segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

PURIFICAÇÃO II >> Albir José Inácio da Silva

(Continuação do dia 14/01/13)


Na praça, em frente à matriz, a Santa Inquisição cumpre mais uma vez o doloroso dever de queimar inimigos da Sé. Lanças mantêm a plebe longe das fogueiras do sacrifício. O escrivão apresenta o primeiro condenado, um tal de Pero, criador de porcos, preso como herege, que não se confessou, não se arrependeu nem pediu clemência ao Tribunal. Bastaria acender a fogueira, mas o bispo não se lembra do caso e pergunta:

- Que heresias ele proferiu? – perguntou o bispo

- Falou mal dos padres e da Igreja.

- Um pecado tão simples! Todo mundo fala mal de padre, atualmente, e não acaba na fogueira.

O escrivão explicou então que Pero danou-se porque quis. Bastava-lhe confessar, pedir clemência, dizer que estava bêbado e nunca mais faria isso. Jurasse obediência à Santa Madre Igreja, entregasse alguns porcos a título de indulgência, e se livrava. Quando muito, pra não falar mais bobagens, ficava sem a língua, mas vivia. Mas não, nem os olhos baixou diante dos juízes. Arrogância e silêncio foi só o que ofereceu. Agora é tarde.

Aqui a clemência máxima que se permite é, em caso de confissão e arrependimento, a corda piedosa que destroça o pescoço e poupa o confesso de ser queimado vivo. Agora só pode escolher entre morrer antes ou durante o fogo. E o bispo grita para o condenado:

- Arrepende-te, pecador! Confessa e te arrepende, e assim mando torcer a corda para que não sintas as chamas da purificação. Não posso dar-te o paraíso, mas irás ao purgatório. Se não confessas, serás queimado vivo e as chamas consumirão tua alma por toda a eternidade.

Pero se remexe no tronco, e brada:

- Que Vossa Reverendíssima me conceda a graça de apressar o carrasco para que eu não mais contemple Belzebu travestido de bispo! Que a morte me livre do inferno desta praça, das suas igrejas, conventos e palácios!

O sacerdote está perplexo. Não esperava isso. Precisa calar o herege antes que a coisa piore, mas o carrasco, confuso, não percebe a ordem, e o porqueiro continua:

- O que devo confessar? Do que devo me arrepender? Eu não tinha o que dizer diante dos inquisidores, mas posso falar agora a essa gente que se diverte com o espetáculo. Minha irmã foi levada pro convento por causa do namoro com um seminarista, protegido do cardeal, que ameaçou largar a batina por ela. Disseram que ela o tinha enfeitiçado e precisava ser exorcizada. Depois de servir à luxúria do clero, foi queimada por carregar no ventre o filho do demônio.

O bispo começa a compreender. Então é isso, o blasfemo é irmão da bruxa. Deveriam ter-lhe arrancado a língua. Malditas palavras, a plebe ainda se lembra da noviça. Péssimo exemplo: além de não confessar, reafirma e acrescenta mais heresias. Esse é o preço que pagava por sua misericórdia. Só queria dar oportunidade ao condenado de não sentir as chamas derretendo suas carnes.

Agora, o estrago está feito. Blasfêmias foram repetidas em pleno Auto de Fé e ouvidas pela turba, que já se assanha contra o Ofício aos gritos de “Assassinos! Corruptos! Fornicadores!” Antes de descer do estrado, o bispo grita com o carrasco:

Acende! Não pergunta mais nada a ninguém. Acende todas as fogueiras!

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3 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ê, Albir. Quer dizer que agora é cronista medieval também? Surpresa boa! :)

albir disse...

Edu... que saudade!
Abraço.

Romulo Bezerra de Almeida disse...

Escreva mais disso, muito bom!