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Mostrando postagens de Janeiro, 2013

ASSUMINDO O SEU PAPEL >> Carla Dias >>

Minha mãe ensinou aos seus filhos, e muito cedo, que com as escolhas vêm as consequências, as responsabilidades. Não é uma lição muito difícil de se compreender, afinal, trata-se da pontuação que damos à nossa vida, a criação do ritmo da nossa existência.

Esse aprendizado, tão básico, tão óbvio, é também relegado quando se trata do que desejamos e do que realmente podemos conquistar. Em algum momento, muitos vão escolher driblar esse aprendizado, tornando-o obsoleto mediante necessidades pessoais. E tudo bem cuidar de si, antes do outro, de colocar-se em primeiro plano, afinal, a sua vida é nada sem você.

A grande questão nesse aprendizado tão básico, tão óbvio, é que ele não é alimentado somente pelas palavras e pelo cuidado das nossas mães ou durante a nossa vida escolar. É o tipo de ensinamento que temos de aceitar a cada dia, a cada escolha. Infelizmente, nem todos compreendem esse aspecto desse aprendizado. Nem todos estão dispostos a aceitar as suas exigências.

É fato que uma pe…

MAIS UMA VEZ O MESMO ASSUNTO
>> Clara Braga

Sei que, de domingo para cá, falar da tragédia de Santa Maria já se tornou exaustivo. Não queria ser mais uma na multidão falando do mesmo assunto que, de tanto que já foi falado, talvez não tenha nada mais a acrescentar, mas estou sentindo necessidade de me expressar a respeito do ocorrido.

Nessas horas em que vivenciamos momentos trágicos, talvez o melhor seja mandar vibrações positivas em forma de orações e nos calarmos. Quando falamos demais, começam a aparecer pérolas como "se eles estivessem na igreja não teriam morrido", como se nunca uma igreja tivesse pegado fogo, ou como se diversão fosse sinônimo de coisa ruim.

Mas a verdade é que, por mais trágico e triste que tenha sido, esse era um incidente anunciado. Espero que não me entendam mal, mas, por mais cruel que possa soar, acho que demorou para acontecer. Há um tempo frequento casas noturnas em Brasília e, de uns tempos para cá, passei a tocar com minha banda em algumas delas, e uma das minhas preocupações sempre f…

PURIFICAÇÃO II >> Albir José Inácio da Silva

(Continuação do dia 14/01/13)


Na praça, em frente à matriz, a Santa Inquisição cumpre mais uma vez o doloroso dever de queimar inimigos da Sé. Lanças mantêm a plebe longe das fogueiras do sacrifício. O escrivão apresenta o primeiro condenado, um tal de Pero, criador de porcos, preso como herege, que não se confessou, não se arrependeu nem pediu clemência ao Tribunal. Bastaria acender a fogueira, mas o bispo não se lembra do caso e pergunta:

- Que heresias ele proferiu? – perguntou o bispo

- Falou mal dos padres e da Igreja.

- Um pecado tão simples! Todo mundo fala mal de padre, atualmente, e não acaba na fogueira.

O escrivão explicou então que Pero danou-se porque quis. Bastava-lhe confessar, pedir clemência, dizer que estava bêbado e nunca mais faria isso. Jurasse obediência à Santa Madre Igreja, entregasse alguns porcos a título de indulgência, e se livrava. Quando muito, pra não falar mais bobagens, ficava sem a língua, mas vivia. Mas não, nem os olhos baixou diante dos juízes. Arr…

VENDE-SE FELICIDADE! >> Sílvia Tibo

Quando eu era criança, ficava intrigada ao ouvir um adulto dizer que não podia comprar alguma coisa. Pensava sempre com os meus botõezinhos (já bem agitados à época) que aquilo não fazia o menor sentido. Afinal, o que é que custava pegar a caneta e preencher uma das muitas folhinhas do talão de cheques, no valor da mercadoria desejada?
E só não pensava que seria mais fácil ainda passar o cartão de crédito na maquineta da loja (como, imagino, devem cogitar as crianças de hoje), porque esse instrumento de compra ainda não havia sido inventado à época.
Mas não demorou muito para que eu passasse a ter noção do quanto as coisas custavam e do quanto era difícil consegui-las. Em pouco tempo, percebi que as folhinhas de cheques, em si mesmas, não tinham qualquer serventia. Era preciso trabalhar (e muito!) para que elas adquirissem algum poder de compra.
Para a minha total decepção, num belo dia, descobri que os tais papeizinhos não podiam ser simplesmente trocados por bonecas, vestidos e …

UM PRATO CHEIO DE INCOERÊNCIA
>> Mariana Scherma

Eu sou expert em pegar conversas alheias engraçadas, confusas, suspeitas, enfim... Vai ver é por isso que vivo me perdendo pelo caminho, chegando meio atrasada ou esquecendo o que tinha pra fazer: ouvir desconhecidos conversando é sempre mais interessante. Mas admito que o bate-papo de mulheres e seus regimes malucos ainda é o tipo de conversa que mais desperta a minha atenção. Talvez por elas acreditarem num milagre que não existe.

Essa semana dei pause em todos os meus pensamentos só pra ouvir o bate-papo na hora do lanche. Eu, que sou a mais cética quanto a dietas milagrosas, estava feliz com a minha laranja. As moças na mesa ao lado também estavam felizes, mas com um lanche tão cheio de molho, maionese e cia. que dava quase pra tomar de canudinho toda aquela gordura. E, pra minha surpresa, explicavam uma para a outra, como é (sofrido) o regime de cada uma. Uma conversa meio surreal aos meus ouvidos.
— E como anda seu regime?, perguntou uma delas pra outra. —Tá difícil. No almoço, eu …

O POETA E AS FACETAS DO AMOR
>> Carla Dias >>

Quem acompanha os meus textos aqui no Crônica do Dia, já deve ter lido a respeito dele. Kleber Albuquerque, além de um querido amigo, é dos compositores, dos músicos-poetas que frequentam minha benquerença. Ele está com um novo disco, e claro que eu não poderia deixar de falar sobre ele.
Mil e uma, um montão de, tantas outras, 10 coisas para serem ditas no lugar de “eu te amo”, frase que já vem exigindo mais do que antes, desde não se sabe bem quando, porque se tornou frágil de tanto ser dita porque sim, sem que o sentimento tenha a profundidade da verdade.
O novo disco de Kleber Albuquerque, 10 Coisas Que eu Podia Dizer No Lugar De Eu Te Amo, tem quatorze faixas, não dez. Não é um trabalho baseado na numerologia, mas sim nas inúmeras faces do amor, em todas as suas nuances, acertos e erradas. É um disco de canções que despem o amor na extensão que lhe cabe. Há dias em que o amor ama e há outros em que ele grita saudade. Às vezes ele dói, banca o ciumento, depois o debochado. Há dias…

AULA DE DESCRIÇÃO >> André Ferrer

Há um limite para as paixões humanas quando elas provêm dos sentimentos,  mas não há limite para aquelas que sofrem  a influência da imaginação.
Honoré de Balzac

A professora pendurou dois cartazes no quadro negro. Casa, riacho e cisnes. Um gato e o seu novelo de lã. O melhor acontecimento da tarde para Luiz Bernardo. Ele estava livre do “Arme e Efetue”.
Aliviado, guardou o caderno de aritmética. O suor da testa escorria para o outro lado, agora, por causa da inversão da cabeça. No próximo ano, de acordo com a sua mãe, ele voltaria ao período matutino. Fabrícia continuaria à tarde. Continuaria por causa da avó, que cuidava dela enquanto a mãe trabalhava. Segundo dissera, os afazeres domésticos rendiam mais para a velha, à tarde, com ela na escola. Ideia estranha, que começava a incomodar Luiz Bernardo.
A sensação que lhe tomava a cabeça também era estranha. O menino costumava ficar invertido até o “limite”. Depois, ele não sabia. Ele tinha medo de descobrir.
No fundo da sala, a imagem de F…

TODOS OS NOMES >> Whisner Fraga

Antigamente, o escrivão decidia o nome de muita criança. Em geral, era o pai que ia registrar o filho, uma vez que a mãe se dedicava a cuidar do recém-nascido. Aí é que a coisa desandava, pois homem é menos ligado a detalhes do que mulher. Então, meu sogro chega à mesa do atarefado escriba e pede que lhe faça o favor de oficializar a paternidade. O nome da criança?, indaga o sujeito, enquanto gira uma manivela que posiciona o formulário na máquina de escrever. Gimenna, responde Dorival. Para surpresa de todos aqueles que ouviam, o funcionário retruca: mas não é possível, isso não é nome que se dê a uma criança, coitadinha.

Meu sogro é uma pessoa do bem, humilde até onde não se pode e até onde não mais se encontra. Retornou para casa e foi procurar a esposa. Minha sogra é uma pessoa do bem, humilde até onde não se pode e até onde não mais se encontra e confabularam: se o doutor pensa assim, acho que devemos pensar melhor E é por isso que minha esposa hoje se chama Ana Lúcia.

Já escutei…

PRECISA-SE DE UM VIOLÃO [Ana González]

As cidades possuem personagens. Algumas delas são figuras típicas por comportamentos diferenciados, mais ou menos estranhos. São muitas vezes caminhantes pelas ruas que acabam por se fazer conhecer por todos. Alguns deles ganham simpatia. Outros provocam medo e até repulsa. Mas todos ocupam um espaço que é só seu nesses cenários em que vivemos nossas histórias.

Como uma curiosidade, quase um exercício de fotografia, certo dia, observando tipos urbanos, flagrei um senhor que tocava modinhas brasileiras à frente da Igreja do Largo de São Francisco de Assis, no centro de São Paulo. Sob um guarda-sol-chuva cor-de-rosa grande, daqueles de praia, ele tocava seu violão não se importando comigo nem com quem passava na rua. Mas, olhou para mim e sorriu. Fazendo pose para a foto? Depois disso, andando por lá, ainda ouvi o som de seu violão sob a sombra colorida.

Da penúltima vez, ele não tocava, estava sentado e quieto. Aproximei-me e lhe perguntei por que não tocava. Então ele me contou qu…

GENÉRICO >> Zoraya Cesar

Mão-de-vaca era seu apelido. Pão-duro, lhe diziam; econômico, respondia.  Não que fosse inteiramente sovina, ele até gastava, mas invariavelmente optava pelo mais barato, ainda que a qualidade não fosse das mais recomendáveis, mesmo quase sempre se dando mal. Era como uma doença, ele simplesmente não resistia a escolher o mais barato, era irreprimível. 
Há sempre um dia (e, volto a lembrar aos Amigos Leitores, “sempre tem um dia que...”), porém, que a coisa desanda, o sujeito perde a mão e também o bom senso. A mulher passou dias reclamando que a casa estava cheia de montículos de pó, os cupins estavam se refestelando na madeira dos móveis - antigos, herança de família que já causara várias cizânias para ver quem ficava com o quê. Principalmente o baú que guardava as cinzas da avó materna (ah, nem me perguntem por que cargas d’água alguém teria em casa as cinzas de um parente. Não faço idéia. Sei apenas que, neste caso, não era por motivos religiosos. Há quem empalhe os animais de e…

OS CHILENOS >> Fernanda Pinho