sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

OUTRO NATAL DEVERAS ESTRANHO >> Zoraya Cesar

O homem, extenuado pela viagem longa, colocou a mala no chão. Olhou, apreciando, os últimos raios do ocaso que entravam pelos vitrais, multicolorindo o salão. Um enorme gato preto, que passeava entre os bancos, aproximou-se do homem, ronronando inquisitivamente.

— Eu sei, amiguinho, ainda não tem nada pronto. Mas não se preocupe. Em datas extraordinárias coisas extraordinárias acontecem.

Dito isso, o homem sumiu pela porta dos fundos. Precisava descansar. Seu rosto, meigo e antigo, era enfeitado por rugas que sumiam, misteriosamente, quando ele sorria. O que acontecia amiúde, justificando, assim, que não se percebesse, à primeira vista, o quão entrado em anos estava o Velho Padre.

A Igreja ficou vazia até, exatamente, às seis da tarde, quando entrou um casal negro, a aparência mais que humilde, tão ou mais idosos que o Velho Padre, vestidos da cabeça aos pés de imaculado branco. Nas mãos dela, havia um enorme rosário feito de lágrima-de-nossa-senhora; nas dele, um chapéu, colocado, respeitosamente, à altura do coração. Ajoelharam-se, persignaram-se, cumprimentaram o gato e caminharam em direção ao nicho de Sant’Ana e São Joaquim, onde rezaram de mãos dadas. Ela tirou da bolsa uma garrafa contendo puro óleo de alecrim, difícil de conseguir, caro para comprar.

Procuraram o Presépio. 

Que Presépio?

Só a manjedoura estava lá. Onde Nossa Senhora? São José? O Menino?

Olharam-se, desconsolados e aflitos. Tinham vindo de tão longe, com dificuldade, somente para untar o Presépio com o óleo que eles, com grande sacrifício, conseguiram. Vieram atendendo a um chamado para... nada?

— Vamos, minha Velha. Tentar encontrar o que comer — disse o homem, decepcionado, exausto.

Foi nesse momento que ouviram batidas de atabaque, vindas da porta atrás do altar. Eles se entreolharam, emocionados, e sorriram. O Divino não falhava. E se encaminharam para lá. 

O casal sumiu por aquela porta ao mesmo tempo em que outro personagem entrava pela da frente. O gato o olhou, pálpebras semicerradas. Aquilo estava ficando interessante. 

Mulato, alto e empertigado, o recém-chegado vestia-se com o apuro de um dândi. A alvura reluzente do terno engomado contrastava elegantemente com a camisa preta e a gravata, tão vermelha-rutilante quanto o cravo que trazia na lapela. Também ele carregava o chapéu na mão. Ajoelhou-se frente ao altar de São Jorge e lá rezou, compenetradamente. 

Levantou-se e, com seu andar manemolente, procurou o Presépio. Baixou a cabeça, desapontado, ao encontrar a manjedoura vazia. Viera por ruelas escuras e becos perigosos, não tocara em cigarros ou bebidas, juntara cada centavo para comprar o incenso mais perfeito que pudera encontrar e... não tinha a quem entregá-lo? Seu coração encheu-se de dor. Virou-se para ir embora.

Nesse exato instante, ele ouve uma toada, vinda da porta atrás do altar. Impossível!, pensou, a ‘minha’ música tocada num lugar como esse? Não havia dúvida, porém: alguém cantava, perguntando ‘onde é que Seu Zé mora? onde é sua morada?”... O malandro chorou. E entrou. 

E, da mesma forma que antes, enquanto um saía por uma porta, outro entrava pela da frente. Ou outra, pensa o gato, divertindo-se imensamente com a coisa toda. 

mulher que entrava na Igreja era bonita, de longos cabelos negros cobertos por um véu, desenfeitada de qualquer outro adereço. Trazia nas mãos uma caixa folheada a ouro para presentear. Os pais que a receberiam, no entanto, eram pobres e simples; estariam mais interessados no conteúdo da caixa: chupeta, mamadeira, babador e diversos itens para bebês. Ela se ajoelhou, ergueu as mãos para o alto e agradeceu a todos os Santos por estar ali. Sorriu para o gato, que ronronou, gostando dela, conhecendo-a de outras vidas.

A cena se repetiu: ela parou, atônita e angustiada, ao encontrar nada além da manjedoura. Viera de terras distantes, passara por frio e medo, por desterros e perseguições, tudo por devoção e amor à Maria e ao Menino. Os olhos marejados, preparou-se para partir. 

O gato esperou, sabendo o que aconteceria em seguida: uma voz feminina, perfeita como a música das esferas, suave como repicar de pequenos sinos celestes, chamou, “Sara, venha, minha amiga, estamos aqui”. A mulher, rindo e chorando ao mesmo tempo, correu para trás do altar.

A porta da frente fechou-se, silenciosamente. Não havia mais raios de sol passando pelos vitrais e, lá fora, a noite se estabelecera, escura e desenluarada. A Igreja, não obstante, estava toda iluminada por velas — acesas não se sabe por quem. Talvez pela mesma mão que fechara a porta. Vocês viram quem foi? Eu não vi. 


O gato espreguiçou-se, langoroso, e foi, ele também, para os fundos da Igreja. Se soubesse sorrir, teria sorrido. Ou sorriu, à maneira dos felinos, ao ver a mesa posta, repleta de saladas, queijos, doces, sucos; São José, conversando animadamente com o Velho Padre, que, feliz, parecia jovem de novo; Nossa Senhora recebendo os presentes de Santa Sara, que tanto a ajudara em momentos difíceis; o casal de Pretos Velhos brincando com o Menino Jesus, que ria sem parar; e o malandro Zé Pilintra, contrariando toda a fama, ajoelhado, em profunda adoração.

Realmente, pensou o gato — que nunca vira Reis Magos tão inusitados —, o Velho Padre tem razão. O Natal é mesmo uma data extraordinária. 

Outros Natais estranhos do Velho Padre e do gato:



Feliz e Verdadeiro Natal a todos! Que o Aniversariante esteja presente em cada momento de suas vidas. 
Muito obrigada pela leitura e pela generosidade dos comentários. Que estejamos juntos em 2016, com Alegria e Paz. 
Amém.



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9 comentários:

Anônimo disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Erica disse...

Mai uma história fofa... Gosto dessas... Obrigada a você, minha amiga, por compartilhar sua imaginação conosco e nos fazer viajar em suas palavras. Feliz Natal!

Cristiane disse...

Sensacional! Que muitos milagres e coisas extraordinárias aconteçam neste Natal! Obrigada por nos presentear com seus contos e que em 2016 você continue nos surpreendendo! Beijo grande!

Marcio disse...

Excelente texto, um verdadeiro presente de Natal!
Que em 2016 eu possa continuar a ter o prazer da leitura de suas obras!
Beijos!

Clarisse Amador disse...

Oh, amiga, você sempre nos encantando (e dessa vez acalentando) com suas histórias! Adoro seu universo fantástico (dizem que o mundo ao nosso redor é todo fantástico; basta ter olhos para ver...)

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Que maravilha de recriação, Zoraya!
Parabéns!

aretuza disse...

nossa, me surpreendeu! fui até olhar meu presépio para ver se também estava vazio!!!

albir silva disse...

Zoraya, suas coisas estranhas acalentam.

Ana Luzia disse...

Minha querida, estava ausente das redes informatizadas e só agora e li a sua crônica de fim de ano... fim de ano? as suas crônicas são atemporais, boas de serem lidas a qualquer tempo e esta? olha só, veio abrir os trabalhos de 2016 com muita esperança e magia, magia de Natal, magia de confraternização, amizade, respeito e fé.

Gratidão, feliz Ano Novo, feliz tudo!

beijos.