quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

NINGUÉM >> Carla Dias >>


É ninguém e sabe disso.

Ninguém que se acopla à realidade de outros, porque a vida decidiu cuspi-lo no planeta, feito rejeição existencial. Sendo ninguém, transita por aí sem ser notado. Às vezes, arrecada de um e outro alguns olhares, mas então eles pensam que deve se tratar de algum fantasma, ou mesmo de uma ocupação indevida do delírio das suas cabeças sempre tão ajustadas.

Ser ninguém exige competência. Se não há competência, o ser em questão dura apenas uma recuperada de fôlego, depois, tchau. Com competência, esse ser pode se graduar como coletor principal de sonhos não correspondidos, necessidades renegadas, dividendos e suspiros.

Os suspiros são significativos.

Sabendo-se ninguém, gosta de se hospedar na direção dos olhares que, escravos da certeza de sua inexistência, desviam-se de forma dançarina. Sabe como? Para lá e para cá, nunca em sua direção. Como se ali em frente não existisse. Não que queira se impor ao fazer isso. Apenas aprecia assistir à coreografia do desvio de olhares.

Quando se é ninguém, deslocar-se pela cidade pede por certo gingado. Até os semáforos parecem concordar com os motoristas e se abrem todos, verdejando passagem aos seus, limitando a viagem do ninguém.

Tá bem... Aqui o ninguém foi além com suas caraminholas. Vamos deixar os semáforos trabalharem, que eles parecem fazer isso direito.

O dia em que se percebe ninguém é dos mais tristes que até então um alguém pode viver. Antes dele, era-se pessoa, com uma lista de sonhos e ânimo para encarar jornadas, arriscar-se e receber diferente do que pediu, mas ainda assim, apreciar a conquista. Havia música para quebrar silêncio, jantares em restaurantes — e nem sempre bons restaurantes — para calar estômago roncando. Até cama... Cama... Cama... Cama.

Ser ninguém é diferente de tornar-se. Obviamente, as margens existem em qualquer situação. Neste caso, quem se transforma em ninguém apreciou algo que o ninguém que é jamais experimentou: respeito. Não precisa ser dos mais requintados, popular, respeitinho básico mesmo. O ninguém que é nunca teve esse prazer. Vive a colher “bom dia” e “boa tarde” e “boa noite” que não são para ele.

Ele sabe que é ninguém. Na verdade, é um dos mais talentosos ninguéns que já conheceu. Se houvesse um concurso para o ninguém mais ninguém, ele venceria. Sua irrelevância transpõe os limites da logística social para fazer cidadão dormir, de preferência, após degustar o boi que deveria dormir no lugar dele.

Sem ter o olhar treinado por imagens sedutoras, a alma entortada para condoer-se em nome das tragédias alheias, de forma estática e telespectadora. Por não saber quantos cômodos tem essa casa dele que é o mundo, ou em qual quintal pode brincar de ser gente, o ninguém apenas existe.

O que não se pode dizer de um ninguém é que ele não sonha. Com esse acessório, todo ser humano vem ao mundo. Porém, um ninguém sonha com coisas bem diferentes de um alguém, como, por exemplo, ser ouvido. Não daquele jeito performático-burocrático, quando um atendente distraído não faz mais do que esperar o fim do turno, enquanto o ninguém explica suas urgências, que definitivamente não serão sanadas pelo serviço oferecido aos ninguéns por pura comodidade social.

Veneno poderoso é a indiferença. É nela que um ninguém feito ele se debruça. É ela que lhe serve de casa. Às vezes, ele grita até a voz sumir, pensando que o problema seja realmente por ele não se expor o suficiente. Porém, nada muda ao seu redor, tampouco para ele.

Ser ninguém exige competência. É anoitecer e amanhecer sem ter ideia de quanto tempo irá durar nesse mundo. Mas isso é um mistério para todos, certo? Então, o ninguém em questão respira fundo e retoma sua jornada. Faz as pazes com os semáforos e vai assistir mais uma sessão da coreografia dos olhares desviados.

Mas que fique bem claro: o ninguém pode até não saber disso, mas ele é um alguém no qual a vida ainda não botou reparo.

Imagem: The Mysteries of Horizon © René Magritte



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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Muito bom, Carla!
Acho que os outros pronomes indefinidos também merecem crônicas: alguém, fulano, sicrano, beltrano, outrem, quem... :)

Carla Dias disse...

Eduardo... Vou providenciar um festival de crônicas no estilo pronome indefinido. :)