quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

INVENÇÕES DE ANO NOVO>> Analu Faria

Deixei as resoluções de fim de ano para lá, desta vez. Não me pergunte por quê. Será que 2015 foi louco demais? Será que é isso? Ainda assim, fui feliz este ano (mas não gostaria de alongá-lo, obrigada, já deu). Gratidão? Ah, sim, claro, sempre!, mas 2015 já poderia ter terminado lá para outubro.

Em homenagem a este ano que mais pareceu uma novela mexicana, resolvi mexicanizar e, em vez de resoluções, pensei em invenções e medidas esdrúxulas que eu queria ver realizadas em 2016. Aí vão:

1) uma lei (talvez precisasse ser uma emenda constitucional) que permita que não haja data final fixa para nada. Dessa forma, teríamos o início de prazo para, por exemplo, a entrega da declaração do imposto de renda, mas o prazo final poderia ser anunciado pela autoridade competente uns dois dias antes. A vantagem disso é que a gente nunca faria nada em cima da hora. Ah, e correria menos risco de desistir dos projetos, tipo: “tô pensando em fazer aquele concurso, mas como o prazo de inscrição ainda não acabou, eu posso pensar mais um pouquinho”. Em geral, a gente não faz o concurso;

2) uma tecla de silêncio para discussões políticas pautadas por abilolamentos de esquerda ou falta de noção de pessoas de direita. Assim, quando alguém começasse a dizer que não existem presos políticos em Cuba ou que bom mesmo era na época dos militares, você poderia simplesmente apertar essa teclinha e deixar as pessoas no mute, balançando a cabeça de vez em quando, para fingir que concorda;

3) uma máquina que abra potes de vidro (como os de palmito);

5) uma máquina que dobre aqueles lençóis que têm elástico;

7) remuneração por elogio; quanto mais convincente, maior a remuneração, que seria feita pelo elogiado; brincadeiras que desvirtuassem o esquema seriam punidas com o pagamento por parte daquele que a fizesse (ex.: chamar um careca de cabeludo, como “elogio”, seria desvirtuamento.);

8) açúcar que não engordasse e te fizesse mais saudável — melhorasse o colesterol, os triglicérides, regulasse os níveis de ferro no organismo etc.

9) multa para o uso excessivo das expressões “paradigma” e “agregar valor”.

E você? O que gostaria de ver “inventado” em 2016?

Feliz ano novo e que ele possa ser cheio de boas esdruxulices.

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quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

DESAPEGANDO DE 2015 >> Carla Dias >>

O ano vai acabar. Por mais que eu não dê muita bola para calendário, é ele quem rege a nossa existência. Vivemos à mercê do que ele define, lutando para que ele não nos defina também. Sendo assim, o ano vai acabar, e este quase acabou conosco durante o processo.

Acontece que, por mais complicado que 2015 tenha sido, aconteceram bons momentos. Foram mais raros? Talvez. Mas os dias deste ano que vai acabar daqui a pouco, nem todos foram tiranizados pelas tragédias, pelas ações inconsequentes, pela insanidade de quem empobrece o povo no dinheiro, nos direitos e no respeito.

Para mim, 2015 tem sido uma corda bamba coletiva. Muitos pensaram que fossem se espatifar no chão, sem direito a socorro. E se sentiram tão desolados por conta da sensação de que não havia o que ser feito para iluminar um tantinho que fosse tal íngreme caminho. Muitos se espatifaram mesmo. Alguns abraçaram a ousadia de não permitir que esse tombo os definisse. Outros escolheram aceitar a condição de levado à lona e sobreviveram ao silenciar seus desejos e buscas. De uma forma ou de outra, a maioria de nós experimentou das mancadas de 2015.

Decidi me apegar ao melhor do ano. Não, não me rendi à autoajuda ou ando entoando por aí que é só pensar que dá certo, porque não acho que seja bem assim. Mas analisei a situação, e todas aquelas emoções desandadas, tão poderosas e frutos de consequências indigestas provocadas por ações equivocadas, não podiam se sobrepor aos pequenos — e significativos —acontecimentos que se enredavam entre eles.

Em 2015, eu terminei de escrever um romance, comecei outro e assinei com uma editora para publicar um livro de contos em 2016. Vi ondas quebrando na Praia de Copacabana, conversei com alguns ídolos e com amigos, tão ídolos quanto. Estudei inglês com mais ousadia, assisti a muitas séries e filmes bacanérrimos, comecei a perder peso, estudei bateria, o que não fazia há muito tempo. Tornei-me tia-avó pela segunda vez, tia pela nona. Sobrevivi ao destempero de alguns, e até ao meu.

Apesar de todas as questões pessoais, profissionais e coletivas, como cidadã desse mundo, houve sonho sendo sonhado até de olhos abertos. Realizações? Algumas, mas nem por isso menos importantes do que as muitas que em outro calendário eu realizei.

2015 pode ter sido um ano difícil. Não menos importante ou desprovido de motivos para se celebrar a vida.

carladias.com

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segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

RETROSPECTIVA 2015 A.D. >> Albir José Inácio da Silva

Este foi mais um ano em que bárbaros atacaram a civilização em bandos famintos e raivosos.

No início com paus e pedras contra as lanças, escudos, flechas e catapultas dos gregos e romanos. Mas, ao longo das eras, as traições de aliados e os equívocos dos líderes facilitaram a aquisição de armas pela barbárie, que agora ostenta mísseis e fuzis.

O combate a essas hordas tem se mostrado ineficaz. Morrem aos milhares, mas brotam da terra como se feitos dela, com sua cor e abundância, surgem de todos os lados, indignados, como se fosse nossa a culpa pela miséria. E não se acabam por mais que os naufraguemos, escravizemos ou crucifiquemos.

A civilização luta para incutir a fé e civilizar o gentio, mas encontra resistência dos bárbaros e incompreensão de seus pares na hora de dividir despojos e territórios.

Foi assim no século passado quando nos arrependemos dos séculos de pogroms contra os "assassinos de Jesus" e saímos em defesa de nossos irmãos judeus que morriam aos milhões no holocausto nazista. Finalmente reconhecemos-lhes o título de guardiães de nossas mais caras tradições. Até bombas atômicas tivemos de usar. Mas nossos irmãos foram finalmente devolvidos a Canaã, não sem que antes precisássemos expulsar de lá os terroristas invasores.

Na verdade trata-se dos mesmos bárbaros que combatemos na Idade Média, quando nossos cruzados arrasaram cidades e nações hereges que se recusaram a devolver os lugares sagrados da nossa fé e precisaram ser exterminados a fio de espada. Pelo jeito, não aprenderam a lição.

Mas como combatê-los? Imaginam-se mártires pós-modernos com direito a quinze minutos de fama na Terra e setenta e duas virgens no Paraíso. Não lhes interessa a vida de fome, humilhações e assistindo massacres de irmãos. Se o inimigo quer a morte, como combatê-lo?

Na África também tem sido vão nosso esforço civilizatório.  Muitos deles nós trouxemos enquanto ainda eram coisas para dar-lhes trabalho, humanidade e salvação. Hoje espalham-se insubmissos, preguiçosos e apegados a suas crendices e cultos demoníacos. Nem mesmo serviram como mão de obra para construir o progresso da humanidade.

E agora chegam por vontade própria, refugiados fugindo da fome e da guerra. Invadem nossos países, disputam nossos empregos, sincretizam nossa crença. Ou então, formam grupos terroristas para atacar nossas cidades e atrair nossos jovens.

Para a maioria dos americanos, estamos perdendo a guerra contra o terror ou, como dizia Bush, contra o “eixo do mal". De nada adiantaram os esforços de nossos antepassados no combate à barbárie. E nuvens bárbaras continuam chegando e nos ameaçando por terra e mar. Legiões de terroristas disfarçados de famintos e moribundos infiltram-se em nossas cidades. Recrudesce a luta do bem contra o mal.

Em 2016, vamos continuar pregando a paz e combatendo, como Herodes, os guetos em que brincam na lama as crianças bárbaras, na tentativa de eliminar o mal pela raiz, para que não cresçam e se tornem adultos bárbaros, suicidas, que ameaçam explodir a inocência e a santidade da nossa civilização.


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sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

CARTA A PAPAI >> Paulo Meireles Barguil


Fortaleza, 24 de dezembro de 2015.

Querido Papai,

Sei que o senhor é da época em que escrevia carta para a Miloca usando a gloriosa Olivetti Lettera 82 verde.

Desde o último quarto do século XX, a missiva foi sendo lentamente tragada por outras modalidades síncronas, que têm a reputação de facilitar a comunicação entre as pessoas.

Naufragaram também as práticas românticas a ela vinculadas: colocar perfume no papel, colar cuidadosamente o envelope, comprar o selo lançado recentemente...

A diminuição progressiva do custo das maravilhas eletrônicas permitiu o acesso de grande parte da população mundial a tais novidades, o que é algo importante.

O teste de datilografia, outrora requisito obrigatório em vários concursos, foi dissipado.

Na maioria das vezes, não usamos mais os 10 dedos para digitar, pois o tamanho do teclado encolheu, mas poucos o fazem tão bem como o senhor, que era um ás nesse ofício.

O corretivo agora é automático e, por vezes, funciona como erradivo, pois altera o que ainda estávamos escrevendo...

Na pressa, muitos enviamos o disforme!

A mudança da velocidade altera a nossa percepção dos objetos, já ensinara Einstein.

O mesmo acontecimento proporciona ao Homem, paradoxalmente, sensações de expansão e retração.

Encontrar o equilíbrio é, cada vez mais, um enorme desafio.

Atônito, percebo que a maioria prefere, para diminuir o vazio, pisar no acelerador...

Estarão alimentando um insaciável buraco negro interno?

Repleto de dúvidas, tenho falado cada vez menos.

É um tipo diferente de silêncio: ainda estou me acostumando com ele, pois esse veio sem manual.

Continuo me dedicando para não fazer o que acredito ser adverso para mim e também o que possa, de algum modo, prejudicar o outro.

Também tenho me empenhado para seguir na direção do que sempre desejei.

Nesse momento, sinto que a gravidade é quase zero, porém ainda falta muito para eu flutuar!

É atordoante para mim o ataque sorrateiro do Alzheimer, que o desconecta aos poucos do mundo.

Mesmo assim, o senhor continua me propiciando muitos aprendizados, os quais lhe sou muito grato.

Beijo,

com amor

Paulo

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quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

ENTÃO É NATAL? >> Mariana Scherma

Menos amigos secretos furados. Menos amigos falsos. Menos gente falando mal da sua ceia. Menos desespero pra comer (como se no dia 26 não existisse comida, tem sempre as sobras do peru, gente). Menos desespero pra tomar a cerveja boa que o parente mais afortunado levou pra ceia. Menos olhos críticos para sua roupa escolhida há dois meses para ceiar com a família. Menos gente que diz que vai e não vai. Menos fofocas sobre o fulano ao lado em plena noite de Jesus. Menos adolescentes com cara emburrada, como se existisse alguma balada nessa noite.

Mais histórias engraçadas do tio figura, mesmo que essas histórias sejam repetidas. Mais abraços demorados do que presentes. Mais olho no olho do que olho na tela do celular. Mais piadas do que fofocas. Mais tias que perguntam do namoradinho na sua cara do que tias que falam mal da sua vida por trás. Mais caipirinhas divididas do que porres solitários. Mais piadas de pavê ou pacumê do que conversas indiferentes. Mais momentos micos em família do que momentos que nem vão ser lembrados. Mais músicas repetidas no karaokê da família do que silêncio.

Menos resoluções de novo ano, mais atitudes que façam o ano realmente novo. Mais sossego. Menos crise. Menos medo do desemprego. Menos reclamações na internet, mais opiniões sensatas, obtidas depois de um pouco de conhecimento. Menos fome. Menos deseducação. Menos corrupção (que não é só a dos políticos, é também de quem fura fila e não reclama do troca que veio a mais). Menos ter. Mais ser. Mais perceber que ser generoso não é só no Natal. Mais perceber que melhorar não é só em janeiro, é fevereiro, setembro, outubro, enfim.

Mais consciência de que qualquer mudança passa pela gente. Faça seu Feliz Natal. Construa seu ano novo.

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quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

ESQUISITO >> Carla Dias >>



But I'm a creep, I'm a weirdo,
What the hell am I doing here?
I don't belong here.
Da canção Creep, de Radiohead


Não, meu caro... Que essa coisa de sonhar alto, verbalizando querenças e planos, como se contasse uma história que jamais será a sua, não vai dar certo, não. Vão pensar que você é maluco, que merece uma vaga no hospício ou receita sem prazo de validade para usufruir tarja preta em ascensão. Haverá até os que oferecerão longas declamações de conselhos decorados durante uma vida sob a batuta da austeridade e da intolerância. Conselhos que seguiram à risca e os levaram a lugar nenhum... Ao menos no que diz respeito à felicidade.

Seu caminho pode se tornar mais tortuoso, menino, se você escolher alternativas que não constam nos testes de múltipla escolha. Com tantas escolhas disponíveis, por que escolher aquela que não está lá? Irão rotulá-lo ignorante por isso, pessoinha sem noção, intelectualmente preguiçosa, incapaz de compreender que um mais um é dois e pronto e acabou.

Mas você compreende, não? Até o “pronto e acabou” tem suas versões. É flexível.

Definitivamente, você vai seguir feito filho do inacabado, do incabível, do inviável. Do infinitamente instável. Talvez alguns venham a desejar escutar o que você tem a dizer. Porém, isso não significa que eles estarão dispostos a gastar tempo na compreensão do que você vê, sente e imagina para a sua vida e que, na singeleza da fração do que você representa nesse universo, se estende ao seu semelhante.

Está pronto para isso?

Levar a vida alimentando a incompatibilidade com o espaço reservado ao que em seu benefício foi previamente — quando mesmo? — estabelecido? Está pronto para as palavras saírem da sua boca e atingirem aos outros como se elas fossem um pedido explícito para ser ignorado? Até que sua existência seja encarada como desperdício de espaço. Até que você represente nada. Nem incômodo... Nada.

Quando restar a você somente o número do CPF para provar existência, e você tiver gritado todas as canções de dor e fúria. E tiver se explicado tantas vezes que nem mesmo você acreditará mais na verdade que defende, ao seu auxílio virão os de alma evoluída, oferecendo coaching existencial, dengos religiosos e abrigo emocional, por uma porcentagem pequenininha do salário que você ganha trabalhando quase vinte horas por dia e nunca é suficiente.

Então, você perceberá o bom e velho DANE-SE ressoar dentro de você, ocupando aquelas salas vazias, onde anteontem viviam as esperanças e as aspirações. E os sonhos... Eles viviam tão bem ali, não é mesmo? Eles o faziam sentir como se o futuro lhe reservasse todas as oportunidades.

Admira-me que, sabendo desse risco, você siga nessa insistência em ser quem é, sem remodelagem, somente sabedoria oriunda de cada tombo grandioso e pacatas conquistas. É bonito de se ver daqui, viu? Parece cena de filme preferido na repetição, gerando aquela sensação insubmissa de que a vida é justa, ainda que de um jeito cruel. Parece solitário daí, quando quase me coloco em seu lugar.

Você é estranho, mas de um jeito...

Às vezes, até que admirável. Mas, dia desses, alguém decidirá que dará ibope retratá-lo em artigo de revista sensacionalista. Você será rotulado mais algumas vezes em categorias onde jamais imaginou se enquadrar... Nas quais você definitivamente não se enquadra. Isso vai fazer com que se sinta um estrangeiro no seu próprio país. Sua alma vai reivindicar outro paradeiro, que não o seu corpo. Vai querer sair voando por aí, inspirada por garrafas de vinho barato que, vazias, servem de vasos para flores passarem seus últimos dias de vida. Você vai chorar e espernear. Tentará explicar que não, não é bem assim... Você não é isso, não. Como poderia?

Como pode?

Assistindo daqui, temo imensamente pelo seu destino. Daqui, admiro profundamente sua insistência em ser quem é... Essa coisa de sair de casa para ver o que o dia lhe reserva, aberto ao improvável, sem qualquer preconceito a respeito do novo ou da rotina, e totalmente respeitoso a quem se mostra sábio, até mesmo ao discursar sobre o que não conhece ou lhe agrada.

De repente, sim, você está pronto para isso. E eu serei quem se surpreenderá ao vê-lo sonhar alto, verbalizar querenças e planos, como se contasse uma história que jamais será a sua, mas que ainda assim o acolhe... Esse estranho e sua esquisitice de não temer ser quem lhe cabe, apesar do que e daqueles que o invejam e, por isso mesmo, querem destruí-lo, porque tentar compreendê-lo pode levá-los à conclusão de que sim, você vale o sonho realizado, o afeto conquistado, o respeito adquirido.


Imagem © Cena do filme Asas do Desejo (Der Himmel über Berlin)





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terça-feira, 22 de dezembro de 2015

EM BUSCA DA BATIDA PERFEITA >> Clara Braga

Sou daquelas que, quando gosta de uma música, escuta repetidas vezes até cansar. Mas para cansar são dias e dias e dias ouvindo a mesma música repetidas vezes.

Nesse ponto a tecnologia ajudou muito. Qualquer Youtube, ou aplicativo do tipo, alimenta seu vício, é só colocar a música para repetir e pronto, não tem erro, só internet ruim pode acabar com seu momento.

Mas confesso que quando não estou com o espírito de um teletubby dentro de mim, e não quero repetir nenhuma música, gosto mesmo de ficar passando as estações de rádio em busca de uma música que eu goste. Não sei explicar exatamente o que é, mas algo nessa situação de surpresa me faz ficar animada, e quando encontro a música em alguma rádio, pode até ser uma música que eu tenha no meu celular e possa ouvir a qualquer momento, mas ouvir assim inesperadamente mexe comigo, parece até que deixa a música melhor. Já abro as janelas do carro, passo para a faixa da direita e preparo a voz para cantar junto em alto e bom som.

Melhor do que isso só quando é música mais antiga, que fez parte da minha adolescência. Aí, sim, sou transportada para a época que ficava esperando a música tocar na rádio ou o clipe passar na Mtv para poder gravar e ficar cantando junto. E se fosse o clipe com coreografia, aí eu aprendia a letra e a dança, não tinha para ninguém.

Outro dia estava nessa minha caça ao tesouro quando começou a tocar nada mais nada menos do que Spice Girls. Nossa, fui levada para uma outra época, outro momento de vida, momento supernostalgia que foi ainda melhor por ter sido de surpresa. Mas claro que surpresa não significa que me pegou desprevenida. Segui com meu ritual: abri as janelas, passei para a faixa da direita e cantei com meu pulmão de adolescente que brincava de fazer cover do quinteto.

Nossa, é tão bom quando a gente permite que pequenos e simples momentos mudem nosso dia, superrecomendo a brincadeira. E se não tiver Spice Girls, que venha Hanson.

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sábado, 19 de dezembro de 2015

24 DE DEZEMBRO DE UM ANO QUALQUER
>> Sergio Geia




Pelas frestas da janela, os sons que não se calam penetram no quarto escuro: o cachorro latindo longe; o gorjeio de aves em festa; um ou outro carro que passa; o atrito de pratos e garfos no preparo da ceia. A cidade está ansiosa: mais um Natal. O silêncio amistoso vai sendo quebrado aos poucos pelas aves, pelos cães, pelos pratos, pelos carros. E agora, pelo sino da igreja.

Levanto apenas para abrir a janela e me deixo cair com vontade de não sair, de chumbar os olhos no travesseiro ainda quente, como se magicamente ele pudesse desligar a vida por algum tempo e fazê-la ressuscitar num outro dia qualquer, quem sabe no ano que vem. Da janela, a beleza de um afresco de final de tarde me surpreende: a Mantiqueira poderosa, as casinhas misturadas aos arranha-céus, a mangueira esverdeada sendo esbofeteada pra lá e pra cá por um vento anunciando chuva. Perco-me na visão até me afundar de vez no travesseiro, os ouvidos ligados aos rojões das seis, às notícias de estradas congestionadas, de praias bombando; às bebidas e à comilança de mais uma ceia de Natal.

Franzen me cansa. Nada me encanta. Hoje não. O tijolo desconcertante que avança como um leão faminto através do velho comendo baguete com lâminas de manteiga, lascas de parmesão e azeitonas; do neurótico preparando churrasco misto ou, bêbado, se dispondo a podar a sebe. É como avançar sobre um tratado de como a menina comia pão com margarina; como o velho ourives arrumava a cama após o almoço, para garantir meia-hora de sesta; como a dona de casa, em pé, sobre uma cadeira encostada ao muro da vizinha, na ladainha diária do comentar a vida, esfregava o pé comido pelo mosquito.

Nando me encanta. Na simplicidade. Na partilha da vida. Em público. Na autenticidade crua. Na expressão nada facebookiana de mostrar o que foi, o que é, o que dói, o veneno que mata a vida, e não somente o lado bonitinho da coisas. A vida é mesmo muito frágil. Uma bobagem, uma irrelevância. Diante da eternidade do amor de quem se ama. Leveza bruta. Jogo do tijolo que mando longe. Jogo do CD que eriça os meus pelos.

Num quintal, vejo pessoas chegando com sacolinhas do que provavelmente seja cerveja. Os porquinhos miúdos assam na fornalha coletiva. A ceia é preparada para a alegria da macacada. As notícias da televisão são as mesmas. As ceias encomendadas em padarias, os shoppings lotados, a 25 de Março, aqueles que deixam pra comprar os presentes na última hora. Novos Natais, velhas notícias.

Deito no sofá entediado. O violão pula pras minhas mãos. Arrisco “Não vou me adaptar”. Uma cifra mamão-com-açúcar. Sol, dó, ré. Na parte do “será que eu falei o que ninguém ouvia”, uma caída pra si menor. No mais, sol, dó e ré. Depois, Ive Brussel, a belga que hospedou o Jorge em Bruxelas.

Escuto os rojões e decido voltar pra cama. Mas primeiro paro na cozinha, e revigorado, preparo uma omelete. Ah, Carpinejar, me ajude a chorar!


Ilustração: Carl Larsson

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sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

OUTRO NATAL DEVERAS ESTRANHO >> Zoraya Cesar

O homem, extenuado pela viagem longa, colocou a mala no chão. Olhou, apreciando, os últimos raios do ocaso que entravam pelos vitrais, multicolorindo o salão. Um enorme gato preto, que passeava entre os bancos, aproximou-se do homem, ronronando inquisitivamente.

— Eu sei, amiguinho, ainda não tem nada pronto. Mas não se preocupe. Em datas extraordinárias coisas extraordinárias acontecem.

Dito isso, o homem sumiu pela porta dos fundos. Precisava descansar. Seu rosto, meigo e antigo, era enfeitado por rugas que sumiam, misteriosamente, quando ele sorria. O que acontecia amiúde, justificando, assim, que não se percebesse, à primeira vista, o quão entrado em anos estava o Velho Padre.

A Igreja ficou vazia até, exatamente, às seis da tarde, quando entrou um casal negro, a aparência mais que humilde, tão ou mais idosos que o Velho Padre, vestidos da cabeça aos pés de imaculado branco. Nas mãos dela, havia um enorme rosário feito de lágrima-de-nossa-senhora; nas dele, um chapéu, colocado, respeitosamente, à altura do coração. Ajoelharam-se, persignaram-se, cumprimentaram o gato e caminharam em direção ao nicho de Sant’Ana e São Joaquim, onde rezaram de mãos dadas. Ela tirou da bolsa uma garrafa contendo puro óleo de alecrim, difícil de conseguir, caro para comprar.

Procuraram o Presépio. 

Que Presépio?

Só a manjedoura estava lá. Onde Nossa Senhora? São José? O Menino?

Olharam-se, desconsolados e aflitos. Tinham vindo de tão longe, com dificuldade, somente para untar o Presépio com o óleo que eles, com grande sacrifício, conseguiram. Vieram atendendo a um chamado para... nada?

— Vamos, minha Velha. Tentar encontrar o que comer — disse o homem, decepcionado, exausto.

Foi nesse momento que ouviram batidas de atabaque, vindas da porta atrás do altar. Eles se entreolharam, emocionados, e sorriram. O Divino não falhava. E se encaminharam para lá. 

O casal sumiu por aquela porta ao mesmo tempo em que outro personagem entrava pela da frente. O gato o olhou, pálpebras semicerradas. Aquilo estava ficando interessante. 

Mulato, alto e empertigado, o recém-chegado vestia-se com o apuro de um dândi. A alvura reluzente do terno engomado contrastava elegantemente com a camisa preta e a gravata, tão vermelha-rutilante quanto o cravo que trazia na lapela. Também ele carregava o chapéu na mão. Ajoelhou-se frente ao altar de São Jorge e lá rezou, compenetradamente. 

Levantou-se e, com seu andar manemolente, procurou o Presépio. Baixou a cabeça, desapontado, ao encontrar a manjedoura vazia. Viera por ruelas escuras e becos perigosos, não tocara em cigarros ou bebidas, juntara cada centavo para comprar o incenso mais perfeito que pudera encontrar e... não tinha a quem entregá-lo? Seu coração encheu-se de dor. Virou-se para ir embora.

Nesse exato instante, ele ouve uma toada, vinda da porta atrás do altar. Impossível!, pensou, a ‘minha’ música tocada num lugar como esse? Não havia dúvida, porém: alguém cantava, perguntando ‘onde é que Seu Zé mora? onde é sua morada?”... O malandro chorou. E entrou. 

E, da mesma forma que antes, enquanto um saía por uma porta, outro entrava pela da frente. Ou outra, pensa o gato, divertindo-se imensamente com a coisa toda. 

mulher que entrava na Igreja era bonita, de longos cabelos negros cobertos por um véu, desenfeitada de qualquer outro adereço. Trazia nas mãos uma caixa folheada a ouro para presentear. Os pais que a receberiam, no entanto, eram pobres e simples; estariam mais interessados no conteúdo da caixa: chupeta, mamadeira, babador e diversos itens para bebês. Ela se ajoelhou, ergueu as mãos para o alto e agradeceu a todos os Santos por estar ali. Sorriu para o gato, que ronronou, gostando dela, conhecendo-a de outras vidas.

A cena se repetiu: ela parou, atônita e angustiada, ao encontrar nada além da manjedoura. Viera de terras distantes, passara por frio e medo, por desterros e perseguições, tudo por devoção e amor à Maria e ao Menino. Os olhos marejados, preparou-se para partir. 

O gato esperou, sabendo o que aconteceria em seguida: uma voz feminina, perfeita como a música das esferas, suave como repicar de pequenos sinos celestes, chamou, “Sara, venha, minha amiga, estamos aqui”. A mulher, rindo e chorando ao mesmo tempo, correu para trás do altar.

A porta da frente fechou-se, silenciosamente. Não havia mais raios de sol passando pelos vitrais e, lá fora, a noite se estabelecera, escura e desenluarada. A Igreja, não obstante, estava toda iluminada por velas — acesas não se sabe por quem. Talvez pela mesma mão que fechara a porta. Vocês viram quem foi? Eu não vi. 


O gato espreguiçou-se, langoroso, e foi, ele também, para os fundos da Igreja. Se soubesse sorrir, teria sorrido. Ou sorriu, à maneira dos felinos, ao ver a mesa posta, repleta de saladas, queijos, doces, sucos; São José, conversando animadamente com o Velho Padre, que, feliz, parecia jovem de novo; Nossa Senhora recebendo os presentes de Santa Sara, que tanto a ajudara em momentos difíceis; o casal de Pretos Velhos brincando com o Menino Jesus, que ria sem parar; e o malandro Zé Pilintra, contrariando toda a fama, ajoelhado, em profunda adoração.

Realmente, pensou o gato — que nunca vira Reis Magos tão inusitados —, o Velho Padre tem razão. O Natal é mesmo uma data extraordinária. 

Outros Natais estranhos do Velho Padre e do gato:



Feliz e Verdadeiro Natal a todos! Que o Aniversariante esteja presente em cada momento de suas vidas. 
Muito obrigada pela leitura e pela generosidade dos comentários. Que estejamos juntos em 2016, com Alegria e Paz. 
Amém.



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quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

A ZOEIRA NÃO TEM FIM >> Analu Faria

Há algum tempo, deixei de falar tanto de política. No bar, com os amigos, eu quero dizer. Porque em redes sociais, eu já havia desistido há mais tempo. Eu até fazia meus desabafos sobre isso no Twitter, no Facebook etc., mas percebi que era não só bobo como eu não sabia muito de política mesmo, para falar dela assim para muita gente. Depois vi que nem com meu círculo mais íntimo eu conseguia discutir direito sobre o assunto.

Agora, a zoeira… a zoeira é outra história. Na semana passada, o Brasil viveu, na política, emoções de novela mexicana — teve cartinha de amor e pancadaria (a carta do Temer e os golpes trocados entre deputados federais, na Câmara) e a Internet não perdoou. Digite #CartadoTemer na barra de endereços do seu navegador e divirta-se. Sobre a confusão da Câmara, menos zoeira, ainda assim, teve gente juntando as duas coisas para fazer piada, como a internauta que disse, no Twitter, algo como “o roteirista da política brasileira tá de parabéns: essa season finale tá cheia de reviravoltas”, referindo-se ao final de séries americanas que viraram febre no Brasil. Sem medo de ser feliz, ri de muitas dessas zoações, mesmo não “entendendo de política”.

Por mais que eu não me ache qualificada para discorrer sobre esse assunto, divirto-me com as piadas, porque acho que é deste tipo de coisa que a gente pode rir, no que diz respeito à vida dos outros: as manobras ridículas que “pessoas públicas” chegam a fazer para atingir seus objetivos. Essas brincadeiras que são feitas com a cartinha do Temer, por exemplo, estão longe de querer dizer que o Brasil não é um país sério. O que dá à nação esse título horrendo é menosprezar o poder destrutivo da corrupção na economia, é fazer piada da vítima de assédio ou de estupro, é ter um Plano de Aceleração do Crescimento e deixar o Brasil degringolar a ponto de viver uma recessão.

Além disso, acho que a zoeira até contribui para que muitos de nós fiquemos antenados com o que anda acontecendo na vida política do país. Aposto que tem muita gente que nem sabia quem era o vice-presidente do Brasil. Agora, sendo o maior alvo de piada neste fim de ano, Michel Temer é largamente conhecido. Pelo menos para quem tem Internet e usa redes sociais.

Sinceramente? Viva a zoeira.

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quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

EVITE ACIDENTES >> Carla Dias >>

Tudo se intensifica nessa época do ano. Como sou da laia dos que não se importam muito com as comemorações, observo a correria como atenta espectadora.

Nas ruas, as pessoas andam mais afobadas e os carros cometem infrações ridículas que abrem espaço para acidentes nada ridículos. Ainda outro dia, eu aguardava o sinal ficar verde para atravessar a rua, e acabei assistindo a uma cena inusitada. O sinal ficou verde para os pedestres e dois policiais atravessavam na faixa, quando uma senhora deu três “soquinhos” com o carro neles. No primeiro, eles pararam em frente ao carro e pediram para que ela aguardasse sua vez. Então, vieram os outros dois. Eles a abordaram e a conclusão foi que ela simplesmente nem entendeu o que havia acontecido, de tão distraída que estava com outras coisas.

Vocês sabem que outras coisas não combinam com o volante, certo? O celular, por exemplo. A distração era tamanha que a senhora nem se deu conta de que o sinal estava fechado para ela e que duas pessoas, os policiais, atravessavam na faixa.

Tá bom... Você pode imaginar a cena e achar que a mulher queria mesmo era aporrinhar os policiais, por algum tipo de rancor que não há como sabermos qual. Mas eu estava lá e assisti a tudo de camarote. A mulher realmente se distraiu dessa forma absurdamente distraída.

Outra distração envolve caminhar pelas calçadas em todos os ziguezagues necessários para cumprir a agenda que, em dezembro, combina as tarefas de sempre com definir onde se passará as festas de final de ano e dar um jeito para comprar ao menos lembrancinhas para os afetos. Para os desafetos, lembrancinhas ainda mais bacanas, que é para eles ficarem incomodados com a gentileza-armadilha.

Durante a caminhada em ziguezagues, tropeçar no outro é inevitável. Esse tropeço, que já é natural em cidades grandes com muitos habitantes, intensifica-se no período, deixando um espaço menor para a boa e velha e quase saudosa educação.

Eu entendo a euforia em se preparar para um período em que a celebração seja a bola da vez. Celebrar é inspirador, deixa a alma da gente mais leve. Mas, assim como a criança fugindo das festas de fim de ano que fui, o que a adulta certamente herdou, eu realmente não entendo que, em meio a essa celebração, muitos se permitam ser mais vorazes na distração em momentos em que a atenção é determinante, e na deseducação no trato com o semelhante. O que sempre me afetou nesse quadro de celebração de Natal e Ano Novo é a contradição entre o que as pessoas dizem nesse momento e o que elas fazem durante o resto do ano.

Veja bem, eu desejo que a sua festa seja como você a imaginou, e as pessoas que você ama compareçam, trazendo abraços e beijos e, por que não, presentes. Que a casa esteja linda, que aquele tempo todo à beira de um fogão renda uma lembrança sobre delícias aos seus convidados. Que relacionamentos se refaçam diante de tão emocional passagem: um toque de religiosidade combinada à virada de um ano, que quase sempre tomamos como ponto de virada da nossa própria realidade. Quem nunca balançou as pernas ao se sentar à beira do abismo do esse-ano-a-minha-vida-vai-mudar que atire a primeira pedra. Eu não descreio dos bons sentimentos que chegam com a época. Apenas espero que eles não desapareçam como o calendário do ano passado, de tão subjugados eles andam pela distração — de quem vive o que não deseja, nem como deseja ou quando deseja — que tomará conta de vez do cenário já lá no dia dois.

Que as alegrias não se percam em convenções e inspirem as mudanças que, certamente, não acontecerão no pulo de um ano para outro. Muito do que há de mais importante em nossas vidas leva tempo para ser construído, cabendo aí nossos relacionamentos. Que não nos distraiamos deles, como quem quase atropela policiais, porque está mandando mensagem de texto enquanto dirige.

Que estejamos onde estamos e possamos aproveitar o que o momento nos oferece. Isso, definitivamente, evita acidentes, principalmente os existenciais.

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terça-feira, 15 de dezembro de 2015

DAS COISAS QUE EU NÃO SEI >> Clara Braga

Sempre quis saber o que os âncoras dos jornais conversam ao final do jornal, naquele momento em que aquelas letrinhas já estão subindo mas eles ainda aparecem no enquadramento conversando e rindo horrores com o microfone já cortado, sabe?

E quando a bancada não é de vidro e eles não têm que ficar em pé para dar nenhuma notícia, será que ficam arrumadinhos ou só mesmo uma boa bermuda com o chinelo?

E naquele The Voice, quando os jurados viram a cadeira para um participante que foi eliminado na edição anterior e eles dizem que lembram do cara, será que lembram mesmo ou já foram previamente avisados de tudo?

E sabe aquela banda que atrasa mais de uma hora pra entrar no palco? Pois é, está bebendo no camarim e rindo da cara de quem chegou cedo ou realmente são motivos de força maior, tipo: pegaram muito trânsito para chegarem ao local do show?

E logo depois do show, para onde eles vão? Saem para badalar ou só aguentam mesmo dormir?

E os fãs, como descobrem o horário do voo, o hotel onde vão ficar e os locais onde seus ídolos vão comer e ainda acabam faturando um monte de selfies?

E aqueles loucos que dormem nas filas dos shows para pegar um bom lugar, não vão ao banheiro mesmo ou usam fralda geriátrica? 

Bom, saindo da esfera dos shows, será que alguém poderia me dizer o que diabos fazem os recém-casados entre a cerimônia e a festa que demoram tanto para aparecer? É charme, fome ou sessão de fotos? Se for qualquer coisa íntima além disso, por favor não me contem, eu descubro quando casar. Já esperei tanto para saber que não me importo de esperar um pouco mais.

Agora, se tem uma coisa que me deixa intrigada, e essa sim, se alguém souber a resposta me conte com urgência, é comprar roupas. Por que as lojas mudam as formas das roupas? Você vai um mês comprar uma calça 40 e te serve, mas, no mês seguinte, a atendente te avisa: "Esta coleção tem as formas menores, se você veste 40, então vou pegar o 44 para você!" Qual a vantagem em fazer o consumidor se sentir mais gordo?

E outra coisa, onde se escondem as roupas tamanho normal nas lojas de departamento? Só tem 34 na arara? Você quer mesmo que eu acredite que, na primeira semana de lançamento da nova coleção, eu fui a última pessoa de toda essa cidade a ir procurar o meu número? E as pessoas que vestem 34 provavelmente andam peladas ou não existem, pois esse é o único tamanho disponível no mercado.

Falando em mercado, e o carinha da foto de funcionário do mês, será que ele recebe direito a recesso depois de ser considerado o melhor? Nunca fui atendida por um! Acho que a próxima vez que eu for às compras vou pedir para ser atendida pelo funcionário do mês, só para ver a cara de pânico das atendentes tentando não contar que, na verdade, a foto de funcionário do mês foi cortada e colada de uma revista.

Aliás, quem sabe a gente não descobriu o novo emprego do ano? Modelos vão passar a posar para fotos falsas de funcionário do mês para embelezar o ambiente! E falando em modelos, e as modelos super magras que dizem que comem de tudo, o que será que elas realmente comem? Ar? Aprenderam a fazer fotossíntese, talvez?

Enfim, são tantas coisas que ainda quero descobrir que dava para fazer Globo Repórter com as minhas dúvidas o próximo ano inteiro. Aliás, fica a dica, Globo, se estiverem precisando de roteirista, estou à disposição.


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domingo, 13 de dezembro de 2015

O REI >> Eduardo Loureiro Jr.

O Natal está chegando. Nos últimos dias, tenho recebido as mais estranhas notícias: separações, reprovações, internações... e isso para mencionar apenas as notícias pessoais, sem falar das notícias políticas que, pelo menos hoje, não me vêm ao caso.

Mas o Natal está chegando. O comércio tem esperanças de que seja um bom final de ano. As pessoas têm esperança de que o 13º salário renda. E eu tenho esperança de que Papai Noel, após distribuir os presentes, não volte com o saco vazio e aproveite para colher um tanto do lixo que ficará dos papéis de embrulho e das embalagens plásticas.

O Natal está chegando e mais um ano acabando. Eu olho para trás e me pergunto: Foi um bom ano? Sem conseguir uma resposta simples, tipo sim ou não, penso que talvez exijamos muito de nossos anos. Por que ele haveria de ser bom? Melhor pergunta talvez fosse: Fui bom este ano? Não sei se fui bom. Não tenho parâmetros para avaliar isso.

O Natal está chegando. É a culminância do anúncio de um anjo: "Conceberás e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus. Ele será grande; será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai. Ele reinará para sempre sobre a descendência de Jacó, e o seu reino não terá fim." É isto que, no fundo, comemoramos: a mais estranha das notícias, mais estranha ainda por ser tão boa.

O Natal está chegando e tenho sentido falta do anúncio de um anjo. Aprendi, desde menino, que todos temos um anjo, um anjo da guarda. Mais recentemente, aprendi que a missão de nossos anjos da guarda é que não passemos por nada que não devamos passar. Eles garantem que, seja o que for que nos aconteça, nós podemos dar conta. Podem auxiliar, se convocados, mas não podem fazer por nós aquilo que devemos nós mesmos fazer.

O Natal está chegando e eu me sinto como José e Maria, caminhando em busca de um lugar em que possa acontecer a mais estranha das notícias: o nascimento de um rei, um rei que não tem fim, um rei que não morre, um rei-nício.




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sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

TELA EM BRANCO >> Paulo Meireles Barguil

Para o pintor, tintas e pincel.
 
Para o escritor, de história e de música, lápis e borracha.
 
Para o professor, gizes e apagador.

Para todos, silêncio a granel.

Para todos, corpo em transe.

Para todos, inspiração e amor.

Humanidade que não os agradece é pinel.

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quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

ANIVERSÁRIOS >> Mariana Scherma

Ficar mais velha não é bom. A não ser que você seja adolescente e queira logo completar os 18 anos pra tirar carta de motorista e blablablá. Depois que passa dos 18, sei lá, fica meio normal. Mas dia de aniversário é uma delícia, nem tô falando dos presentes porque, na maioria das vezes, logo mais você mal se lembra do que ganhou. A coisa física é o de menos. Pra mim, o que mais conta é o impalpável. O carinho, as palavras doces, os abraços de urso, as surpresinhas... Por esses, eu faria aniversário quase todo mês (se não aumentasse a idade, que fique claro).

Eu sou das que prefere cartão a presente. E guardo os cartões pra reler. E quando releio sempre choro, é inevitável. Algumas pessoas até saem da nossa vida por diversas circunstâncias, mas aquele recadinho com letra semi-garrancho vai sempre estar na gaveta, pronto pra ser lido quando bater saudade ou quando a autoestima der uma descida ladeira abaixo. Porque é fato: as pessoas destacam suas peculiaridades e suas melhores qualidades nos recados. Aquelas, talvez, que você nem se dê conta que tem, porque as usa no automático no dia a dia.

Neste meu último cartão, descobri que sou a louca do fitness (isso eu já sabia), que faço o dia dos amigos mais leve com meu bom humor (isso eu amei saber) e que ando em um momento muito apaixonado (ando mesmo, confesso). Ano que vem, outras características devem se juntar a essas e aí a gente percebe que nossa vida é uma colcha de retalhos quentinha e gostosa. Até pode ter umas partes ásperas, rasgadas ou descosturadas, mas não se sobrepõem à parte fofa. Ainda bem.

O que os amigos desse e de todos os outros cartões não sabem é que eles contribuem muito pra que eu tenha bom humor fácil, riso solto e essas coisas. Sozinha, a gente não é nada. Sozinha, a gente não faz verão. É tipo uma piscina só pra você: tem seu valor, mas é mais gostoso com os amigos. Fiquei mais velha, mas muito grata por ter gente tão querida por perto.


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quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

CORRENTES >> Carla Dias >>


Durante anos, vem se dedicando a não quebrar correntes. Não importa o ganho, mas evitar a consequência: se não passar adiante, para tantos amigos, vai acontecer algo de terrível a você; reze tantas Ave-Marias e tantas Salve Rainha, senão você passará por longos tantos  anos de miséria, e por aí seguia.

Quase todas as correntes que recebe são religiosas. As religiosas, ela nunca pensou em quebrar, que tem horror à ideia de Deus a achar espiritualmente preguiçosa. Já as que parecem mais uma ameaça do que corrente: “Alguém ama você e lhe mandou um coração. Compartilhe com quem você ama, caso contrário, o seu coração se transformará em um deserto e nunca mais dará flores.”, essas ela às vezes pensa em deixar passar, que se sente esgotada por sua vida ter se tornado uma série de rendições às correntes. Porém, antes que o prazo para o repasse acabe, lá está ela, encaminhando a mensagem para as cinco pessoas de sua lista de contatos: pai, mãe, irmã e dois irmãos. Quando precisa de mais de cinco destinatários, seleciona e-mails nas revistas comerciais do bairro.

Os familiares já pediram para que parasse com isso, que correntes são bobagens criadas por quem não tem mais o que fazer a não ser encher caixa postal e preencher timeline de rede social alheia. Ou que, na pior, que ela arrume alguns amigos, com os quais eles possam dividir o fardo que é ser alvo da incapacidade dela de quebrar correntes.

Na verdade, ela quebrou uma, certa vez. Há muitos anos, deixaram um envelope na caixa de correio de sua casa. Ela era o destinatário e não havia remetente. Ela abriu e leu o texto datilografado duas vezes, como sugerido por meio de uma observação, escrita à mão, no rodapé da folha de papel, onde também se lia a instrução para que o recebedor da mensagem fizesse cinco cópias datilografadas e deixasse na caixa postal de cinco casas de sua rua.

Ela realmente gostou do que estava escrito. Sendo assim, decidiu que seria bom compartilhar.

Na época, ela já adorava uma modernidade. Então, por que não fazer cinco cópias Xerox, em vez de gastar tempo e paciência na máquina de escrever do irmão mais velho? Datilografar já era fazer praticamente obsoleto. Seu irmão, um colecionador excêntrico, era dos poucos que ainda recorria ao instrumento para registrar seus projetos.

Ela imaginou que seria interessante oferecer um pouco do que continha naquele papel às pessoas. Era poesia, por mais que parecesse oração. Ela gostava de poesia, e achou boa a ideia de espalhá-la por aí. Dois dias depois, ela fez as cópias e se comprometeu com ela mesma a entregá-las no dia seguinte. Porém, ignorou outra observação escrita à mão no rodapé: as cópias deveriam ser entregues em até 24 horas, após o recebimento, evitando assim, que um evento infeliz ocorresse... “Evento infeliz” estava sublinhado. Ela achou aquilo uma grande bobagem.

No dia seguinte, sua vida mudou completamente. Um evento infeliz aconteceu, o que a levou a perder um querido amigo de infância. Foi àquela carta sem remetente que ela se agarrou. A culpa, que lhe cabia melhor do que a dor da perda, tornou-se sua âncora. Jurou a si que nunca mais quebraria uma corrente.

Sua dedicação a não quebrar correntes afastou os amigos e interfere profundamente em seu relacionamento com seus familiares. Mas nela vive esse medo lancinante de que, se quebrar a corrente, outra tragédia se agarrará a um de seus poucos afetos. Prefere não arriscar.

Ela foge de possíveis veículos que promovam o recebimento de correntes. Ainda assim, elas acabam chegando até ela. A partir daí, cumpri-las é uma necessidade. Mudou-se para um pequeno apartamento na cidade, que não conseguia mais lidar com a rotina de conselhos de seus pais a respeito de possíveis tratamentos para a compulsão dela, nem mesmo com a zombaria dos irmãos. Enquadrou a primeira corrente recebida e pendurou na sala, que é para não se esquecer de que precisa seguir todos os passos das correntes que receber.

Atende a porta e dá de cara com a irmã dele. Há muito tempo não se encontravam. Dela também foi amiga, naquele antigamente, quando quebrar correntes significava nada para ela.

Elas tomaram chá e então conversaram sobre trabalho. Não tardou, a irmã começou a falar sobre suas lembranças a respeito do irmão. Choraram juntas, maldisseram o destino e questionaram a felicidade.

Antes de sair, a irmã vê o quadro na parede e se aproxima para ler melhor o escrito. Creditava à perda do melhor amigo o afastamento da outra, assim como a origem de seu comportamento excêntrico. Gargalha baixinho, sob a mira curiosa da cumpridora de correntes. Conta a ela, a voz rascante, que seu irmão escrevera aquele poema, no dia em que decidira que poeta seria sua profissão. Ele achou que sua melhor amiga se sentiria orgulhosa de sua escolha. Ele usou a máquina de escrever de seu avô, porque sabia que ela achava máquinas de escrever obsoletas, mas superaria isso para ler um poema. E que, talvez, ela pudesse se surpreender com a primeira obra dele. Mas então, ele decidiu mantê-lo na gaveta, até ter a coragem necessária para mostrá-lo à amiga.

Foi ela, a irmã, que achou aquilo de esperar uma grande bobagem. Então, teve a ideia de mostrá-lo de uma forma inusitada. Assim, além de ele poder dizer à amiga que era o autor do poema somente se ela gostasse da obra, teria seu primeiro feito distribuído a outros leitores.

A irmã colocou o poema em um envelope, o nome da amiga no remetente. Colocou o envelope na caixa de correio dela, mas não sem antes cometer uma traquinagem. É dela a letra escrita à mão. É dela a autoria de uma corrente que nunca existiu.

Fechou a porta, apagou a luz e se sentou no sofá. No escuro, espiou suas lembranças. Ainda escuta, em sua cabeça, a voz dele. Ela a reconhece e sente falta de escutá-la a contar novidades.

Foi justamente o quanto aquele poema a levava a se lembrar dele que a fez seguir esse rumo. O que ela encarou como presságio, não passava de uma travessura. Repetiu isso até que a compreensão fosse possível. Até que entendesse que a tragédia não havia sido praticada por um destino que se ofendeu pela incapacidade dela de atender a seu pedido, mas pela interferência de uma pessoa que acreditava fazer o melhor para ela e para o irmão.

Respirou fundo e quebrou a corrente ao lidar com seu coração partido.

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terça-feira, 8 de dezembro de 2015

SOBRE PLANOS, SHOWS DO ROBERTO CARLOS
E O FIM DE ANO DA GLOBO
>> Clara Braga

Sinais de que o ano está mesmo acabando: Papai Noel já chegou no shopping, os shoppings estão muito mais cheios, Brasília está mais vazia, as casas já estão decoradas com motivos natalinos, todos os grupos do WhatsApp já estão combinando suas confraternizações, aumentou consideravelmente a quantidade de campanhas de arrecadação de brinquedos e doações gerais, algumas pessoas já estão de férias, os artistas da globo já se reuniram para cantar aquela mesma canção de sempre que passa uma vez na televisão e te deixa repetindo aquele refrão por uma semana seguida e, claro, o Roberto Carlos já organizou seu especial de fim de ano.

Não adianta, tem coisa que não vai mudar, o Roberto Carlos vai cantar "Como é grande o meu amor por você" e distribuir flores, a Globo vai gravar o show da virada e jurar que nada foi playback, o consumo de roupas brancas vai aumentar, a Fátima Bernardes vai entrevistar um vidente que vai fazer previsões extremamente generalizadas para o ano que vai começar, os programas de culinária vão ensinar a preparar uma ceia de dar água na boca, as pessoas vão fazer novos planejamentos, 90% vão incluir e/ou repetir emagrecer como um dos objetivos mas só uns 50% ou menos vão de fato manter esse objetivo como prioridade e não precisarão entrar em pânico com a sua imagem no espelho no próximo verão.

Enfim, é como eu disse, tem coisas que não mudam. E quer saber, não tem problema. Muitas dessas coisas fazem parte desse clima gostoso de renovação, de esperança, não teriam mesmo porque serem diferentes. Claro, de muitas delas a gente vai reclamar, vai dizer que ninguém aguenta mais o Roberto Carlos, mas o dia que não tiver mais algum especial dele, a notícia vai ter que ser dada no plantão da Globo com aquela música macabra, pois algo grave terá acontecido.

Por outro lado, tem coisa que não dá mais. Se eu fosse começar meu planejamento de 2016 agora, começaria pelas frases que eu não quero mais dizer:

“Não acredito que, em pleno 2016, ainda temos que lidar com pessoas ignorantes que utilizam as redes sociais para fazerem comentários racistas.”

“Não acredito que, em pleno 2016, as mulheres têm que ter medo de saírem na rua sozinhas e sofrerem algum tipo de agressão ou serem estupradas e ainda terem que ouvir que são culpadas.”

“Não acredito que, em pleno 2016, as pessoas que deveriam ser as principais propagadoras do amor ao próximo incentivam as pessoas a apedrejarem outras por causa de suas orientações sexuais. E, pior, não acredito que tem gente que obedece!”

“Não acredito que, em pleno 2016, uma pessoa com deficiência precise deixar de fazer algo por falta de acessibilidade.”

“Não acredito que, em pleno 2016, a escolha pela profissão de professor ainda seja mal vista.”

Enfim, essas são só algumas das que pensei para o início do planejamento, mas com certeza vou revisitar essas frases, modificar e acrescentar algumas. Sem falar da parte mais leve e descontraída do planejamento que inclui, claro, a perda de peso. Sim, eu sou parte dos 90% que sempre incluem essa parte como meta, mas não dos 50% que só põem em prática no outro verão. E também faço parte dos 90% que reclamam do Roberto Carlos, mas estranhariam se não tivesse o programa dele, apesar de não assistir. E também dos 90% que acham brega a música de fim de ano da Globo e cantam durante uma semana sem nem se darem conta do que estão fazendo. E também dos que ficam esperando o vidente da Fátima Bernardes dizer qual vai ser a cor de 2016 para usar na virada, apesar de não acreditar nessas coisas! 


Pensando bem, vou começar minhas metas com: ser menos previsível.


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segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

FAÇA UMA "HASHTAG" >> André Ferrer

A vida traz perdas e agressões. Um belo dia, a natureza, que é selvagem, cumpre o seu papel. Dentro da bolha de plástico, a existência torna-se insustentável.

Coisas das quais nem papai nem mamãe escapam. O filhinho, então, nem se fala! Recorrer a quem? Aos direitos civis? Às passeatas?! À arte performática?!

Impossível. Nos dias de hoje, sequer recair no erro da birra, uma criança pode.

Os bebês da Geração Z (nascidos a partir de 2001) nascem geniais, mas precisam de Ritalina quando chegam à escola. Dominam, decerto, os “tablets” e os celulares, mas é da mesma forma que, há séculos, filhos de lavradores chineses, ainda muito novos, dominam o ábaco e os fundamentos das quatro operações. Em jogo, as mesmas capacidades humanas que moviam qualquer membro das gerações anteriores à Z, a Y (1980 a 2000) e a X (1965 a 1979), bem como qualquer “baby boomer”, que é como se chamam os nascidos entre 1946 e 1964, com o seu chocalho do “Mickey Mouse”; a mesma curiosidade, enfim, que agitava um bebê macedônico agarrado ao seu brinquedo feito de seixos e conchas.

Muitos, hoje em dia, creem que as crianças deixam o útero adaptadas ao “touchscreen”, o que não passa de mais uma daquelas imposturas domésticas. Ora, não se trata, tampouco, de um salto evolutivo patrocinado pela Nova Era.

Importa, de fato, é que os brinquedos disponíveis em épocas anteriores respondiam sempre da mesma forma e, a não ser que pais e mães otimizassem o jogo, o objeto pouco intuitivo — tanto para crianças quanto para adultos — em nada modificava o comportamento humano. Afinal, quem tinha a obrigação de estimular a inteligência dos filhos eram os pais e não Pou, o alienígena com cara de cocô.

Neste cenário, como a Geração Z chegará à maturidade? Especialistas e consultores de RH profetizam uma grande crise no mercado de trabalho quando esses jovens imediatistas começarem a ocupar seus postos. Capazes de manipular todo aquele aparato tecnológico serão, também, capazes de solucionar um futuro construído sobre alicerces tão assépticos?

Eis o problema: fecham-se as portas de um mundo a ser explorado. Sem o desafio de provas que não só demandam respostas, mas respostas que precisam de tempo para surgir, o homem cresce, fica velho e morre questionando a vida nos termos mais patéticos e risíveis possíveis.

Então, a natureza é intolerante?! Preconceituosa?! Processe a decrepitude por danos morais. Faça uma “hashtag” contra o Mal de Alzheimer, o câncer e a morte. 


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sábado, 5 de dezembro de 2015

A PRAÇA É UMA FESTA >> Sergio Geia



Escolhi um lugar pra morar que fosse perto da Santa Teresinha. A praça é o meu quintal, o lar onde me criei. Em seus domínios vivi momentos importantes, down e up, e se ela não fala como “O Caderno”, do Toquinho, certamente pensa, ah, pensa! Pensa, sente e pulsa. Quem sabe dia desses não capto sua vibratória e a traduzo pro mundo civilizado, hein? Se já fiz isso com uma árvore frondosa, posso muito bem fazer com uma praça.

Pois nela me esbaldei no parquinho, joguei vôlei, futebol, fiz teatro, dancei quadrilha americana, rezei, peguei, pequei, briguei, brinquei. A praça pra mim é como o terreiro pra mãe Nazinha, a terra molhada pro Julio, o Allianz Parque pro Palestra. Nela me sinto bem, e poder enxergá-la da sacada do meu apê — uisquinho na mão —, dar alguns passos e me banhar no frescor de suas calçadas assombreadas, beber de sua noite sem me preocupar com blitz de lei seca, poder ouvir a pulsação que nasce de suas múltiplas manifestações culturais, era tudo o que a simplicidade da vida poderia me oferecer com perfumes de felicidade.

Pois outro dia, amigo, descobri que nem só de flores vive Holambra, nem só de flores. Já no meu caminhar pela manhã encontrei Chiquinho espumando de raiva, com um palco enorme invadindo seu pequeno jardim de ganha-pão, o lugar em que há mais de vinte anos instala seu carrinho de lanches. “E ainda por cima, Serginho, o fiscal da Prefeitura veio me pedir o alvará, como se fosse eu quem estivesse invadindo o espaço deles, e não eles”.

Já deveria imaginar. Eis que depois do almoço, usufruindo daquele cochilo bom a que todo trabalhador digno e honrado tem direito aos domingos, sou despertado por insistentes badaladas de um sino que já foi meu amigo em tempos idos, mas que agora estava sendo cooptado de forma intempestiva por um pilhado sacristão, que deveria estar no mínimo tendo um orgasmo abraçado às cordas toscas e grossas.

A trilha sonora trazia um inusitado axé gospel. Pois estava ouvindo Compadi Washington em pessoa comandar os fiéis, mesmo sem Beto Jamaica (fiquei na cama a imaginar se haveria louras e morenas dançando “Ali Babá”). Com todo o respeito ao ritmo, admito que não sou lá muito fã, e juntar axé com gospel, aí, é o fim da picada; tava mais intragável que um Classic Suave contrabandeado do Paraguai. Depois comecei a ouvir preces e orações, pai-nossos e ave-marias, o início de um terço, talvez, que torci para que fosse não um terço, mas um setenta e quatro avos de um rosário, que seria muito mais suave. Depois, do nada, surgiu uma banda (estava à toa na vida mesmo!). Já imaginei o exército marchando no entorno. O sino voltou a tocar, agora com mais raiva ainda, talvez a minha que chegou lá por um contato imediato de nono grau. Os rojões, os vivas. Até berimbau apareceu.

No meu apartamento, eu não estava a fim de ouvir missa, de rezar terço, ouvir gospel, ou gritar vivas ao Senhor. Eu queria mesmo era algo muito mais simples e corriqueiro: ver o meu grande Palestra deitando e rolando, de preferência tomando um uisquinho, de preferência comendo amendoim.

Mas o Senhor Deus é Deus pra todo mundo, e o vento que venta lá venta cá. Assim, Compadi Washington vinha e ia ao sabor do vento, cada vez mais cansado, até que de uma hora pra outra sumiu de vez pro meu alívio, fato que me fez prontamente agradecer com um singelo pai-nosso, muito embora achando que depois dessa tarde, e principalmente desta crônica, minha alma não terá mais salvação e haverá de arder no fogo do inferno (será que a loura do Tchan vai estar lá?).


Ilustração: Joan Miró

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sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

FLORES? >> Zoraya Cesar

"Quem é que quer flores depois de morto? Ninguém". J. D. Salinger

Eu não sei o que aconteceu, juro que não entendo. Pode ter sido culpa minha, todo mundo diz que a mulher é sempre culpada, deve ser verdade. Se apanha, é porque merecia. Se o marido não dá atenção, é porque ela não fez por merecer.

Acho isso muito injusto, mas nunca me insurgi contra o que quer que fosse. Meu pai era rude e severo. Dizia que — por incrível que possa parecer a você, nascido em uma família normal — à mulher bastava fazer até o 2º grau. Ou virava desavergonhada. Minha mãe, criada para ser mucama de marido, concordava. Na minha casa, mulher não tinha voz nem vez, era obedecer e pronto. E eu obedecia, nasci cordata e boa.

Vaidades? Nem em sonhos. Nunca pude frequentar academia, usar maquiagem, bijuterias. Regime? Imagina, com tanta gente passando fome! Para meus pais, mulher tinha que ser limpa e asseada, tão somente. Eu não me revoltava, sempre fui mansa e gentil. Por isso, repito: não sei o que aconteceu, juro que não entendo. Vejam vocês, eu era baixinha, com mais de 40 quilos acima do peso, cabelos crespos e ressecados, a pele branca e baça. Parecia uma enorme e disforme boneca de cera. Vestia-me como uma velha senhora. Sejamos honestos: eu era feia. Feia, desenxabida e sem graça.

Quando nosso vizinho Romualdo me pediu em casamento, meus pais quase lhe beijaram as mãos. Sempre acreditaram que eu morreria solteirona. Gerente em uma sapataria famosa, quarentão, dentes grandes, fala mansa, Romualdo era bem apessoado — se você gosta de tipos amulatados, franzinos e que usam base nas unhas. Eu não gosto. Mas não fui criada para gostar ou não gostar. Fui criada para obedecer. (Disseram que era muita sorte, a minha. Sorte. Nunca acreditei em sorte).

Casei-me. Única maneira de me afastar de meus pais sem escandalizá-los. Uma vez casada, estaria por minha conta.

Se você pensa que, saindo de casa, minha vida melhorou, você acredita em Papai Noel.

Romualdo nunca primou pelo romantismo, mas, depois do casamento, virou um ogro. Mal falava comigo e, quando o fazia, era apenas para criticar, cobrar ou grunhir. Sairmos juntos? Nunca. Tratava-me quase como um capacho velho, bom para ser usado na porta dos fundos.  Nossa primeira noite –– que não sei do que chamar, pois de amor não foi — me traz lembranças desagradáveis e humilhantes. Jamais senti prazer algum; meu marido fazia de mim um mero depósito de esperma.

Um dia, comentei que ele nunca me dera flores. Ele riu. Riu na minha cara e disse, com todas as letras e dentes, que só os mortos e as mulheres bonitas mereciam flores.

Pela primeira vez na minha vida, chorei como uma louca. Eu tentava fazer tudo certo, ser gentil, amorosa, mansa. Passei meses achando que a culpa era minha, sem entender por que Romualdo casara comigo nem por que continuava casado, já que, obviamente, não gostava de mim.

Até que, finalmente, entendi.

Romualdo casara comigo por interesse. Para viver às minhas custas. Pois eu ganhava bem — para os padrões de classe média baixa de onde viemos —, sempre fui muito esforçada. Ele? Descobri, por acaso, que não era gerente coisa nenhuma, mas um reles vendedor, dos mais medíocres. Explicado, assim, por que nunca tínhamos dinheiro para nada, por que vivíamos endividados, por que eu tive de pagar as despesas do apartamento. Estava sustentando um parasita, que me humilhava, desprezava e explorava.

Quase morri de desgosto. Sempre fui tão cordata e boa, jamais fiz mal a alguém. Talvez a mim, somente. Por isso, juro a vocês que não sei explicar o que aconteceu.

Tudo foi tão de repente.

Ao chegar em casa, encontrei-o, bem vestido e bem tratado, fumando recostado à balaustrada da varanda, o corpo meio para fora, como sempre fazia, antes do jantar. E, também como sempre fazia ao me ouvir chegar, gritou “cadê o jantar, sua gorda inútil?”. Eu já devia estar acostumada. A gente não se conhece mesmo, né?

(Não sei o que aconteceu, juro que não entendo).

Quando dei por mim, estava correndo na direção dele, jogando meu corpo infinitamente mais pesado contra o dele, caindo, ambos,  andar abaixo. Eu sobre os ossos quebrados e mortos dele.

A polícia concluiu por um acidente. Essas varandas de alumínio são frágeis mesmo, e o prédio era velho. Disseram que eu tive muita sorte em escapar viva, só com algumas fraturas. Sorte. Nunca acreditei em sorte. Sei muito bem o que fiz naquela noite. Continuo sem entender o que deu em mim, sempre tão cordata e boa, mas sei o que fiz.

No enterro de Romualdo, ainda estava hospitalizada. Não mandei flores. Quem é que quer flores
depois de morto? Ninguém.

("Who wants flowers when you're dead? Nobody." J. D. Salinger, O apanhador no campo de centeio)



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quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

NINGUÉM >> Carla Dias >>


É ninguém e sabe disso.

Ninguém que se acopla à realidade de outros, porque a vida decidiu cuspi-lo no planeta, feito rejeição existencial. Sendo ninguém, transita por aí sem ser notado. Às vezes, arrecada de um e outro alguns olhares, mas então eles pensam que deve se tratar de algum fantasma, ou mesmo de uma ocupação indevida do delírio das suas cabeças sempre tão ajustadas.

Ser ninguém exige competência. Se não há competência, o ser em questão dura apenas uma recuperada de fôlego, depois, tchau. Com competência, esse ser pode se graduar como coletor principal de sonhos não correspondidos, necessidades renegadas, dividendos e suspiros.

Os suspiros são significativos.

Sabendo-se ninguém, gosta de se hospedar na direção dos olhares que, escravos da certeza de sua inexistência, desviam-se de forma dançarina. Sabe como? Para lá e para cá, nunca em sua direção. Como se ali em frente não existisse. Não que queira se impor ao fazer isso. Apenas aprecia assistir à coreografia do desvio de olhares.

Quando se é ninguém, deslocar-se pela cidade pede por certo gingado. Até os semáforos parecem concordar com os motoristas e se abrem todos, verdejando passagem aos seus, limitando a viagem do ninguém.

Tá bem... Aqui o ninguém foi além com suas caraminholas. Vamos deixar os semáforos trabalharem, que eles parecem fazer isso direito.

O dia em que se percebe ninguém é dos mais tristes que até então um alguém pode viver. Antes dele, era-se pessoa, com uma lista de sonhos e ânimo para encarar jornadas, arriscar-se e receber diferente do que pediu, mas ainda assim, apreciar a conquista. Havia música para quebrar silêncio, jantares em restaurantes — e nem sempre bons restaurantes — para calar estômago roncando. Até cama... Cama... Cama... Cama.

Ser ninguém é diferente de tornar-se. Obviamente, as margens existem em qualquer situação. Neste caso, quem se transforma em ninguém apreciou algo que o ninguém que é jamais experimentou: respeito. Não precisa ser dos mais requintados, popular, respeitinho básico mesmo. O ninguém que é nunca teve esse prazer. Vive a colher “bom dia” e “boa tarde” e “boa noite” que não são para ele.

Ele sabe que é ninguém. Na verdade, é um dos mais talentosos ninguéns que já conheceu. Se houvesse um concurso para o ninguém mais ninguém, ele venceria. Sua irrelevância transpõe os limites da logística social para fazer cidadão dormir, de preferência, após degustar o boi que deveria dormir no lugar dele.

Sem ter o olhar treinado por imagens sedutoras, a alma entortada para condoer-se em nome das tragédias alheias, de forma estática e telespectadora. Por não saber quantos cômodos tem essa casa dele que é o mundo, ou em qual quintal pode brincar de ser gente, o ninguém apenas existe.

O que não se pode dizer de um ninguém é que ele não sonha. Com esse acessório, todo ser humano vem ao mundo. Porém, um ninguém sonha com coisas bem diferentes de um alguém, como, por exemplo, ser ouvido. Não daquele jeito performático-burocrático, quando um atendente distraído não faz mais do que esperar o fim do turno, enquanto o ninguém explica suas urgências, que definitivamente não serão sanadas pelo serviço oferecido aos ninguéns por pura comodidade social.

Veneno poderoso é a indiferença. É nela que um ninguém feito ele se debruça. É ela que lhe serve de casa. Às vezes, ele grita até a voz sumir, pensando que o problema seja realmente por ele não se expor o suficiente. Porém, nada muda ao seu redor, tampouco para ele.

Ser ninguém exige competência. É anoitecer e amanhecer sem ter ideia de quanto tempo irá durar nesse mundo. Mas isso é um mistério para todos, certo? Então, o ninguém em questão respira fundo e retoma sua jornada. Faz as pazes com os semáforos e vai assistir mais uma sessão da coreografia dos olhares desviados.

Mas que fique bem claro: o ninguém pode até não saber disso, mas ele é um alguém no qual a vida ainda não botou reparo.

Imagem: The Mysteries of Horizon © René Magritte



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terça-feira, 1 de dezembro de 2015

PRIVILÉGIO OU PREVILÉGIO? >> Clara Braga

Atire a primeira pedra quem nunca escreveu uma palavra com a grafia errada jurando que estava escrevendo certo. Essa é a história da minha vida. Meu melhor amigo? Corretor do word. Minha melhor desculpa? Licença poética. Mas tem uns erros que não há licença poética que segure.

Esses dias vi um que confesso que na hora “h" me deixou na dúvida: privilégio ou previlégio? Eu tinha certeza que era privilégio, mas sabe quando você vê a palavra errada em uma frase tão convincente que acaba ficando na dúvida? Pois é, "viajar para o exterior é um previlégio de poucos". Quer frase mais convincente que essa?

Nada que um bom dicionário não resolva: Privilégio — vantagem concedida a alguém, com exclusão dos outros; permissão especial. Substantivo masculino com origem no latim privilegium e, por isso, escrita com “i” mesmo! Se fosse o soletrando do Caldeirão do Hulk, ainda poderíamos pedir a divisão silábica e a utilização em uma frase, mas não é necessário, só pela origem já não fica mais na dúvida, é com “i”. Mas pesquisar alguns sinônimos não faz mal a ninguém: posse, regalia, concessão, direito. Opá, direito?

Pois é, parece que direito pode ser sinônimo de privilégio, porém, em alguns casos, a palavra privilégio pode ser entendida de forma pejorativa, afinal é algo que uma pessoa possui e outra não, seja lá o motivo, e ninguém gosta de ser excluído de uma concessão, não é mesmo? Porém, é aí que mora todo o problema, algumas pessoas não entendem que nem todo mundo tem o privilégio de não ter uma deficiência, por exemplo, que o impeça de ter acesso a seja lá o que for, de banheiro a informação. 

Não vivemos em um mundo adaptado a todas as necessidades, e isso não é culpa das pessoas com deficiência, muito pelo contrário, no final, são elas que saem perdendo. Por isso, algumas regras básicas precisam ser colocadas para que todas as pessoas tenham iguais oportunidades na vida (e aqui também incluo desde a oportunidade de se informar até a oportunidade de usar um banheiro público), e é por isso que essas regras não estão em discussão pois são DIREITOS garantidos por lei, e não privilégios.

A placa colocada em Curitiba que pedia o fim dos privilégios das pessoas com deficiência e que causou revolta na internet parece não ter passado de uma ação de marketing para uma campanha que busca garantir os direitos das pessoas com deficiência. Uma ótima campanha para ser feita próxima do Dia Internacional das Pessoas com Deficiência e do Dia Mundial da Acessibilidade. Tomara que a revolta que eu e muitos sentiram não morra nas redes sociais.


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domingo, 29 de novembro de 2015

VOCÊ E O SONHO >> Eduardo Loureiro Jr.

No início, você está dentro do sonho. O sonho é a realidade para você. Tudo que existe é o sonho. Você não pensa no sonho, você nem sabe que está sonhando. Você vive por meio do sonho.

Depois, você acorda. Seu corpo ainda não se mexe, mas você acorda. Você percebe que esteve sonhando. Você não é mais aquele que vive no sonho, você é aquele outro que sabe que viveu no sonho. Mas você ainda está envolto pelo sonho. E você sente que o sonho era bom e deseja voltar a sonhar. Você mantém o corpo imóvel e tenta esquecer que é um sonhador. Você procura dormir novamente na esperança de voltar àquele mundo do qual já começou a sair. Você ainda pode ver o mundo do sonho, as pessoas que estão nele, a natureza, as cores, as texturas, os cheiros, embora todos eles comecem a subir devagarinho. Você tenta se manter sonhando, rememorando a história do sonho, aquela sequência meio ilógica de eventos que você acabou de viver. Não fazia muito sentido, mas era bom. Você consegue voltar ao sonho, mas a consciência não some de todo, e o sonho continuado é uma imagem borrada do sonho que antes era nítido e real. Você não está mais vivo dentro do sonho, as demais pessoas do sonho também não parecem estar mais vivas, a própria natureza do sonho não é mais do que um mundo cenográfico.

Você ouve um barulho do seu próprio mundo. Um canto de pássaro, um bater de enxada, o movimento das pessoas na sua própria casa. Seu corpo se mexe, tenta se espreguiçar. Você procura ficar imóvel, procura se concentrar nas imagens cada vez indefinidas do sonho, mas, quanto mais você se esforça, mais o sonho escorre entre os fios do seu pensamento. Você sente que a batalha está perdida e busca guardar alguns despojos do sonho: reconta a estranha história para si mesmo. Você se ilude de que lembrará daquele sonho para sempre, de que não é possível esquecer algo tão vívido e tão bonito.

Você se espreguiça. Você se levanta da cama lentamente. Você vai, de olhos entreabertos, até o banheiro. Você faz xixi. Você lava o rosto. Alguém percebe que você está acordado e fala com você. Você responde. Você voltou a viver em seu mundo e o sonho é uma lembrança tão leve que não resistirá à água do banho.

Agora o sonho dorme. Talvez o sonho sonhe. Imóvel e silencioso, dentro de você.

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sexta-feira, 27 de novembro de 2015

7 QUEDAS >> Paulo Meireles Barguil



 "Então, Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou:
'Senhor, quantas vezes deverei perdoar a meu irmão
quando ele pecar contra mim? Até sete vezes?'. 
 Jesus respondeu: 'Eu digo a você: 
Não até sete, mas até setenta vezes sete.'"
Mateus 18, 21-22

Percorrer a Trilha das 7 Quedas em Mucugê, na Chapada Diamantina, só é possível quando tem pouca água, pois o leito é repleto de pedras de tamanhos diversos.

Por esse motivo, na abundância, o espetáculo proporcionado pela interação da dupla é contemplado apenas de cima.

Na carestia, as pedras, muitas outrora afogadas, assumem o estrelato, sendo a água singela coadjuvante, numa inversão de papéis.

Que bela metáfora da natureza sobre a vida!

Não me refiro somente à dinâmica dos ciclos aquíferos, mas à oportunidade de identificar alguns rochedos que, em momentos de fartura, são escondidos pelo movimento voluptuoso e frenético do líquido.

Enquanto aguardo as nuvens escuras, anunciantes de nova temporada, agradeço a oportunidade de subir e descer pedras, bem como de desculpar aos companheiros dessa jornada, incluindo-me no topo do rol dos necessitados de indulgência.

Quantas vezes ainda terei o privilégio de fazer esse percurso?
 
[Chapada Diamantina - Bahia]

[Foto de minha autoria. Novembro/2015]

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quinta-feira, 26 de novembro de 2015

ERA PRA SER. NÃO FOI >> Mariana Scherma

Você também deve se lembrar que, há nem 20 anos, as pessoas diziam que o Brasil era o país do futuro, que nossas crianças eram o futuro. Nossa biodiversidade, nossas riquezas naturais, a gente tinha potencial. O Brasil era tipo aquela criança prodígio do colégio. Ou aquela criança estrela de Hollywood que, assim que ficasse adulta, ganharia Oscar, Bafta, Globo de Ouro e cia. Ãham. Vai nessa.

O problema é que, para o nosso país chegar estrelando no futuro, as pessoas no comando, as empresas e tudo mais deveriam querer que assim fosse. Ao que tudo, indica esses governantes e demais fulanos do poder não o quiseram. Que futuro, o quê, eles devem ter pensado. Graças a eles, e à gente que votou neles (não estou me escondendo), nosso futuro virou fumaça. Muitas de nossas crianças mal são alfabetizadas. Nossa biodiversidade vai se esgotando pouco a pouco (obrigada, Samarco e suas parças).

Eu não vejo mais ideologia em partidos políticos ou, quando vejo, não acredito que eles vão conseguir governar. Governar tem se mostrado uma tarefa apenas para as pessoas sem alma. A justiça acontece só de forma seletiva (né, Eduardo Cunha?!). Os partidos políticos em que eu acreditava, muito por conta dos meus pais cheios de sonhos, estão falidos. Eu não sei se seria o caso de ensinar aos políticos o que é representar o povo. Quando foi que isso se perdeu? Governar virou a nova Mega Sena para alguns vários. Não é.

O futuro do Brasil era pra ser brilhante, mas nosso país virou o Macaulay Culkin das nações. Nossa biodiversidade foi embalada e se transformou em produtos de beleza com ar de ecologicamente corretos. Nosso sonho virou a maior ilusão. A fé acabou. A esperança está em extinção. Eu não sei mais em quem acreditar. Desculpa a tristeza. 

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quarta-feira, 25 de novembro de 2015

SOBRE SALAS DE ESTAR >> Carla Dias >>

Houve dias em que me lamentei por coisas que não fiz e pessoas que nunca encontrei, até por sentimentos que não saberia explicar se me perguntassem a respeito. Sentia dó de mim por reconhecer o sofrimento alheio com tanta intensidade. Sentia-me aviltada de tal forma, que parecia que jamais me recuperaria daquilo tudo.

Houve dias em gritei, exigindo que Deus me explicasse... Que tragédias eram aquelas que eu presenciava, como boa espectadora de televisão? Esmurrei minha parede em nome daqueles que sofriam as consequências do descaso e do abandono.

Senti dor, quase certa de que a minha se equiparava à dor do outro.

Levou tempo até que eu me reconhecesse nesse mundo e compreendesse a diferença que há entre viver e ser uma reles espectadora de tragédias, observando-as da sala de estar lá de casa.

Compreendi que colocar-se no lugar do outro não é sentir a dor dele e viver suas experiências. Sendo assim, não tenho o direito de me comportar como se fosse eu a ofendida pela indiferença, espancada pela incompetência daqueles que deveriam zelar pela minha segurança. Não sou eu a sofrer privações do que é de direito de qualquer ser humano.

Com essa compreensão, veio o alívio. Tão bom não me sentir mais pressionada pela dor do outro, como se pudesse senti-la pulsar dentro de mim. Já me bastam as tragédias pessoais, aquelas com as quais todos nós temos de lidar, eventualmente.

Houve dias em que eu culpava o universo pelas mazelas da vida. Também vociferava — entre um gole de café e o pagamento de uma conta pela internet — a respeito de o ser humano não ter mais jeito. Eu literalmente brigava com o mundo, andando de lá para cá, na minha sala de estar. Comovia-me profundamente ao ver na televisão aquela dor toda. A dor, a dor, a dor...

Com aquela compreensão, dei-me conta de que, na vida de quem vive uma tragédia, as bordoadas não vêm em cenas que esperam passar comercial de xampu, celular, refrigerante para então acontecerem, tampouco chegam com textos escritos para ver quem ganha mais audiência. Acostumada a ver o mundo pelos olhos que espreitam, libertei-me do hábito de desvalorizar a dor do outro ao assumi-la como minha. Não era por mal... Era por mau hábito. A dor não é minha, não mesmo. Respeitar essa verdade é respeitar aquele que realmente sofre o impacto do acontecimento; quem terá de conviver com as consequências dele.

O que me dói, na verdade, dói na conta da empatia. Dói porque sou aquele ser humano sobre o qual se fala tanto... O que não tem mais jeito, mas tem.

Quando assumimos nosso papel de testemunha de uma tragédia — mas não reles espectadora, estática —, deixando de lado toda a conversa que gastamos sobre como deveria ter sido, os motivos de a situação ter chegado a tal ponto, enfim, a lamentação toda sobre como “iremos” sobreviver a isso, temos a percepção apurada e tempo para nos dedicarmos ao que realmente importa: pensar em como podemos ajudar essas pessoas a passarem por momento tão difícil, e exigirmos, como cidadãos e seres humanos, que os culpados recebam a devida punição.


carladias.com

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