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COISA DE SEGUNDA VIA >> Carla Dias >>


Hoje eu fui à escola. Há mais de vinte anos não ia à escola, mas hoje eu fui. Tudo muito simples: retirar a segunda via do meu histórico escolar do ensino médio, mesmo sem me lembrar de ter colocado os olhos na primeira.

Antes não era ensino fundamental ou médio. Eu frequentei o primário, o ginásio e o colegial. O primário foi em uma escola de bairro, que na época consistia em diversos barracões em um grande quintal. O ginásio eu fiz na mesma escola, que mudou de nome e de endereço, mas ficou no mesmo bairro, e já se parecia com um prédio de escola. Durante muito tempo, depois de a escola mudar de endereço, a primeira sede foi um pré. Levei meu irmão algumas vezes até lá e em quase todas as vezes eu voltei para casa inconsolável, de tanto que ele chorava para não ficar. Hoje, lá é algum tipo de instituição que fornece auxílio a moradores de rua. Não sei bem dos detalhes, apenas que uma prima é cozinheira desse lugar.

O colegial eu frequentei em uma escola no centro de Santo André, minha cidade natal. Na época, achei que não fosse conseguir a vaga, de tanto que diziam que era uma escola boa demais para quem vinha de uma considerada muito fraca. Quando consegui a vaga, foi uma festa só. O que não deu para festejar foi a reprovação no primeiro ano. Apesar de ter sido uma aluna até que bem estudiosa, não consegui me atualizar decentemente para garantir uma aprovação. O que aprovei, nessa época, foram as pessoas que conheci. Alguns amigos do colégio continuam em minha vida até hoje.

Por incrível que pareça, arrumar-me para ir à escola, hoje, me deixou tão nervosa como em certos dias de quando eu a frequentava como aluna. Diferente da escola na qual concluí o primário e o ginásio, essa, onde vivi meus dias de colegial, foi pontuada por mudanças significativas na minha vida. Foi quando aprendi a me socializar (ainda que socializar continue sendo um problema para essa pessoa bicho-do-mato), uma vez que, na escola anterior, essa minha habilidade era praticamente nula, e a garotada de lá - meus vizinhos -  não gostava muito de mim. Nesse lugar, longe dos conhecidos de bairro, eu consegui me reinventar. Não que tenha sido fácil, mas com certeza foi a minha fase de compreensão de que eu era uma pessoa, eu tinha direito a uma identidade e a fazer boas amizades, algumas delas, inclusive, ainda continuam na minha vida.

Ah, tá... Também aprendi a matar aula para me reunir com a turma em uma casa de esfirra, que tinha ao lado da escola, para bater papo.

Sempre que vou visitar a minha família, passo em frente à escola e me vem aquela nostalgia. Eu realmente gostava de estudar, aliás, aprender ainda é uma das coisas que mais aprecio nessa vida. Só que, independente do programa de estudo, do planejamento ou do que fosse que compunha as necessidades de um estudante, a minha lembrança puxa acontecimentos que não estavam nas anotações dos professores:

Bate-papo em pátio, na hora do intervalo, era tudo de bom.
O moço bonito, ainda novinho, todo charmoso com seus muitos fios de cabelo grisalho.
O moço bonito, misterioso, conhecido como “o moço bonito e misterioso com tatuagem de teia de aranha no cotovelo”.
Abraço das amigas e amigos ao chegar na escola.
Dar-se bem no debate sobre livros bem chatos.
Trabalho em grupo que acabava em café com pão na casa de um dos integrantes.
Gargalhadas... Elas estavam sempre presentes.
Desfile, na escada do hall de entrada da escola, de fantasias criadas com papel crepom.

Eu poderia citar mais um monte de motivos para eu ter me emocionado ao entrar na escola hoje, vinte e tantos anos depois da última vez. Mas a verdade é que a gente faz isso, sente falta de tempos  em que éramos desbravadores da vida, só que ainda com aquela inocência temperando nossas emoções. Obviamente, a colegial é apenas uma das minhas facetas, outras tomaram conta de mim com o tempo e as experiências. Ainda assim, lembrar desse momento de aprendizado, intelectual e emocional, é muito bom.

Quanto a realidade vigente, sério, eu pensei que tivesse fechado os anos com notas melhores...

Coisa de segunda via.


carladias.com

Comentários

albir disse…
É exatamente o que sinto com relação às minhas escolas da juventude, Carla. O prédio da minha escola primária foi demolido para dar lugar a um shopping, mas, quando eu passo por lá, ainda enxergo um menino entre assustado e fascinado com o que encontrou na escola.
Carla Dias disse…
Albir... Pois é, a gente não sabe como se sente até sentir, né? Eu que pensava que já sabia tudo sobre essa época da minha vida, acabei sendo surpreendida pela percepção sobre ela.

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