sexta-feira, 17 de junho de 2011

PORTO ALEGRE - DIA DAS MÃES SEM MÃE - 2011 >> Leonardo Marona

dessa vez, Porto Alegre, você me passou a perna direitinho.
depois de algumas catástrofes, o sol brilhou por alguns dias,
tirando o mofo dos casacos sempre fechados no escuro seco
das nossas imagens compartilhadas, a ferro, susto e tabus.
o sol brilhou por alguns dias e, estou perfeitamente convicto:
a poluição é o que deixa o pôr-do-sol no Guaíba mais bonito.
atravessar a rua sem pernas, flutuando num caldo alcoólico,
tornou-se algo que até mesmo uma criança é capaz de fazer.
aceno, nas ruas, para meninas de tranças, índias Charruas
da minha mais funda origem, e pela primeira vez vejo os dentes
de minha mãe morta, perfurada pela primavera dos excessos.
bom estar pela primeira vez de ouvido aberto em Porto Alegre.
um homem gordo, de gordas e fascistas batatas da perna, boina,
passa com seu passo de holocausto, aproximando-se de mim,
enquanto estou próximo ao lago, alimentando meus ímpetos.
mas estou atento e calmo dessa vez, jogo lento minha droga
por terra, enquanto passa por mim o sentinela-cidadão-comum,
dá uma olhada para o lago e vai embora sacudindo os mortos.
sigo chutando os pinhos secos, desviando dos preservativos
do amor moderno e das seringas do êxtase capaz de matar,
e que é o único êxtase concebível, o êxtase do mais-que-tudo.
existe algo íntimo e um tanto patético no Parque Farroupilha,
algo que abre meus pulsos, me envergonha e comove muito:
uma zona central com um grande chafariz, um campanário
que é uma réplica chinfrim do Jardim de Versailles e, acreditem,
um Arco do Triunfo, mas por ali passam bichas heterofóbicas
com seus cachorros magros e passam salazares e antigas
mães italianas e um casal briga ao meu lado, e o homem diz
à mulher dele uma frase, mas essa frase, claro, é para mim,
que sou todo ouvidos aéreos e pés firmes no chão de Porto Alegre:
"tu fica te escalando pra fazer as coisas e depois fica te fazendo",
e este sou eu, esta é minha cidade urso de infância, sem deus


www.omarona.blogspot.com

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Um comentário:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Léo, a mulher briguenta falou também para mim. :)