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DIA DOS NAMORADOS
>> Albir José Inácio da Silva

— Não é nada! — disfarça, olhando pro chão.

Triste não quer falar de tristeza. Alegre é que fala da tristeza que passou. Triste quer falar de alegria, a ver se ela chega ou engana a tristeza. Aliás, triste não quer falar. É que tristeza demora, uma coisa no peito que não desmancha. Um suspiro que não basta, não sacia, não enche de ar, só mantém vivo, o que não precisava porque vida não é tudo. Triste não sente dor, que dor é coisa de qualquer um. Triste dói. E não sente o corpo porque não habita, jaz.

Acabou de chegar, mas todos já perceberam. Não sabe por que, foi de repente, estava bem. Não, não precisa de nada. As pernas tremem, disfarça, ajeita a saia, tombam os braços, já não respira, ofega. Se chorasse... mas não chora, se afoga em silêncios, resmungos, não se ouve, não se entende, ninguém entende.

Tudo bem do lado de fora. Céu sem nuvens e brisa nas árvores. Relógios marcam horas e ônibus passam lotados. O guarda apita, mas não há transgressões, é como se soprasse o diapasão para harmonia do mundo. Amigos bons, solidários. Só no seu peito o metrônomo sacoleja angústia com ritmo e progressão.

A preocupação dos outros só a faz piorar. Chegou há dois minutos e já está dando bandeira. O tempo se arrasta. Tenta parecer normal. Não adianta. Parece que todo mundo aqui é sensitivo. Reperguntam.

Não, não é por causa dele. Não é por causa de ninguém. Não se preocupem. Daqui a pouco passa. Mas a conversa dá uma voltinha e retorna. Não quer nada? Não gosta daqui? Quer chope, água, suco? Queria uma ventosa, pensa, que lhe arrancasse a tristeza ou o coração.

Os olhos estão nela, solidariedade, pena, sabe-se lá mais o quê. Não pode ficar com essa cara. Não pode estragar festa dos outros. Grita consigo mesma em silêncio: “engole o choro, bebe a lágrima, respira”.

— Não é nada — repete, respira e sorri. Afinal, quem precisa de namorado, né?

Comentários

Gostei da variação de estilo, Albir. :)
Marilza disse…
como sempre num ritimo único...gostei!

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