sábado, 19 de dezembro de 2015

24 DE DEZEMBRO DE UM ANO QUALQUER
>> Sergio Geia




Pelas frestas da janela, os sons que não se calam penetram no quarto escuro: o cachorro latindo longe; o gorjeio de aves em festa; um ou outro carro que passa; o atrito de pratos e garfos no preparo da ceia. A cidade está ansiosa: mais um Natal. O silêncio amistoso vai sendo quebrado aos poucos pelas aves, pelos cães, pelos pratos, pelos carros. E agora, pelo sino da igreja.

Levanto apenas para abrir a janela e me deixo cair com vontade de não sair, de chumbar os olhos no travesseiro ainda quente, como se magicamente ele pudesse desligar a vida por algum tempo e fazê-la ressuscitar num outro dia qualquer, quem sabe no ano que vem. Da janela, a beleza de um afresco de final de tarde me surpreende: a Mantiqueira poderosa, as casinhas misturadas aos arranha-céus, a mangueira esverdeada sendo esbofeteada pra lá e pra cá por um vento anunciando chuva. Perco-me na visão até me afundar de vez no travesseiro, os ouvidos ligados aos rojões das seis, às notícias de estradas congestionadas, de praias bombando; às bebidas e à comilança de mais uma ceia de Natal.

Franzen me cansa. Nada me encanta. Hoje não. O tijolo desconcertante que avança como um leão faminto através do velho comendo baguete com lâminas de manteiga, lascas de parmesão e azeitonas; do neurótico preparando churrasco misto ou, bêbado, se dispondo a podar a sebe. É como avançar sobre um tratado de como a menina comia pão com margarina; como o velho ourives arrumava a cama após o almoço, para garantir meia-hora de sesta; como a dona de casa, em pé, sobre uma cadeira encostada ao muro da vizinha, na ladainha diária do comentar a vida, esfregava o pé comido pelo mosquito.

Nando me encanta. Na simplicidade. Na partilha da vida. Em público. Na autenticidade crua. Na expressão nada facebookiana de mostrar o que foi, o que é, o que dói, o veneno que mata a vida, e não somente o lado bonitinho da coisas. A vida é mesmo muito frágil. Uma bobagem, uma irrelevância. Diante da eternidade do amor de quem se ama. Leveza bruta. Jogo do tijolo que mando longe. Jogo do CD que eriça os meus pelos.

Num quintal, vejo pessoas chegando com sacolinhas do que provavelmente seja cerveja. Os porquinhos miúdos assam na fornalha coletiva. A ceia é preparada para a alegria da macacada. As notícias da televisão são as mesmas. As ceias encomendadas em padarias, os shoppings lotados, a 25 de Março, aqueles que deixam pra comprar os presentes na última hora. Novos Natais, velhas notícias.

Deito no sofá entediado. O violão pula pras minhas mãos. Arrisco “Não vou me adaptar”. Uma cifra mamão-com-açúcar. Sol, dó, ré. Na parte do “será que eu falei o que ninguém ouvia”, uma caída pra si menor. No mais, sol, dó e ré. Depois, Ive Brussel, a belga que hospedou o Jorge em Bruxelas.

Escuto os rojões e decido voltar pra cama. Mas primeiro paro na cozinha, e revigorado, preparo uma omelete. Ah, Carpinejar, me ajude a chorar!


Ilustração: Carl Larsson

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2 comentários:

Wilson disse...

Grande Sérgio . Sempre na exata medida, sempre o tom bittersweet que nos é tão caracteristico, sempre colocando em linhas o que a boca não fala. Tinta fresca que nunca seca.
Branco

sergio geia disse...

Um comentário dessa natureza vindo de você caro amigo Wilson Branco, que tem uma das páginas mais inteligentes e divertidas do Facebook, só me alegra e me motiva a continuar criando e me divertindo. Obrigado a você, aos amigos cronistas da casa, e a todos os leitores do Crônica do Dia. Um Feliz Natal!!!