O BAÚ >> Fred Fogaça

 

 
Eu vi o caixão sendo fechado, vi quando levaram a caixa toda pelo meio do gramado. O buraco já estava pronto, o volume faltando revelava uma câmara com estantes e outras pessoas ali esperando companhia - e um monte de terra disforme ali do lado, esperando pra encobrir toda aquela vergonha.

O monte de terra ali, escalado para encobrir essa falta de sentido em tudo aquilo.

Havia, sim, um tapete de grama verdinha por cima da grama seca daquele jardim, e um banco colonial de madeira em cima, de frente praquele buraco negro como se fosse um cinema. Eu não compreendi. Não consegui. Que você vai fazer aí dentro, pai? Toda aquele jeito com a eletricidade, todo aquele rebuscamento na hora de posicionar as luzes e você vai descer sem sua caixa de ferramentas.

Havia, sim, também, pessoas ali, em volta de mim, só que longe, me olhando, ninguém se atrevia - era demais pra todos nós. Mas só eu tinha a coragem. Eu e uns homens enormes que desciam aquela caixa com cordas lá pra baixo.  Depois colocavam umas tampas de concreto e selavam por cima e escondiam tudo com terra como se o perigo fosse descobrirem que ele estava sendo preso ali.

Mas eu tinha visto.

Todos lá longe e se ocupavam de chorar e contar umas coisas que eu não sabia mas eu vi; e vou esperar todo mundo ir embora pra tirar ele de lá.
 

Comentários

Sandra Modesto disse…
Que forte. Um misto de cenas reais e linda narrativa. " E vou tirar ele de lá". Parabéns, Fred.
Zoraya Cesar disse…
Espetáculo de mini conto. Só isso tenho a dizer.
EZEQUIEL FOGAÇA disse…
Que que eu tava fazendo lá???
Já fiz tantos consertos nessa minha vida!!! Mas nunca havia consertado uma tumba por dentro (rs rs rs) ainda mais concretada. Pelo menos reparou se na caixa tinha um martelete???? Talvez esse me salvasse...(rs)

Postagens mais visitadas deste blog

APENAS UM RETRATO >> Sergio Geia

OK? >> Sergio Geia

SACERDÓCIO >> whisner fraga