Postagens

Mostrando postagens de Agosto, 2021

COMO ESTRAGAR UM ALMOÇO?? >> Clara Braga

Quando eu tinha 16 para 17 anos, tive um colega de sala que era vegano. Ele vivia mostrando para a turma aqueles vídeos de como matam os animais para produzirem o alimento, ou sobre o quão desumano é o local onde os bichos ficam até serem abatidos, ou até sobre o quanto os hormônios liberados pelo estresse do animal são prejudiciais para quem come. Enfim, ele mostrava todo tipo de vídeo, e eles eram de fato informativos, mas também eram bem chocantes. Eu, depois de um ano estudando com esse cara, comecei a olhar diferente para o pedaço de carne no meu prato. Comecei a sentir nojo e não consegui mais comer. Não cheguei a ser vegana, mas passei dois anos da minha vida sem comer nenhum tipo de carne. Mas, o que deveria ser uma atitude legal, virou um problema, pois nessa época eu tinha um paladar bem infantil e super seletivo. Era uma vegetariana que não comia vegetais. Minha alimentação era basicamente à base de arroz e soja. Resultado: fiquei anêmica e acabei optando por voltar a comer

LAMÚRIA >> Fred Fogaça

Imagem
  O pobre de latir, a corrente rangendo esticada ardia na inquietação a umas visitas. À distancia segura, uns endereços e pessoas se enfileiravam num discurso inflamado eu percebi em mim um choque porque reconhecia - e a elucidação aos fatos ia me fazendo culpado de não envolvimento. O observador fiel pego em seu viés não pode cobrar isenção. Em reservado torcendo a opiniões tenebrosas - e existem coisas difíceis de entender: não há posições impunes: eu já me abstive de explicar mas não é o bastante. Só há corredores de saída única à partir dessa porta e eu nem tirei os sapatos antes de entrar. Sobra a lamúria: quanto risco vale uma empatia?

OK? >> Sergio Geia

Imagem
  (das pequeninas e desimportantes)      Eu lavava louças quando resolvi cortar um mamão. Peguei-o de cima da geladeira e um pedaço já sucumbia. Como estragam rápido os mamões! Até ontem era verde; agora, quase não presta mais. Arranquei a parte escura com uma faca de corte e uma boa metade ainda se ofereceu ao consumo.    Levei minha refeição frugal à sala. Liguei o som, a voz de Chico em suas caravanas tomou o ambiente. Ao abrir do violoncelo eu fechei os olhos:    "Súbito me encantou / A moça em contraluz / Arrisquei perguntar: quem és? / Mas fraquejou a voz / Sem jeito eu lhe pegava as mãos / Como quem desatasse um nó / Soprei seu rosto sem pensar / E o rosto se desfez em pó / Há de haver algum lugar / Um confuso casarão / Onde os sonhos serão reais / E a vida não / Por ali reinaria meu bem / Com seus risos, seus ais, sua tez / E uma cama onde à noite / Sonhasse comigo / Talvez” (A moça do sonho – Edu lobo / Chico Buarque).   Há de haver algum lugar, um confuso casarão, on

CARTA A PAPAI - 2 >> Paulo Meireles Barguil

Fortaleza, 21 de agosto de 2021. Querido Papai, hoje, o senhor finalizou a sua missão na Terra. Seus 90 anos foram repletos de conquistas e de renúncias em prol do bem estar da família. Lamento que não nos despedimos adequadamente, uma vez que o Alzheimer  me privou lentamente da sua presença. Por outro lado, tive a oportunidade de lhe agradecer várias vezes por tudo que fez por mim. As boas lembranças me ajudarão a cicatrizar as feridas ainda abertas. Pode ser que, em algum momento, tenhamos a oportunidade de partilhar os nossos segredos, cuidadosamente guardados. Fantastic , você continuará vivo em todos que lhe conheceram, notadamente pela sua integridade e generosidade. Continuarei a lhe pedir benção, mesmo que não ouça a sua resposta. Obrigado por ter sido meu pai. Beijo, com amor Paulo [Crônica dedicada a José Pedro Barguil. A Carta anterior está aqui ]

AFOGAMENTO >>> Nádia Coldebella

Imagem
(clique no vídeo e depois leia) com uma agulha em meu peito tive certeza - desse jeito. depois de dores, angústia e falta de ar me deixei levar. cabeça no travesseiro algumas lágrimas também (e algumas orações, confesso) e então me joguei. e então ninguém. e então o medo e a barreira entre lá e cá. e enquanto a agulha em meu peito dançava mergulhei. minha cabeça cedeu e nesse balanço amornei. afundei. parei de respirar. toquei os dedos no lado de lá. uma afogada buscando ar. emergi e olhei em volta sem saber direito porque respirar. Arte: Nádia Coldebella

CENÁRIO 3 | AQUELE QUARTO >> Carla Dias

Imagem
Lembra-se de quando pediu para que as cortinas não fossem floridas. Não gostava de jardim estampado, preferia aqueles com os quais conseguia se misturar. E ele respeitou esse desejo, o último, o mais importante, o de antes de o outro desaparecer, continuando ali. Sentado em uma cadeira, no canto do quarto, uma tentativa vã de se esconder da realidade, já que sua atenção jamais se desviaria do outro. Seu olhar captura a impotência de um observador que não está ali para matar curiosidade, colher sabedoria, aprofundar-se em um interesse. Está ali para atender a necessidade da realidade de se impor, exigindo espectadores atentos. Por um instante, ambiciona se tornar um distraído. Depois, passa. Porque há nessa dor de fazer companhia ao vazio do outro uma conexão que ele nunca sentiu com outra pessoa. E ela vem acompanhada de uma raiva sufocante, uma taquicardia de desamparos e arroubos. Uma incapacidade de se conformar que parece que nunca se dissipará, apesar de tantos jurarem que sim, el

FÉRIAS >> Albir

 O cronista Albir está de férias.

FÉRIAS >> Sandra Modesto

 A cronista Sandra Modesto está de férias.

O FEITICEIRO SR. AMADAN E O GATO MR. STEVENSON RECEBEM VISITAS >> Zoraya Cesar

Imagem
Mr. Stevenson dormitava no telhado, aquecendo-se ao sol morno da tarde,  aguardando o Sr. Amadan trazer as novidades. A curiosidade nunca mataria aquele gato.  O feiticeiro chegou com uma novidade e tanto! Seria inspecionado pelo assistente-mor do Prior do Convento dos Feiticeiros das Poções. Era muita honra, mesmo para ele, Amadan, grão-mestre das Químicas dos 6 Estados da Matéria Insubstancial. O Sr. Amadan já tinha honrarias suficientes. Mas, se aprovado pelo assistente, receberia o Selo Quark de Proficiência , que, além de garantir grandes descontos na compra de material extra-dimensional, dava-lhe o direito de frequentar o Convento dos Feiticeiros das Poções . Sempre tivera o desejo de ver de perto o famoso Jardim das Flores Faladeiras (e como eram faladeiras, aquelas flores! Uma vez descobriram o corpo já morto de uma feiticeira que, ingenuamente, sentou-se para conversar e nunca mais saiu de lá. Muito triste).  O gato ouviu tudo, as pálpebras semicerradas. Era um gato atípico,

RESGATE >> whisner fraga

o tempo infecta a carne dos dias o tempo e seus mastins de fogo e o que é isso?, essa espora de fel? as células obedecem a ordens intangíveis e partimos um e chegamos mil (e nenhum) a menina acaricia as dobras em minhas peles ela mesma já outra, já vergada pelas horas quais dias nosso íntimo decifra? longitudes varrem a memória e somos apenas vinte ou trinta lembranças e nem reconhecemos o que há de ficção nelas quanto há de riso, de ruído se somos ecos de nós próprios se somos é preciso abraçar, menina só o outro virá nos resgatar.

CENÁRIO 2 | AQUELE JARDIM

Imagem
O lugar funcionando como se nunca tivesse parado, nem mesmo aos domingos de pancadas de chuva, de alagar expectativas. Um fervor de gentes que necessitam se deslocar das suas próprias realidades, visitar a de outros para se sentirem aninhadas na possibilidade de não terem definido a si mesmas com o descaso de quem tem preguiça de se enxergar no mundo.  Ele sabe que um precisa do outro para perceber a si. Que seria impossível praticar o mínimo de compreensão sobre a vida se não houvesse aqueles outros e a variedade de sutilezas e contrastes responsáveis pela construção do que muitos deles consideram ventura. Um lugar de brindes, da ebriedade coletando gargalhadas defensoras da liberdade de ecoarem sem limites. Um lugar de encontros, de há tempos e há pouco, de permuta de notícias causadoras de rugas de espanto e tristeza, de caretas apreciadoras de segredos compartilhados, de um respirar profundamente de quem recebe informação que desalegra em meio a um cenário de celebração. E esse lam

EU E MEU OBSESSOR >> CLARA BRAGA

Sou nascida e criada em família espírita. Ouvir alguém dizer que viu, ouviu, sentiu ou conversou com alguém que já morreu, para mim, é parte da rotina dos almoços de domingo. Se a pessoa anda estressada, irritada, cansada, mandam logo tomar um passe, isso, com certeza, são os obsessores atrapalhando. Por outro lado, se tudo anda dando certo, então a pessoa deve estar rezando direitinho e os espíritos protetores estão ali atentos. Mas devo confessar que eu acabei sendo uma espírita um pouco fajuta. Esse papo de que nós nunca estamos sozinhos nunca foi muito confortável para mim, chega a ser até um pouco perturbador. Também acham que por eu ser espírita, passei ilesa pelos filmes de suspense e terror, já que eu sabia que boa parte do que acontecia ali não era real. Mas a verdade é que as partes que mais me impressionavam eram justamente aquele 1% que podia ser real, então, eu acabava pedindo abrigo no quarto dos meus pais sempre que me aventurava a ver um filme desses. E a mais recente p

O ÚLTIMO LUGAR DE ESTAR DO MUNDO >> Fred Fogaça

Imagem
  A coisa toda tinha, sei lá, uns quarenta ou cinquenta metros quadrados em cômodos minúsculos, um planejamento todo pautado na ineficiência - ou talvez seja a influência contemporânea dos espaços únicos dando efeito nas minhas ideias - e é o caso que seja muito pouco chão pra esse punhado de gente pisar: a TV miúda de olhar pelo outro lado da sala, a cortina que reserva  um quarto de sala quando o vento bate, sujeira dos outros reservando lugar pra todo canto e eu, tentando apreender, procurando meu lugar de estar. Eu que até costumava gostar de banheiros, por exemplo, porque banheiro é terra de ninguém e eu, ali no contexto bastante como um ninguém, me sentia incluído. Mas já viu banheiro de apartamento pequeno? Não tem sacada e de repente é até bom que não tenha, quem ia ser o dono da sacada? Uma vez vi uma sacada que cabia uma cadeira de praia e uma pessoa magra, não dava pra esticar a perna. Cômodo,  sem conforto ali ninguém fica muito - só a conta do cigarro. Mas aqui nem isso t

PARA VOCÊ LER QUEM SABE UM DIA... >> Sergio Geia

Imagem
  Você se alegra quando percebe quem são as visitas. Até então, não entendia a subtração da paz, da televisão, do Raul Gil. Não entendia porque a levavam para fora, muito embora o sol daquele meio de tarde fosse agradável, aquecia o colo mesmo sem a manta esquecida na poltrona da sala de tevê.    Responde às nossas perguntas com escassez de palavras, há confusão no entendimento e nas respostas. De vez em quando volta a sua atenção para a unha, fica ali a examinar em minúcias como se houvesse algo inapropriado naquele pedaço de seu corpo que lhe causa tamanho estranhamento.    No silêncio que permitimos existir, você se desliga do mundo, e uma simples unha começando a debulhar é o seu mundo encantado talvez.    Falamos do tempo, da beleza do sol, do verde verdinho do jardim, algumas lembranças de familiares, e a sua dificuldade em falar e ouvir é tanta, que suponho o silêncio lhe fosse mais agradável, o seu mundo, talvez nele estivesse as lembranças de um tempo em que você era altiva,

PARTIDA >> Paulo Meireles Barguil

– Papai, não quero vir para sua casa na outra semana – falou a filha adolescente no final da usual caminhada noturna em volta do quarteirão. Ele não foi pego de surpresa, muito pelo contrário! Há alguns meses, ele conversara com ela sobre essa possibilidade. Desde muito pequena, ela sempre teve duas casas: a da mãe e a do pai. É natural, portanto, que, depois de tantos anos, a filha decida pausar a sua vida de peregrina. O pai escutou atentamente os motivos e não se esforçou para refutá-los. Após afirmar que os acolhia, indicou que talvez existam outros que não foram apresentados, seja porque ela os ignora, seja porque ela não se sente à vontade para expressar. Quem é pai ou mãe sabe que o destino da prole é partir. Quando isso ocorre, o mais importante é continuar disponível para favorecer os breves retornos, bem como avaliar o que pode melhorar para aproveitar mais os futuros momentos juntos.

AZURRINA - Parte Final >>> Nádia Coldebella

Imagem
Apesar de antiga, a construção ainda estava preservada. Algumas trepadeiras escalavam tijolos,  já machucados pela ação do tempo. A direita, encontrava-se uma torre alta que servia de abrigo para os pássaros que por ali passavam.  As janelas da torre estavam completamente nuas e, quando os ventos fortes do inverno chegavam, cruzavam-nas, emitindo um uivo macabro. Nas imediações, havia uma espécie de porão, que provavelmente, em outros tempos, servira de abrigo ou esconderijo. Os antigos contavam que ali encontrava-se um sem número de túneis que ligavam o castelo a diversas igrejas e outras construções que abundavam na região. Os habitantes do lugarejo temiam o local que julgavam assombrado, e, por causa disso,  dificilmente viriam até ali. Ele sentou-se em uma pedra e observou a irmã que, alheia ao perigo, corria pela grama e ria, brincando com as sombras que eram formadas pelos raios de sol ao inundar de luz seu cabelo albino. Repentinamente, ela abaixou-se e sua expressão era de espa

CENÁRIO 1 | AQUELE BAIRRO >> Carla Dias

Imagem
Não gosta de grandes avenidas, tudo largo de vastidão a se perder de vista. As ruas misturadas em veias de cidade o atraem. Os semáforos mudando ritmos a cada matização, partes de conversas afanadas de estranhos em pontos de ônibus, filas de supermercado, na lojinha de utensílios diversos. Basta querer escutar. Dedica tempo a conhecer suas casas e ladeiras, a observar suas faces coradas de inverno invadido por verão e nada modestas declarações de amor registradas em sulfites colados em postes, que sempre lhe fazem suspirar ao lembrar de quem nunca o amou.  As árvores engolidas por pequenas criaturas que trabalham em mutirão, amarelando folhas, desfazendo raízes, alimentando-se do que um dia elas foram, de gula para não restar esqueleto. As janelas de olhos fechados, que raramente se abrem para encarar mundo, mas quando o fazem, enchem o quarteirão de alegrias e distribuem novidades. Anda apegado aos santos dedicados a desarmar homens superpoderosos que alimentam o mercado imobiliário.

FÉRIAS >> Albir

 O cronista Albir está de férias.

IMENSO INVERNO >> Sandra Modesto

No arrepio rebuscado, onde o frio é meu inimigo oculto, essa minha existência cheia de indagações, procura docemente a memória de tudo o que eu vivi com o meu pai.  É domingo. Quase final. Quase alguma coisa. Na tela da TV, a seleção brasileira e a seleção da França disputam handebol.  Eu busco meu pai na poltrona que eu herdei. Rasgada pelo tempo, pedindo reformas, e, nessas costuras, há silêncios, choros de calmaria, ventos pelas fretas, janelas de vitrais, fechos pedindo um tempo.  Recordo tantos momentos, pai. A gente se encontrando no cinema — Cine Ituiutaba. Você não sabia que eu estava ali. Eu menti. O filme era (Lúcio Flávio, O Passageiro da Agonia - com Reginaldo Faria). Impróprio para menores de 18 anos. Eu tinha 16.  O cinema não existe mais. Que saudades daquela hora, quando as luzes se acenderam, e pá! Encontrei meu pai. Não levei bronca.  Minha relação com o meu pai foi de amor. Intensa. Imensa no espaço de pouco tempo. Linhas a serem preenchidas. Meu pai era meu mundo. 

AS BORBOLETAS AZUIS DO AMOR E DA MORTE > > Zoraya Cesar

Imagem
Ele olhava, maravilhado, o revoar delas. Tão lindas, pareciam fadas esvoaçantes e diáfanas. Tanta beleza solta pelo mundo, era só querer ver. Levara quase seis meses para descobrir o esconderijo das borboletas azuis. Um grupo de cientistas enfurnados num acampamento, no meio do mato, do frio e do desconforto, procurando desesperadamente por aquele lugar e fora ele, sozinho, quem o achara. Em seu coração, sentia que era um chamado. Elas o atraíram ao seu encontro. Elas entendiam seu desejo. A entrada da caverna estava escura e úmida. Os esparsos raios de sol mal passavam por entre as árvores cerradas, deixando o ar frio, quase enregelante. O cheiro de húmus das folhas em decomposição era forte o suficiente para penetrar pelo capuz de proteção. O burburinho do córrego provocava uma sensação quase hipnótica. Um cenário de romance, a natureza em sua mais bela expressão. E o azul das borboletas! Uma estranha e, não obstante, sublime combinação com a verdidão sombria ao redor. O dia estava c

os nomes da dor >> whisner fraga

Imagem
guioza, azuna, gacha, mangá. as palavras amesquinham significados, embora a menina receie o que quer: vou escrever um mangá, vou desenhar, as personagens, todas: orientais, (nai, aiko, sayuki, yuri, kou, tsunade, yumi) feições, trejeitos, cultura, conflitos: orientais, por quê?, porque sim, eu gosto, a menina volta ao papel e já não tem ideias, e quer continuar, você não entende nada!: a menina desaba, grita a vaidade dos incompreendidos, não entendo: me explica, a vanglória passadiça, provocante, é assim porque sim, uai, a menina volta ao papel para perceber que nem tudo é compreensão.

DESCONTOS >> Carla Dias

Imagem
Há dias ela segue vagueando pelo apartamento. Tem planos desinibidos para desejos baratos e uma agenda de eventos aos quais se orgulha de ser capaz de escolher não comparecer. Respira com profundeza adquirida, por meio da devida experiência, a cada vez que o âncora do jornal diz “há problemas nessa narrativa...” No sigilo dedicado às constatações de intimidar, confidencia a si – vestindo um sorriso desmaiado – que a narrativa que a própria vem alimentando é tão vazia quanto as que esperneiam nas notícias do telejornal. Problemáticas narrativas em roupas requintadas de esconder vergonhas que não sofrem de modéstia. Então, deixa para lá. Sabe que o mundo sofre. Os habitantes dele sofrem. Ela sofre enquanto navega pelos metros quadrados da sua biografia amuada, ajeitando cortinas, visitando produtos de limpeza, suspirando a falta de apartes. Ainda que lá fora acontecimentos desfilem sua diversidade de instigações: cheiros, sons, espaços, gentes. Ainda que o telefone toque e ela escute o t

UM DIA CAI A FICHA >> Clara Braga

Ao longo dessa pandemia, ouvi várias vezes algumas pessoas comentando que envelheceram 10 anos nesse último ano. Achava curioso, eu não tinha essa sensação! Mas entendia o que as pessoas estavam querendo dizer. Então, essa última semana, fui mandar uma mensagem de aniversário para uma amiga. Abri o WhatsApp e comecei a escrever. Quando terminei, fui reler para garantir que tudo estava escrito corretamente. Nesse momento de revisão, tive a minha surpresa: eu não envelheci 10 anos, eu envelheci pelo menos uns 70 anos! Aquela clássica frase “uhuwww, parabéns! Onde a gente vai beber pra comemorar?” foi trocada por “Parabéns, muita luz na sua nova fase! Que essa jornada seja leve e que você possa realizar seus sonhos!” Parecia que eu tinha copiado e colado uma mensagem de aniversário escrita pela minha bisavó, mas ela faleceu muito antes de existir whatsapp! Não posso nem falar que parecia uma mensagem das minhas avós, pois as duas conseguem mandar mensagens bem mais elaboradas que essa. In

O BAÚ >> Fred Fogaça

Imagem
      Eu vi o caixão sendo fechado, vi quando levaram a caixa toda pelo meio do gramado. O buraco já estava pronto, o volume faltando revelava uma câmara com estantes e outras pessoas ali esperando companhia - e um monte de terra disforme ali do lado, esperando pra encobrir toda aquela vergonha. O monte de terra ali, escalado para encobrir essa falta de sentido em tudo aquilo. Havia, sim, um tapete de grama verdinha por cima da grama seca daquele jardim, e um banco colonial de madeira em cima, de frente praquele buraco negro como se fosse um cinema. Eu não compreendi. Não consegui. Que você vai fazer aí dentro, pai? Toda aquele jeito com a eletricidade, todo aquele rebuscamento na hora de posicionar as luzes e você vai descer sem sua caixa de ferramentas. Havia, sim, também, pessoas ali, em volta de mim, só que longe, me olhando, ninguém se atrevia - era demais pra todos nós. Mas só eu tinha a coragem. Eu e uns homens enormes que desciam aquela caixa com cordas lá pra baixo.  Depois c