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Mostrando postagens de Junho, 2011

NÃO É NORMAL >> Fernanda Pinho

Sentada num restaurante de frente para o mar da paradisíaca Canoa Quebrada, comentei com minha amiga e companheira de viagem, Laís, paranaense, sobre como aquela paisagem me impressionava.
— Não é possível que a Sam ache isso normal — eu disse, meio embasbacada, me referindo à outra amiga, cearense, nossa anfitriã.

Ao voltar para Fortaleza, ainda deslumbrada pelo choque emocional que para mim foi Canoa Quebrada e Morro Branco, tive que interpelar a própria Sam.
— Por que você nunca me disse que era tão lindo assim?
Perguntei sabendo que "lindo" não era suficiente, mas não me ocorreu outra palavra na hora.
— Ah, mas eu também não disse que era feio.
— Mas também não disse que era deslumbrante. Acho que você deveria ter me preparado melhor pra isso.
Dessa vez, eu usei "deslumbrante", mas ainda não era suficiente. Ela apenas riu, talvez por saber que é mesmo lindo/deslumbrante, mas achar normal. Afinal, ela nasceu ali e todos ao seu redor, que também nasceram ali, p…

MUNDO PARTICULAR >> Carla Dias >>

Mundo pequeno é aquele que alguns chamam de rocambole e outros de passeio na praça. A gente sabe que o mundo, que o planeta Terra é enorme, mas às vezes ele parece caber exatamente na essência do que chamamos encontro fantástico, porque o mundo só pode ser rocambole ou passeio na praça quando há pessoas envolvidas.

Em caso geográfico, ele é o que mapa descreve. Em caso financeiro e geográfico, sim, é caro dar uma volta ao mundo, ainda que muitos garantam que vale a jornada.
Dureza é quando se trata do mundo particular, aquele que apelidamos de universo para que a ideia pareça totalmente existencialista. O que ela realmente é... Só que, às vezes, ela só parecer ser, entende? E assim o mundo pesa em nossos ombros.
O mundo particular é pequeno. Se for pequeno como é pouca a bagagem que levamos para passar uma semana na casa de um parente, significa que escolhemos levar a vida de uma maneira simples, que aceitamos a objetividade das situações, que não passamos horas alimentando abismos entre…

O QUE É UM WORKSHOP? >> Clara Braga

Desde que comecei a estudar música e tocar bateria, o que já deve fazer uns 9 anos, foram poucos os workshops nos quais eu fui. Ou por falta de oportunidade ou por falta de dinheiro ou por falta de coragem, sempre um desses motivos me impediu de ir. Mas nessa última segunda-feira não dava para perder. Um monstro da bateria estava em Brasília para um workshop: Virgil Donati.

Eu nunca entendi muito bem a intenção de um workshop, mas sempre achei muito engraçado. Um cara monstruoso vai lá, toca muito, em uma velocidade que se você piscar você já perdeu metade dos movimentos, diz que aquilo ali que está fazendo é muito simples, todo mundo solta o famoso “oooooh!”, que na verdade quer dizer “simples?! Eu não consigo fazer isso nem que eu fiquei estudando até 2040”, mas todo mundo sai de lá estimulado.

Eu não sei direito como funciona o estímulo e a motivação no ser humano, mas quando comprei meu ingresso achei que sairia de lá querendo trancar minhas aulas e vender minha bateria. Principal…

ANGELUS >> Albir José Inácio da Silva

A Ave-Maria era ouvida onde se estivesse porque os rádios de todas as casas tocavam. Os meninos então sabiam do chamado das mães e as mães sabiam que era hora de chamar. Os pais chegariam perguntando “e os meninos?.

As mães mais bravas por causa dos pais mais bravos chamavam seus filhos da rua primeiro. Rua era qualquer lugar fora das paredes, não fora dos muros, porque não havia muros. Não havia despedidas, boa noite, adeus. Só continuação, amanhã me devolve, depois te pago, vamos no rio amanhã.

Sem ternuras na fala, só providências que mãe doente precisa da ajuda de todos: “Não vai querer cana-do-brejo? E quebra-pedra? Lá em casa tem muito.” Se Dona Dalva ia morrer, só perguntando em casa pra nossa mãe se ela escapa.

Dos pais falava-se pouco. Sabia-se menos. Trabalhavam. Avisavam-se os mais distraídos: "Cara se manda, teu pai acabou de passar". Tudo isso enquanto durava a Ave-Maria. E todos se benziam no início na rua e no fim já em casa.

A esquina ficava vazia e ningu…

PULSANTE >> Eduardo Loureiro Jr.

Às vezes, leva tempo. Às vezes, demora. Às vezes, nem acontece. Às vezes, aflora.

Tenho um amigo poeta, e sei que muitos leitores devem ter um amigo poeta. Mas o meu amigo poeta é daqueles capazes de batizar gentes (Os internos do pátiO) e gente (É do ar do Pátio).

Foi esse amigo poeta, o Fabiano dos Santos, que me fez acontecer poesia pela primeira vez, quando me mostrou umas escritas palavras numa arrancada folha de pautado caderno, com a esquerda margem picotada:

Você passou
e feito pluma jogou
um beijo em mim
me deixando assim
feito criança
quando ganha brinquedo
a pluma
bateu no meu vidro
quase quebrando
o meu medo.

A pluma do poema de meu amigo trincou o vidro da minha prosa sem graça e comecei a aprender poesia. (Daqui a umas três encarnações, eu aprendo de vez.)

Meu amigo poeta é também compositor e musicou muitas outras palavras que ele mesmo escreveu e que outr'Os internos do pátio escreveram. Quando ainda éramos estudantes na Universidade Federal do Ceará, Fabiano participou de …

MAIS UM DEUS REFUGIADO
>> Leonardo Marona

Quando criança, um médico disse: “não há o que fazer, a alma parece descolada”. Sua mãe, refugiada vermelha como toda a sua família, reforçava o coro dos ausentes, e sua infância foi praticamente movida ao som da vela dos barquinhos de papel.
Quando dos primeiros fios de barba, tinha um cabelo esquisito a que chamava de “minha doce loucura”, e justificava dizendo que “ela se espalhava por todos os seus poros, como o cabelo, e principalmente nos poros da cabeça”. Reparou que tinha lágrimas metálicas, e seu choro era metálico, de som metálico. Disseram: “você devia tocar guitarra”. “Prefiro sopro”, ele disse, “mas, de qualquer forma, não tenho dinheiro”. Disseram: “Então pega uma, toca: se gostar, fica, se não gostar, devolve”. Então pediu a um camarada periférico que fizesse o serviço. Este mesmo camarada transava acid jazz e ácido lisérgico, e lançou mais um pupilo nas artes do prazer e do amor e, portanto, nos arremedos da dor.
Quando ouviu pela primeira vez Wes Montgomery tocar, tento…

AJUDE UMA RAINHA FRUSTRADA
>> Fernanda Pinho

Se eu gosto de festa junina? Eu poderia até dizer que adoro. Seria simpático. Mas não muito sincero. O que eu adoro mesmo são comidas de festa junina. Canjica, caldos, pipoca, pé-de-moleque, quentão. Fora isso, acho que nada mais me atrai. Detesto sentir frio - como já foi largamente divulgado pela imprensa mundial - e em festa junina sempre faz frio. Também não tenho o menor talento e pontaria para ganhar alguma coisa naquelas brincadeiras típicas. Mas e a quadrilha? Nossa, maior trauma da minha infância. Por dois motivos. O primeiro, nem preciso comentar, aí está a foto autoexplicativa. Porque diabos me colocavam sempre pra dançar com os meninos minúsculos? Tudo bem. A culpa não era deles. Eu que sempre fui grandinha além da conta. Mas, pôxa, não é possível que não existisse um garoto mais compatível!
Não bastasse esse bullying, eu nunca consegui realizar meu desejo de ser Rainha da Pipoca. E não foi por falta de tentativa, pois minha mãe se empenhava muito nas minhas campanhas. Para…

AS FERAS >> Carla Dias >>

Uma menina linda, linda, carregando sua boneca já vestida para o baile que aconteceria no salão da sua imaginação, puxou-me pela mão, certa vez, para que eu a acompanhasse em uma aventura que ela adorava repetir. Durante a jornada, dei-me conta de que também eu era fascinada pelo tema, apesar de contemplá-lo de outra forma.

Quando menina de tudo, já não via essa história, como diz um amigo, com óculos de lentes cor-de-rosa. E sentada no sofá, a menina sorridente ao meu lado, dando-me detalhes sobre a animação que saltava de um DVD que ganhou de sua mãe, fascinada com os vestidos, as nuances de princesa, oferecia-me uma versão sutil de uma fábula que, em minha opinião, é complexa, melancólica, e quase nunca tem final feliz, o que não lhe tira a beleza.

No cenário artístico, foram muitas as versões das feras e das belas, sendo que algumas delas sucumbiram ao desleixo de se pensar que tratar de um tema desses não pede cuidado. Recentemente, assisti a um filme que considero uma releitura co…

PASSADO, PRESENTE E FUTURO >> Clara Braga

Adoro ir ao cinema. Melhor do que ir ao cinema é ir ao cinema sem saber absolutamente nada sobre o filme que vou assistir e ter uma ótima surpresa quando o filme é maravilhoso. É claro que hoje em dia não é muito recomendável fazer isso, já que o ingresso do cinema está um absurdo de caro, mas quando se trata de um filme de Woody Allen, as chances de se arrepender são mínimas.

Lá estava eu, domingo à noite, indo ao cinema assistir a Meia-noite em Paris. Que filme maravilhoso! Recomendo a todos. E apesar do diretor não aparecer no filme, como normalmente faz, colocou em seu lugar Owen Wilson, interpretando um roteirista bem-sucedido, mas frustrado por não conseguir escrever um livro de romance.

Um filme a principio bem realista, que faz um tour por Paris e te deixa morrendo de vontade de sair dali e ir direto ao aeroporto comprar uma passagem, mas que ao mesmo tempo mostra o protagonista fazendo uma viagem no tempo e encontrando, de uma forma muito cômica, escritores e artistas que ele…

A TREPADEIRA >> Kika Coutinho

Se o amor fosse uma planta, ele seria uma trepadeira. Você conhece essa espécie. Digo a planta, não o amor.

Ela cresce apoiada em algo. Ela precisa de suporte para crescer e buscar a luz. E é isso que faz o amor.

Eu aprendi tendo filhos, não sabia antes, mas aprendi. O amor não cresce sozinho. Jamais seria uma samambaia, uma rosa, uma tulipa. Ele não precisa só de água e sol. Há quem tente assim. Há quem trate o danado tal qual um vaso de hortênsia. Lindo, colorido. Cuida-se, com carinho. Rega-se, põe no sol. Há quem converse com o amor. E ele cresce, desponta em rosa, azul, amarelo. Fica lindo por algum tempo. O amor tratado como um vaso tem sua data de validade impressa, pode ser longo, dar frutos, mas morre e, de algum jeito, aproveitamos o vasinho.

Já o amor construído, esse de tijolo em tijolo, esse, o prático e real, é o tal amor eterno, do tipo Tarcísio Meira e Gloria Menezes, Nicette Bruno e Paulo Goulart, o do seu vizinho, ou daquele seu tio. O amor que nos disseram ser o …

O CÉU ECLIPISCOU PRA MIM
>> Eduardo Loureiro Jr.

Tem gente que não sabe cantar. Tem gente que não sabe estalar os dedos. Tem gente que não sabe dar coió — tem gente que nem sabe o que é coió. Eu já não sei piscar.

Claro que todo mundo pisca involuntariamente para lubrificar os olhos, mas estou falando aqui do piscar intencional para paquerar ou simplesmente dar um sinal para uma outra pessoa. Pois não sei piscar. Quero piscar um olho, pisco os dois.

Lembram-se daquela brincadeira de Detetive, Vítima e Ladrão, em que o Ladrão fazia suas Vítimas piscando o olho e o Detetive ficava tentando descobrir quem era o piscador? Nunca me dei bem naquela brincadeira, pelo menos não quando eu era o Ladrão. As prováveis Vítimas não se deixavam atingir pelo meu piscar deficiente.

Piscar é um charme. É de apaixonar. (Mulheres, por favor, não usem demasiadamente essa informação.) E, se as intenções são só amigáveis, piscar é capaz de proporcionar uma duradoura amizade. Então estou assim, meio apaixonado, meio melhor amigo de quem piscou para mim ess…

PORTO ALEGRE - DIA DAS MÃES SEM MÃE - 2011 >> Leonardo Marona

dessa vez, Porto Alegre, você me passou a perna direitinho.
depois de algumas catástrofes, o sol brilhou por alguns dias,
tirando o mofo dos casacos sempre fechados no escuro seco
das nossas imagens compartilhadas, a ferro, susto e tabus.
o sol brilhou por alguns dias e, estou perfeitamente convicto:
a poluição é o que deixa o pôr-do-sol no Guaíba mais bonito.
atravessar a rua sem pernas, flutuando num caldo alcoólico,
tornou-se algo que até mesmo uma criança é capaz de fazer.
aceno, nas ruas, para meninas de tranças, índias Charruas
da minha mais funda origem, e pela primeira vez vejo os dentes
de minha mãe morta, perfurada pela primavera dos excessos.
bom estar pela primeira vez de ouvido aberto em Porto Alegre.
um homem gordo, de gordas e fascistas batatas da perna, boina,
passa com seu passo de holocausto, aproximando-se de mim,
enquanto estou próximo ao lago, alimentando meus ímpetos.
mas estou atento e calmo dessa vez, jogo lento minha droga
por terra, enquanto passa por mim o sentinela-cidadão…

TEIMOSIA BONITA >> Fernanda Pinho

O que eu acho mais bonito no amor é essa capacidade de zerar o jogo. Estive pensando nisso um dia desses, enquanto minha mãe relembrava as agruras da maternidade. As oito horas em que ela esteve em trabalho de parto para que eu viesse ao mundo – de parto normal e pesando quatro quilos! – foram apenas um capítulo daquela história que começou em enjoos e culminou em telefonemas preocupados de madrugada – que acontecem ainda hoje, vinte e sente anos após o parto. Daí veio o questionamento óbvio: então, por que engravidou de novo? “Porque o amor que a gente sente pelos filhos é a coisa mais sublime que existe. Compensa qualquer dor”, ela me disse, daquele jeito que só as mães sabem dizer.
Eu acho que é nisso que reside a essência de qualquer tipo de amor. Essa coisa sublime que compensa todas as outras. Que faz tudo parecer menor, que apaga da nossa memória todas as dores – as de parto e as do coração. A gente sabe que doeu, mas não sente mais.
Só isso justifica nossa insistência em amar…

QUERIDA INSÔNIA >> Carla Dias >>

Na correria em que se encontra a minha vida, por causa do trabalho e afins, tenho ficado em falta com muitas pessoas. Não digo isso - sobre a correria - para parecer bacana, pessoa ocupada, essas coisas. Digo com peso na consciência mesmo, porque a minha natureza é abraçar o mundo com os braços e com as pernas, sempre me propor a fazer mais do que realmente deveria fazer, porque as pessoas precisam respirar, ora pois!
Mas eu topo tudo isso, uma coisa abrandando a outra, no meio da confusão de datas limite, urgências e por aí vai.
E o que vem com isso, claro, é a insônia. Minha amiga insônia adora me visitar nessa época do ano, quando trabalho bastante no festival de música que acontece em julho. Mas por incrível que pareça, eu não me importo. Chegando em casa, depois de quase doze horas de trabalho, ainda dou uma geral no que precisa ser feito no dia seguinte. Levar trabalho para casa é básico. Depois, confesso, quando possível eu assisto novela... Sou noveleira, fazer? Sem contar que e…

GERAÇÃO DISNEY >> Clara Braga

Eu cresci assistindo aos desenhos animados da Disney. De Branca de Neve a Wall-E, foram poucos os que eu perdi. Na época em que ainda não existia DVD nem mp3, tão pouco programas para baixar música pela internet, eu comprava as fitas e CD´s das trilhas sonoras e assistia e ouvia até decorar as falas e as músicas.

Daí você tira a concepção deturpada que eu tinha, quando criança, sobre relacionamentos. Afinal, a Cinderela sofreu na mão da madrasta má antes do beijo de amor verdadeiro do príncipe do cavalo branco, a Branca de Neve comeu a maçã envenenada, a Ariel sofreu por não ter pés, a Bela se apaixonou por uma Fera horrível que, antes de virar príncipe, só a tratou mal e a fez prisioneira (história essa que eu considero a mais parecida com a realidade de muitas mulheres que aparecem nos jornais). E eu também ia acabar passando por alguma situação um tanto conturbada antes de achar meu “príncipe”.

Graças a Deus, o tempo passa, a gente cresce e tem a chance de repensar nossos conceitos…

DIA DOS NAMORADOS
>> Albir José Inácio da Silva

— Não é nada! — disfarça, olhando pro chão.

Triste não quer falar de tristeza. Alegre é que fala da tristeza que passou. Triste quer falar de alegria, a ver se ela chega ou engana a tristeza. Aliás, triste não quer falar. É que tristeza demora, uma coisa no peito que não desmancha. Um suspiro que não basta, não sacia, não enche de ar, só mantém vivo, o que não precisava porque vida não é tudo. Triste não sente dor, que dor é coisa de qualquer um. Triste dói. E não sente o corpo porque não habita, jaz.

Acabou de chegar, mas todos já perceberam. Não sabe por que, foi de repente, estava bem. Não, não precisa de nada. As pernas tremem, disfarça, ajeita a saia, tombam os braços, já não respira, ofega. Se chorasse... mas não chora, se afoga em silêncios, resmungos, não se ouve, não se entende, ninguém entende.

Tudo bem do lado de fora. Céu sem nuvens e brisa nas árvores. Relógios marcam horas e ônibus passam lotados. O guarda apita, mas não há transgressões, é como se soprasse o diapasão pa…

VIDA DE NAMORADOS >> Eduardo Loureiro Jr.

Eram de famílias amigas. Ele tinha 10 anos. Ela, 15. Ela não podia ser namorada dele, então ele deitava na cama dos pais e ficava namorando um quadro da Virgem Maria com o Menino Jesus no colo. Ele ficava imaginando que talvez desse certo quando ele tivesse 15 e ela 20, ou quando ele tivesse 25 e ela 30. Hoje, a idade não faria diferença. Mas quando eles se encontram nas festas de família, cada um fica com seu namorado.


Faziam Cultura Britânica na mesma turma. Ela estudava na Escola Técnica e tinha tantas palavras na boca quanto sonhos cacheados em seus cabelos. Ele estudava em escola particular, era acanhado e parou de roer as unhas por causa dela. Quando terminou o semestre, bateu a saudade e ele enviou para a casa dela uma carta marcando um encontro na praça. Ele chegou com uma fita cassete do Kenny Rogers, todo Lady, I'm your knight in shining armor, e ficou esperando, esperando, esperando. Ela não apareceu. Em casa, ele removeu o papel de presente, colocou a fita cassete para…

AMOR [Debora Bottcher]

Nietzsche dizia que, quando alguém decide se casar, a pergunta mais importante que deveria se fazer é: "Terei prazer em conversar com essa pessoa quando eu for velho?"

Junho chegou e trouxe a tiracolo a data comercial do amor: o Dia dos Namorados. Não se ouve falar de outra coisa (além do ministro Palocci, obviamente): TV's e revistas estampam vitrines de lingeries, perfumes, bombons e flores, num convite a demonstrações financeiras do sentimento supremo. Mas, ainda que seja muito bom dar e ganhar presentes, será que são realmente indispensáveis para o amor? E numa data específica?

Depois de uma certa idade — e não exatamente avançada — você conclui que experiência não se transmite. E quando se trata de relações afetivas, essa percepção fica ainda mais evidente. Não dá, por exemplo, para dizer para alguém apaixonado que 'um amor e uma cabana' são coisas de romance — livro, filme e novela — e que, quando a realidade vem com contas a pagar e filhos pra criar, se a …

A MORADA DO FILHO DOENTE
>> Leonardo Marona

Um livro que você escreve com as próprias mãos é onde você mora. O livro é sua morada e é também um filho doente, uma casa abandonada, com um filho doente dentro. Um livro que você escreve com as próprias mãos não é um livro. É possível amá-lo, mas será inevitável ser infeliz ao lado dele. E ao mesmo tempo um livro é tão inevitável quanto isso. Então fazemos livros, nossos filhos doentes. E o que fazem os filhos doentes, que amamos, e que nos fazem infelizes, justamente porque não são apenas doentes, são muito doentes, e necessitam de toda a nossa atenção, mas são irreversivelmente doentes os pobrezinhos, e mesmo assim seremos cem por cento atenção, cem por cento esforço perdido ao vento, e não saberemos explicar quando alguém nos perguntar, “e então, como vai seu filho irreversivelmente doente?”, coraremos, suaremos as têmporas exaustas, e seguiremos, talvez depois de um sorriso demente, mas o que fazem os filhos doentes? Isso ninguém sabe.
Fiz este livro, mas e agora? Sou obrigado a …

MEUS QUERIDOS TAXISTAS >> Fernanda Pinho

Como se isso realmente fosse uma questão importante, as pessoas sempre me perguntam por que eu não dirijo. "Porque eu não tenho o menor senso de direção", "porque eu me disperso com extrema facilidade", "porque eu não pretendo morrer nem matar ninguém", são respostas que me ocorrem, mas costumo dar outra. Bem mais simpática e que não deixa de ser verdade: porque eu adoro andar de táxi.
Os taxistas de Belo Horizonte são um evento. Digo de Belo Horizonte porque é aqui que eu vivo. São por essas ruas confusas, mal sinalizadas e charmosas que circulo com motoristas-astrólogos que me explicam tudo sobre meu signo, com motoristas-compositores que cantam para mim o último rock rural que compuseram, com motoristas galanteadores que encerram a corrida me entregando um cartão e informando gentilmente: "estou à sua disposição. Para qualquer coisa".
E foi numa dessas ruas confusas, mal sinalizadas e charmosas que eu e duas amigas entramos no táxi do Fábio. …

AS TRÊS MARIAS >> Carla Dias >>

A primeira Maria é das dores...
Ela passa o dia a assoprar dolências, tentando diluí-las em esperança, afogá-las em bálsamo. Acredita-se que, diferente do rotulado, ela aprendeu a lidar com a dor de um jeito único. De um jeito de engolir sem engasgar com lágrima, de não revidar, mas sim aguardar até que a espera se torne recompensa, e que as dores sejam neutralizadas pela felicidade, que bem sabemos, é passageira, não é companheira feito a dor, mas tem um poder sem igual de arrancar sorriso da gente, de fazer graça com a tristeza.
Maria das Dores tem um jardim de tulipas no quintal de sua casa. Dia sim, dia não, caia chuva ou faça sol, ela se deita entre as flores para doer. E de cara com o céu, doendo o diabo de tanto sentimento, esvazia-se em condolência, despedindo-se das dores, tendo o abrandamento como recompensa.
Maria é das dores porque sabe deixá-las partir.
A segunda Maria é dos anjos...
Quando deita a cabeça no travesseiro, faz uma oração longa e emocionada, na qual agradec…

PROBLEMAS GENÉTICOS >> Clara Braga

Eu não entendo absolutamente nada de genética. Sei que sou o que sou por causa de uma mistura qualquer do meu pai com a minha mãe, e que algumas características que eu tenho iguais ou parecidas com qualquer um dos dois, as pessoas dizem que é a genética.

Uma característica que eu tenho igual à minha mãe é a falta de memória. A dela é um pouco pior que a minha, mas ela já me confortou dizendo que, quando eu chegar à idade dela, posso até estar pior que ela. Eu não sei se memória também tem a ver com genética, mas se tiver eu estou lascada, pois agora meu pai começou a esquecer as coisas também.

Se eu juntar o esquecimento de um com o esquecimento do outro, daqui a uns anos não saberei dizer nem o meu nome. Já para eles, acho que foi uma solução. Antes, minha mãe contava algo e meu pai dizia, um pouco impaciente: “Você já me contou isso”. Hoje em dia, pego os dois tendo os mesmos diálogos que tiveram no dia anterior, mas dessa vez sou eu quem fala: “Vocês já tiveram essa conversa!”.

As …

CINCO ANOS >> Kika Coutinho

Semana passada, chegamos aos cinco anos de casados. Cinco anos. Meia década. Ridículo, né? Acho meio ridículo se gabar por cinco anos, até porque passaram em um segundo.

Um segundo. Pisquei os olhos, tomei um banho, jantamos juntos, errei uma receita, pari uma menina, engravidei de outra e pá, cinco anos.

Foi tão depressa. Foi o tempo de esquecer de levar a toalha pro banheiro. E, como toda noite, gritei por você: “Amoooooor, traz a toalha pra mim? Esqueci...”. Ainda ouvi você se levantando da cama, abrindo o armário, pegando a toalha — eu torci para que fosse a branca mas não pedi — e quando você chegou com a toalha bege no banheiro e pendurou no box, de repente, pronto. Foram cinco anos.

Cinco anos esquecendo a toalha, cinco anos deixando a louça suja pra você, cinco anos coçando as suas costas, cinco anos te vendo escovar os dentes, de manhã e à noite, no mínimo. Cinco anos e você ainda traz aquele pão com semente que eu detesto. Cinco anos e você não foi na dermatologista. Cinco a…

SIR LUNGALOT == Eduardo Loureiro Jr.

Prepare o seu coração
Pras coisas
Que eu vou contar
Eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão
E posso não lhe agradar...
(Geraldo Vandré)
Sons, palavras, são navalhas  E eu não posso cantar como convém
Sem querer ferir ninguém
. (Belchior) A leitora — que vem aqui de vez em quando — pode pensar que sou um sujeito acolhedor, afável, carinhoso, gentil, cavalheiro até. E é sempre bom, para um escritor, ter leitores que, olhando um copo com água pela metade, diz que ele está "meio cheio" quando bem poderiam dizer que ele está meio vazio. É um alívio para o escritor contar com a benevolência da leitora diante de uma meia verdade.
A outra metade da verdade é que sou um sujeito grosseiro. Não, cara leitora, não queira confirmar essa outra meia verdade com parentes, amigos e rápidos conhecidos. Eles vão lhe dizer que abro portas de carro para mulheres, que escuto com atenção os dramas de um sofredor, que componho canções para crianças recém-nascidas... A crer no que …

MUITO ALÉM DE UM RAMERRAME >> Leonardo Marona

Encontro sempre Ismar Tirelli como que por acaso, mas na esperança de encontrá-lo. Não que necessite de sua presença, mas sua presença em determinados lugares – sempre onde o acabo encontrando, lugares muitas vezes arriscados – me tranqüiliza, afeta meu lado católico. Dessa vez não foi diferente. Nos encontramos em um – como chamam? – sarau de poesia, mas não é mais assim que chamam. Performance, arrojo de penas, saúde frágil, olheiras de alegria, e foi o suficiente para eu começar a transpirar sangue. Mas ali estava Ismar, com seu inafiançável suéter de lã, um nobre saxão, com um toque de MacDougal Street, calmamente me dando psiu. “Marona, proponho um escambo”, ou algo assim, foi o que ele me disse, estendendo-me seu novíssimo Ramerrão (7Letras), enquanto em troca eu dava meu também novo (mas depois eu descobriria que não muito) livro de poemas. E ficamos assim: ele comprava no posto ao lado uma cerveja preta e eu bebia infantilmente rápido, porque não estava preparado para uma leit…

UM ANO >> Fernanda Pinho

Sou uma pessoa completamente obcecada por datas. Por um lado, é excelente. Nunca me esqueço a data do aniversário de ninguém, o prazo para a entrega de um trabalho ou o dia de um compromisso. Sem falar que mencionar datas sempre dá credibilidade aos meus argumentos. "Mas eu não disse nada disso!". "Disse, sim! No dia 18 de março, à tarde, quando já tinha parado de chover". (Porque tem isso: se lembrar do dia em que as coisas aconteceram ou acontecerão é a chave para se lembrar de todo o resto). Obviamente, tem o lado ruim (que mania irritante que tudo tem, de ter dois lados!). Essa memória doentia para datas não é seletiva, e as informações desagradáveis também continuam intactas. Ou seja, em meio ao meu gigantesco acervo de memórias e datas tenho informações legais, tipo "hoje faz nove anos que eu tive meu primeiro dia de aula na faculdade e conheci amigos que mudaram minha vida"; e informações toscas, tipo "hoje faz sete anos que eu levei meu prime…