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A PRAÇA É UMA FESTA >> Sergio Geia



Escolhi um lugar pra morar que fosse perto da Santa Teresinha. A praça é o meu quintal, o lar onde me criei. Em seus domínios vivi momentos importantes, down e up, e se ela não fala como “O Caderno”, do Toquinho, certamente pensa, ah, pensa! Pensa, sente e pulsa. Quem sabe dia desses não capto sua vibratória e a traduzo pro mundo civilizado, hein? Se já fiz isso com uma árvore frondosa, posso muito bem fazer com uma praça.

Pois nela me esbaldei no parquinho, joguei vôlei, futebol, fiz teatro, dancei quadrilha americana, rezei, peguei, pequei, briguei, brinquei. A praça pra mim é como o terreiro pra mãe Nazinha, a terra molhada pro Julio, o Allianz Parque pro Palestra. Nela me sinto bem, e poder enxergá-la da sacada do meu apê — uisquinho na mão —, dar alguns passos e me banhar no frescor de suas calçadas assombreadas, beber de sua noite sem me preocupar com blitz de lei seca, poder ouvir a pulsação que nasce de suas múltiplas manifestações culturais, era tudo o que a simplicidade da vida poderia me oferecer com perfumes de felicidade.

Pois outro dia, amigo, descobri que nem só de flores vive Holambra, nem só de flores. Já no meu caminhar pela manhã encontrei Chiquinho espumando de raiva, com um palco enorme invadindo seu pequeno jardim de ganha-pão, o lugar em que há mais de vinte anos instala seu carrinho de lanches. “E ainda por cima, Serginho, o fiscal da Prefeitura veio me pedir o alvará, como se fosse eu quem estivesse invadindo o espaço deles, e não eles”.

Já deveria imaginar. Eis que depois do almoço, usufruindo daquele cochilo bom a que todo trabalhador digno e honrado tem direito aos domingos, sou despertado por insistentes badaladas de um sino que já foi meu amigo em tempos idos, mas que agora estava sendo cooptado de forma intempestiva por um pilhado sacristão, que deveria estar no mínimo tendo um orgasmo abraçado às cordas toscas e grossas.

A trilha sonora trazia um inusitado axé gospel. Pois estava ouvindo Compadi Washington em pessoa comandar os fiéis, mesmo sem Beto Jamaica (fiquei na cama a imaginar se haveria louras e morenas dançando “Ali Babá”). Com todo o respeito ao ritmo, admito que não sou lá muito fã, e juntar axé com gospel, aí, é o fim da picada; tava mais intragável que um Classic Suave contrabandeado do Paraguai. Depois comecei a ouvir preces e orações, pai-nossos e ave-marias, o início de um terço, talvez, que torci para que fosse não um terço, mas um setenta e quatro avos de um rosário, que seria muito mais suave. Depois, do nada, surgiu uma banda (estava à toa na vida mesmo!). Já imaginei o exército marchando no entorno. O sino voltou a tocar, agora com mais raiva ainda, talvez a minha que chegou lá por um contato imediato de nono grau. Os rojões, os vivas. Até berimbau apareceu.

No meu apartamento, eu não estava a fim de ouvir missa, de rezar terço, ouvir gospel, ou gritar vivas ao Senhor. Eu queria mesmo era algo muito mais simples e corriqueiro: ver o meu grande Palestra deitando e rolando, de preferência tomando um uisquinho, de preferência comendo amendoim.

Mas o Senhor Deus é Deus pra todo mundo, e o vento que venta lá venta cá. Assim, Compadi Washington vinha e ia ao sabor do vento, cada vez mais cansado, até que de uma hora pra outra sumiu de vez pro meu alívio, fato que me fez prontamente agradecer com um singelo pai-nosso, muito embora achando que depois dessa tarde, e principalmente desta crônica, minha alma não terá mais salvação e haverá de arder no fogo do inferno (será que a loura do Tchan vai estar lá?).


Ilustração: Joan Miró

Comentários

Anônimo disse…
Texto maravilhoso!
Fluido, imagens criativas, com certa cadência (apesar de uma prosa), divertido, muito bom. Parabéns!
Almiro Resende disse…
Sérgio Geia, perdão pelo comentário que fiz em seu maravilhoso texto, é que não tenho intimidade com as redes sociais e falei sobre o Romário, adoro futebol assim como adoro ler etc, desculpe -me do fundo do meu coração, seu texto não merecia isso; forte abraço
Almiro Resende disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
sergio geia disse…
Obrigado, amigos. Não por isso, Almiro. Volte sempre!

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