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O VELHO PADRE E OS PRESENTES DE NATAL >> Zoraya Cesar

A construção parecia bastante antiga, um pouco gasta, um pouco velha, um tanto... convidativa?

Pois emanava uma tal energia de amor e acolhimento que seria impossível, mesmo ao transeunte mais distraído e apressado, mais empedernido, mais sofrido não se sentir estranhamente compelido a entrar naquela pequena igreja. 

Apressado e distraído

O rapaz seguia apressado, o celular na mão, cabeça inclinada num ângulo que prenunciava graves problemas cervicais. A temperatura estava quente e abafada; ele suava, mas, de tão concentrado, nem se dava conta da sede e do desconforto. Ao passar pela porta, no entanto, um brisa gentil envolveu-lhe o corpo, refrescando seu constante estado de excitação febril. A sensação foi tão impressiva, que ele, momentaneamente, levantou os olhos da tela. 

Foi o suficiente. O encantamento surtiu efeito imediato. Como era para ser. 

Entrou, cauteloso, ainda desacostumado à diferença de luminosidade. De repente, um enorme gato preto, preto, preto, de olhos amarelados passou raspando em suas pernas, sobressaltando-o, a vida tensa, os nervos à flor da pele. Um gato! Sempre gostara de gatos. Seguiu-o.

Foi parar em uma saleta, iluminada pelo sol que entrava por vitrais coloridos. Havia, num balcão de madeira, ao fundo, diversos brinquedos eletrônicos cujas peças estavam espalhadas. Sobre uma mesa, um bilhete:

“Esses brinquedos precisam de conserto, pois serão entregues a crianças pobres. Você poderia me ajudar? Não levo jeito pra isso. Obrigado.”

O jovem - sempre atrasado, sempre atrasado – lembrou que, quando criança, consertava os brinquedos da vizinhança. E, de repente, tudo o que era tão importante, os compromissos, as festas, os trabalhos, o eterno correr pra lá pra chegar aqui e aqui não ser o lugar ficaram pequenos. O gato preto, deitado numa posição deveras esdrúxula (mas perfeitamente normal para um gato), observava, os olhos semicerrados, o rapaz desligar o celular enquanto consertava os brinquedos. 

Ao final, ele sorriu. Tudo funcionava que era uma beleza. Esticou as costas. Com o canto do olho percebeu que na mesa, onde (ele podia jurar), só encontrara o bilhete e nada mais, havia uma garrafa do suco preferido de sua infância. A criança que ainda morava nele gritou, excitada, bebe, bebe sem perguntar, é Natal, Papai Noel existe! Ele sentou, bebeu, seu coração inundado de paz e satisfação, pois, pela primeira vez, em muito tempo, fizera a diferença para alguém. O mundo podia esperar. Ele saiu desapressado, feliz como há muito não se sentia.

O gato espreguiçou-se, levantou-se e elegantemente voltou à porta, curioso para ver quem seria o próximo. 

Empedernido

Andava a passos duros e pesados, como se quisesse esmagar algum inseto pernicioso e invisível. As mãos, fechadas, mais afeitas a bater que a cumprimentar. O semblante franzido dizia claramente: aquele era um homem que não tinha ilusões. Nem lugar para delicadezas, miudezas, tudo fraquezas. A vida era dura. Fechar o coração era a melhor defesa. 

Concentrado que estava em suas amarguras e asperezas, era de se esperar que passasse batido pela porta enfeitada por um gato preto. Mas uma música suave e alegre, como pequenos címbalos tocados por fadas, como bater de asas de beija-flores, convidou-o a entrar. Ele aceitou, sem perceber que o cenho desanuviava, as mãos relaxavam, os pensamentos se afastavam. 

O som o levou pelo chão de madeira que não rangia sob seus pés, agora tão leves, o homem temeroso de quebrar o encanto do momento. Nem ouviu o gato andando atrás dele, como um ninja oculto pelas sombras. 

Chegou a um quarto espaçoso no qual se via, bem no centro, uma grande caixa, dentro da qual filhotes de cachorro se amontoavam, confusos e buliçosos. Cachorrinhos! A criança dentro do homem empedernido como uma prisão gótica exultou, extasiada. Iguaizinhos aos que sempre quisera ter! O que faziam ali, sozinhos? (Algumas pedras da prisão caíram ao chão. A torre ruiu, silenciosa e irremediavelmente). 

Olhou em volta. Em cima de uma mesa havia um bilhete:

“Tive de sair. Você poderia, por favor, alimentar e colocar os pets para dormir? Obrigado.”

O homem pensou em ir embora, mas sentia-se tão protegido, como se nada pudesse machucá-lo. A música deixava-o leve. Os cachorrinhos, alegre. Há quanto tempo não sabia o que era isso. Na pia, encontrou a ração. Alimentou, deu água, ajeitou o forro da caixa e a manta para mantê-los aquecidos; pegou, acarinhou, falou tatibitate e todos dormiram em seu colo antes de devolvidos à caixa.   

Ele levantou, já completamente renovado. Os alicerces da fortaleza que construíra tinham sido abalados. Antes de ir embora notou, surpreso, que havia, em cima da mesa (antes vazia, ele podia jurar), uma fatia de rabanada. Assim também era covardia. Rabanada, seu doce preferido. A criança dentro dele não resistiu. 

Comeu tudo. E enquanto comia, pensava, quanta bobagem, quanto tempo perdido com rancores. Ia morrer um dia e levaria o que da vida? Solidão? Cirrose hepática? Perdoou a todos que o feriram. Não sou nenhum covarde, pra ficar me escondendo da vida. Vou procurar um novo amor, um novo negócio, novos amigos. Adotar o cachorro que sempre quis ter. Fazer  trabalho voluntário. 

Saiu sorrindo, o gato atrás, dançando felinamente ao som da música celeste. 

Sofrida

Chá de tília. Ideal para acalmar ansiedades,
dissipar tristezas,
trazer boas lembranças.
A senhora era senhora mesmo. Chegara àquela idade em que as pessoas já não conseguem evitar os sinais do tempo. E há muito ela não se importava com a aparência. Nem com nada. Que o tempo chegasse. Que a levasse. Quem ligaria? Ela é que não. 

Perdia-se em pensamentos de antanho. A casa cheia de alegria e família. Todos reunidos na cozinha, a preparar a ceia. A algazarra. As rezas. As músicas. A comida. Como tudo se desvanecera? Quando ficara tão rabugenta a ponto de se afastar da família, preferindo imergir, sozinha, em seus sofrimentos e dores? 

As lágrimas profusas, que saíam até pelo nariz, poderiam ter impedido que ela sentisse o cheiro bom que saía por aquela porta de madeira, aberta, na qual um gato preto deitado à soleira a olhava, insistente. A mulher não resistiu. Entrou. O gato seguiu-a, esgueirando-se pelos bancos, silencioso.

O cheiro a levou até uma cozinha azulejada, cujas grandes janelas davam para um jardim. Utensílios gastos, mas limpos, estavam organizadamente pendurados pelas paredes. O aroma de bolo fresco entontecia a mulher de prazer e lembranças. Mas, cadê o bolo? Nada. Sobre a mesa, apenas uma receita e um bilhete:

“Tive de sair, mas preciso muito que esse bolo esteja pronto para o Aniversário de hoje, você poderia fazer o favor...”

A mulher leu a receita, espantadíssima. Era o bolo que a avó preparava todo Natal. Quando a avó morreu, perdeu-se a receita. Décadas depois, ali estava ela, numa cozinha desconhecida, a fazer o bolo que tantas lembranças boas trazia. Chorou de novo, mas de alegria. Ia ligar para todos, o Natal daquele ano teria o bolo da avó e seria em sua casa. Nunca mais se afastaria da família. Que pessoa miserável seria ela se não aproveitasse ao máximo a vida que recebera? Que pobreza de espírito deixar ‘as coisas pra lá’. Tudo importava. Todos eram importantes. 

Bolo desenformado, tudo lavado, preparou-se para sair, feliz. Prestar um serviço a fizera sentir-se bem novamente. A vida não era só sofrimento. Foi quando reparou numa xícara de chá (que, podia jurar, não estava lá quando chegara) sobre a mesa. Chá de tília, seu preferido! Bem que ela reconheceu a árvore no jardim! Ao lado da xícara, biscoitos de nata e um outro bilhete:

“Pode levar a receita, tenho uma cópia. E obrigada!.”

A mulher bebeu o chá e partiu, o coração pleno de gratidão. O gato a esperava ao lado da porta, que se fechou sozinha. Era noite. Era véspera de Natal. No jardim, a festa começara. 

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O Velho Padre comentava com São José que, sem dúvida, festas de aniversário eram as suas preferidas. Sempre havia muitas pessoas a quem dar presentes. E dessa vez, só naquele final de tarde, tanta gente saíra feliz da igreja! Sentia-se verdadeiramente abençoado.

O gato sorriu, como os gatos sorriem, e foi brincar com Menino Jesus.

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Que a energia do Natal se estenda por um maravilhoso 2020 para todos. 

E que, pelo resto do ano - pois Jesus nasceu para estar presente todo dia -, consigamos dar um pouco do nosso melhor. Um pouco do nosso melhor, por mais simples que nos pareça, pode mudar o rumo de uma vida (inclusive a nossa) para Caminhos bons. 

Que entendamos que perdoar é ser livre. E, livre, você pode ir aonde quiser. 

Paz e Bem para todos. Muito obrigada, de todo o meu coração, aos amigos e colegas que tão pacientemente me leem e ainda comentam com generosidade imensa! 

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Comentários

branco disse…
como não identificar cada um dos personagens?, como não perceber que até chegar naquele local houve todo um passado que precisa (e deve) ser considerado. visualmente belo, novamente evoca Dickens, trilha sonora magnifica e uma autora que, hoje, ressuscita os bons sentimentos que estavam enterrados em cada um de nós. nada menos que (como dizia meu pai) formidável !
Marcio disse…
Se alguém ainda estiver precisando de motivos para gostar do Natal, ler os textos da Zoraya sobre o Velho Padre pode ser decisivo.
É sempre um prazer!
Erica disse…
Que fofa, como sempre, a história do velho padre. Só tenho uma reclamação: tá uma semana atrasada kkk Mas, tudo bem... histórias fofas sempre são bem-vindas :)
Sandra Modesto disse…
Muito bom! Parabéns! Adorei os textos. O de hj é sensacional!
Clarisse Pacheco disse…
Que delicadeza, que carinho na alma. Quanta ternura! Que a paz dessa noite de Natal se estenda por todos os dias de nossas vidas. Bj
Albir disse…
Parece que combinaram: Nádia bate, Zoraya assopra!

Albir disse…
Assopra é pouco. Adoça!
Maria disse…
Como sempre, maravilhoso!
;-)
Zoraya Cesar disse…
branco - Dickens e 'formidável' para falar do texto de alguém é suficiente para deixar a pessoa feliz for a very long time. Sei que nao mereço, mas fico felizaça assim mesmo.

Márcio - se o Velho Padre conseguiu amaciar até o Caboco Escrevinhador, então é definitivo: Natal é mesmo uma época de milagres. Obrigada!

Erica - hahahah, sei q vc gosta de fofices!

Sandra - vc leu os outros? Puxa, que orgulho! Muito obrigada!

Clarisse - Amém, Querida, pra todos nós!

Albir - ...ownnnn

Maria - vc é outra que também gosta de fofices. Fico feliz em ter agradado.

A todos:
Muito obrigada pela leitura, pelo carinho, pelos comentários generosos.
O Velho Padre abençoa a todos, e o gato preto afasta todo o mal.
Até 2020, abençoadaamente!