primatas, uma vez que é bastante  frequente mais de um …

ELES OUVEM TIROS >> Whisner Fraga

Os fins justificam os meios, eles recitam, embrutecidos.
Eles dizem isso quando justificam que fizeram aquilo porque era o melhor para todos. Porque era o que tinha de ser feito.
O bem geral, cantarolam.
Eles defendem os meios e bebem porque gostam de se embebedar e a insônia é um preço justo para a adrenalina. 
Adrenalina, eles esbravejam, deslumbrados.
O diálogo que prezam é o da bala despedaçando a carne.
Eles não estão sós.
Os fins justificam os meios, eles cacarejam, adestrados.
Eles precisam acreditar que os fins justificam os meios, porque eles não sabem se, de verdade, os fins justificam os meios. 
Eles esticam o indicador como se apontassem a verdade a um sobressalto do tiro.
Eles gostam de atirar e os alvos estão cada dia mais ariscos.
Eles gostam de atirar.
Os fins justificam os meios, eles rezam, dedicados.
E os meios são frágeis, senão por que precisariam de tanta bala para serem defendidos?
Os fins estão na cabeça deles e lá são os melhores possíveis.
Os meios justifica…

DISCURSO INADEQUADO >> Carla Dias >>

Dane-se você, meu caro, que sai de casa para o trabalho, acreditando no receber pelo oferecido, na fada da justiça, no conto do vigário que é a equidade. Dane-se a sua insistência em defender identidade, em exigir o que acredita ser justo, ou o que algum regulamento inoportuno reza ser seu por direito. 
É tudo bobagem, não vê?
Dane-se cada desejo seu, que mora na labuta dedicada a parir realização, e cada um daqueles que você ama porque ama e ponto. Amor feito o seu não enche barriga, não adquire imóveis, não beneficia quem deveria, não concorre à herança. É profundo, mas e daí? Profundidade não justifica o injustificável, ele devidamente aplicado, a fim de se alcançar o benefício do poder.
Poder importa, meu caro.
O que você tem a dizer, que permaneça nas mensagens mal redigidas que troca com suas aventuras eventuais. Não há espaço para você aqui, entre nós outros, nesse lugar que não aceita destempero verbalizado com vulgar vocabulário, que se esmera em requintes que jamais farão p…

ABORDAGEM >> Albir José Inácio da Silva

- Responder eu respondo, moça, mas já respondi muito disso. Vocês perdem esse papel, é?
- Dasdô.
- É, Maria das Dores.
- De quê, eu não sei não. Antigamente eu sabia, quando eu tinha certidão e alguém lia, tinha mais nome. Mas agora eu não sei mais não. A bolsa de documento foi na enchente. Documento e retrato.
- Viemos de longe, viemos fugido, eu mais o finado. Eu se perdi com ele. Meu pai quase me aleijou e queria matar o Serafim. A gente veio pro Rio.
- Chegamos ali pra cima, olha, aonde tem aquele mirante. A senhora consegue ver com esse óculos preto? Agora é um clube, mas na época só tinha barraco. Aí disseram que tinha dono aquela pirambeira, que tava escrito no cartório. Depois que a gente foi expulso, nunca mais voltei lá. Diz que agora tem que pagar pra olhar lá de cima.
- Serafim morreu de tiro. Procurou trabalho a vida inteira. Fazia biscate, catava lata, home bom, não fumava nem bebia. Um dia mandaram ele trazer coisa no carrinho. Ele disse que não porque se a polícia peg…

PERDIDA EM FRANCÊS >> Cristiana Moura

Mal acabara a aula e logo saí da Aliança Francesa, sem me dar conta de que sentido eu deveria seguir. Objetivo: andar e conhecer a cidade. Caminhei um bocado sem saber onde estava ou mesmo em que direção seguia. Desfrutei de um prazer inefável em desconhecer o norte — é uma tal liberdade! Porventura, quando me dei conta, estava defronte ao Museu de Belas Artes de Lyon. Adentrei. Dentre tantas obras me apercebi enternecida diante às esculturas de Étienne-Martin. Perdida, encontrei-me.
Reencontro um silêncio em mim mesma que há algum tempo não saboreava. Sim, silêncio tem gosto, tem cheiro, tem, inclusive, som de silêncio. Experimento tal quietude graças ao meu parco francês a refrear a incontinência verbal que, em muitos momentos, manifesto.
Que eu possa ganhar palavras, verbos e frases em francês, a cada dia, sem perder o silêncio no qual consigo respirar melhor!

AMARRAÇÃO DE AMOR - 2a parte >> Zoraya Cesar

Leia aqui a íntegra da 1a parte de amarração de amor - Isaldinha temia que, por falta de sexo, seu casamento naufragasse e desse com os costados no píer da vizinha gostosona Marinalva. No capítulo anterior vimos que os planos para atrair seu marido, Oscar, para os enlaces do amor deram mais elado que os do Cebolinha para delotar a Monica.
Enquanto Oscar convalescia dos efeitos deletérios da superdosagem do viagra, Isaldinha estudava meios de despertar o interesse do marido, sedenta que estava por um sexo animal, romântico, gótico, qualquercoisapelAmordeDeus. Por que ele, sessentão, mais feio que mentir pra mãe, não poderia ter desejo por ela? Uma mulher de carne, muita carne, e osso? E daí que já não fosse jovem nem se parecesse com a Scarlet Johanson? Na hora do vamuvê, a bacurinha não negaria fogo!

Plano 4 – quando ‘manter a chama do amor acesa’ é mais difícil do que parece
Strip tease, viagra, álcool, nada dera certo. Isaldinha partiu para o sobrenatural. Sua manicure garantira que a …

PARA TEMPOS DIFÍCEIS >>Analu Faria

São tempos difíceis: vacinas não funcionam (ao contrário - nos deixam doentes); a terra é plana; 64 não foi golpe; nazismo de esquerda, o holocausto é uma ficção... vou parar por aqui, o leitor já entendeu. Em épocas como a nossa, fica difícil refutar a crença de que a humanidade deu muito errado. Sabe a música do Louis Armstrong "What a wonderful world!"? Digo pra mim mesma que "wonderful" só se for na época dele. 
Com esse pensamento, toco a vida no sábado chuvoso. Chego à escola de idiomas e minha colega de sala, uma menina de uns 13, 14 anos, que também chega atrasada como eu, me cumprimenta em francês. Depois me pergunta como estou, não sem antes hesitar. Faz esforço para "pensar em francês" e praticar fora da aula. Tem cara de estudiosa, usa uns óculos de armação grande e diz que quer cursar Relações Internacionais no futuro. Carrega um livrão e pergunto do que se trata. "É 'Os Miseráveis'", de Vitor Hugo." Ela ri quando perg…

CANÇÕES DE AMOR SÃO UMA DROGA >> Carla Dias >>

Que de amor já se fartou. 
Agora, efemeridade é pré-requisito para relacionamento. Nada de benquerer até faltar o ar, de quando dói a ausência do outro ou sua presença se assemelha ao frenesi causado por uma realização que se mostra impossível. 
Ele sabe: amor é coisa de louco. 
De loucura de quem tem a mente desarranjada mesmo.
Curou-se de vez do último amor que amou. Ele que quase chacinou a capacidade dele de raciocinar. 
Começou ignorando canções de amor. Aquele sofrimento todo, com um desfecho besta, de felicidade insossa ou um rompante, que, até parece alentador, mas é enganação pura.
Não quer mais sentir o estômago se negar a receber alimento, só porque a alma está faminta pelo o quê? 
Amor. 
Desapontado consigo por ter pensado a respeito, devolve o disco à sua capa e o esconde dentro da estante. Elvis Presley não sabia o que cantava. 
Sai de casa, e ao fechar a porta atrás de si, solta a voz, tão sem querer, tão afinado:
love me tender, love me true, all my dreams fulfilled...…

PREGANDO PEÇA >> Clara Braga

Marinete é uma jovem apaixonada. Apaixonada por si, pela vida, pelas sutilezas e, por muito tempo, foi também apaixonada pelo Zé.
Marinete e Zé estão juntos há 5 anos, mas para Marinete algo mudou. Ela até gostaria de ter uma explicação, mas eles não brigam, Zé nunca a tratou mal, eles sempre tiveram o que os outros costumam chamar de relacionamento dos sonhos, mas Marinete tem sonhado mais alto.
Justamente por não ter uma explicação para a mudança de seus sentimentos, Marinete não encontra forma de terminar seu relacionamento, mas sabe que precisa pensar logo em alguma coisa, pois do jeito que está logo Zé propõe casamento.
Um belo dia Zé chama Marinete para jantar no restaurante predileto dela. Marinete sua frio, se ele fizer o pedido ela terá que recusar e irá magoar uma das pessoas que mais admira no mundo, mas por quem não é mais apaixonada. Não tem como ser fácil.
Lá foram eles para o tal jantar. Marinete percebe que não é a única nervosa e prefere começar logo o assunto: 
- Se…

preludio para o alvorecer >>> branco

a criança brinca no chão da praça
com sua boneca quebrada
a cabeça está amassada e falta-lhe uma perna
brinquedo dado - brinquedo resto -
mas a criança brinca
alheia aos olhares de nojo desprezo ou indiferença
que os transeuntes lançam para sua mãe
sentada no meio fio com a mão estendida
- a pedinte indesejada
enfeando a paisagem -
para quem uma ou outra alma
joga uma dispensável moeda enquanto segue seu caminho
a vida segue - preciso seguir -
mas a criança brincando no chão da praça com a sua boneca quebrada
me faz ficar

agora ela usa trapinhos para fazer o vestido
tentando embelezar sua boneca
ela sorri e aprova o próprio serviço
continua alheia
ao vento em seus cabelos encaracolados - ao fato de ainda existir uma praça -
repentinamente ela vira o rosto
posso ver seus olhos e neles
a inocência
a docura
a felicidade
e um pedaço do céu azul
sinto um aperto no peito
me levanto do banco de cimento e coloco algumas moedas
na mão ainda estendida
sigo meu caminho com passos firmes
e um sor…

GRAÇAS AO CHOQUE >> Fred Fogaça

Contadas, enfim, sessenta páginas, devo compartilhar com mais segurança que esse é o projeto mais longo que empreendi.  Claro, a escrita, de fato, não fez seu primeiro aniversário. Mas a ideia está aí por década. Processar o pensamento tempestuoso e tirar dali o que valeu a pena, tão sem um procedimento lógico pra entender esses paradigmas quanto era como pós-adolescente, não podia ainda ser chamado de projeto. A ideia, e compreender isso me ajudou mais tarde, só se estruturou com leitura e prática.
Mas gostava era da ideia rondando, subjetiva, na minha cabeça, porque parecia boa o bastante quando não interferida. Se, por acaso, me preocupava em colocá-la em prática, existia sempre uma prioridade e, daí, um procrastinação. Durante todo esse tempo era difícil aceitar a própria dificuldade e, consequentemente, não a remediava. Isso se estendeu sem previsão, tal como era.
A verdade é que a coisa toda já surgiu como uma fuga. No alto da adolescência, como uma maneira de me aliviar de tud…

CINQUENTEI >> Sergio Geia

Devo estar ficando velho. A começar pelos hábitos. Ando adorando ouvir jazz. Até gravei um pen drive com velhos sucessos, Miles Davis, Chet Baker, Bill Evans. Pretendo aumentar a lista, quem sabe Keith Jarrett, Thelonious Monk. E digo que pouca coisa é melhor que ouvir um jazz, uísque no copo, fechar os olhos. Talvez ouvir jazz em casa seja coisa de velho. 
A bebida hoje encontra limite. E o limite é o dia seguinte. Pode se beber a vontade, cerveja, cachaça, uísque, rir à toa, contar histórias. Tudo isso é bom. Mas o dia seguinte sempre chega; e cobra. Com medo do dia seguinte, me cerceio na vontade de continuar a beber; uma agressão, sem dúvida. E também cuido de beber água, muita água, litros de. Isso deve ser coisa de velho que não aguenta mais longas noitadas; de velho medroso que tem medo do dia seguinte. 
Dias atrás cinquentei. Pois é. Ouvi muito isso dos amigos, Sergio, querido, você cinquentou; parabéns! Honestamente, não conhecia o verbo. O que consola é que meus amigos de M…

INEFÁVEL >> Paulo Meireles Barguil

 E, então, o inefável acontece.

Será breve, mas eterno!

Outras flores e borboletas virão...


[Foto de minha autoria. 01 de março de 2019]

PRESSA >> Whisner Fraga

Ela prefere a fila, sem atalhos. Ainda está naquela idade que provoca dúvidas, não baste a pele que incita alguns anos a menos.
Como ninguém demora nos trâmites financeiros, ela se dá ao luxo. Alguns minutos e pronto, é a vez dela.
Deposita a mochila debaixo do caixa rápido e desanda a digitar qualquer coisa que sequer compreende plenamente.
Não tarda o diálogo com a máquina.
E dos meandros eletrônicos nada de resposta. Desconfiam.
A atendente, como se fosse com ela, desanda a acudir.
Cheque não. Só na outra ali.
A velha chispa, os dedos pressurosos.
A mochila resta para trás, estacionada, ela mesma um cliente. Ninguém avança e isso não é bom para a marcha da fila.
A velha foca nas folhas que a máquina regurgita.
A antendente resgata a mochila e a entrega à velha. Todos suspiram, o mundo pode prosseguir com a selvageria.
A velha conta meticulosamente as folhas. Mesmo que ninguém queira cheques, mesmo que alguns sequer saibam o que é cheque, o desejo é que o aparato fique logo desimpe…

O DIA EM QUE ELE ASSISTIU AO TERROR >> Carla Dias >>

Estarreceu-se diante do feito. 
Parou ali, sentindo um misto de medo lancinante e curiosidade acirrada. Observou a tragédia com o olhar se distraindo com as poças de sangue. 
Não se lembra de ter visto tanta carne fora do corpo de uma pessoa. Tanto vermelho-morno pavimentando a rua. 
Não se lembra de se sentir tão vazio diante de uma tragédia. 
Aceita que nunca vivera ou mesmo testemunhara uma de tal calibre, de desfigurar tantos, aniquilar outros. Entretanto, não consegue se desviar da cena. Não sabe parar essa espera pelo o quê? 
Engole, na conta do repúdio, o que há pouco o agoniava: a comida ruim do restaurante, o pedinte enfeando a paisagem, a cor dos ônibus, o atraso do filho para o compromisso, a abotoadura perdida. 
A paisagem que observa é vigorosamente violenta. 
Nela tudo se escancara, perde a identidade, mistura-se com coisas. 
No chão, a criança atravessada pela placa que indica: rua sem saída.
E ele assim, sem direção para seguir ou certeza para guiá-lo. 

Imagem: Le dése…

VOCÊ TEM MEDO DE QUE? >> Clara Braga

Medos, quem não os tem?
Por muito tempo achei que medo estava ligado à idade. Pensava que eu tinha medos porque era pequena e não conhecia ou entendia a origem dos meus medos mas com o tempo isso tudo ia acabar.
Quando fui crescendo descobri algo que foi essencial para entender que todos têm medos: meus pais tinham medos. Sempre achei que eles não tinham o menor receio de nada, mas aí vi meu pai com muito medo de altura e descobri que aquele desconforto que eu sentia em lugares altos também era um medo, igual ao do meu pai.
Minha mãe dizia ter medos também, mas eu não conseguia identificar um em específico. Fiquei em um misto de curiosidade, querendo desvendar o mistério do medo, e alívio, se quando descobri um dos medos do meu pai acrescentei o medo dele na minha lista particular de medos, talvez fosse melhor não descobrir o da minha mãe, vai que eu acabo aumentando minha lista de novo.
Foi então que um certo dia, pouco depois do meu filho nascer, estava conversando com minha mãe e …

TORRE DE PINDORAMA - final >> ALBIR

(Continuação de 11/03/2019) Tudo indicava que, embora a eleição não tivesse acontecido ainda, o poder havia trocado de mãos.
Houve, sim, alguma resistência. Ou talvez nem se possa chamar de resistência aos protestos murmurados pelos corredores por uma minoria assustada. Vanesse saíra da Assembléia muito nervosa, tentando disfarçar as lágrimas e o tremor. Estava envergonhada de sua covardia, apoiou os golpistas por medo, mas agora se sentia muito mal.
Foi pelas escadas pra não encontrar ninguém, mas ao passar pelo segundo andar, viu Selma e Mirna – duas mulheres que, segundo o Reverendo Felício, viviam em pecado contra a natureza e ainda usavam “tóchico”, conforme ele escrevera no livro de ocorrências da portaria.
Também elas estavam assustadas com a repressão que se anunciava. E lembraram de Pai Luiz, do sétimo, que lhes tinha cochichado ainda durante a Assembléia: “Vou ter que ir embora daqui. Eles não vão me deixar em paz. Principalmente o Leiroz - eu sei mais do que devia.”
Para n…

AQUI O CÉU É MAIS AZUL >> Mariana Scherma

Chegar na casa dos meus pais é me blindar do resto do mundo. Pode estar rolando a 3ª Guerra Mundial, que, da porta pra dentro de casa, nenhum problema consegue atingir a gente. As rotinas que acontecem na casa dos meus pais são meio mágicas e acalmam a alma. O cheiros...
Todo dia de manhã, minha mãe passa pelo corredor dando bom dia, abre a porta, com a gata no pé miando. Dali a pouco, meu pai começa a rir porque a gata está rolando pedindo carinho. Todo dia é assim. E todo dia continua sendo mágico do mesmo jeito. Não demora muito vem o cheiro de café, o barulho do rádio e da tevê ao mesmo tempo, a gata miando e meus pais conversando. Todo dia de manhã parece que a casa dos meus pais conta com 50 pessoas. Mas são só três: eles e a gata. Quatro quando eu vou visitar. E o café da manhã conta com meu pai, minha mãe, a gata pedindo requeijão e eu rindo da gata. Todo dia às 7h. Acordar cedo é uma delícia aqui. Se você acorda tarde, perde esse ritual.
O céu aqui de cima da casa dos meus p…

JOÃO, O ABAJUR E A ASTROLOGIA >> Cristiana Moura

Foi como emergir de um mergulho que de tão intenso ainda me sinto ofegante. E me deparar com um amor que era quase de verdade, que nem café descafeinado em fins de tarde.
— Dona Cristiana, cadê o abajur? — Está dentro do guarda-roupas. — Por quê? — Porque eu não quero vê-lo.
Este abajur havia se mudado da casa do João para a minha. Ficou bonito ali, em meu quarto. Acontece que, naquele momento, eu carecia do espaço vazio sobre o criado mudo. Precisei ver a presença da ausência na invisibilidade do ar, o único a preencher a lacuna desabitada na lateral da cama.
Gabriel chega, me dá um abraço e ouve um pouco da ladainha comum aos fins de namoro.
— Mãe, já pode brincar? — Não. — Então avisa quando puder pra gente te mostrar um video.
De repente, toda a abrupta finitude de uma relação que aparentava promissora, cabia em um video de um youtuber que falava sobre astrologia e as piores combinações entre os signos.
"Áries e virgem — pode ser que dê bom, mas a chance de dar ruim... (...)…

AMARRAÇÃO DE AMOR 1ª parte >> Zoraya Cesar

Isaldinha via seu casamento soçobrar lentamente no mar dos sargaços da rotina e indiferença domésticas. Talvez nem tão lentamente assim. 
Olhou-se no espelho. Feia, feiosa, não estava. Talvez um pouco fora de forma, mas, pelamordeDeus, depois de quase 30 anos de casamento, trabalho duro, filhos, problemas, grana sempre apertada, que mulher não ficaria um pouco gasta, um pouco baça, um pouco barriguda? Que mulher não teria flacidez, celulite e... a Marinalva, aquela filha de uma égua sem dentes, não tem nada disso. É mais velha que eu mas aparenta menos 10 anos. E rebola de cima pra baixo, desquitada, sem marido, sem ninguém, doidinha pra arranjar um otário que a sustente ou que, pelo menos, aplaque aquele seu fogo no útero, sempiternamente aceso e...
Entrou em pânico. A crise em seu casamento começava pelo sexo. Ou falta dele. O marido não se interessava mais por ela, mas gostava de assistir uns pornôs de vez em quando, e, sabe como é, né? Marinalva gostosona, ali, à mão...
Não que Oscar…